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O aumento progressivo da informação de tipo enciclopédico — orientada mais para a descrição do mundo referencial, do que para as palavras que significam essa realidade — verificava-se na lexicografia latina desde o século XVI e acentua-se nos dicionários bilingues do século seguinte. Com a transição para obras monolingues, a prática está de tal modo enraizada que os dados extralinguísticos permanecem como um complemento valorizado e apreciado, ampliando a glosa e integrando a própria definição.

Em consequência, os artigos também crescem em extensão, incluindo diversos temas que são recuperados e acumulados partir de dicionários anteriores. Como refere B. Quemada, a disparidade que recobre a noção de enciclopedismo torna-se, em pouco tempo, quase ilimitada, autorizando a multiplicação de notícias científicas, receitas para a vida prática e notas de economia doméstica229

. Este é um período de experimentação, que antecede o esforço de avaliação global e crítica da informação, que caracterizará a prática dos enciclopedistas franceses da segunda metade do século XVIII.

A partir do dicionário universal de Furetière, a vida quotidiana e a diversidade de artes e ciências são centros de interesse nos novos léxicos monolingues. A preocupação é registar, numa única obra, o maior número possível de palavras que, no seu conjunto, permitam aceder a informações acerca de uma realidade em mudança. Se em 1685 Furetière entra em conflito com os académicos para defender a utilidade do seu dicionário universal, poucos anos depois o modelo é largamente aceite, copiado e adaptado por vários lexicógrafos europeus, entre os quais Bluteau230

.

O teatino não adopta no título a designação “universal”, mas na página de rosto e nos prólogos salientam-se muitos pontos de contacto com Furetière, expressando a firme crença de que o dicionário não se pode limitar a proporcionar o acesso às palavras, mas antes oferecer uma definição que informe acerca das propriedades do referente:

Muito menos trabalhosa, e menos util he a composiçaõ dos Vocabularios de duas, ou tres linguas, que unicamente trazem as palavras, que de hum idioma correspondem às de outro, [...] Em poucos mezes, e com pouco trabalho se póde fazer hum Vocabulario destes; mas desta summa esterilidade, que proveito póde tirar o Leitor? […] para a sciencia pouco importa. Que importa, que em Ingles, e em Alemaõ, ou em outras linguas eu saiba como se chama hum Thermometro, se realmente naõ sey outra cousa delle, que o seu nome, nos ditos idiomas. Vocabularios proveitosos, saõ os que declaraõ a natureza, virtudes, e propriedades das cousas, que os vocabulos significaõ231.

Tal como defendia Furetière, à partida um dicionário universal não admite excepções, daí que, para Bluteau, «Vocabulario universal he huma nomenclatura de tudo,

229 Quemada, 1968: 86.

230 Limitamo-nos aqui a aspectos gerais que configuram o modelo dos dicionários universais do

início do século XVIII. Sobre características específicas da obra de Furetière, cf. adiante cap. III.2.1.

231 Supp., I: «Ao leitor estrangeiro». A declaração da «natureza, virtudes, e propriedades das cousas,

que os vocabulos significaõ» contrasta com o reconhecimento da natureza dos vocábulos que significam as coisas, promovido especialmente a partir da Grammaire générale et raisonée (1660). Este é um entre muitos passos claramente inspirados no prólogo do Dictionaire Universel: «Car, que me sert de pouvoir nommer en plusieurs façons une même chose, si je ne suis capable d’en donner une bonne definition? Que m’importe, par exemple, qu’un niveau ait un tel nom en Latin, en Grec, en Alleman, en cent autres langues differentes, si je ne sais que c’est au fond qu’un niveau?» (Furetière,

o que comprehende em si o universo. Areas, & atomos saõ partes deste, & como tem nome, tem direito para terem nos Vocabularios o seu lugar»232. Com a consciência de que não é possível alcançar a exaustividade absoluta, a prioridade é uma representação satisfatória dos diversos domínios do léxico. Assim, ambos sublinham que os seus dicionários compreendem os termos de todas as artes e ciências; Furetière fá-lo em subtítulo, Bluteau declara-o no prólogo233

.

À semelhança do Dictionaire Universel, a página de título do Vocabulario aponta para um conteúdo de natureza enciclopédica — subordinado à configuração do dicionário de língua — em que os longos subtítulos são tentativas de uma catalogação dos ramos do conhecimento contemplados. Ainda assim, Bluteau não se limita a copiar Furetière, e as diferenças são dignas de nota234

.

Os subtítulos de Furetière são uma sequência de parágrafos, numa enumeração textualizada, em que se ensaia uma hierarquização dos saberes. De acordo com a leitura de André Collinot, o primeiro grupo refere-se ao homem e ao mundo, incluindo como subcategorias o espírito («La Philosophie, Logique…»), o corpo («Physique; la Medecine, ou Anatomie…») e a natureza («Botanique, ou l’Histoire naturelle des Plantes e celle des Animaux, Mineraux, Metaux & Pierreries…»). Segue-se a sociedade e as suas leis («la Jurisprudence Civile & Canonique, Feodale & Municipale…»); as ciências e as suas aplicações («Les Mathematiques, la Geometrie, & l’Algebre… l’Astronomie, l’Optique…). Por fim, as belas artes («Les Arts, la Rhetorique, la Poësie, la Grammaire, la Peinture…») e as técnicas («la Marine, le Manege, l’Art de faire des armes… & la plus- part des Arts mechaniques»)235

.

Em Bluteau, apenas a designação Vocabulario Portuguez e Latino merece destaque em caixa alta, seguindo-se uma sucessão de 57 epítetos, ordenados alfabeticamente, que completam o título. Emprega apenas adjectivos, derivados de formas nominais que, na sua

232 Voc., I: «Ao leitor douto». Cf. a expressão de Furetière: «l’universalité ne souffre point

d’exception» (Furetière, Factums, I, 1694: 23).

233 Bluteau: «tras este Vocabulario os termos proprios de todas as sciencias Humanas, & Divinas, &

de todas as Artes liberaes, & Mecanicas com definiçoens, ou descripçoens, que em breves palavras claramente expoem a substancia dellas» (Voc., I: «Ao leitor douto»); o Dict. Univ., em subtítulo: «Contenant generalement tous les mots françois tant vieux que modernes, & les Termes de toutes les Sciences et des Arts».

234 Cf. cap. IV.10.1.1., fig. 3.

235 Collinot, 1985: 15-16. O autor aponta semelhanças entre esta proposta de repartição do mundo e

maioria, são neologismos marcados pela erudição greco-latina e certamente de difícil descodificação, demonstrando assim a aptidão da língua portuguesa para tratar todas as matérias científicas mantendo o requinte formal236

. Mais do que a acessibilidade do discurso, preocupa-o a harmonia estética da página e a enumeração retoricamente bem conseguida, de modo a «evitar circunloquios, e com succinta elegancia abreviar discursos»237

.

Somente uma parte destes epítetos coincide com designações comuns de dicionários terminológicos — histórico, geográfico, farmacêutico, … — pelo que não estamos perante uma descrição das partes do todo. É possível dividi-los em dois grupos: 1) os que indicam domínios do léxico; 2) os que enunciam características relativas à tipologia e técnica lexicográfica.

1) designações de domínios lexicais:

i) mundo natural Anatomico, Botanico, Dendrologico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Hydrographico, Ithyologico, Lithologico, Meteorologico, Ornithologico,

Uranologico, Zoologico

ii) actividades humanas Architectonico, Bellico, Chimico, Ecclesiastico, Economico, Geometrico, Gnomonico, Liturgico, Medico, Musico, Nautico, Numerico, Optico, Pharmaceutico, Rustico, Terapteutico, Technologico iii) tradição da erudição

humanista

Dogmatico, Dialectico, Hierologico, Poetico, Philologico, Rhetorico, Symbolico, Theologico iv) registos linguísticos Aulico, Comico

v) estrangeirismos / neologismos Brasilico, Indico, Neoterico, Xenophonico

Os domínios do mundo natural e das actividades humanas coincidem, de uma forma geral, com os tópicos a que Furetière concedia particular destaque, e que justificavam a ênfase nas ciências e nas artes.

As diferenças principiam com os domínios reunidos em iii), que no Dictionaire

Universel têm um tratamento muito modesto. A sua presença destacada no Vocabulario

pode ser classificada como uma herança da tradição erudita humanista, já que representam um tipo de informação valorizada pela lexicografia latina. É o caso da terminologia relativa à reflexão filosófica e teológica, «aos Dogmas, & materias concernentes â Fê, &

236 Alguns dos termos nem se encontram na nomenclatura do Vocabulario (dendrologico,

hierologico, lithologico, por exemplo), o que explica a preocupação do lexicógrafo em descodificar

os adjectivos seleccionados, no prólogo «Ao leitor impertinente» (Voc., I).

237 Supp., I: «Ao leitor pseudocritico». «Se assim como nos permitte o idioma Portuguez, que

digamos Aulico, Architectonico, Bellico, Florifero, Fructifero, Nautico, Numerico, Syllabico, &c. aos Francezes lhe dera o seu idioma faculdade, para dizer Aulique, Architectonique, Florifere, Fructifere,

Nautique, Numerique, Bellique, Syllabique, &c. quem estranharia, que usassem destes, e outros

pontos de Religião; â Logica, ou Dialectica [...] a toda a Theologia Escholastica, & Positiva». A mesma tradição justifica a recolha dos termos que codificam a dimensão estético-retórica da linguagem: o Vocabulario é filológico porque «nelle se explicam vozes Grammaticaes para a propriedade, & elegancia da locuçam, termos de Poesia vulgar, & Latina, & tudo, o que pertence a Humanidades, & amena litteratura»; é simbólico pela informação relativa a «motes, devizas, Emblemas, Jeroglyphicos, & Symbolicas imagens»; é retórico «porque traz os nomes de todos os tropos, & figuras da Rethorica»238

.

No grupo iv), sob a designação de registos, encontra-se a distinção entre os extremos na gradação dos “níveis de língua” admitidos na nomenclatura: o áulico, «palavras proprias dos Palacianos, officios, & manejos da Corte», e o cómico, «palavras chulas, rifoens, & annexis do vulgo, proprios de comedias, & farças»239

. Por fim, em v), os estrangeirismos, realçando em especial o léxico introduzido por via dos contactos com o Brasil e a Índia. Neste grupo considerou-se também o epíteto «neoterico», associado pelo autor às «palavras novamente introduzidas no idioma Portuguez», o que inclui os termos estrangeiros que o uso admitiu.

Os restantes epítetos não remetem para as características da nomenclatura, mas para o tratamento dicionarístico que é concedido às unidades lexicais. Uma vez descodificados pelo autor, os termos aproximam-se do que actualmente se designa por categorias de informação240

:

(2) tratamento metalexicográfico e metalinguístico

Critico «he Critico, particularmente no uso de algumas diçoens latinas, cuja significaçam he ambigua»

Etymologico (não comenta)

Homonymico «expoem todo o genero de Equivoco»

Isagogico «neste [dicionário] se definem, & explicam todos os termos, que introduzem ao conhecimento de todo o genero de sciencias, & doutrina»

Laconico porque « hum bom Diccionario, breve, & substancialmente trata de tudo.»

Ortographico (não comenta)

Syllabico «Sobre as palavras, que podem causar embaraço na pronunciaçam, hâ sinaes»

Synonimico «ou vozes, que, aindaque diversas, significam o mesmo» Romano «porque traz o latim, lingoa propria, & natural dos Antigos

Romano»

238 Voc., I: «Ao leitor impertinente». 239 Ibidem: loc. cit.

Bluteau enumera categorias de informação de tipo linguístico, referentes à etimologia, prosódia, sinonímia (relação com outras unidades lexicais), ortografia, marcas de uso (estilísticas), tradução (relação com unidades lexicais de uma língua segunda, o latim). Por sua vez, os termos lacónico e isagógico aludem às características da definição de um dicionário universal, que deveria conjugar a brevidade com a necessidade de explicar a substância e «introduzir ao conhecimento», o que pressupõe uma informação extralinguística de tipo enciclopédico241

.

E foi precisamente a valorização das informações que complementavam a definição que motivou o sucesso editorial dos dicionários universais em França. Quando, a propósito do Vocabulario, Bluteau afirma que «tem este livro respostas promptas, & correntes para tuas duvidas. Primeiro te cançaràs tu em buscar, & perguntar, que elle em apontar, & responder»242

, não se restringe à questão do significado. No seu entender, a perfeita compreensão do significado já não dispensava as informações adicionais, que faziam do dicionário uma obra tão útil e instrutiva, quanto os livros de onde as notícias haviam sido retiradas. O teatino apresenta o dicionário como o índice de uma biblioteca, não porque descodificasse a língua escrita, mas porque era uma súmula autorizada do conhecimento nela contida:

[…] e assim para a intelligencia de todo o genero de palavras, hum bom Vocabulario he hum Indice de todos os Indices de huma grande Livraria; he hum thesouro, em que se acha junto, o que anda em muitos cofres dividido; he a ucharia dos pastos do entendimento, a guardaroupa das sciencias, o armazem das noticias, e o banquete universal de toda a sabedoria.243

O dicionário universal é um instrumento facilitador, que não pretende acrescentar nada que não tenha sido dito por outra autoridade, seja ela um dicionário, um autor clássico ou o mais actual tratado científico. A prova da erudição e competência do lexicógrafo reside na qualidade da compilação, seleccionando e transcrevendo com fidelidade as notícias mais relevantes. Assim, porque confia na autoridade da tradição invocada, o leitor do dicionário aprenderá com mais facilidade do que se recorresse aos textos originais.

[…] porem com a pratica deste vocabulario, aprenderàs sem trabalho, e alcançaras sem estudo, o que grandes Mestres, & famosos cathedraticos ignorão: sem tomar delles postilla, entenderâs os

241 Não se incluiu em nenhum dos grupos os epítetos qualitativo, quantitativo e quidditativo, cujo

significado o lexicógrafo não esclarece de forma inequívoca (cf. Voc., I: «Ao leitor impertinente»). A interpretação mais plausível é que se relacionem com a nomenclatura, que incluiria os nomes que significam quantidades, qualidades e essências.

242 Voc., I: «Ao leitor douto».

termos, com que se explicaõ; e juntamente lhes poderâs ensinar muitos, que elles ignoraõ. Em todas as artes fallarâs, como Mestre; & como jubilado, em todas as sciencias; poderâs seguir, & proseguir os discursos dos mais scientes, em todas as faculdades te darâ a tua erudição, com que sustentar a pratica, & com o commercio das letras, em toda a Região escolastica faràs escala244.

Nesta ambição de uma síntese do conhecimento — por enquanto desestruturada e pouco crítica — reconhecem-se as origens imediatas da Enciclopédia, mas o modelo acumulativo permanecerá em toda a primeira metade do século XVIII.