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Futamura Projections

Partial Evaluation

9.2 Futamura Projections

De acordo com Cuche (1999) se, por um lado, franceses e alemães do século XVIII buscaram uma concepção de cultura de caráter normativo, por outro, os fundadores da etnologia do século XIX ofereceram uma concepção de cunho descritivo, pois não lhes interessava dizer como deveria ser a cultura, e, sim, como ela era. Por isso, em sua observação das sociedades não europeias, esses últimos pretendiam uma descrição etnográfica.

Conforme Thompson (1995), entre os estudiosos da época, Edward Burnett Tylor se destacou, visto que foi o primeiro a desenvolver uma definição etnológica de cultura, ainda associada à ideia de civilização, entendida como o conjunto de conhecimento, costumes, artes etc. adquiridos pelo homem em meio social. Os estudos desse conceito alcançaram caráter científico e se voltaram para “a análise, classificação e comparação dos elementos constitutivos das diferentes culturas” (THOMPSON, 1995, p. 172). O mesmo autor ainda afirma que tal ponto de vista vai ao encontro da atmosfera intelectual do fim do século XIX, invadida pelas ciências positivas e pelo impacto das ideias de Darwin.

O caráter progressista da concepção clássica se mascarou na ideia científica do evolucionismo e, por isso, na opinião de Cuche (1999), Tylor se concentrou em um estudo da cultura visando a reconstrução do desenvolvimento das espécies humanas, ao reorganizar os passos que levaram o homem da selvageria à vida civilizada. Cuche (1999) ainda acrescenta que Tylor considerava que a palavra civilização não se aplicava às sociedades “mais primitivas” porque elas eram pouco desenvolvidas quanto às realizações materiais. Para Tylor (1876-187817 apud CUCHE, 1999), essas

sociedades ainda mantinham resquícios de uma cultura original da humanidade, cujas características todas as sociedades civilizadas tiveram e das quais evoluíram. Assim, segundo Thompson (1995, p. 172), Tylor se preocupou com a “sobrevivência na cultura”, isto é, com os resquícios de formas culturais de sociedades ancestrais mais primitivas e bárbaras presentes nas contemporâneas. Tylor (1876-1878, apud CUCHE, 1999) constatou a presença de costumes ancestrais em sociedades do

México e com bases nesses dados dedicou-se a reconstruir o que considerou um conjunto cultural original dos povos daquela região.

Outro antropólogo importante foi Franz Boas (1858-1942) que se destacou nos estudos etnográficos por suas contribuições na análise das culturas “primitivas”, pois despontou como pioneiro na realização de pesquisas de campo (CUCHE, 1999). Com o intuito de estudar os inuítes da região de Baffin (norte do Canadá), Boas observou que a sua organização social era condicionada pela cultura e não por seu ambiente físico. Também investigou outros povos como os Kwakiutl, os Chinook e os Tsimshian. Na opinião de Cuche (1999), a origem judaica e o contexto de opressão nazista fizeram com que Boas sofresse com o racismo e, por isso, o antropólogo se voltou ao conceito de raça a fim de refutar as afirmações da época. Sobre a questão racial, Boas (201018) afirmou ser prejudicial a tendência à generalização de um dado grupo de

acordo com os traços físicos, como por exemplo o italiano do sul descrito como baixo, moreno e de olhos escuros ou o escandinavo, cuja imagem sempre se caracterizou por um homem alto, loiro e de olhos azuis. Com isso, o antropólogo fez a seguinte ressalva:

estamos aptos a construir tipos ideais locais baseados em nossa experiência cotidiana, abstraídos a partir de uma combinação de formas mais frequentemente vistas numa dada localidade, e nos esquecemos de que há inúmeros indivíduos para os quais essa descrição não é verdadeira (BOAS, 2010, p. 68).

Desse modo, o antropólogo considerou imprudente determinar o local de nascimento de uma pessoa apenas por suas características corporais. Além disso, Boas (2010) colocou em pauta a falta de sentido da associação entre os traços físicos e os mentais, isto é, refutou a ideia de que o intelecto teria relação com o aspecto físico (o traço determinante para a noção de raça). Segundo o autor, a mistura racial desempenhou papel importante na história das populações modernas, pois todo grupo racial é composto por várias linhagens familiares de distintas formas corporais em decorrência das migrações que ocorrem desde tempos antigos, mas que não obstruíram o desenvolvimento da humanidade.

18 A edição por nós consultada contém ensaios publicados originalmente em BOAS, F. Race and

Progress (1931). In: ______. Race, language and culture. New York: Macmillan Publishers, 1940. p. 03-17.

De seus estudos, Boas (2010) concluiu que a diferença fundamental entre os grupos humanos era de ordem cultural e não racial e, por isso, analisou as culturas de uma perspectiva díspar da noção evolucionista de Tylor (CUCHE, 1999). Por conseguinte, lançou críticas à compreensão de cultura baseada no evolucionismo ao afirmar que não era possível descobrir leis universais de funcionamento das sociedades, nem desenvolver leis gerais da evolução das culturas.

Do ponto de vista de Cuche (1999), Boas não adotou uma visão comparativista, uma vez que considerava a singularidade de cada comunidade. Por isso, optou por um estudo sob um ângulo relativista (que gerou a ideia de relativismo cultural), no qual desenvolveu um exame metódico do sistema cultural de outras sociedades, rejeitando a postura etnocêntrica. Ainda conforme Cuche (1999), Boas entendia que um costume particular somente poderia ser explicado considerando-se o seu contexto cultural e não em comparação às características de outras sociedades.

Cuche (1999) também aponta que o antropólogo deixou como herança o estudo da dimensão histórica dos FC. Seus sucessores tomaram para si e refinaram dos etnólogos alemães do início do século XIX a noção de “área cultural” (grande convergência de traços semelhantes em um dado espaço) e de “traço cultural” (o menor componente de uma cultura). Na opinião das herdeiras de Boas, no centro da área cultural de um determinado grupo social se encontravam os elementos fundamentais de sua cultura e na periferia se situavam os elementos, ou traços culturais, limítrofes que se entrecruzavam com traços de áreas vizinhas (CUCHE, 1999). Tal perspectiva buscou a compreensão de como ocorria a difusão dessas características entre culturas próximas. Além disso, de acordo com Cuche (1999), com as investigações sobre os fenômenos de contato cultural, Boas (2010) e suas discípulas (BENEDICT, 1972; MEAD, 1979) abriram caminho para futuras pesquisas acerca de aculturação e de trocas culturais.

Outro antropólogo importante foi Bronislaw Malinowski (1884-1942) que, segundo Cuche (1999), rejeitou o estudo da cultura por meio de volta às raízes, como o fez Tylor, e adotou uma visão sincrônica em seu trabalho, a qual considerava mais objetiva e de caráter mais científico. Conforme o mesmo autor, Malinowski afirmou que cada cultura formava um sistema abrangendo elementos interdependentes entre si, de modo que cada objeto, ideia ou crença exercia função vital na totalidade da cultura, não podendo ser estudados isoladamente.

O antropólogo desenvolveu uma teoria científica ao apresentar uma proposta funcionalista, em que “os fenômenos culturais pudessem ser analisados em termos de satisfação das necessidades humanas” (THOMPSON, 1995, p. 173). Cuche (1999) ressalta que Malinowski entendia a cultura como a resposta funcional para atender as necessidades fundamentais da existência do homem, tais como alimentar-se, proteger-se, reproduzir-se. As instituições objetivavam designar soluções coletivas às necessidades individuais e, dessa forma, eram o centro do estudo antropológico, pois sem elas os traços culturais não tinham significado (CUCHE, 1999).

Na opinião de Cuche (1999), Malinowski errou ao distanciar-se da reflexão sobre a cultura e voltar-se ao estudo das necessidades da natureza humana as quais tentou determinar, o que se mostrou pouco convincente. Apesar das críticas, o mesmo autor afirma que Malinowski foi importante, na medida em que chamou a atenção para o fato de que uma cultura somente poderia ser realmente definida pela “observação participante”, ou seja, o pesquisador deveria interpretar a mentalidade da população estudada, ao aprender sua língua vernácula e examinar até mesmo os mais banais fatos de sua vida cotidiana.

Mesmo suas teorias sendo divergentes quanto aos pressupostos, Tylor, Boas e Malinowski partilharam uma concepção de cultura à qual Thompson (1995) denominou descritiva e que se caracterizou como “o conjunto de crenças, costumes, ideias e valores, bem como os artefatos, objetos e instrumentos materiais, que são adquiridos pelos indivíduos enquanto membros de um grupo ou sociedade” (THOMPSON, 1995, p 173). Podemos tomar como exemplo a Figura 3 para ilustrar esse conceito:

Figura 3 - Primeira página da história Halloween na roça de Chico Bento19

Na Figura 3, observamos que Zeca, o primo de Chico Bento – personagens criados pelo cartunista Maurício de Sousa – propõe a brincadeira com o tema do halloween, destacando alguns elementos característicos dessa festa, no caso citado, os tipos de doces. A ideia de Zeca é reproduzir exatamente como essa comemoração é realizada em território norte-americano, conforme constatamos no exemplo a seguir:

19 Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-

DUXIcQnOxo0/UJHBm8J7ACI/AAAAAAAACk0/_3kG6Ag5YkU/s1600/halloween+na+ro%C3%A7a+ch ico+bento2.jpg>. Acesso em: 10 set. 2016.

Figura 4 - Quarta página da história Halloween na roça de Chico Bento20

Para realizar a brincadeira, Zeca sugere que o primo e os amigos usem roupas de personagens clássicos do terror que, nesse caso, estão distantes da realidade de Chico Bento, já que ele conhece somente o lobisomem21. O primo expressa uma visão

de cultura descritiva, uma vez que ele entende o halloween como uma festa tipicamente norte-americana e que deve conservar certos elementos como os tipos de doces pedidos e as roupas de personagens icônicos. Ele se desanima pela

20 Disponível em: <https://scontent.fcgh8-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-

9/418561_464466803572945_1747357772_n.jpg?oh=9707dbdecfcc82ae44276837662ca706&oe=58 3B8DE7>. Acesso em: 10 set. 2016.

interferência de Chico (perceptível pela expressão facial de Zeca nos dois últimos quadrinhos), pois este quer inserir personagens da “assombração brasileira” o que, na visão de Zeca, talvez descaracterizaria a brincadeira.

A concepção descritiva, portanto, desenvolveu-se com base na etnografia. Os estudos de Tylor, Boas, Malinowski entre outros foram importantes para a pesquisa dos povos não europeus, evidenciando discussões acerca das diferenças raciais e culturais, do etnocentrismo e do relativismo cultural. Entretanto, do ponto de vista de Thompson (1995), tal conceito encontrou impedimentos não com relação à ideia de cultura em si, mas quanto aos seus pressupostos, fazendo com que os antropólogos posteriores apresentassem novas formas de análise, como a que apresentamos a seguir.