A palavra latina cultura, que originalmente fazia referência ao cuidado dedicado ao campo ou ao gado, no século XVI foi incorporada pelos povos europeus, em seu sentido figurado, como processo de desenvolvimento humano, “a cultura de uma
faculdade”, ou seja, a cultura das artes ou das letras (CUCHE, 1999, p. 19). Progressivamente, o termo se libertou desses complementos e passou a designar “formação”, a “educação do espírito” (CUCHE, 1999, p. 20).
No século XVIII, o sentido de “formação” ou “ação de instruir” se alterou para “estado cultivado pela instrução” (CUCHE, 1999, p. 20) e foi assimilado pelos iluministas. Assim, de acordo com Cuche (1999), o termo passou a significar a soma dos saberes acumulados pela humanidade, associado às ideias de progresso, evolução, educação e razão, aproximando-o do sentido da palavra civilização como oposição à barbárie, à selvageria, principalmente na Inglaterra e na França, nações que já haviam alcançado a unificação política e por isso despontavam à frente de outras sociedades ainda fragmentadas. Segundo Eagleton (2005, p. 19), isso significou a vinculação a costumes e à moral, isto é, ser civilizado indicava “não cuspir no tapete assim como não decapitar seus prisioneiros de guerra”.
Ingleses e franceses vislumbravam suas nações como importantes para o progresso do Ocidente e da humanidade nas esferas política, religiosa, econômica e social, pois entendiam que suas realizações levavam à evolução que afastava o homem da ignorância e da irracionalidade (CUCHE, 1999). Nessa perspectiva, a civilidade sugeria que uma sociedade era superior a outras mais antigas e a contemporâneas “mais primitivas” (ELIAS, 1994, p. 23).
Por outro lado, para os alemães, civilização e cultura tomaram rumos opostos durante todo o século XIX, período em que perdurou o conflito entre dois estratos sociais: os burgueses da Intelligentsia (Kultur) e os aristocratas da corte (Zivilisation)12.
As atividades ligadas à Kultur foram desenvolvidas principalmente pela elite intelectual da classe média, denominada Intelligentsia burguesa alemã. Do ponto de vista de Elias (1994), Kultur aludia a fatos intelectuais, artísticos e religiosos, focando no campo da Arte e da Academia, além de distanciar-se dos fatos políticos, econômicos e sociais. Cuche (1999) afirma que a Intelligentsia considerava que o povo simples e a corte alemã não eram capazes de desenvolver e disseminar a Kultur, por isso se declarava a única apta para a tarefa.
A corte aristocrática alemã, por outro lado, buscou ligar-se à ideia de Zivilisation (Civilização), que se referia a formas de conduta e comportamento que uma pessoa
12 Elias (1994) aponta que a diferença entre Intelligentsia e classe cortesã ainda é mais antiga que a
cristalizada na oposição dos dois conceitos, podendo ser observada já no século XVIII no Zedler
deveria ter para ser polida e refinada, ou seja, à maneira de desenvolver sua qualidade social (ELIAS 1994). Foi duramente criticada pela Intelligentsia por sua preocupação em “imitar as maneiras ‘civilizadas’ da corte francesa” (CUCHE, 1999, p. 25), o que implicava inclusive o uso da língua francesa em detrimento da alemã, considerada língua da classe baixa e média (ELIAS, 1994).
Nesse sentido, ocorria a exclusão das classes inferiores pela aristocracia cortesã, semelhante à do exemplo da Figura 2:
Figura 2 - Hagar, o horrível13
Na tira cômica da Figura 2, observamos que o personagem Hagar demonstra que a classificação dos povos como navegantes e não navegantes é unilateral, isto é, prevalece o ponto de vista de um dos lados, visto que o outro grupo simplesmente é entendido como não pertencente ao conjunto de navegantes, visão que privilegia a exclusão e a exaltação de uma parcela da população em detrimento de outra. Enquanto na tira o distanciamento ocorre pelo fato de ser ou não navegante, no caso alemão, dava-se pelos valores de nobreza entendidos como superiores e que aos homens eram outorgados desde o nascimento.
A aristocracia cortesã impedia todos aqueles que não faziam parte da nobreza de ter acesso ao ambiente da corte, o que dificultava a ascensão social dos nascidos na classe média. Poucos provenientes desse estrato, mesmo distinguindo-se pelo talento e inteligência, puderam participar da vida cortesã-aristocrática, dentre os quais Elias (1994) destaca Goethe (1749-1832). A exclusão da Intelligentsia da vida cortesã
13 Disponível em: <http://img.historiadigital.org/2009/07/Hagar-Navegantes.jpg>. Acesso em: 10 set.
culminou, segundo Cuche (1999), em um sentimento de inferioridade, o que fez com que esse grupo de intelectuais buscasse a sua legitimidade social por meio da cultura. A Intelligentsia impulsionou um grande movimento literário que passou a exercer influência como porta-voz da consciência nacional alemã14 (CUCHE, 1999).
Por meio da literatura, os jovens da classe média contrapunham seus sonhos e pensamentos aos ideais cortesãos. Cuche (1999) afirma que a crescente intervenção da burguesia provocou na nação alemã, ao longo do século XIX, o alastramento do sentimento de inferioridade, não mais pela exclusão social, mas pela desigualdade em relação ao poder de Estado unificado que detinham Inglaterra e França, em contraposição à nação germânica enfraquecida pelas divisões políticas e fragmentada em múltiplos principados. Desse sentimento, emergiu no povo alemão a necessidade de “afirmar sua existência glorificando sua cultura” e, nesse contexto, a cultura surgiu como “um conjunto de conquistas artísticas, intelectuais e morais” (CUCHE, 1999, p. 27-28) referentes ao patrimônio de uma nação, que definia sua unidade.
Dessa relação conturbada entre cultura e civilização, no século XIX, despontou o que Thompson (1995, p. 170) denominou concepção clássica de cultura que se caracterizou como "o processo de desenvolvimento e enobrecimento das faculdades humanas, um processo facilitado pela assimilação de trabalhos acadêmicos e artísticos e ligado ao caráter progressista da era moderna". O autor afirma, ademais, que, apesar de constituir-se de forma limitada, esse conceito, cujos aspectos estão ligados à Arte e à Academia e à ideia de progresso do Iluminismo, ainda está presente nos dias de hoje15.
Cuche (1999) aponta que a cultura na concepção francesa tinha caráter de universalidade, um sentido coletivo, já que a França se tornou modelo de civilização a ser seguido. Ainda do ponto de vista do mesmo autor, a Kultur tinha um caráter mais particularista, o que pode ser observado nos trabalhos de Herder (1744-1803). Cuche (1999) acrescenta que o filósofo optou por falar em culturas, chamando a atenção
14 Esse movimento não teve força para alavancar uma ação política concreta, na opinião de Elias
(1994), desfavorecida pela estrutura social absolutista dividida em pequenos estados na qual se encontrava a Alemanha. A extrema distância entre a nobreza cortesã e a classe média dificultou ainda mais a unificação da Alemanha.
15 Evidenciamos isso em investigações como a de Salomão (2012, p. 170), citada anteriormente, na
qual a pesquisadora observou que uma das professoras participantes da pesquisa construiu uma “visão estereotipada e glamourizada dos espanhóis”, com base em “suas experiências de vida, como viagens, influência de estereótipos colocados pela mídia, os quais reforçam ideias colonialistas e eurocêntricas”, o que reforça a ideia errônea de que uma nação é melhor culturalmente que a outra.
para particularidades de cada grupo, nação ou período, perspectiva que influenciou os trabalhos etnográficos.