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Les conclusions de Madame Kaisergruber, experte

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4. Le rapport de Danielle Kaisergruber

4.3 Les conclusions de Madame Kaisergruber, experte

Não obstante o novo conhecimento geográfico do mundo e os avanços da ciência, no que diz respeito à descrição do atual território português, concretamente do seu clima, pouco ou nada mudou até ao fim do Antigo Regime, predominando na literatura de carácter científico o mesmo tom laudatório das crónicas medievais, embora de forma mais desenvolvida, com mais detalhes, com mais observação, com outra forma.

Sem recuarmos demasiadamente, desde o De laudibus Hispaniae (ca. 1496-1497) do humanista Lucio Marineo Siculo (1469-1533) até ao Essai Statistique sur le royaume de Portugal et d’Algarve (1822) do geógrafo e estatístico Adrien Balbi (1808-1862), o clima de Portugal e, concretamente, da província de Entre Douro e Minho, aparecem, com raras exceções, mergulhados num conjunto básico de clichés, repetidos até à exaustão. O território é descrito como um lugar repleto de riquezas naturais; as chuvas são muito proveitosas e sazonadas; os ventos saudáveis; o Sol temperado no Inverno e no estio, o que contribui para a salubridade e fertilidade das terras, abundância de pastos e formusura das paisagens. O Entre Douro e Minho, «a mais excelente horta que no mundo se possa achar» no dizer de Mestre António (14??-15??), «um paraíso terreal» segundo Duarte Nunes de Leão (1530-1608) ou ainda «o mimo das Espanhas» de acordo com Damião António de Lemos Faria e Castro (1715-1789), destaca-se sempre de todas as províncias hispânicas pela abundância de águas, clima benigno, opulência da vegetação, produtividade e fartura em frutos de toda a espécie.

Vejamos, todavia, o contributo específico de algumas destas descrições geográficas e compilações históricas para o conhecimento do clima da região.

Por volta de 1496/1497, o humanista siciliano Lucio Marineo Siculo (1460-1533), professor da Universidade de Salamanca, publica a sua De laudibus Hispaniae, dedicando-a ao imperador Carlos V e à esposa Isabel de Portugal, a quem pretende dar a conhecer «casi toda vuestra España y todas las cosas dignas de memoria que en ella hay»198. Nela se esboça, logo nas primeiras páginas, um retrato do clima da Península Ibérica descrito como um dos melhores de todo o mundo (conhecido): «Porque ni es tan caliente como África ni tan ventosa y fría como Francia. Mas tiene el medio y goza de soles templados en el invierno y en el estío, y de aquí viene que las lluvias son muy provechosas y vienen con sazón y son causa de mucha fertilidad de todas las cosas que

198 Siculo, 1539: ii. Tradução livre do autor: «quase toda a sua Espanha e todas as coisas dignas de

bastecen no solamente a España, mas también a otros reinos y provincias, y a un a Italia la cual abunda de todas cosas»199. Aos olhos deste humanista, o território peninsular também era superior «en la hermosura de su asiento; en los aires muy saludables; y vientos sanos; y fuentes de aguas excelentes; y no menos en gentileza de montañas y bosques; en fructíferos y altos montes; en fertilidad de la tierra; en abundancia de pastos; en los frutos & los arboles; en todo género de ganados mayores y menores; y en caballos, mulas, y otros animales; en puertos de mar muy grandes, y seguros; y muy deleitosas riberas de ríos; y señaladas fuentes; y en campos, prados, y valles; y en caza & aves, y de otros animales terrestres y montería; y en pescados & mar, y de ríos […]»200. E por aqui vai, destilando elogios e inflamando egos.

Em 1512, Mestre António, cirurgião natural de Guimarães, termina uma descrição intitulada Tratado sobre a província de Entre Douro e Minho e suas avondanças. Aí esboça uma retrato idílico da região que o viu nascer e crescer e em relação à qual sente «amor e afeição». Compara-a a uma horta que «todo o ano é verde», na qual os seus mais de «sessenta mil vizinhos» encontram «todas as coisas que lhe necessários são [...] em abastança». Nesta horta, onde «nunca houve fome», há abundância de todo o tipo de produtos, tais como vinho, madeira, lã, linho, carne, pescado, cereais, mel, cera, azeite, sal, legumes, frutas «e outras muitas coisas que se aqui não põem por brevidade». É tanta a fartura destes produtos que com eles se abastecem outras partes do reino e do mundo. O solo é de tal modo fértil que «um só pé de vide deu por anos trinta e cinco quarenta almudes de vinho […] há pé de castanheiro que dá um moio de castanhas e pé de nogueira que dá um moio de nozes, e pé de laranjeira que dá quatro e cinco carros de laranja». É terra muito rendosa. Boa para a caça. Com «pequenos preços». Com muitos mosteiros (mais de cento e trinta), igrejas (perto de mil e quatrocentas), ermidas, oratórios, confrarias e capelas. Com muitas pontes de pedra lavrada (perto de duzentas). Com muito gado (mais de cem mil bois). É berço do reino e de muitos santos, fidalgos e

199 Siculo, 1539: 1-1v. Tradução livre do autor: «Porque nem é tão quente quanto a África, nem tão

ventoso e frio quanto a França. Mas tem o médio e goza de Sol temperado no Inverno e no Verão, e disto resulta que as chuvas são muito proveitosas e vêm com moderação e são responsáveis pela grande fertilidade de todas as coisas que abastecem não só a Espanha, mas também outros reinos e províncias, e ainda a Itália, na qual abundam todas as coisas».

200 Siculo, 1539: 1v-2. Tradução livre do autor: «na beleza das suas paisagens; em ares muito saudáveis; e

em ventos sadios; em excelentes fontes de água; e não menos em gentileza de montanhas e florestas; em frutíferos e altos montes; na fertilidade da terra; na abundância de pastagens; nas frutas e nas árvores; em todos os tipos de gado maior e menor; e em cavalos, mulas e outros animais; em portos de mar muito grandes e seguros; e margens de rios muito agradáveis; e fontes assinaláveis; e em campos, prados e vales; e em caça e aves, e outros animais terrestres; e em peixes de mar e de rios [...]».

homens honrados de Portugal. Esta «mínima parte», que tem de comprido apenas «dezoito léguas» e de largura «dez», é tão densamente povoada «que em poucas partes dela se pode dar um brado que se não ouça em povoado». Aqui as mulheres têm filhos «até aos cinquenta anos» e a maior parte deles sobrevive devido à benignidade da terra. Tal abundância de recursos (naturais e humanos) é possível porque os quatro elementos - água, terra, fogo e ar - estão em perfeita harmonia: o fogo por ser de carvalho «nem é forte nem fraco e é mais amigável à natureza dos homens»; os ares são os melhores «porque é quente e varrida e os febricitantes que vêm doutras partes logo aí são sãos»; as águas «são as mais e melhores e mais prestadias e de onde procedem mais rios cabedais que em nenhuma parte se possam achar», além disso «na dita comarca há mais de vinte e cinco mil fontes perenais e nunca cansam em nenhum tempo do ano»; finalmente, a terra «nem é fria nem quente, dando-se nela todas as árvores de frutas, sementes, ervas, raízes e flores»201. Apesar de ficar manuscrito por séculos, o Tratado de Mestre António servirá de inspiração a uma boa parte daqueles que se lançaram na tarefa de descrever a região de Entre Douro e Minho, já que as suas ideias, estimativas e curiosidades foram repetidas até à exaustão, como veremos, em vários trabalhos posteriores202.

De 1548 data a Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes do jurista João de Barros. Natural do Porto ou de Braga, este humanista descreve minuciosamente a história, as riquezas, a fertilidade e as produções da sua região natal porque «como quer que eu seja natural desta parte de Entre Douro e Minho pareceu-me ser a isso obrigado, pelo que diz Platão que não somente nascemos para nós mas para os amigos e para a pátria em que nos criámos». Testemunha «de vista» de tudo o que descreve, o Doutor João de Barros oferece uma relação pormenorizada da paisagem (montes, vales, rios, ribeiros, vegetação), das produções, das cidades e vilas, das pontes, das fontes, das igrejas, dos mosteiros e seus réditos, etc.. Contudo, os elementos descritivos que apresenta sobre a geografia pouco acrescentam ao já apresentado por Mestre António. Com efeito, enaltece a sua pátria pela «excelência dos ares e frescura da terra», pela abundância de rios, fontes, jardins e pomares, pela «terra regadia e muito fértil [...] que dá todo o género de coisas [...] assim como trigo, centeio, milho, painço, cevada, vinho, azeite, mel, frutas, legumes, carnes muito gordas, pescados em grande abundância, e todas as coisas necessárias ao uso dos homens»203.

201 Ribeiro, 1959.

202 Cf. Magalhães, 1980: 34;Durães, 1994: 96. 203 Barros, 1919.

Em 1593, o humanista André de Resende, na sua De Antiquitatibus Lusitaniae, atalha caminho e afirma que «é inútil dissertar aqui sobre o estado atual desta província [da Lusitânia-Portugal], seu admirável clima e abundância e produtividade em frutos de toda a espécie. Por outro lado, seria longo repetir o que, desde a antiguidade, os escritores transmitiram, nas suas diferentes obras, sobre este tema»204.

Em 1597, é publicada a Geografia antiga de Lusitânia, de Frei Bernardo de Brito, anexa à obra Monarquia Lusitana dos frades alcobacenses. Neste trabalho, o autor propõe- se recompilar «brevemente os rios, & montes desta província [da Lusitânia], não tanto para os descrever miudamente, como para se verem os nomes antigos, & modernos das coisas». Na província de Entre Douro e Minho, o autor destaca a serra do Gerês, bem como os rios Douro, Leça, Ave, Neiva, Lima e Minho. Sobre a primeira, diz-nos que é «monte de grande altura, & asperíssimo em algumas partes», por cuja razão não é povoado; tem grande número de animais selvagens e muita ervagem «por onde correm fontes de água belíssima». Sobre os segundos, destaca a sua navegabilidade e a grande quantidade de peixes205.

Pouco tempo depois, surge a Descrição do reino de Portugal, do jurista Duarte Nunes de Leão (1530-1608), publicada em 1610, embora datada de 1599. Seguindo de muito perto a palavra abalizada de Mestre António, o autor descreve as dezoito léguas em comprido e doze em largo que vão «desde a cidade do Porto até dar no Minho» como as «mais férteis, & rendosas, & habitadas de mais gente, que há em Espanha: que se pode com razão chamar um reino per si». Neste torrão de terra abençoado por Deus, há abundância de águas, graças aos vários rios que a cruzam e às mais de «vinte cinco mil fontes de águas puríssimas, & salubérrimas que fazem viver a gente [...] mais anos, que quantas se sabem em Europa». Nele existe o arcebispado de Braga «muito rico», o bispado do Porto, cinco colegiadas, cento e trinta mosteiros e abadias de «muito grossas rendas», para além de ermidas e oratórios e muitas comendas «de grossas rendas». Os ares são puros e salubres. Pela sua excelência, as águas «multiplicam ali muito os homens, & vivem muito: porque ninguém adoece ali senão por excesso de comer & beber». As mulheres «parem até cinquenta anos» e os seus filhos vingam devido ao «bom terreno, boas águas & do bom céu de que gozam». A terra é tão exígua e tão densamente povoada que «não podem dar um brado em qualquer parte que seja que não acuda gente». Como a população desta região se reproduz a um ritmo acelerado «cada

204 Resende, 2009: 200.

dia sai como enxame de abelhas para todas partes do reino», pelo que «não há lugar onde se não achem muitos homens de entre Douro & Minho». A terra produz em abundância trigo, centeio, milho, «infinidade de todas as frutas», carnes, pescados, vinho, etc.206.

Em 1621, o jesuíta António Vasconcelos (1554-1622) publica a sua Anacephalaeoses id est, summa capita actorum regum Lusitaniae que contém uma «Descriptio Regni Lusitani». Aí o autor, relativamente à província de Entre Douro e Minho («interamnense»), limita-se a traduzir para latim o que Duarte Nunes de Leão (e antes dele, Mestre António) tinha escrito em português, sem acrescentar nada de relevante. Assim, (re)encontramos a referência habitual aos elevados réditos obtidos pelos religiosos e pela fidalguia, às duzentas pontes de pedra, às vinte e cinco mil fontes de águas perenes e salubérrimas, aos ares puros e saudáveis, à extraordinária fecundidade das mulheres e longevidade das gentes, à elevada densidade populacional e à constante emigração de pessoas207.

Quatro anos depois, Gaspar Estaço (1563-1626), cónego da Colegiada de Santa Maria da Oliveira, em Guimarães, na obra Várias antiguidades de Portugal, de 1625, oferece uma descrição da terra de Entre Douro e Minho «conhecida por algumas coisas notáveis». Antes de avançar, indica Mestre António «físico de Guimarães» como a sua fonte, «para que a fé do que dele tomarmos, fique sobre seu autor». Segue-se o habitual, com algumas atualizações. O comprimento é de dezoito léguas desde o Porto até Valença e a largura de doze «e em partes de quatro, cinco e seis». Tem mais de cem mil vizinhos (mais quarenta mil do que no início de Quinhentos). Por ser tão povoada «em poucas partes darão um brado, que o não ouça em povoado». Tem duas cidades episcopais e cinco colegiadas. Os mosteiros continuam a ser em número de cento e trinta, mas as igrejas passaram de mil e quatrocentas para mil e quatrocentas e sessenta. Os principais rios que cruzam a região (Douro, Leça, Ave, Cávado, Lima e Minho) não perderam a sua abundância. Não foram construídas mais pontes (duzentas «de pedra lavrada»), nem mais fontes (as mesmas vinte e cinco mil). A terra continua bem regada e «todo ano está verde». Apesar do número de habitantes ter aumentado, há nela os mesmos «cem mil bois». Os preços mantêm-se baixos. A fecundidade alta. Continua a ser terra de fidalgos e homens honrados e última morada de inúmeros santos208.

206 Leão, 1610.

207 Vasconcelos, 1621: 391-393. 208 Estaço, 1625: 201-203.

Em 1628, Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) dá ao prelo a sua Epitome de las historias portuguesas, onde é possível encontrar uma descrição geral do território português. Antes, porém, o autor brinda-nos com um pequeno resumo das características geográficas da Península Ibérica, cuja leitura nos faz lembrar ainda Siculo: «África con violento ardor se abrasa. Francia con perenes vientos se fatiga, ella [Península Ibérica] como suave medio, de aquí con templada calor, de allí con dichosas i oportunas auras i lluvias, en todo género de fruto es fecundísima»209. Mais à frente, descreve «la más célebre» província de Portugal, o Entre Douro e Minho, a qual «por su fertilidad, saludable clima, por la hermosura i delicias con que produje, conocidamente vence a todas las de España, i no es mucho»210. O panegírico continua por mais algumas páginas sob a batuta de Mestre António. Na obra póstuma Europa portuguesa, editada em 1678, Manuel de Faria e Sousa repete ipsis verbis o conteúdo da anterior211.

Como o próprio título da obra denuncia, em Flores de España, Excelencias de Portugal, de 1631, o jurista António de Sousa de Macedo (1606-1682) reserva toda a sua narrativa para expor e louvar as excelências e as riquezas (naturais e de carácter) de Portugal e dos portugueses. Situado «en la mejor parte de Europa, que es España, vencedora del mundo en todas las prerrogativas, y excelencias de bondad de cielo, fertilidad de tierra, virtudes de hombres, riqueza de Reinos, conquistas, triunfos, títulos gloriosos», Portugal beneficia de um clima extraordinário, já que «su cielo es muy sereno, y claro, los tiempos muy apacibles, porque en invierno no ay fríos demasiados, y en el verano son muy moderados los calores, y así en todo tiempo son los aires muy salutíferos, y suele decirse (mayormente de Lisboa) que jamás tiene fríos que no se reparen con sola una capa de bayeta, ni calores que obliguen a quitarla»212.

209 Sousa, 1628: 609. Tradução livre do autor: «África com violento ardor se abrasa. França com ventos

perenes se fatiga, ela [Península Ibérica] como um meio suave, aqui com calor temperado, alí com felizes e oportunas auras e chuvas, em todo o tipo de fruta é muito fértil».

210 Sousa, 1628: 617. Tradução livre do autor: «por sua fertilidade, clima saudável, pela beleza e delícias

com que produz, reconhecidamente vence a todas as [regiões] de Espanha».

211 Sousa, 1680: 152-159.

212 Macedo, 1631: 4, 7. Tradução livre do autor: «na melhor parte da Europa, que é a Espanha, vencedora

do mundo em todas as prerrogativas, e excelências da bondade celestial, fertilidade da terra, virtudes dos homens, riqueza de Reinos, conquistas, triunfos, títulos gloriosos»; «o seu céu é muito sereno e claro, os estados do tempo muito pacíficos, porque no Inverno não há muito frio, e no Verão o calor é muito moderado, e em todos os momentos o ar é muito salutar, e frequentemente se diz (principalmente de Lisboa) que nunca tem frio que não seja suportável com apenas uma camada de pano, nem calores que obriguem a tirá-lo».

Em Población General de España, datada de 1645, Rodrigo Mendes Silva (1606- 1670), numa abordagem de âmbito peninsular, apresenta a Espanha dividida em vários reinos, incluindo Portugal. O autor parte de uma descrição geral da Península Ibérica, focando-se de seguida nos seus diferentes reinos e regiões, entre os quais, Portugal e o seu Entre Douro e Minho. Sobre o todo peninsular, afirma: «Goza nuestra poderosa Provincia el más apacible, templado cielo de toda Europa, no siendo tan fría, y agitada de vientos como Francia, ni tan cálida como África: por lo cual es abundantísima»213; esta é a melhor de todas as regiões do mundo «en abundancia de frutos, prosperidad de riquezas, sobra de metales, pureza de aires, serenidad de cielo, felicidad de asiento»214. Também não poupa nos elogios quando escreve sobre o reino de Portugal: «Se puede llamar este Reino, Microcosmo, o Mundo pequeño, pues las mayores excelencias, en varias Provincias repartidas, se hallan aquí cifradas; demás de lo populoso, y hermoso en edificios, goza benigno Cielo, templados aires, saludable clima; a cuya causa, siendo apacible, deleitoso, y ameno, colma sus habitantes de perfectos, sazonados, y gustosos frutos, oloroso vino, liquido aceite, blanquísima miel, cera, centeno», etc., etc., etc.215. Finalmente, sobre o Entre Douro e Minho, repete o mesmo de sempre: «sitio algo montuoso, pero apacible; contiene dos ciudades, muchas villas, cinco iglesias colegiales, 1400 Parroquias; habitada de cien mil vecinos; seis famosísimos Puertos marítimos; doscientas puentes de lucida fabrica; Riegan-la seis ríos [...]; 25U fuentes de perenes, y saludables aguas; [...] territorio fértil de pan, vino frutas, caza, y legumbres [...] tan amena, y templada, que en Diciembre, y Enero se gozan flores fragantes, y bellísimas rosas. [...] Al mismo paso sus moradores, por natural clima son de fecunda propagación, viviendo largas edades»216.

213 Silva, 1645: 2v. Tradução livre do autor: «A nossa poderosa província goza do céu mais pacífico e

temperado de toda a Europa, não sendo tão frio e agitado pelos ventos como a França, nem tão quente quanto a África: razão pela qual é muito abundante».

214 Silva, 1645: 3v. Tradução livre do autor: «em abundância de frutos, prosperidade de riquezas, sobras

de metais, pureza de ar, serenidade do céu, felicidade de território».

215 Silva, 1645: 144. Tradução livre do autor: «Pode ser chamado este Reino, Microcosmo ou Mundo

pequeno, porque as maiores excelências, em várias províncias distribuídas, se acham aqui presentes; além de populoso, e belo em edifícios, goza de um céu benigno, ar temperado, um clima saudável; razão pela qual, sendo aprazível, deleitoso e ameno, enche os seus habitantes de perfeitos, sazonados e saborosos frutos, vinho perfumado, azeite líquido, mel muito branco, cera, centeio».

216 Silva, 1645: 144v-145. Tradução livre do autor: «sítio algo montanhoso, mas aprazível; contém duas

cidades, muitas vilas, cinco igrejas colegiais, 1400 paróquias; habitado por cem mil vizinhos; seis portos marítimos famosos; duzentas pontes de lúcida fábrica; regam-na seis rios [...]; 25U fontes de águas perenes e saudáveis; [...] território fértil de pão, vinho, frutas, caça e vegetais [...] tão ameno e temperado, que em Dezembro e Janeiro é possível disfrutar de flores fragrantes e lindas rosas. [...] Ao mesmo tempo os seus habitantes, pelo clima natural, são de fecunda propagação, vivendo muito tempo».

Nos finais do século XVII, por volta de 1680-1685 e antes de 1690, Manuel Pereira de Novais, reitor da Universidade de Santiago de Compostela e do Mosteiro de San Martin, redige a sua extensa, minuciosa e fastidiosa Anacrisis historial del origen y fundación y antigüedad de la nobilísima y siempre leal ciudad de o Porto. Este trabalho contém uma descrição pormenorizada da história e da geografia da província de Entre Douro e Minho e da urbe portuense. Para se ter uma ideia do seu conteúdo, nela o autor dedica vários capítulos para tentar demonstrar que os Campos Elísios – o paraíso na mitologia grega, última morada dos homens virtuosos, que aí repousavam rodeados de paisagens verdes e floridas – se encontravam afinal na dita província217.

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