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Practical Application of BAProM: Results and Discussion

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Module 4: Predictive Modeling

5. Practical Application of BAProM: Results and Discussion

Ao retomar, no início do século XVIII, a questão do elogio da língua portuguesa, Bluteau inscreve-se numa corrente de textos argumentativos que se iniciara dois séculos antes com as obras dos primeiros gramáticos do vernáculo, em particular com João de Barros e o Dialogo em louvor da nossa linguagem (1540).

Este género de discursos apologéticos pode ser encontrado nas principais línguas da Europa, a partir do século XVI, originando a denominada “batalha dos vernáculos”. A questão radica na progressiva constatação de que o latim, língua fixa e restrita a campos

do saber delimitados, cedia a sua preponderância em face de mudanças ao nível da configuração dos saberes e do acesso ao conhecimento. Estes factores são potenciados pela acção da imprensa que, permitindo a maior difusão do saber, encontra nos vulgares a forma de atingir públicos mais alargados. O desenvolvimento dos corpora literários nacionais incentiva os defensores da conveniência em recorrer às línguas modernas, discutindo-se sobre qual é merecedora da primazia, ou seja, aquela que melhor corresponde às qualidades tradicionalmente atribuídas à língua clássica. Os discursos de exaltação apresentam como linhas fundamentais a defesa, o louvor e a ilustração da língua, assumindo a questão contornos que variam de acordo com os países. No que respeita aos argumentos que justificavam a excelência, os diversos autores geralmente não primavam pela originalidade, adaptando para o caso do seu idioma o arsenal retórico que já havia sido mobilizado por outros para ilustrar as respectivas línguas153

.

Não obstante os patriotismos tendenciosos, o facto é que, à medida que o século XVII avança, o francês ascende a uma posição privilegiada no quadro das línguas europeias, e não somente devido aos elogios que afirmavam a sua superioridade. Sob o signo da purificação, uma nova estética literária pretende expurgar a língua de palavras e construções sintácticas antiquadas, eliminando os equívocos que perturbassem a clareza do estilo. Nesse sentido, desde a primeira metade do século, corrigem-se várias obras literárias, publicam-se edições revistas e editam-se textos de reflexão metalinguística, que são elaborados tendo em conta o “bom uso”, uma expressão consagrada em Remarques

sur la langue françoise (1647) de Vaugelas. Refira-se ainda o papel de uma instituição

como a Academia (1636), consagrada pelos estatutos à produção de instrumentos de normalização linguística154

. Por ser cultivada nas diversas cortes e ser corrente nas relações diplomáticas, os lexicógrafos do final do século não hesitam em considerá-la língua franca, substituindo o latim155

.

152 Ibidem: loc. cit. A propósito do mosaico dos falares indígenas no Brasil, cita os relatos do jesuíta

Simão de Vasconcelos (Noticias curiosas e necessarias das cousas do Brasil, 1668), numa anotação em tudo paralela à que encontramos nas Prosas Portuguezas (I: 379), dedicada ao mesmo tema.

153 Giard, 1992: 207-212, 224.

154 Sancier-Chateau, 1993: 13. Cf. também Otman, 1995.

155 «On l’entend ou on la parle dans toutes les Cours de l’Europe; & il n’est point rare d’y trouver des

gents qui parlent François, & qui écrivent en François aussi purement que les François mêmes. […] Veut-on qu’un libelle coure bien le monde? Aussi tôt on le traduit en François, lors même que l’original en est Latin: tant il est vray que le Latin n’est pas si commun en Europe aujourd’huy que la langue Françoise» (Furetière, Dict. Univ., 1690: «Préface»).

Um testemunho do interesse que a língua francesa continuou a despertar pela Europa já no século XVIII são as palavras do galego Frei Benito Feijoo (1676-1764), no Discurso XV do Theatro Critico Universal (1726), subordinado ao «Paralelo de las lenguas castellana, y francesa». Embora condene a introdução afectada de galicismos, reconhece os benefícios de conhecer o francês, pois permite o acesso a um conjunto de obras que, em virtude da originalidade e riqueza informativa, eram títulos fundamentais na biblioteca do homem erudito, sem que se encontrasse equivalente em latim. De resto, no seu entender, o castelhano encontrava-se arredado de muitas áreas do conhecimento moderno, em campos como a física experimental ou a teologia, testemunhando ainda o bom acolhimento das obras lexicográfias francesas, sobretudo os dicionários históricos e geográficos, com destaque para Moreri156

.

Em Portugal, para além do número crescente de nobres cuja educação contemplava o domínio do idioma, a corte tornou-se “afrancesada” com a rainha D. Maria Francisca de Sabóia e as suas damas de companhia. A oposição a Luís XIV na guerra da sucessão de Espanha manchou de suspeição os que se mostrassem filiados da França, mas, após o armistício em 1712 e o reatamento das relações diplomáticas em 1714, D. João V, inspirado na prestigiosa figura do Rei Sol, organizou a sua corte de acordo com o paradigma francês, tornando-a mais permeável às influências estéticas e literárias que lhe estavam associadas157.

Entre nós, a defesa do vulgar e a exploração das similitudes com a matriz latina são pontos comuns em textos que se estendem ao longo de um período temporal considerável. A leitura das sucessivas defesas do português permite observar um discurso marcado por uma intensa intertextualidade, em que a autoridade daqueles que se debruçaram sobre a temática é consecutivamente reforçada pelos que a retomam158

.

156 Feijoo, Theatro Critico Universal…, 2000 (1726): 316-318. Feijoo considera extremada a posição

dos que afirmam que «quanto hai bueno, y digno de ser leìdo, se halla escrito en los dos Idiomas Latino, y Castellano», mas não deixa de censurar aqueles que, por terem viajado, julgam que «solo en Francia [...] reinan, segun su dictamen, la delicadeza, la policia, el buen gusto» e, preferindo o idioma francês, «con algunas voces que usurpan de èl, salpican la conversacion, aun quando hablan en Castellano» (ibidem: 315).

157 Sobre o gosto francês na corte de D. João V, cf. Bebiano, 1987: 90-91, 99-108; Bottineau, 1973. 158 Considerando as principais obras de defesa da língua, até meados do século XVII, verifica-se que

quase todas surgem como complemento de outros textos metalinguísticos: João de Barros, «Dialogo em louvor da nossa linguagem», in Grammatica da lingua Portuguesa, 1540; Pero de Magalhães de Gandavo, Regras que ensinam a maneira de escrever e orthographia da lingua Portuguesa, com

Todavia, é possível identificar cambiantes nas motivações que presidiram à sua produção. Segundo Leonor Buescu, as primeiras argumentações correspondem a um esforço de distinção em relação ao castelhano, em que «a língua é o instrumento da criação duma literatura e esta serve a superação duma possível indiferenciação cultural»159

; no momento seguinte, pautado pela euforia da expansão, a língua é um instrumento ao serviço da missionação; por fim, devido às circunstâncias históricas da perda de independência, a atenção é novamente centrada na relação com o castelhano, sublinhando a consciência da diferença linguística como factor de autonomia política160

. Interessa-nos sobretudo destacar a última fase, pois os ecos da reivindicação da individualidade e excelências do português prolongam-se bem para além de 1640. O castelhano tinha a seu favor o maior número de falantes e o prestígio do património literário, que propiciava, à partida, maiores possibilidades de sucesso editorial e reconhecimento aos autores que optassem por não publicar as suas obras em português. Assim se compreende a importância em sublinhar a não inferioridade do português em relação ao castelhano, sobretudo enquanto língua apta à composição literária em todos os estilos.

O texto de Manuel Severim de Faria (1583-1655), «Das partes que há-de haver na linguagem para ser perfeita, e como a Portuguesa as tem todas e alg~uas com eminência de outras línguas», deixa transparecer as motivações políticas que o orientam, com apelos mobilizadores ao uso do português como marca de unidade, afirmação identitária e expressão de resistência161. Os argumentos em que fundamenta o elogio não são de forma alguma inovadores — as fontes estão patentes nas frequentes citações de Barros, Gandavo e Nunes de Leão — como se verifica na enumeração dos cinco critérios, transmitidos pela antiga tradição gramatical, que permitem avaliar o grau de perfeição de uma língua: «ser copiosa de palavras, boa de pronunciar, breve no dizer, que escreva o que fala; e que seja apta para todos os estilos»162

. Porque o escopo do discurso é uma língua novilatina,

Origem da lingoa portuguesa, 1606; Manuel Severim de Faria, «Das partes que ha de haver na

lingoagem para ser perfeita, e como a Portuguesa as tem todas […]», in Discursos varios politicos, 1624; Álvaro Ferreira de Vera, Breves louvores da lingua portuguesa, com notaveis exemplos da

muita semelhança, que tem com a lingua latina, 1631.

159 Buescu, 1983a: 231. 160 Ibidem: 231-232.

161 Faria, Discursos…, 1999 (1624): 96-97.

162 «De maneira que a que tiver estas qualidades em maior pefeição será de mor excelência que as

acrescenta o critério da origem, isto é, o grau de semelhança com uma das três grandes línguas da Antiguidade, latim, grego e hebraico. Propõe-se demonstrar que o português é a língua que mais se aproxima do latim e que, nos critérios enunciados, «não é inferior a nenh~ua das modernas, antes igual a alg~uas das antigas, com razão lhe poderemos dar o louvor da língua perfeita, e de ser ~ua das melhores do mundo»163

. A grande falta que Severim aponta à sua língua é precisamente a inexistência de instrumentos de apoio à produção literária, «que estando a Latina, e as outras vulgares tão cheias de volumes, de Traduções, de Cópias, Frases, Elegâncias, e de Tesouros de sua eloquência, com que as vemos ornadas de tão ricos atavios, só a nossa está pobre de todo artifício»164

. O discurso de Severim de Faria constitui uma boa síntese de uma tradição argumentativa que sem dúvida colheria muitos aplausos no início do século XVIII, ao ponto de Bluteau recomendar a sua leitura aos estrangeiros que duvidassem da qualidade do português165

. Todavia, os leitores do Vocabulario certamente não esperariam que o francês Bluteau declarasse que o português era a mais perfeita das línguas, pelo que a sua estratégia assenta em considerar que não existem línguas perfeitas e que o português não é inferior ao espanhol, ou ao francês. A reivindicação da dignidade da língua é precisamente o tema central do prólogo ao leitor estrangeiro, que ocupa cerca de um quarto da extensão total do «Prologo a todo o genero de leitores», o que constitui um indicador revelador da importância que lhe é dedicada.

Para o teatino, «ventilar questoens sobre a preferência das lingoas he curiosidade de necios. Todas tem singulares excellencias, & cada nação lhe parece o seu idioma o melhor de todos»166, uma opinião em que deveriam pesar a experiência multicultural e a aprendizagem pela prática da oralidade. Também refuta alguns dos critérios tradicionalmente aplicados na comparação das línguas, considerando que resultam da

163 Ibidem: 80.

164 Ibidem: 95. O elogio do francês, por Vaugelas, insiste precisamente nas possibilidades de

exploração da língua a nível estético: «il n’y a iamais eu de langue, où l’on ait escrit plus purement & plus nettement qu’en la nostre, qui soit plus ennemie des equivoques & de toute sorte d’obscurité, plus grave & plus douce tout ensemble, plus propre pour toutes sortes de stiles, plus chaste en ses locutions, plus iudicieuse en ses figures, qui aime plus l’elegance & l’ornament […] qu’il n’y en a point qui observe plus le nombre & la cadence dans ses periodes, que la nostre; en quoy consiste la veritable marque de la perfection des langues» (Vaugelas, Remarques…, 1647: «Preface»).

165 Voc., I: «Ao leitor estrangeiro». 166 Ibidem: loc. cit.

natural preferência que cada povo nutre pela materna167

. Nesse sentido, nega que em alguma língua particular as palavras se acomodem melhor com a «materialidade do significado», uma vez que «do entendimento, que as applica, depende o valor das palavras, & assim taõ proprias saõ muitas letras, para significarem pouco, como poucas, para significarem muito»168

. Condena ainda a especulação etimológica como meio de provar a suposta antiguidade e nobreza das línguas, uma vez que «o descubrimento da origem das palavras he tam infructuoso, como trabalhoso estudo»169

. E, rematando a crítica:

O que digo, & torno a dizer, he, que para o effeito de sua instituição todos os vocabulos saõ igualmente bons. As palavras saõ espelhos do pensamento, & imagens do conceito, toda a sua excellencia he representação. Em todas as lingoagens tem qualquer vocabulo esta excellencia [...] tudo o mais, que se chama nobreza, antiguidade, elegancia, & suavidade da palavra, saõ prerogativas, que a vaidade das naçoens excogitou para a preferencia do seu idioma170.

Mas se todas as línguas são iguais na essência, há critérios, não intrínsecos, em que se distinguem, como a extensão geográfica que abrangem, o número de falantes ou o grau de investimento na dimensão estética:

[…] a lingoa Portugueza não desmerece lugar entre as melhores, se he verdade (o que me não posso persuadir) que hâ lingoas melhores que outras; mais amplas, mais cultivadas, & mais celebres no mundo, sim [...] Mas por serem humas lingoas mais abundantes, & estendidas, que outras, não por isso sam essencialmente melhores171.

Quanto à questão da emulação entre o português e o castelhano, que percorrera todo o século XVII, Bluteau não insiste na procura de superioridades, antes investe na afirmação da autonomia. Dirigindo-se ao leitor estrangeiro, assegura-lhe que, ao contrário

167 «Nem pellas noticias da nossa lingoa materna podemos julgar da propriedade, & elegancia de

outro idioma […] Para cada naçam as suas palavras nacionaes são as melhores, porque respondem ao conceito & idea, de quem usa dellas» (ibidem: loc. cit.).

168 Ibidem: loc. cit.

169 Ibidem: loc. cit. A tentativa de estabelecer relações entre os vernáculos e o grego, hebreu e outras

línguas antigas pretendia responder à relação privilegiada entre o latim e o italiano, reclamada pelos primeiros humanistas. Desse esforço de enobrecimento, empolgado pelo nacionalismo, resultaram inevitavelmente derivações etimológicas totalmente fantasiosas. Cf. Giard, 1992: 209, 221. No prólogo, Bluteau declara: «he esta obra tam abundante de etymologias, & definiçoens, & muito mayor seria a abundancia das derivaçoens, se eu não moderara a minha curiosidade, & a não restringira âs que me pareceram mais naturaes, & precisas para a intelligencia das palavras. Em primeiro lugar não fis caso de etymologias arrastadas, & forçadas; que hâ palavras, como pessoas, nacidas, (como diz o vulgo) das ervas, & cuja origem seria mais difficultosa de descobrir, que aos primeiros exploradores da America, o novo mundo» (Voc., I: «Ao leitor indouto»). Esta opção verifica-se no modo como o lexicógrafo procura ler criticamente um conjunto de explicações etimológicas tradicionais, nomeadamente as do Tesoro (1611) de Covarrubias, confrontando-as com os dicionários de Ménage. Cf. caps. III.2., IV.9.5., V.1.5.

da crença geral que vigora pela Europa, o português não é um dialecto corrupto do castelhano, mas sim uma língua irmã que, de forma independente, se desenvolveu a partir do latim172

.

Se é pertinente a crítica de Bluteau à inconsequente batalha dos vernáculos, o facto é que, aparentemente, não a aplica na extensão esperada, uma vez que conclui o prólogo ao leitor estrangeiro reproduzindo um excerto de um elogio do português, em que se encontram muitas das ingenuidades que anteriormente reprovara e apelidara de «curiosidade de necios»173

. Mas a inclusão do excerto parece dever-se mais ao valor literário, uma vez que Bluteau recomenda a sua leitura aos estrangeiros que, obstinados, ainda insistirem em tentar descobrir qual a melhor língua do mundo, apesar de ele próprio considerar a questão irresolúvel e inútil174

.

Acrescente-se que, em alguns dicionários franceses e castelhanos, o elogio das respectivas línguas era explícito e assumido pelos autores. A leitura dos prólogos, ou artigos dedicados à língua, em léxicos que Bluteau considerou modelares, permite constatar a longa tradição da euforia laudatória. Sebastián de Covarrubias, no início do século XVII, escrevia no seu Tesoro que a língua espanhola «no se debe contar entre las bárbaras, sino igualarla con la latina y la griega, y confesar ser muy parecida a la hebrea

171 Ibidem: loc. cit.

172 «[…] na opiniaõ da maior parte dos Estrangeiros, a lingoa Portugueza naõ he lingoa de por si,

como he o Francez, o Italiano, &c. mas lingua enxacoca, & corrupçam do Castelhano, como os Dialectos, ou lingoagens particulares das provincias, que saõ corrupçoens da lingoa, que se falla na Corte, & cabeça do Reino» (ibidem: loc. cit.). Poderemos entrever nestas palavras reflexos dos efeitos da dominação filipina. Se atendermos à definição do Vocabulario, o adjectivo enxacoca descrevia a língua portuguesa como uma tentativa frustrada de imitação do castelhano, entremeando palavras autóctones: «ENXACÔCO. Aquelle, que querendo fallar huma lingoa, a confunde com outra.

Barbarè bilinguis. […] Fallar enxacoco. Partium cum alieno sermonem confundere» (Voc.: s.u.).

Sobre o espaço do português no contexto linguístico ibérico, no século XVIII, cf. Paz, 2002: 8-11.

173 «Para fallar he engraçada com hum modo senhoril; para cantar he suave, cõ hum certo sentimento,

que favorece a Musa […] Tem de todas as línguas o melhor, a pronunciação da Latina; a origem da Grega; a familiaridade da Castelhana; a brandura da Franceza; a elegancia da Italiana. Tem mais adagios, & sentenças, que todas as vulgares em fê de sua antiguidade […]» (Voc., I: «Ao leitor estrangeiro»). O excerto é citado sem indicação explícita de autoria («certo Autor, tam discreto, como veridico, & ainda que Portuguez, sincero, & não encarecido» (ibidem, loc. cit.), mas trata-se de uma passagem do diálogo I da Corte na Aldeia de Francisco Rodrigues Lobo (1991 (1619): 68-69), dedicado a temáticas linguísticas e literárias, e ao louvor da língua em particular.

174 Voc., I: «Ao leitor estrangeiro». Ao citar este texto e o discurso de Severim de Faria, Bluteau teria

em conta as preferências de um público mais conservador, adepto da tradicional retórica da superioridade. Nessa linha de pensamento, lembremos a publicação do Antidoto da Lingua

en sus frasis y modos de hablar»175

. Sobre a indiscutível perfeição e supremacia do francês encontram-se testemunhos claros nos prefácios dos dicionários de Furetière (1690) e da Académie (1694), o que não deixa de estar de acordo com os princípios programáticos que uniam os colaboradores da instituição académica:

[...] il y a quelque sorte de justice dans ce privilege de la langue Françoise, puis qu’on se sauroit raisonnablement luy contester certaines perfections tres avantageuses qui ne se trouvent point dans les autres langues. On pourroit peut-être s’exprimer plus fortement, mais on aime mieux témoigner la reconnoissance de l’honneur qui luy est fait dans les pays étrangers176.

[Cícero considerava a língua latina perfeita] & peut-estre n’aura-t-on pas moins de raison de penser la mesme chose en faveur de la Langue Françoise, si l’on veut bien considerer la Gravité & la Varieté de ses Nombres, la juste cadence de ses Periodes, la douceur de sa Poësie, la regularité de ses Vers, l’harmonie de ses Rimes, & sur tout cette Construction directe, qui sans se’elloigner de l’ordre naturel des pensées, ne laisse pas de rencontrer toutes les delicateses, que l’art est capable d’y apporter177.

Os autores do Dictionnaire universel de Trévoux, na edição de 1721, recolhem para o artigo LANGUE excertos de Ménage, Bouhours e Vaugelas, os autores que «ont fait

des remarques sur la langue, pour enseigner la pureté, les finesses, les délicatesses & les vîces». A língua francesa, «a en quelque façon succédé à la langue Latine, & est devenuë la langue commune, & univèrselle», e ganha na comparação com os demais vulgares, sendo o castelhano a língua que mais defeitos regista178

. Como se verifica, Bluteau não parece inspirar-se nesta argumentação, nem procura adaptá-la ao português.