“Fiéis fazem fila para ver o Bispo”, “Agricultores nordestinos param de comer, ampliando o apelo iniciado por Dom Luiz Cappio”, “Grupo faz Jejum para apoiar bispo”, “Vigílias e Protestos mobilizam Salvador”, “Seguidor de São Francisco”, “Procissão Fluvial em Barra”, “Se for preciso, a gente dá a vida”, “Vigília de Orações em Apoio ao Bispo”, “Vigília ganha força nas igrejas de Salvador”, “Católicos, evangélicos, comunidade do país se mobilizam pela preservação do rio”, “Dom Luís concede a bênção na capela do São Francisco”, “Nem só de pão vive o homem”.
Nas legendas das fotos, nas chamadas das capas, nos títulos e intertítulos, enfim, por onde quer que se aborde a cobertura feita pelo jornal A Tarde sobre a greve de fome tem-se a nítida compreensão de que o foco central foi mesmo a luta heróica do bispo Dom Luis. Nessa perspectiva não se pode deixar de estabelecer essa categoria de análise para tentar compreender a construção do personagem Luís Flávio Cappio e o que isso implica na limitação da cobertura. Como ocupou boa parte da discussão, garantindo uma enorme visibilidade para a sua luta e para, de certa forma, os dramas do semi-árido, é muito interessante perceber como a sua trajetória e sua reivindicação política ganhou contornos próprios na cobertura. Muito curioso porque reúne parte considerável do que vinha sendo debatido, como a questão da religiosidade, da participação popular, do enfrentamento político, da disputa entre os saberes, etc.
Herói, mártir, idealista. Não poderiam existir muitas outras definições capazes de dar conta da trajetória do Bispo a partir da construção feita pelos meios de comunicação. Faz parte da nossa constituição enquanto sociedade capitalista ocidental assentar a crença de que o individuo é capaz de dar conta da superação dos próprios problemas através das próprias ações. Faz parte da nossa constituição social destituir das organizações e ações coletivas a capacidade de emancipação popular, de transformação da realidade.
Historicamente, a formação moderna, como se viu na fundamentação, tem depositado sua essência em cima do sujeito (KANT, 200l); DESCARTES (2006). É o sujeito responsável pelas definições e rumos que um determinado grupo ou sociedade possa ter. Assim, mesclando-se com os próprios valores liberais em franco processo de ascensão frente a emergência de um novo paradigma, a valorização do indivíduo se
fincou com peça chave no fortalecimento de um povo. E o seu grau de liberdade é o que tem balizado os avanços e retrocessos de uma nação.
Nas sociedades capitalistas ocidentais, a ideia de grupo, de coletivo organizado sempre causou incômodo. O coletivo é visto como inoportuno porque tem potencial para provocar a ordem, que é tão necessária ao bem-estar das relações produtivas. Nesse sentido, as referências aos indivíduos, ao seu culto enquanto sujeito capaz de mudar o rumo das coisas tem sido hegemônica na sociedade. O tempo todo precisa-se de modelos, de sujeitos padrões, dos heróis, dos idealistas/altruístas. Quando numa sociedade capitalista há carência disso, pode ser um sinal de seu próprio enfraquecimento.
O próprio sertão nordestino já vivenciou experiências similares, embora com muitas controvérsias e adversidades. A figura de Lampião, de Maria Bonita e de Padre Cícero, como verificadas no capítulo 2, representam, de certa maneira, a heróica resistência do sertanejo diante da brutalidade do meio. Isso porque em seus momentos conseguiram traduzir significativamente os dramas e anseios do povo em força política, em poder de pressão. Mesmo quando as causa são coletivas, há uma necessidade, própria da nossa formação discursiva: a de valorizar um indivíduo, a colocá-lo a frente da causa. Foi assim, por exemplo, que se construiu, nos meios de comunicação, a imagem de Obama durante a sua campanha de sonhos. (CAMARA et al, 2009)
No sertão, isso assume contornos bíblicos com uma força assombrosa. Fato que não é da ordem do acaso, mas da história. O esquecimento do sertão e a possibilidade de encontrar saídas nas intervenções divinas é o que tem assegurado as suas crenças e a sua religiosidade. No caso do bispo, como se verificou na cobertura, houve um renascimento desses aspectos. Não só uma tentativa clara de transformá-lo num herói como também em mistificá-lo pelas características religiosas. Até mesmo a história de Dom Luís parecia confundir-se com a vida do Rio, uma vez que sua ida para aquela localidade foi como uma “inspiração divina”
Nem familiares nem religiosos que acompanham o frei Luís Cappio – desde quando chegou em Barra-BA, em 1974- sabem explicar ao certo o que o levou até o município de Barra, nas margens do Rio São Francisco, local em que reside há 31 anos e que tem o santo como padroeiro. „Foi uma inspiração divina‟, disse o padre João de Deus de Souza, que o acompanha há 24 anos. (...). São Francisco de Assis, o santo homenageado hoje, que faleceu no ano de 1226, era defensor dos pobres, vivia com eles e fdicou conhecido na história bíblica como protetor da natureza. Outra atitude do santo, que inspirou Frei
Luís, foi ter largado a família rica para seguir a vocação missionária, apenas com a roupa do corpo. Foi o mesmo a que se propôs o bispo de Barra quando deixou a cidade paulista e optou pela vocação religiosa (SEGUIDOR de São Francisco. Jornal A Tarde, 2005, p.3)
Nascido no próprio dia quatro de outubro, dia de São Francisco, e dia em que o Rio comemora sua descoberta, Dom Luis foi rapidamente sendo construído como uma figura profética, capaz de resgatar os profundos laços religiosos e crendices do povo sertanejo. Não por acaso que toda a mobilização política travada se converteu rapidamente numa peregrinação. Todo debate necessário para avaliar os impactos da transposição foi convertido no apoio ou não a atitude do Bispo.
Fundamentalmente, as matérias foram construídas de modo a fomentar e sedimentar a imagem do povo sertanejo e de sua fé mesmo convivendo com os flagelos sociais. Há toda uma ambientação do cenário e um acréscimo de emoção nos relatos. É o caso da seguinte matéria.
Um céu de nuvens cinzentas encobria a modesta Capela de São Sebastião, ontem, por volta das 7 horas da manhã, no Sítio Bela Vista, em Cabrobó. (...) „Valemos o que realmente somos diante de Deus. Nem mais, nem menos”. As palavras do frei Luiz mantinham atentos os olhares consternados dos 40 fiéis presentes, ontem, aos louvores matinais, ato que vem acontecendo diariamente. (GOMES, M. Bispo ganha adeptos à greve de fome. Jornal A Tarde, 2005, p.4)
Semelhante construção acontece em relação a fé no dia do aniversário do bispo:
Apesar de ser um dia de festa , este ano não terá a mesma alegria dos anteriores. „A gente sente o semblante triste das pessoas, preocupadas com a situação do bispo dom Frei Luís Flávio Cappio‟, segundo o padre Narciso Espírito Santo, vigário da catedral. „Teremos momentos de oração para que Deus dê forças ao bispo e ilumine a consciência de quem toma as decisões neste país‟. A comunidade local está, desde a semana passada, movimentando-se em atos públicos de cunho ecumênico se manifestando contra a transposição” (GUEDES, Miriam. Procissão Fluvial em Barra. Jornal A Tarde, 2005, p.3)
A Tarde foi construindo sua narrativa no intuito de deixar instigado o leitor a saber como o Bispo tem suportado essa situação e até quando ela iria durar, caso as obras não fossem suspensas. Essa tensão, própria de um enredo conflituoso, matinha assim a fidelidade de quem lia, uma vez que deixava o final da trama completamente imprevisível e sem solução aparente. Nesse sentido foi também projetada um espécie de
devoção a esse homem bravo, que, aos poucos, adquiria características típicas dos santos católicos. E se perpetuava a ideia de peregrinação, das caravanas e dos romeiros, bem característico do povo sertanejo.
A cada hora que passa, aumenta a quantidade de pessoas que chegam à Capela de São Sebastião para prestar votos de solidariedade (...) Uma senhora que não quis se identificar pediu-lhe a benção: “O senhor está lutando por nós‟, disse, enquanto era abençoada”. A própria ideia do jejum parece ser tratada dentro dos parâmetros bíblicos e não da luta política radicalizada: “O bispo lembrou que sempre que Jesus tinha que tomar grandes decisões, ele fazia jejum e rezava.” (FERREIRA, C. Nem só de pão vive o homem. Jornal A Tarde, 2005, p.7)
Assim é compreensível que para produzir esse discurso como verdadeiro, a cobertura precisou se valer dos valores culturais hegemônicos da sociedade, especialmente, aqueles referentes a religião e, no caso, ao próprio indivíduo. Não é a toa que a luta dos movimentos sociais, a luta campesina e popular travada há tempos naquela região se transverteu rapidamente na batalha de um só homem. E de um homem com todas as características necessárias para provocar apelos da ordem divina.
Além disso, o ambiente torna-se favorável a essa abordagem. Trata-se de um religioso e, historicamente, sabe-se da força que o catolicismo tem nas comunidades brasileiras, especialmente, as do interior sertanejo. Esse cenário desdobra-se costumeiramente num retrato da fé, da perseverança, da obstinação.
A cada metro percorrido, o ato ganhava a adesão de famílias de agricultores que moram nas localidades próximas à estrada. Alguns seguravam o terço nas mãos, todos cantavam, rezavam. A procissão foi puxada por um crucifixo e teve apoio de caixas de som. „Vim aqui para ver se Deus nos ajuda. E para dar uma força ao bispo‟”(FERREIRA, C. Velho Chico ganha novos defensores. Jornal A Tarde, 2005, p.10)
E, dessa forma, não se pode fugir da concepção do sacrifício que tem permeado a história do cristianismo há, pelo menos, 2000 anos. Oferecer-se em nome de um ideal supremo e coletivo é uma das saídas freqüentes na história da humanidade. Basta resgatar os mártires. O Ocidente, de certa forma, admira os seus heróis e a suas lutas, desde que atendam a certo projeto de sociedade e, que evidentemente, venham carregadas de uma boa dose de romantismo. Esse quesito foi preenchido pelo ato de Dom Luis. A sua declaração inicial, que deflagrou o começo do jejum, foi intitulada de “Um vida pela vida”.
O sacrifício, para existir, precisa de reconhecimento social. E reconhecimento social passa, nas sociedades contemporâneas, pelos meios de comunicação. O A Tarde garantiu essa abordagem, como se atesta em diversas passagens e relatos.
Fiéis e moradores dos municípios formaram filas durante todo dia para cumprimentá-lo. „Trouxe minha filha para prestar uma homenagem a ele, pelo sacrifício que está fazendo por nós”, disse a agricultora Lidiane de Souza Santos, que entrou na capela com um bebê na mão de um mês nos braços, a pequena Keila Liandra Souza Sílvia. (FERREIRA, C. Fiéis fazem fila para ver o Bispo. Jornal A Tarde, 2005, p.3)
Na mesma matéria, outro retrato da fé e do sacrifício. Um homem que, supostamente teve um derrame há menos de 24h por conta da leucemia, entrou na Capela “capengando, apoiado por uma bengala”, para somente falar com o Bispo. Por todos os lados, havia sempre um jogo teso entre a vida e a morte. De forma tão intensa que, às vezes, essa relação mescla-se entre o rio e Dom Luis. A derrota de um implicaria a morte do outro (vice-versa). Ele era mo homem que “se por um lado tem os olhos fundos e debilitados revelando a face implacável da fome, por outro, a firmeza nas palavras traduz a convicção de uma mensagem fincada na fé” (Jornal A Tarde, 2005).
A suspensão do jejum de 11 dias só aconteceu quando Jacques Wagner, então Ministro das Relações Institucionais, conversou pessoalmente com bispo e ofereceu a possibilidade de reabrir os canais de diálogo sobre o Projeto com toda a sociedade. Esse passo, evidentemente, não implicou no arquivamento do projeto, tal como queria o Bispo ao iniciar o protesto. Além disso, Wagner trouxe a mensagem de Lula prometendo liberação imediata de recursos para a Revitalização e novos estudos sobre os impactos da obra.
A narrativa, na realidade, não teve um desfecho porque o impasse prosseguiu. Mas para a cobertura, a solução atendeu as expectativas possíveis, posto que, a priori, naquele momento ninguém saiu perdendo ou mesmo morto. A decisão final, como se veria mais tarde, recaiu sobre o Supremo Tribunal Federal, que sob fortes acusações de subserviência ao Executivo, autorizou a liberação das obras. E, dessa forma, o sonho do governo imperial ironicamente se realizou no governo operário.