Antes da popularização da internet e das conexões em rede, apenas o rádio, o cinema, o jornal impresso e a TV tinham impacto determinante na vida dos indivíduos, sendo considerados como as principais fontes de informação das massas. Os conteúdos, programas ou produtos criados e distribuídos por esses veículos seguiam uma linha verticalizada de relacionamento com os seus públicos, configurando uma via de mão única.
Dentre as mídias consideradas tradicionais, a televisão, especificamente no Brasil, sempre foi a de maior impacto social. Segundo Ribeiro (2013, p. 9), "fatores como o seu alcance e a gratuidade, aliados à afinidade cultural e ao baixo nível de escolaridade da população, tornam a TV aberta, também, a principal fonte de informação do brasileiro".
As tecnologias digitais de produção e distribuição de conteúdo trouxeram um novo panorama para o processo comunicacional, transformando a realidade de algumas mídias que estavam acostumadas com uma estrutura já padronizada. De acordo com Jenkins (2009), para atender a essa transformação midiática, novos paradigmas surgiram e originaram elementos que se tornaram essenciais na relação entre os veículos e seus públicos. A convergência dos meios de comunicação, a implementação de uma cultura mais participativa entre todos os envolvidos no processo e o conceito de inteligência coletiva são alguns desses elementos que modificaram, efetivamente, a forma de se comunicar. O autor analisa esse novo cenário social como sendo baseado em uma cultura de convergência, considerando que este é formado pelo
[..] fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando. (JENKINS, 2009, p. 27).
Nesse contexto convergente, os conteúdos não ficam restritos a um formato e um único canal de distribuição. Os fluxos informacionais passam a ser mais complexos, permitindo (e impulsionando) que os produtos comunicacionais, ficcionais ou não, transitam em diferentes plataformas – TV, rádio, internet, impressos – sofisticando os processos de produção e de distribuição e consumo.
Sobre a influência desse novo paradigma nas chamadas mídias tradicionais, Cannito (2009, p. 6) considera que "a convergência de mídias não extermina ou supera nenhuma das
mídias anteriores; esse processo, ao contrário, possibilita a interconexão entre elas, somando as características individuais e permitindo que cada uma delas se realize em si de modo mais completo".
Para analisar como a TV, a mais impactante das mídias no cenário brasileiro, buscou adequar-se ao novo cenário convergente, é necessário, inicialmente, resgatar algumas de suas características. Melo (2010, p. 32) afirma que a “consolidação da indústria de televisão no Brasil se deu na década de 1980, com o aumento da participação das emissoras no mercado publicitário, decorrente da sua ampla possibilidade de disseminação de mensagens que atraiu o interesse de empresas, marcas e anunciantes.
Essa atuação intensa da TV foi responsável pelo seu desenvolvimento, crescimento e padronização, que impulsionaram as produções e trouxeram a necessidade de uma classificação que dividisse os seus produtos por categorias, gêneros e formatos. Posteriormente, em decorrência da evolução dos recursos tecnológicos e das transformações ocasionadas pela convergência entre os meios de comunicação, essa organização que classificava os produtos televisivos precisou ser revista. Mesmo assim, a TV soube como aproveitar os métodos utilizados até então, adaptando-os de acordo com as novas possibilidades.
Cannito (2009, p. 44) ressalta que "a TV não deixou pra trás seus formatos de sucesso: eles coexistem com roupagens diferentes e misturados aos novos gêneros, e por sua vez, os gêneros e formatos antigos aproveitam recursos técnicos dos novos a fim de se renovar [...]". Ainda de acordo com o autor, a nova tecnologia também representa um novo comportamento do público e a demanda por formatos que atendam a esse comportamento.
Para atender aos anseios dessa audiência e estar de acordo com o ambiente proposto pelas novas possibilidades tecnológicas, as mídias tradicionais que utilizam a comunicação audiovisual passaram a reestruturar seus principais aspectos, uma remixagem não apenas de seus conteúdos, mas aplicada em todas as esferas convencionais de sua origem e formatação. De acordo com Kelly (2017), o uso das tecnologias digitais para reorganizar a essência dessas mídias possibilitou que a linguagem narrativa proveniente de meios, como o cinema e a TV, tivesse os seus elementos constitutivos recombinados.
Segundo o autor, este cenário digital tecnológico e convergente interferiu na criação, produção e distribuição de conteúdo audiovisual, bem como modificou a sua narrativa, que passou a ser recombinada e deu origem a formas narrativas cada vez mais complexas. A audiência também começou a assimilar a linguagem das imagens e dos sons de maneira diferenciada, remanipulando seus significados de acordo com determinados cenários e com cada meio específico. "Isso confere às imagens uma liquidez semelhante à das palavras.
Imagens fluidas escorrem rapidamente para outras telas, prontas para migrar para as novas mídias e infiltrar-se nos meios de comunicação mais antigos" (KELLY, 2017, p. 392).
Todas essas mudanças visam atingir de maneira mais efetiva o público que consome o conteúdo audiovisual. A segmentação não só das estratégias de exibição, como também das produções, demonstra a preocupação das empresas de comunicação com a satisfação e com o retorno dos seus públicos, além de impulsionar novos modelos mercadológicos.
As alterações atingem diretamente o modelo de negócio que tornou a TV o meio de comunicação de massa predominante no Brasil. A crescente expansão da internet tornou a web uma alternativa à radiodifusão para a publicação e distribuição de vídeos. Além disso, a convergência digital estimula o usuário da internet a consumir o conteúdo de informação e/ou de entretenimento de forma complementar, independentemente da mídia ou suporte disponível. A disputa pela audiência não está mais restrita à concorrência entre emissoras de TV. (RIBEIRO, 2013, p.10).
Em um ambiente comunicacional mais abrangente, repleto de recursos tecnológicos e em que as fronteiras midiáticas estão mais diluídas, as mídias tradicionais de comunicação tiveram que pensar em novas estratégias para se manterem no mercado. Com isso, procuraram fechar parcerias que atendessem ao novo cenário e que contemplassem os mais diversos setores culturais. Tornou-se comum a criação de grandes conglomerados midiáticos, formados por grupos atuantes em diversos segmentos, que objetivavam atingir o perfil dos diferentes públicos.
Observa-se há muito tempo que a tendência para mercantilizar a produção cultural, massificar a arte e a literatura e oferecer os bens culturais com apoio de vários suportes ao mesmo tempo (por exemplo, filmes não só em cinemas, mas também na televisão e em vídeo) tira autonomia dos campos culturais. A fusão de empresas acentua essa integração multimídia e a sujeita a critérios de rentabilidade comercial que prevalecem sobre a pesquisa estética. (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. 20).
É possível perceber uma quebra de paradigmas nos conceitos de televisão, no seu relacionamento com a sua audiência e nas estruturas de produção. Para Wolf (2015), houve uma mudança fundamental de conteúdo, que deixou de se basear nos anunciantes e no mercado publicitário e passou a ser sustentado pelo próprio usuário, interferindo também na natureza da programação televisiva. "E assim começou a florescer a nova era de ouro da televisão, com uma programação focada em um público mais exigente – assim como a mídia digital estava fazendo o máximo possível para aumentar sua base de massa" (WOLF, 2015, p. 103-104).
Os recursos tecnológicos foram os principais responsáveis pela implementação de uma estrutura mais convergente entre os meios de comunicação, porém, as transformações vão muito além das ferramentas e dos aplicativos, elas modificam culturalmente a sociedade. De acordo com Jenkins (2009, p. 28), "a convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros".
Diversos elementos influenciaram este processo multimidiático e colaborativo, que trouxe inúmeras opções de conteúdos audiovisuais e modificou a economia da indústria cultural. Na visão de Johnson (2012), os vários canais pelos quais esses produtos passaram a ser desenvolvidos e consumidos serviram como incentivo para que os públicos buscassem novos tipos de entretenimento, novas formas de comunicação online por meio das redes sociais virtuais e maior participação no relacionamento com as mídias.
É bom nos lembrarmos da velocidade com que o mundo industrializado adotou as muitas formas de mídia eletrônica participativa – dos e-mails ao hipertexto, das mensagens instantâneas aos blogs. O público adotou a televisão e o cinema em escalas temporais semelhantes, mas nenhum dos dois exigia a mesma curva de aprendizado do e-mail ou da internet. Uma coisa é adaptar o estilo de vida para arranjar tempo de ficar sentado vendo uma imagem em movimento em uma tela; outra, muito diferente, é aprender toda uma nova linguagem e um pequeno exército de ferramentas de software. (JOHNSON, 2012, p. 56).
Ainda de acordo com o autor, a ascensão da internet trouxe novas possibilidades e desafios por ter, dentre suas principais características, aspectos como: ser baseada em uma estrutura participativa, por forçar os usuários a aprender novas interfaces e por criar novos canais de interação social.
Esses anseios foram fundamentais para transformar o papel da audiência que, inicialmente, se caracterizava por um espectador que consumia cada meio de maneira independente. Ao mudar o foco para o internauta, é possível identificar um agente multimídia que lê, ouve e combina materiais diversos em uma espécie de integração de ações e linguagens (GARCÍA CANCLINI, 2008).
O perfil deste indivíduo conectado, que consome produtos culturais em plataformas distintas e de maneira simultânea, fez com que novas estruturas narrativas fossem pensadas para produzir conteúdos cada vez mais interligados e com diversas finalidades. Jenkins (2009) classificou este método de criação como narrativa transmídia. De acordo com o autor, essa nova estética foi criada como uma resposta ao processo de convergência das mídias.
A narrativa transmídia é a arte da criação de um universo. Para viver uma experiência plena num universo ficcional, os consumidores devem assumir o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais, comparando suas observações com as de outros fãs, em grupos de discussão on-line, e colaborando para assegurar que todos os que investiram tempo e energia tenham uma experiência de entretenimento mais rica. (JENKINS, 2009, p. 49).
Atualmente, existem muitas questões que podem interferir na compreensão da mensagem, dentre elas o perfil do espectador e seu repertório. Cada vez mais é possível identificar públicos híbridos em relação ao consumo de produtos culturais ou, ainda, no consumo dos conteúdos transmitidos pelas diversas mídias.
A junção de meios e o surgimento de possibilidades hipermidiáticas como uma opção de estrutura comunicacional trouxeram a necessidade de novas narrativas que contemplassem todas as vertentes geradas por esse panorama inovador. Na busca pelo aprimoramento desse processo, foi preciso refletir sobre aquilo que já vinha sendo feito e sobre as reais possibilidades de transformações sem descartar, porém, a relevância e a essência dos recursos adotados de maneira isolada em cada meio.
Para a hipermídia configurar-se como linguagem, ela apontou para muitos questionamentos e percorreu um trajeto multifacetado, ou “multitrajetos”. E cabe lembrar que, assim como ocorre com a linguagem cinematográfica, o conceito de linguagem de hipermídia agrega um conjunto de linguagens como a fotográfica, a sonora, a visual, a audiovisual e a própria cinematográfica. É comum utilizar um conceito que abarque todas as linguagens porque há, em senso comum, uma nova linguagem resultante desse somatório. (GOSCIOLA, 2003, p. 34-35).
Esse universo hipermidiático, constituído por inovações tecnológicas, novas narrativas e coparticipação na produção e consumo de conteúdos, impulsionou a ampliação da visibilidade dos atores comunicacionais. O desejo de exposição inerente ao ser humano, abordado na seção 2 desta dissertação, encontra um ambiente propício para sua consolidação.