A tipologia do nosso projeto, assim como a sua temática, teria obrigatoriamente de privilegiar a auscultação dos principais visados e interessados nas Visitas de Estudo – os alunos. Desta feita, considerámos fundamental recolher alguns dados através da técnica do questionário.
Torna-se já quase um lugar-comum, neste tipo de conjuntura analítica, trazer à liça as palavras de Ferreira, quando o autor afirma que a ação de pesquisa se expressa no ato de perguntar (1989, p. 165). De facto, a pergunta é a força motriz para a criação de conhecimento. Sendo nosso desiderato perceber o modo como as Visitas de Estudo são percebidas, vivenciadas e refletidas pelos alunos, tornou-se imperioso utilizar o questionário. Sendo este instrumento de recolha de dados passível de ser definido como uma “técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevados de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas” (Gil, 1999), foi nosso objetivo com a sua utilização transfigurar em formato de dados a informação que cada sujeito nos forneceu de um modo direto (Tuckman, 2000).
Cientes do tipo de informação que queríamos recolher, tivemos uma preocupação com a constituição de parâmetros fundamentais para este tipo de instrumento, de acordo com a leitura de Almeida & Freire (2003). Assim sendo, tivemos em consideração os seguintes quatro vetores: “(i) âmbito e objectivos do instrumento a construir; (ii) população
a que este se destina a prova ou contexto de observação; (iii) característica ou dimensão a avaliar (construto); e (iv) aspectos comportamentais a integrar e que explicitam o construto” (Almeida, & Freire, 2003, p. 122).
Desta feita, no contexto do nosso estudo foram elaborados questionários que privilegiaram perguntas abertas, fechadas e de escolha múltipla. Não obstante, podemos afirmar com certeza que a tipologia de perguntas que mais acolheu fortuna nos nossos questionários foram as perguntas abertas, apenas limitadas a um espaço físico atribuído por uma caixa, evitando assim que os alunos entrassem em desnecessárias digressões. Tendo em consideração que gostaríamos de reter dos alunos as suas representações sobre as visitas de estudo, bem como as suas vivências e experiências, consideramos que cada grupo de alunos, da disciplina de Espanhol e da disciplina de Português, teriam de ser interrogados em três momentos distintos: antes da Visita de Estudo que organizámos, com o sentido de perceber o entendem este conceito; durante a própria Visita de Estudo em que participaram, para compreender o modo como estavam a vivenciar a atividade; finalmente, após a Visita de Estudo, num exercício de reflexão sobre ela, tentando entender que diferenças os alunos sentiram entre as experiencias anteriores e a Visita de Estudo implementada. Nesse sentido, apelidamos os questionários da seguinte forma:
1) questionários a priori – realizados antes da Visita de Estudo por nós organizada;
2) questionários in tempus – realizados durante a Visita de Estudo, no espaço exterior à Escola;
3) questionários a posteriori – efetuados depois da Visita de Estudo, com uma décalage temporal de uma semana, possibilitando assim alguma reflexão e amadurecimento das ideias, mas evitando o esquecimento de aspetos importantes.
Sufragando os pressupostos de Pardal & Lopes, o questionário tem sido a técnica de recolha de dados que mais fortuna tem tido no contexto da investigação sociológica, constituindo uma forte opção dos investigadores desta área devido ao facto de ser um “instrumento de recolha de informação, preenchido pelo informante”, conseguindo afiançar, “em princípio, o anonimato, condição necessária para a autenticidade das respostas” (2011, pp. 73-74). De facto, o nosso objetivo de estudo sempre teve por substrato uma tentativa de recolha fidedigna, em que o aluno não se sentisse exposto
quando desse a sua opinião, permitindo-lhe expor autenticamente as suas apreciações e conceções sem se exibir, facto que o poderia inibir ou condicionar (Gil, 1999, pp. 128-9). Consideramos também pertinente, a bem da não coação dos participantes e da autenticidade das suas respostas, a utilização do questionário porquanto este é constituído por uma série ordenada de perguntas que deverão ser respondidas por escrito sem a presença de um entrevistador (Marconi, M. & Lakatos, 1982). Como tal, este fator é a garantia de que todos os participantes recebem a pergunta com a mesma formulação e pela mesma ordem, certificando-se assim que o modo como a matéria é abordada é uniforme para todos os participantes no estudo. Visando a comparação futura das respostas construídas pelos inquiridos, o facto de as perguntas serem colocadas a todos da mesma forma, sem esclarecimentos adicionais ou até mesmo adaptações, concorre para um maior rigor analítico de cotejo (Ghiglione, R. & Matalon, 1993). Conscientes de que este é um fator muito importante, não negligenciamos que a uniformidade dos questionários, assim como a sua impessoalidade, possa ser fictícia, na medida em que a interpretação das perguntas depende dos inquiridos, podendo com isso toldar a almejada uniformidade (Selltiz, C., Jahoda, M., Deutsch, M., Cook, 1965).
Tendo nós exposto que, no presente estudo, submetemos os inquiridos a três momentos distintos de questionamento (a priori, in tempus e a posteriori), todos os questionários foram elaborados com o escopo de obter resultados credíveis. Perspetivemos, assim, cada um desses momentos isoladamente. Sabendo que as nossas preocupações se vinculam tanto à disciplina de Português como à disciplina de Espanhol, no primeiro momento de inquérito antes da Visita de Estudo que realizámos nestes dois contextos, queríamos perceber que representações tinham os inquiridos sobre este conceito em particular. Como tal, ambicionávamos perceber se os alunos costumam viajar per se, a frequência com que o fazem, o modo e com quem o fazem. Paralelamente, apartando-nos do conceito de viagem lato sensu, neste mesmo questionário procura-se entender em que anos de escolaridade estes alunos tiveram mais experiências de Visitas Estudo, bem como as áreas curriculares que mais as propiciam. Por último, quisemos perceber, antes de qualquer contacto com os alunos do âmbito do projeto, quais as características que eles consideram fundamentais numa Visita de Estudo para que esta possa atingir os seus objetivos, indicando pontos problemáticos, elementos de ligação entre este tipo de atividade com as aulas, atividade de educação formal.
Após este primeiro momento de inquirição, que serviu inclusivamente para limar alguns componentes na organização e elaboração das duas Visitas de Estudo implementadas – daí ser concebido como a priori da aplicação das atividades – os discentes foram auscultados num segundo momento: in tempus, durante o decurso de cada uma das Visitas de Estudo (Salamanca e Lisboa/Sintra). Desta feita, requeria-se que os alunos, durante o desenvolvimento da atividade, dessem conta de alguns elementos de vital importância para o estudo, como por exemplo identificação dos motivos que os levaram a participar na iniciativa; elementos positivos e negativos identificados na organização da Visita de Estudo; de que forma pensam que esta contribuiu para o desenvolvimento de competências (conhecimentos, atitude,...); ou ainda comentar que contributo dialógico poderá ter este tipo de atividade com as aulas dentro do espaço escolar intra muros. Como tal, foi nosso propósito recolher as reações “quentes” e “humanas” dos alunos relativas às atividades organizadas, sem qualquer tipo de filtros ou de véus lenitivos que toldassem racionalmente as suas opiniões.
Epitomizando o processo de questionamento individual, os alunos foram submetidos a um terceiro tempo, a posteriori, onde lhes foi solicitada, com uma semana de intervalo em relação à realização da Visita de Estudo, informação da sua reflexão. Em dinâmica interlocutória com o momento anterior, queríamos alcançar uma leitura mais ponderada dos alunos, após a reflexão e diálogo que todos tiveram, no sentido de compreender e analisar a atividade em relação a anteriores experiências. Nesse sentido, demandámos compreender alguns elementos: se os alunos sentiram um aumento ou uma diminuição dos seus conhecimentos com a participação na Visita de Estudo; se estabeleceram relação entre os conteúdos trabalhados em contexto de sala de aula e as temáticas abordadas na Visita de Estudo; tentar perceber de que modo os alunos perspetivaram a sua relação com os demais colegas e professores que na Visita participaram; perceber se os alunos concebem a rua como laboratório de línguas e culturas; por último, compreender se eventualmente notaram diferenças metodológicas e procedimentais entre a Visita de Estudo em que participaram e as anteriores que até aqui participaram.
Perspetivando a elaboração dos inquéritos de um modo mais técnico, para a obtenção dos nossos objetivos, foram utilizados vários tipos de questões: perguntas de escolha múltipla, perguntas de resposta aberta, com vista a uma análise do tipo qualitativo.
Conquanto este tipo de perguntas possa influenciar o investigador aquando da sua análise, elas dão azo a que o inquirido possa responder de um modo explicativo ou esclarecendo com mais propriedade o seu ponto de vista. Porém, em atitude profilática, evitando desnecessárias divagações, as perguntas de carácter aberto estavam limitadas a um espaço de escrita, onde o respondente teria de se circunscrever. Ultimando, podemos asserir que, no presente estudo, foram acauteladas todas as vantagens e desvantagens da utilização do questionário, facto que implicou uma construção refletida das questões, uma meditação sobre o tipo de resposta pretendido, para que os dados fossem consecutivamente trabalhos de acordo com os pressupostos ambicionados.