• Aucun résultat trouvé

4. PRACTICES, EXPERIENCE AND LESSONS LEARNED

4.2. Case studies on process monitoring

Se de um lado a relação entre o homem e a natureza passou incólume diante da cobertura, processo semelhante acontece quando se atenta para os confrontos do discurso científico /ambiental, com o discurso oficial. Para manter certa coerência na produção dos seus discursos, e, no seu próprio regime de verdade, sustentado na crença da isenção, neutralidade, poucos questionamentos ao discurso oficial são feitos. Mesmo porque, como já foi relatado, a construção de uma narrativa em cima de um único sujeito e não em torno do confronto da transposição auxiliou no apaziguamento das opiniões na própria apresentação desses saberes.

Antes de analisar a questão do saber científico/ambiental e do choque com o discurso oficial, do governo federal, por meio do Ministério da Integração, caberia abrir um ponto de discussão para o enfoque dado ao saber popular. Retoma-se Souza Santos (1989, p.31) para lembrar que a ciência moderna, insere-se nesse bojo o conhecimento jornalístico por conta das similaridades e interações apresentadas na fundamentação, construiu-se a partir de um enfrentamento, o do senso comum. Considerou-o como falso, superficial e ilusório. Atacou o senso comum porque pertence ao reino da banalidade, da opinião meramente aceita, do conhecimento vulgar e da experiência imediata.

Foi a partir dessa premissa que o saber tradicional é subjugado, desvalorizado e deslegitimado pela sociedade e pela própria cobertura, por aquilo que identificava como importante e necessário. Ora, a participação e opinião popular, dentro de uma hegemonia que privilegia o local de fala de uma determinada elite, sempre foram vistas

como desnecessárias e inoportunas. Foi sobre essa linha que o Jornal A Tarde assentou sua reconstrução do saber popular. Especialmente, como foi destacado no capítulo 2, porque o seu local de fala é claro: urbano, litorâneo e fruto de um grupo historicamente privilegiado em relação à comunidade do interior do país.

Houve uma nítida desvalorização do conhecimento das comunidades tradicionais face aos dados estatísticos e às vozes dos especialistas. O povo foi representado como aquele que tem muita fé no milagre divino, mas que pouco sabe. Como aquele que não tem condições de dizer nada, para além, de sua demonstração explícita sobre o desconhecimento do Projeto e sua capacidade de ser engabelado para os interesses políticos de Brasília.

Apesar de o gesto extremado dom Luiz Flávio Cappio ter repercutido em todo o país e até em outros países, aquecendo a discussão em torno das implicações ambientais e sociais que o projeto de Transposição do Rio São Francisco irá causar, a população de Cabrobó apóia o projeto. (...). Josué Lima dos Santos, 30 anos, é também um pequeno produtor rural, mas se sente confuso ao opinar sobre a transposição do Velho Chico. „Eu estou confuso. Não sei mais quem está certo ou quem está errado, cada um diz uma coisa. Não sei dizer se sou a favor ou contra‟, comentou”. (GOMES, M. Sertanejo não compreende projeto. Jornal A Tarde, 2005, p.10) Como conseqüência desse fato, de ver, de um modo generalizado o povo sertanejo a partir do estranhamento, da subjugação, da superioridade sociocultural, coube ao sertanejo, na cobertura, ser representado tão somente como o homem de fé, o que, necessariamente, remonta ao atraso. O povo sertanejo é aquele que espera o milagre da água, que espera por dias melhores, que, enfim, traduz com veemência a ideia de que o sertão vai virar mar porque há uma força divina capaz de dar conta disso. Só como exemplo, podemos mencionar a matéria subseqüente.

Ao chegar sítio onde está a capela, sob um sol do dia mais quente desde que o bispo iniciou a greve, mulheres que seguravam galhos benzeram as águas do São Francisco. Índios de diferentes etnias e estados, acampados no local desde anteontem à noite, também dançaram o toré (dança indígena em louvor à vida e as divindades). Entre as comunidades indígenas presentes, estavam Kariri Xocó (AL), Xukuru de Ororubá (PE), Tumbala (BA), Capinawa (PE), Pipipan Kambiwa (PE). (FERREIRA, C. Dom Luís perde força e ganha Adesão. Jornal A Tarde, 2005, p.4)

O que interdita claramente essa representação construída pelo jornal, que relega o sertanejo a papéis quase folclóricos, é o fato de que o próprio povo se constituiu com

um dos principais críticos ao projeto, os que mais estudaram e se fundamentaram para contrapor-se às falas oficiais. Não foi a toa que os movimentos sociais que se estruturam no sertão e o próprio Comitê da Bacia têm uma vertente popular inquestionável. Sem contar na Comissão da Pastoral da Terra responsável pela mobilização e politização popular, através de encontros sistemáticos para discutir o semi-árido.

Foi também nesse sertão que pouco sabe, que nada entende, que está a margem dos avanços do mundo, em que se encontram grandes centros de pesquisa e pólos de desenvolvimento responsáveis por impulsionar a vida do seu povo. Evidente que o desconhecimento do projeto é gigantesco o que, necessariamente, precisaria ser visto como um impasse para a sua própria execução. A essa colocação, pouco se fala. Ainda na matéria, mencionada anteriormente, além de vitimizar o sertanejo constrói-se um personagem digno da literatura de Graciliano: o bruto. Os personagens apresentados na matéria, as fontes escutadas parecem sempre muito distante da realidade concreta do Projeto. E, por desconhecerem os seus impactos, sempre caem no impressionismo e na reprodução das opiniões alheias, geralmente oriundas das pessoas ditas entendidas.

Como prefeito, Mário Barros (Cabrobó), acredita que a obra irá trazer benefícios à cidade com a injeção de verbas, que serão destinados ao saneamento básico, saúde, segurança e geração de mil empregos diretos e quatro mil indiretos temporariamente. (GOMES, M. Sertanejo não compreende projeto. Jornal A Tarde, 2005, p.10) Dialogando com essa construção do povo sertanejo também se verifica semelhante processo na matéria “Ribeirinhos desconhecem Transposição”. Apesar da honestidade em mostrar que de fato existe desconhecimento, tratou de suprimir o conhecimento popular, não deixando dúvidas de que aquela população ao depositar alguma fé na melhora de suas vidas, deixava-se levar pelo oportunismo político.

O lavrador Antônio Isidório de Souza, 61 anos, dono de 41 hectares de terra na localidade de Riacho de Anjico, dentro da Fazenda Tucutu, na margem da BR-428, que é opostaa ao trecho onde o rio passa, só consegue água para beber no local por conta dos caminhões pipa enviados pela prefeitura. „Como a gente pode ser contra um projeto desses‟, questionou. (...) Joaquim Souza, proprietário de uma área vizinha, que defende a todo custo a realização das obras. „Eles disseram que o riacho vai ficar com água. Se isto for verdade, vai ser bom”, disse Joaquim, referindo-se as informações obtidas através de um noticiário da TV Globo”. (FERREIRA, C. Ribeirinhos desconhecem Transposição. Jornal A Tarde, 2005, p.3)

Em nenhum momento o saber historicamente acumulada pelas comunidades, no que se refere à própria vida ribeirinha e sua capacidade de aproveitamento, foi levantada. O que o povo pensava não teve validade considerável perto do que ele desconhecia. E o que ele desconhecia era uma mundo de coisas, dados e explicações cujas respostas podem ser fornecidas por especialistas, pelo governo e por quem entende de transposição. Esse ponto tem muita relação com o que o Leff (2001) pensou sobre o saber popular. Para ele, o reconhecimento social e a legitimidade do saber acumulado durante séculos pelas comunidades é parte indissociável para pensar uma sociedade ambiental. É também esse reconhecimento necessário que propõem Souza Santos (1989) ao sugerir que o saber popular seja a ferramenta capaz de, junto com o saber científico, fundar um novo paradigma social.

Por outro lado esse pressuposto de superioridade não se desnudou quando as fontes científicas são ouvidas. Muito embora, o uso dos especialistas para explicar a questão ou mesmo para interpretá-la à luz dos dados oferecidos pelo governo tenham aparecido com pouca força na cobertura, sua posição nunca foi confrontada. Para além disso, analisando essa relação ficou claro que o tratamento dado aos especialistas escutados, em gera da Universidade Federal da Bahia, como Yvonildes Medeiros ou Lafayete Dantas , é radicalmente diferente das representações construídas em torno do povo. A ciência/especialistas é mais legítima e tem espaço reconhecido socialmente.

Para Yvonildes Medeiros, engenheira civil com doutorado em recursos hídricos pela Universidade Federal da Bahia, a outorga concedida pela Agência Nacional de Águas é ilegal, já que os estudos de impacto ambiental que foram encaminhados pelo Ministério da Integração estão incompletos e incorretos. (BELEM, L. Transposição

só depende do IBAMA. Jornal A Tarde, out 2005, p.3)

A pesquisadora é a fonte do meio acadêmico que mais aparece durante toda a greve de fome do bispo. Desde o primeiro dia até o último.

Para a engenheira civil e PhD em recursos hídricos pela Universidade Federal da Bahia e membro do Comitê da Bacia do São Francisco Yvonildes Medeiros, não basta que o governo anuncie quem irá liberar recursos para a revitalização do rio. É preciso que o cronograma de ações esteja bem definido, com objetivos, diretrizes e estratégias, e que as ações sejam discutidas com a sociedade, para que possam ser monitoradas. (CRONOGRAMA de Ações tem de ser definido. Jornal A Tarde, 2005, p.11)

Na mesma edição, outra matéria dava conta dos debates no meio técnico especializado sobre a viabilidade das obras. Os pesquisadores foram escutados para se posicionarem sobre a transposição ou revitalização. Nenhum pergunta contraditória foi feita, somente declarações pontuais.

Um dos palestrantes foi o engenheiro civil Lafayete Dantas Luz, professor do Departamento de Engenharia Ambienta da Universidade Federal da Bahia. Ele avalia que o anúncio do governo federal da liberação de R$300 milhões por ano para serviços de revitalização do Rio São Francisco vai servir para quebrar resistências ao projeto de transposição das águas (...). Outro conferencista do evento, o ambientalista e engenheiro agrônomo e florestal Sebastião Pinheiro, disse que, além dos serviços de revitalização do rio, o governo deveria optar por um programa alternativo para incorporar a região Nordeste à bacia do São Francisco e de outras da região, com recursos do Banco Mundial para seqüestro do carbono com a ampliação da área verde. (NIKAS, R. Debate no Crea defende recuperação. Jornal A Tarde, 2005, p.11)

Evidente que a leitura do Projeto de Integração do Ministério da Integração é um tarefa árdua. Isso porque há um conjunto de termos técnicos, cálculos e dados que se cruzam para atestar a viabilidade da transposição, rebatendo os argumentos contrários com estudos e relatórios fundamentados na compreensão dos especialistas que trabalham para o governo ou para órgãos atrelados a ele. Os dados foram entregues ao leitor sem nem ao menos ter subsídios para que outras posições possam ser inferidas. Como, por exemplo, as falhas e lacunas apontadas pelos movimentos sociais, no capítulo 3.

Nesse sentido, revelou-se também a invisibilidade dada aos cientistas, em especial, os que se debruçam sobre as ciências humanas. Mesmo no caso das opiniões emitidas por engenheiros e pesquisadores ligados a centros de pesquisa, houve uma baixa expressividade das fontes especializadas. Sendo que aquelas utilizadas nos primeiros dias, se repetiram ao longo de toda a cobertura – o que a tornou naturalmente pobre (Caso já mencionado de Yvonildes Medeiros). Nenhum cientista, nacionalmente reconhecido, das áreas que envolvem o tema foi escutado para a composição das matérias. Os maiores críticos do Projeto partiram não somente dos movimentos sociais, que o vêem como um obra de caráter político voltada para os interesses do agronegócio, mas, sobretudo, das fontes científicas, ligadas às Universidades e demais centros de estudo. São pessoas que durante a vida inteira procuraram entender o semi-árido e a buscar alternativas para os problemas trazidos pelas longas estiagem.

Essa incapacidade do jornalismo do A Tarde de rebater com argumentos profundos o que foi dito pelos muitos atores políticos envolvidos no episódio se reflete com clareza na cobertura. O jornalismo reconstrói o que as fontes oficiais dizem, sem inserir nessa reconstrução a dúvida, a provocação, etc.

Na tentativa de vencer às resistências ao projeto, o Ministro [Ciro Gomes] deu uma espécie de aula aos jornalistas durante uma entrevista convocada para falar no assunto. Segundo ele, serão captados 26 metros cúbicos por segundo do rio para abastecer a população do semi-árido. Ele disse que esse volume de água é apenas para uso direto da população, não sendo permitida a utilização para projeto de empresas e programas de irrigação. A retirada de água, de acordo com o ministro, representa 1 % do que o rio joga no mar. De acordo com ele, os 26 metros cúbicos representam apenas 1,4% da vazão mínima do rio, que é de 1.850 metros cúbicos por segundo. Ele disse que poderá ser captado um maior volume de água, mas isso só acontecerá quando a barragem de Sobradinho, que fica no curso do rio, verter água. (GUEDES, G. Ciro Gomes critica os opositores. Jornal A Tarde, 2005, p.10)

A reprodução do discurso oficial puro foi sentida na primeira leitura pela quantidade de referências ao ministro. Houve um repasse dos dados oficiais do Ministério da Integração. O espaço ocupado pelo governo assumiu assim a hegemonia da cobertura em detrimento do ponto de vista da ciência e das comunidades – subjugadas a papéis figurativos. Foi exatamente o que o governo diz, o que o governo faz, o que o governo promete que norteou/dirigiu política e culturalmente a cobertura do jornal nesse episódio da transposição.

Além disso, em nenhum momento as alternativas propostas pelos movimentos sociais e pelos cientistas contrários ao projeto foram apresentadas. Para mencionar como exemplo, a construção de cisternas ou de novos açudes que teriam muito mais eficiência do que a obra proposta pelo governo. Quanto ao discurso oficial, embora a cobertura do Jornal tenha se mostrado relativamente nociva ao mundo político – no sentido de politicamente não defendê-lo, nem o projeto-, as informações repassadas pelo Ministério da Integração e outros órgãos foram reinterpretados a partir do meramente factual. Nessa perspectiva não se pode deixar de pensar nas fortes disputas políticas e a própria turbulência que o país atravessava, recém-saído dos escândalos do mensalão.

O A Tarde explora essas divisões políticas no que tange ao apoio ou não concedido a transposição evidenciando uma contradição histórica. Os partidos mais ligados ao conservadorismo, como a Frente Liberal, coadunaram com a posição dos

movimentos sociais, cujo apoio tradicionalmente recai sobre os partidos de esquerda, como o próprio Partido dos Trabalhadores (PT), defensor voraz do projeto. Assim foram escutadas fontes como Antônio Carlos Magalhães, César Borges e o governador da Bahia, Paulo Souto, que curiosamente eram vinculados a outro grupo de comunicação, principal rival do Jornal A Tarde. Foi também o caso do presidente Lula, que na década de 80 se utilizou da greve de fome na defesa dos direitos dos metalúrgicos. E esse confronto de Lula, também nordestino, com o bispo, é constantemente posto em destaque.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, em São Paulo, que o projeto de transposição não vai parar. Lula disse que acredita que o governo encontrará “um bom termo” para pôr fim à greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, iniciada há dez dias em protesto contra a obra (...). Para Lula, a posição do bispo é considerável (...). Para Lula, a grandeza do bispo é um dos fatores que o fazem acreditar num acordo que ponha fim ao protesto”.(BRANDT, R. Lula elogia „grandeza‟ do bispo, mas defende projeto. Jornal A Tarde, 2005, p.5)

Além desse foco, nota-se uma excessiva repetição nas falas dos políticos ouvidos pelas matérias. A exploração das divergências entre eles também iluminou parte considerável das abordagens. O Partido Liberal, por exemplo, que ocupava a vice- presidência da República, na pessoa de José de Alencar, apareceu como contrário ao projeto, através do deputado estadual Pedro Alcântara (PL).

O deputado vai encaminhar um documento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva informando-o de que pode ser responsabilizado criminalmente pela morte do bispo caso o religioso venha a morrer em conseqüência do protesto que realiza (...). Outra proposta levantada pelos deputados foi a visita de membros das comissões parlamentares Especial do São Francisco e de Direitos Humanos ao bispo de Barra, para prestar solidariedade e apóio a luta em defesa do Rio São Francisco. (OLIVEIRA, F. Tema é debatido na Assembléia Legislativa. Jornal A Tarde, p.4, 2005)

Interessante destacar esse ponto porque os atores políticos, que na era da comunicação de massa necessitam existir socialmente dentro dos meios de comunicação, conseguiram aproveitar a alta visibilidade do episódio. Naturalmente, numa nação democrática o poder público precisa justificar-se perante a sociedade (GOMES, 2005). No caso da cobertura do jornal A Tarde as visitas ao Bispo apareciam

dentro daquilo que é normalmente se espera – cobrir a visita do parlamentar. O que se sobressaiu nesse processo foi o fato de que cada ator envolvido expôs sua opinião livre de qualquer paradoxo, de qualquer controversa naquilo que diz. Declarações seguidas de declarações não necessariamente construíam uma informação.

Além dos parlamentares, houve espaço também para governo do Estado da Bahia. Quem também se destacou nesse sentido foi o secretário estadual do Meio Ambiente e presidente do Comitê da Bacia, Jorge Khoury. Jorge, na verdade, foi uma referência que atravessou toda a cobertura como crítico ferrenho ao projeto, apontando seus erros. Mais uma vez, foi concedida enorme visibilidade aos cargos políticos com algum poder de deliberação. Assim é que na matéria “Secretário vê distorção no projeto do governo”, ele foi praticamente a única fonte ouvida na composição de toda a matéria.

O secretário reafirma que o uso das águas do rio em outras bacias, só se justificaria em caso de escassez (...). Ele destaca o caso do eixo norte (...). Segundo ele, uma distorção do projeto deve-se ao fato de que o Estado do Ceará, um dos receptores, tem o total de 17 milhões de metros cúbicos de água armazenados, equivalente à metade do lago de sobradinho e que somente usa 25% deste volume (...). Já o eixo Leste, segundo ele, tem maior carência de água (...). (GOMES, M. Secretário vê distorção no projeto do governo. Jornal A Tarde, Salvador, 2005, p.6)

Da mesma forma, os adversários políticos do governo, contrários ao projeto, tiveram grande destaque durante período aparecendo de forma recorrente nas matérias, ao passo que do governo poucas colocações apareciam. Mesmo com o pronunciamento do presidente Lula em rede nacional defendendo a transposição e sua urgência para o desenvolvimento do Nordeste, condenando, por conseguinte, a greve de fome do bispo, poucos parlamentares declararam apoio público com veemência transposição. Mesmo os da base aliada. Isso indica não só desconfiança e desconhecimento do projeto, como também receio de gerar uma imagem negativa diante da resistência tida como heróica do bispo – uma espécie de negação aos ideais claros e altruístas de um homem desprovido de bens materiais e nutrido de generosidade para com o bem estar do seu povo.

Dos parlamentares escutados que ficaram indecisos ou não definiram posição clara do projeto se encontram Valter Pinheiro (PT), Jacques Wagner (PT), Zézeu Ribeiro (PT), José Sarney Filho (PV), Fernando Gabeira (PT), além de prefeitos de algumas localidades. Mesmo na base aliada, como no caso de Gabeira, hoje no PV, as

críticas ao projeto eram severas. Isso se evidenciou na matéria “Sinais de Apoio ao Projeto de Transposição”. Em alguns momentos, entretanto, os parlamentares parecem evocar o cerne da disputa em torno do projeto e lançam questionamentos à sociedade através do jornal. É o caso do deputado Yulo Oiticica (PT):

„O grande questionamento da transposição é: a que modelo de Brasil o projeto está servindo? Ele [o Bispo] está chamando atenção para isso‟. (FERREIRA, C. Velho Chico ganha novos defensores. Jornal A Tarde, 2005, p.10)

Tampouco parece claro que os jornalistas envolvidos soubessem com clareza, naquele momento, dizer quem se colocava incondicionalmente a favor do projeto. O foco central passou mesmo a ser do Ministério da Integração, que encabeçava a obra. O debate político em torno de quem defendia e de quem era contra, portanto foi muito forte. Embora, no caso, dos parlamentares da base aliada a situação poderia ficar mais acirrada caso fosse confrontadas as posições deles antes e depois de assumirem o governo federal. Em 2007, por exemplo, esse levantamento não é feito e Geddel Vieira Lima, hoje, Ministro da Integração, a época deputado federal, ferrenho defensor do projeto, não precisou explicar publicamente os motivos pelos quais mudou de opinião,