• Aucun résultat trouvé

Post Conflict Reconstruction and Development in Africa: Challenges and Opportunities

Nesta seção, veremos como a concretude das práticas de classe manifesta-se nas representações que os trabalhadores realizam da experiência da Makerli. Enquanto os gestores encontram o conteúdo da "autogestão" nas novas relações de propriedade e nos mecanismos de participação existentes, os trabalhadores confrontam estes aspectos formais com a persistência das relações sociais de exploração e a cisão que caracteriza suas práticas no processo de trabalho. Assim, se o discurso dos gestores sobre a "autogestão" desenvolve-se a partir de sua prática fundamental na esfera da realização da mais-valia, os trabalhadores formulam suas representações sobre a "autogestão" a partir de sua prática na produção dessa mais-valia. Veremos então como os trabalhadores, ao focalizarem as práticas desenvolvidas no campo da produção, impugnam a denominação de autogestão à experiência que vivenciavam e, ao fazê-lo, apontam os elementos constitutivos de uma prática autogestionária imaginada sob um ponto de vista de classe, sob a ótica da classe dos trabalhadores.

No primeiro capítulo, vimos que a transformação das relações de propriedade e o afastamento dos antigos proprietários produziu no imaginário dos trabalhadores determinadas expectativas sobre o funcionamento da empresa. Naquele momento, a perspectiva de transformarem-se todos em "donos" da empresa ofuscou as determinações estruturais de classe e permitiu uma aproximação ambígua entre trabalhadores e gestores. Essa integração entre os grupos sociais encontrou sua síntese na definição de "autogestão" como uma "fábrica sem patrão" ou "gerida pelos trabalhadores", formulações imprecisas o suficiente para escamotear a continuidade das práticas de classe no seu interior.

Enquanto expressão ideológica dominante na experiência da Makerli, essa definição de "autogestão" subentende a coesão social na empresa, de forma que integra-se ambigüamente ao conjunto de representações construídas pelos

trabalhadores sobre a experiência de "autogestão". Nesse caso, porém, a prática autogestionária imaginada pelos trabalhadores expressa-se como uma prática "suspensa", "frustrada"(73), manifestando as expectativas criadas em tomo da transformação das relações de propriedade e do afastamento do "patrão".

"O que significa autogestão pra mim, na minha opinião, pelo que eu já vivi lá, é uma coisa nova, uma coisa que futuramente pode ser nossa aquilo lá, a Makerli, como ser dono daquilo, como dono mesmo, de participação no lucro, participação em tudo das coisas da empresa."

(Buiu, cortador)

"A Makerli é autogestão, mas vai aperfeiçoando, né. Mas tem aquele ponto final que ainda falta alguma coisa ainda. O que falta ? Bom, eu tava comentando né, falta participação de baixo pra cima, de cima pra baixo e a união de todo mundo, mais união." (Cláudio, modelista)

A forma como os trabalhadores concebem esta prática frustrada, como imaginam uma experiência de autogestão, será abordada mais adiante. Neste momento, queremos assinalar que, durante o desenvolvimento dessa experiência, as expectativas criadas pelos trabalhadores em tomo do "projeto de autogestão", dentre as quais encontrava-se a perspectiva de "participação nas coisas da empresa" e de "união de todo mundo", confrontaram-se contraditoriamente com as relações sociais que reproduziam o despojamento dos trabalhadores da organização e controle do processo de trabalho, com a separação entre as esferas de concepção e execução, com a fragmentação dos trabalhadores, em suma, com a continuidade da "antiga" relação capital-trabalho apesar das novas relações de propriedade da empresa.

No decorrer do processo, o confronto entre as expectativas construídas pelos trabalhadores e a continuidade das práticas de classe no processo de trabalho, resultou na frustração dessas expectativas, na repressão dos desejos e na percepção, pelos trabalhadores, das relações ambíguas que atravessavam esta experiência.

"A gente tinha uma outra visão do que era uma [fábrica] autogerida. Porque a gente foi... passou pela nossa cabeça que nós vínhamos trabalhar para nós mesmos. Só que poucas pessoas que trabalham

73 - "O campo institucional das práticas humanas é o resultado complexo da articulação de práticas que se prosseguem diretamente, com a imaginação de práticas que são prosseguidas diretamente por outros indivíduos. Não se trata, porém, e este ponto é de maior importância, de mera substituição da prática direta pela prática imaginada. A prática imaginada nem é idêntica à prática diretamente prosseguida por outros indivíduos, nem é idêntica à prática direta que poderia eventualmente ser prosseguida pelos indivíduos imaginantes. A prática imaginada é uma prática específica a que chamarei, tendo em conta os efeitos psicológicos peculiares, prática frustrada. Não se trata da participação numa prática puramente imaginada - adimitindo que isso fosse possível - nem sequer numa prática real mas decorrente de uma passado histórico. E uma participação numa prática contemporânea, próxima, quase que poderia dizer paralela. E é precisamente desse paralelismo que resulta a especificidade da prática imaginada, frustrada, na ambição constante de passá-la da imaginação ao real, pois tem alí mesmo, perante si, a prova patente de que o real é possível, já que outros o praticam. Determinações institucionais básicas impedem a prática frustrada de se converter numa prática direta, e o infinito em que estas duas práticas paralelas se encontram é o da imaginação." Id., ibid., p.85.

189

hoje lá na Makerli acreditam no projeto. Eu acho que muita gente alí tá é segurando o seu salário." (Buiu, cortador)

"Isso aí fo i uma idéia até boa, porque no começo a gente acreditou que realmente ia acontecer, né. Mas agora, se você fo r analisar, não tá acontecendo, porque alí tá como se tivesse patrão. (...) As relações de trabalho continuam do mesmo jeito, porque prá mim não mudou nada. Porque é autogestão mas de autogestão não está aparecendo nada, porque existe aquele clima de patrão." (Márcia, pespontadora)

"É tudo uma coisa falsa né, uma... eles pregam uma coisa falsa e não é nada disso, a realidade aqui é outra né, é cada um no seu lugar, entendeu, é como se tivesse um patrão." (Carlos, pespontador)

Como se vê, nos momentos que antecederam a reabertura da empresa, o "projeto de autogestão" apresentou-se ou foi apresentado de tal forma aos trabalhadores que lhes permitiu a formulação de expectativas que ultrapassavam a compra da empresa e o afastamento dos antigos proprietários. Esta "outra visão" dos trabalhadores, este outro conteúdo que imaginaram para o "projeto de autogestão", conforme nos indicam os depoimentos, pressupunha uma transformação nas "relações de trabalho" da fábrica, uma vez que passariam a trabalhar "para si próprios". Porém, os trabalhadores logo se defrontam com a manutenção do processo de trabalho herdado dos patrões e das relações de trabalho que, mediatizadas pelo assalariamento, mantêm "cada um no seu lugar" e provocam o reaparecimento do "clima de patrão" no chão-da-fábrica.

Ora, o que significa precisamente esse "clima de patrão"? O que os trabalhadores nos informam quanto apontam a existência desse "clima de patrão" quando todos sabem que a fábrica já não conta com a presença de tal sujeito? Antes de tudo, pensamos que essa expressão sintética demonstra que, para os trabalhadores, a transformação nas relações de propriedade da fábrica foi superficial e insuficiente, diante da manutenção das relações sociais de produção capitalistas.

Ao ressucitarem a figura do "patrão" para exprimirem a conformação dos processos' internos da fábrica aos parâmetros capitalistas de produção de mercadorias, os trabalhadores sugerem uma identificação entre os gestores da empresa e os antigos proprietários, identidade esta localizada nas funções desempenhadas no processo produtivo, isto é, nas funções de capital, a organização e controle do processo de trabalho e apropriação dos produtos.

Como já assinalamos anteriormente, as classes sociais definem-se pelas funções desempenhadas no processo de produção, e não pela posse ou não de títulos de propriedade. Nesse sentido, a referência ao "clima de patrão" sugere também que durante o desenvolvimento dessa experiência as práticas dos trabalhadores no processo de trabalho permitiu-lhes apreender, enquanto consciência dessa prática, as relações ambíguas de classes que atravessava o "modelo de autogestão".

Ainda que a transformação das relações de propriedade tenha produzido uma ficção jurídica na qual "todos são donos da fábrica" e que os mecanismos de participação criados subentendem uma "parceria" entre os grupos sociais no seu interior, este conteúdo formal da "autogestão" na Makerli irá representar para os trabalhadores "uma coisa que não acontece", "uma coisa falsa", no que passam esses a relacionarem-se com a empresa apenas para "segurar o salário", pois permanece "cada um no seu lugar", "como se tivesse um patrão".

Assim, ao traduzirem a continuidade das práticas de classe no interior da "autogestão" através da expressão "clima de patrão", os trabalhadores indicam que, do seu ponto de vista, os gestores da empresa igualam-se aos antigos proprietários, ocupando as funções que lhes correspondiam no processo de tabalho. E isto poderia significar o reconhecimento de que as classes capitalistas não constituem uma unidade de particularidades, pois formam uma unidade genérica, um bloco homogêneo não particularizável.(74) Dessa forma, pensamos que os trabalhadores recuperam a figura do "patrão" para expressar sinteticamente as condições nas quais realizavam-se as atividades produtivas, ou seja, as relações sociais de exploração que subsistiam no interior da fábrica.

Os trabalhadores permanecem vinculados à empresa em troca de um salário, pelo qual concedem aos gestores a utilização de sua força de trabalho durante um determinado período. Ocupam os lugares determinados pela divisão captalista do trabalho, portanto fragmentados e isolados reciprocamente no processo de trabalho, o que permite aos gestores a organização e o controle desse processo. Mantêm suas atividades circunscritas à máquina, "esse ser metálico e estúpido que lhe rouba a inteligência e as forças", o que possibilita aos gestores a apropriação e a destinação dos produtos. Os trabalhadores não se viram livres do espectro do patrão após a transformação das relações de propriedade na Makerli.

Esta "subordinação real" dos trabalhadores no processo de produção, a persistência do "clima de patrão", nos demonstra, mais uma vez, que o capital não é um bem material, instalações, máquinas, ações ou dinheiro, pois constitui-se, fundamentalmente, numa relação social. É essa relação social que, ao reproduzir ininterruptamente a cisão dos trabalhadores relativamente ao produto e a organização e controle do processo de trabalho, fundamenta o capital como o "ato de governar"

74 - "Para os proletários, os capitalistas surgem como uma classe não particularizável, como um bloco homogêneo em que qualquer dos elementos pode ser indiferentemente substituído por outro. E não lamentam os capitalistas essa 'injustiça' do movimento operário que confunde os 'bons' e 'maus' patrões?" Enquanto que, para os capitalistas, "O fato de essa prática [dos capitalistas] ser representada como uma prática pela realização da mais-valia, isto é, uma prática concorrêncial, faz com que a ideologia burguesa exprima com grande acuidade a particularização em individualidades capitalistas. Para a ideologia burguesa, a classe capitalista não é uma unidade genéria, mas uma unidade de particularidades." BERNARDO, J. M arx crítico... Op., cit., p.237.

191

esse processo, isto é, de organizar as forças produtivas tendo em vista a extração da mais-valia.

No desenvolvimento da experiência da Makerli, a continuidade das práticas de classe provoca a dissolução das expectativas construídas pelos trabalhadores, ressurgindo a apatia e a resignação em relação à transformação das relações de propriedade e ao "projeto de autogestão". Nesse processo, porém, os trabalhadores passam a questionar a aplicação do termo autogestão à experiência, ou melhor, passam a impugnar o caráter autogestionário da Makerli.

"Para mim, a autogestão aqui não funciona muito. Porque numa autogestão deveria todo mundo compartilhar junto, e aqui é uma fábrica como se tivesse patrão e funcionário. Apesar de que eu não sei o que é, nunca vi outra empresa de autogestão, eu não concordo que isso aqui é uma autogestão. Deveria ter mais... a gente devia ter mais liberdade, apesar de que eles dão liberdade. Só que, ao mesmo tempo, a gente não tem tanta liberdade de ir lá, procurar saber o que está acontecendo. Então, na verdade, eu não acho isso aqui uma autogestão. Na minha opinião, são os diretores que administram a empresa. Porque eles dão as ordens, eles decidem tudo e nunca pedem a opinião pra nós. Porque, se fosse autogestão, tudo o que eles fossem fazer - talvez nem tudo, mas pelo menos uma parte - eles deveriam

pedir nossa opinião, e eles não pedem ." (Vera, pespontadora)

"Apesar da Makerli ser uma empresa que prega a idéia de autogestão aí fora -que todo mundo que fala na Makerli pensa: 'oh, aquela empresa lá é dos funcionários' -, lá dentro não funciona dessa forma ainda não, certo. (...) Então, tem que haver uma consciência muito grande. Enquanto não tiver essa consciência, enquanto os diretores acharem que eles é que sabem tudo, eu acho que essa idéia de autogestão ainda tá muito pequena, ainda tá muito limitada dentro da Makerli, ainda tá muito pequena. Enquanto tiver essa... todo mundo trabalhando nesse aspecto aí, cada um por si, a administração separada da produção, separada no sentido de não ter um relacionamento mais... um relacionamento legal um com o outro, a idéia de autogestão ainda tá muito pequena." (Pim, modelista)

"Olha, isso aí, a autogestão, é pra enganar as pessoas que tão fora da fábrica, mas quem tá alí não se sente numa autogestão não, porque a autogestão, uma autogestão não é feita daquele jeito que a gente tá alí não. Alí, as pessoas se sentem muito reprimidas alí, ninguém tem coragem de agir, ninguém tem coragem de tomar uma posição, sabe, de tomar uma posição de dono mesmo. (...) Porque a gente não tem palavra, entendeu. Alí, a palavra deles é a que vale. E uma autogestão não manda funcionário embora, e alí manda as pessoas embora a qualquer hora. Então, pra mim isso não é autogestão, isso aí ficou como era na época dos Brigagão. Ainda não conscientizaram que alí não pode ter patrão." (Márcia, pespontadora)