A participante Poliana será representada pela obra do pintor Pablo Picasso, intitulada
―Mother and child 1921‖ (Figura 17).
Figura 17 - Pintura ―Mother and child 1921‖
Fonte: Picasso (1921). Recuperado de https://www.pablopicasso.org/mother-and-child-1921.jsp
Poliana engravidou aos 35 anos, vivenciado uma gestação tardia, porém desejada e planejada. Destaca que, ainda assim, a descoberta foi uma surpresa para ela já que acreditou
que levaria mais tempo para engravidar, mas relata que recebeu bem a notícia. A participante descreve uma gestação tranquila, em que trabalhou até os últimos dias antes de ganhar o bebê, e não se queixa de nenhum desconforto ou sentimentos de inadequação durante a gestação.
Destaca como momento mais importante, e também o mais estressante, a hora do parto. Os autores Tinti, Schidt e Businaro (2011) destacam que a hora do parto é um momento relevante desse processo de transição da parentalidade, que exibe sentimentos subjetivos relacionados a estados físicos de dor intensa; por outro lado, existe também uma dimensão emocional existencial que se caracteriza pela felicidade com o nascimento de um filho, tratando-se de um momento muito significativo, único e emocionante. Porém, a participante Poliana, que nutriu grandes expectativas em relação ao seu parto, o descreve como o momento mais estressante devido às violências psicológicas que vivenciou por parte da equipe do hospital.
Na obra ―Mother and child 1921‖, observa-se a díade mãe x bebê, em cores mais amenas e claras, em tons pastéis, branco e cinza. A mãe representada pelo pintor apresenta traços mais femininos, usando um vestido mesclado de branco e cinza, que deixa os braços e colo à mostra, com o cabelo preso de forma sutil. Tal obra se assemelha à participante Poliana, que não apresenta queixa alguma relacionada à sua aparência e vive esses períodos de gestação e puerpério de forma leve e despreocupada quanto a grandes transformações corporais.
A postura da mãe do pintor é descontraída, amparando o bebê em suas pernas enquanto o observa brincar com o seu corpinho; e, embora apresente uma feição mais ponderada, parece se sentir bem, conectada com o momento e com o bebê. Tal postura se assemelha à Poliana, que se mostra realista quanto às dificuldades que o papel de mãe propõe, destacando as dificuldades relacionadas a ele, porém vivencia com prazer a construção do vínculo com seu bebê. Ela descreve esses momentos como sendo sensacionais e sublimes - não negando o sofrimento que o puerpério propõe, mas também vivenciando as alegrias que o nascimento de um filho pode trazer.
4 DISCUSSÃO
As participantes Arizona e Poliana apresentaram melhor desempenho nas vivências da maternidade, sendo que a pontuação de ambas na escala de depressão pós-parto foi de 2 pontos, não apresentando indicativos de depressão. Dessemelhante das participantes Amália e Valentina, que apresentaram indicativos de depressão pós-parto. Amália marcou 23 pontos, enquanto Valentina fez 18 pontos, de acordo com os dados apresentados na introdução deste trabalho. A discussão terá início a partir da apresentação das semelhanças e relações entre as participantes Arizona, Poliana, Amália e Valentina.
As gestações das participantes Poliana e Arizona foram, de igual modo, desejadas, embora somente a gestação de Poliana tenha sido planejada. Ambas descreveram a descoberta da gestação com grande surpresa, independentemente do planejamento, o que está de acordo com as colocações de Camacho et al. (2010), os quais afirmam que uma gestação não planejada implica diretamente em uma surpresa, provocando sentimentos distintos na gestante, como fortes emoções, tanto positivas quanto negativas - desde alegria e bem-estar intensos até uma profunda sensação de desamparo - e sentimentos de culpa, frustação e vergonha. Contudo, é importante destacar que, segundo Rodriguez e Carneiro (2013), as vivências da maternidade e sentimentos ambivalentes caminham juntos, ou seja, independentemente da gestação ser ou não planejada, esta suscita transformações físicas e psicossociais intensas, como identificado nas quatro gestantes.
No caso da participante Poliana, é possível inferir que o planejamento da gestação pode ter favorecido na sua adaptação. Essa ideia é corroborada por Brito et al. (2015) que defendem que o planejamento da gestação também possui implicações na adaptação à maternidade, pois inúmeras gestações não desejadas acontecem ao redor do mundo e, em 2008, estima-se a ocorrência de 68 milhões. A falta de planejamento tem um impacto negativo, como se observa no caso das participantes Amália e Valentina, tendo em vista que se mostraram menos adaptadas à maternidade. Embora elas não tenham iniciado o pré-natal tardiamente, segundo os autores, muitas mulheres podem iniciar o pré-natal tardiamente, continuar utilizando drogas ilícitas e lícitas - como álcool e cigarro -, além do aumento da mortalidade materna, consequência da realização de abortos inseguros.
No caso da participante Arizona, a gestação não foi planejada e, ainda assim, ela se mostrou adaptada às vivências da maternidade, o que também está de acordo com a literatura, pois as pesquisas de Silva et al. (2011) discorrem que nem todas as mulheres que tiveram uma gestação não planejada estavam infelizes com a situação. Brito et al. (2015) também colocam
que o planejamento da gravidez não tem se mostrado fundamental para o estado de humor da mulher durante a gestação.
As gestações das participantes Amália e Valentina foram, de igual modo, indesejadas e não planejadas. Amália descreve a descoberta da gestação como: ―perdi o chão‖, ―eu chorei
muito‖, ―eu não queria‖. Valentina descreve a descoberta como: ―um choque‖, ―minha vida acabou‖, ―fiquei chorona demais‖. Pode-se observar um desequilíbrio nas vivências das duas
participantes frente a uma gestação e, ainda por cima, uma gestação não desejada. Henriques et al. (2015) defendem que a transição para a parentalidade é classificada como um fenômeno complexo, em que as mudanças propostas podem influenciar na saúde da mulher, bem como na do casal e familiares, desafiando o equilíbrio que foi previamente estabelecido pelos envolvidos.
Aldrighi et al. (2016) defendem que a gestação é um momento repleto de significados para as mulheres, os quais influenciam de forma direta em sua saúde, ou seja, é importante, portanto, conhecer e levar em consideração a visão, sentimentos e experiências das mulheres a respeito de sua gestação. No caso das participantes Arizona e Poliana, de acordo com os resultados apresentados na entrevista, ambas desejavam ser mães, em contrapartida, Amália e Valentina, não. Logo, é possível observar que o desejo precede o planejamento e a diferença entre as participantes mais adaptadas das menos adaptadas é o desejo, e não o planejamento.
Sousa et al. (2011) defendem que o processo de tornar-se mãe desperta a necessidade de um profundo realinhamento psíquico, tendo em vista as demandas que a maternidade propõe, especialmente em relação à adaptação a novos papéis. Geralmente, as mulheres são as principais cuidadoras do bebê e se veem diante da necessidade de uma reorganização mental, o que implicará na reelaboração de vários esquemas a respeito de si mesma, do bebê, do cônjuge e da família de origem. E, no que tange à gestação de Arizona e Poliana, ambas vivenciaram gestações que não apresentaram tantos prejuízos quanto as gestações de Amália e Valentina, ou seja, Arizona e Poliana não tiveram muito ganho de peso, não sentiram enjoos e trabalharam até o final da gestação. Na análise da entrevista acerca das representações da maternidade, observa-se o relato da participante Arizona: ―Eu sempre tive um sonho muito
louco de ser mãe‖, e da participante Poliana: ―Há muito tempo a gente já queria filho né?‖.
Arizona queixava-se de problemas no relacionamento conjugal, porém, com a gestação, realizou o sonho de ser mãe e, ainda, se casou, ou seja, não precisaram rever muitos papéis e fazer grandes realinhamentos e, quando precisaram, estava alinhado a ganhos há muito tempo desejados, como ter filhos e casar. Logo, para essas participantes, mesmo em meio a tantas reorganizações, a gestação simbolizou um desejo atendido e as mudanças que ocorreram
foram positivas. Mesmo em meio aos prejuízos vivenciados, o desejo delas possibilitou a adaptação, ou seja, estavam pré-dispostas a superar as dificuldades, como podemos ver no relato de Poliana em relação ao trabalho, por exemplo: ―trabalhei até o oitavo, eu achei que
ia aguentar mais, porque metrô ninguém merece‖, e Arizona: ―trabalhei até uma noite antes de ganhar o neném, . . . eu falei, eu vou trabalhar até o último dia‖.
Observa-se, também, que, além do desejo de engravidar, a idade das participantes pode ter influenciado na adaptação e nas representações da maternidade. Arizona teve o primeiro filho com 36 anos e Poliana com 37, idade essa em que, de acordo com o Ministério da Saúde, mulheres gestantes, com idade igual ou superior a 35 anos, são consideradas mães com idade materna avançada ou mães tardias (Aldrighi et al., 2016). Tal dado é corroborado por Schupp (2006), que defende que há variações quanto à definição de mulheres com idade materna avançada (IMA), sendo que alguns autores consideram a idade de 35 anos, outros a partir de 40, e há aqueles que vão além, considerando gestantes com idade materna avançada acima de 45 anos.
Amália teve o primeiro filho com 23 anos e Valentina com 26. Amália tem ensino superior incompleto e é do lar. Ela descreve que um dos motivos pelos quais teve dificuldades em aceitar a gestação foi devido às perdas profissionais e acadêmicas: ―estávamos começando
a vida né, estudando, tendo sucesso no trabalho né . . . e aí de repente desabou‖, ―no começo eu quis . . . mas no quarto, quinto mês de gestação eu não aguentava mais ficar em casa, eu queria trabalhar, tava achando um saco eu ter que parar a minha vida por causa de uma criança‖. Simas, Souza e Comin (2013) defendem que essa insatisfação ocorre porque, na
sociedade contemporânea, as mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho, logo, ter um filho representa consequências significativas, dificultando às mulheres que encontrem gratificações na gestação devido essas possíveis perdas profissionais.
Quanto às participantes Arizona e Poliana, ambas possuem ensino superior completo e atuam em suas respectivas áreas. Arizona é psicóloga e Poliana, veterinária, ou seja, as participantes possuíam um emprego, uma fonte de renda e independência. Dion (1995) defende que o nível de expectativa de mães com idade materna avançada em relação ao seu próprio desempenho frente aos papéis maternos é muito maior, atuando como uma armadilha à adaptação à maternidade. Essas mulheres têm uma série de experiências anteriores de grande autonomia e segurança sobre vários aspectos da própria vida que podem causar ainda mais estresse ao se depararem ao novo desafio da maternidade, que é vivenciado por elas com total imprevisibilidade, diminuindo por completo seu desempenho (Rodriguez & Carneiro, 2013). Nas participantes com idade materna avançada, é perceptível que tais dificuldades não
tão sentidas no período da gestação, durante o parto e puerpério mudam as vivências e isso será discutido mais a frente. As gestações de Arizona e Poliana são descritas como sendo tranquilas, amenas, sem muito ganho de peso, sem enjoos e com ambas trabalhando até o fim, tanto que Poliana chega a afirmar: ―ele era super bonzinho na barriga, então não me
atrapalhava‖. Em contrapartida, Amália e Valentina descreveram dificuldades em lidar com
os prejuízos que foram supracitados.
O que nos leva as colocações de Aldrighi et al. (2016) e Gomes et al. (2008) de que, em uma em gestação tardia, as mulheres tendem a se sentir mais preparadas em muitos aspectos, como no financeiro e no psicológico por exemplo, sentem-se mais pacientes, mais realizadas, e descrevem essa experiência como sendo um dos melhores acontecimentos de suas vidas, quase como se fosse um milagre conceber nessa etapa da vida. Isso pode ser observado com as participantes Arizona e Poliana, pois ambas trabalharam até dias antes de o bebê nascer, o que indica maior preparo nos aspectos psicológicos e financeiros; e, ainda, descrevem a gestação como um momento especial, desejado e planejado.
Mediante as transformações que a maternidade propõe, se faz necessário um realinhamento das percepções e, ainda, em relação às questões relacionadas ao trabalho. Valentina, que é fisioterapeuta, faz o seguinte relato: ―tudo que eu tinha planejado daqui pra
frente eu não vou conseguir fazer‖. No momento da entrevista, o bebê de Amália tinha 11
meses e o da Valentina estava com dois anos e três meses. Valentina já havia retornado às atividades profissionais como autônoma, porém, no que tange à gestação, o significado que ambas deram para a gravidez foi de uma representação negativa, pois apresentaram muitas perdas de acordo com a visão das participantes; ou seja, as participantes precisaram reorganizar a sua percepção de acordo com o que estava acontecendo. Camacho et al. (2010) e Gomes et al. (2008) defendem que, após a descoberta da gestação, a mulher passa a conviver com a ideia de estar grávida e busca recursos para lidar com essas vivências e transformações, desencadeando um processo de reorganização da sua percepção, implicando em uma grande necessidade de reajustar seu relacionamento conjugal e sua situação financeira, e todas essas repercussões estão associadas em como será criar esse bebê.
Tais reajustamentos indicados por Camacho et al. (2010) e Gomes et al. (2008) também ocorreram no relacionamento conjugal das participantes Amália e Valentina, pois Amália se casou após a descoberta da gestação, passando a morar com o cônjuge e com o filho. Valentina, embora não tenha se casado oficialmente em cartório, passou a morar com a família do parceiro.
No discurso das participantes Valentina, Amália e Arizona, observa-se contradições no que tange às suas decisões reprodutivas. Valentina evidencia suas contradições ao dizer:
―comecei a tentar quando meu marido foi para minha cidade . . .‖, e completa: ―na verdade isso [engravidar] não estava nos meus planos‖. Arizona e Amália acreditavam que não
podiam engravidar. Amália porque tinha o ciclo menstrual irregular: ―eu não tinha
menstruação, era irregular . . . e no fim achei que não podia‖; e Arizona relata que seu
médico havia dito que: ―sempre trouxeram a questão de ter que fazer tratamento para
ovários policísticos . . . a gestação não foi planejada . . . aí falei tudo bem, o que tiver de ser será‖. Tais relatos indicam que as participantes não têm consciência de suas contradições,
embora a participante Arizona tenha em menor grau porque realmente tinha um diagnóstico e uma indicação médica de ovários policísticos. No caso de Amália e Valentina, trata-se de algo inconsciente e tal processo ocorre porque, segundo Fernandes (1988), em alguns casos, a mulher consegue identificar quais são seus verdadeiros desejos, mas, na maioria das vezes, não consegue realizar essa tradução, pois existe uma diferença entre aquilo que se deseja e aquilo que se demanda; o desejo corresponde à esfera inconsciente, enquanto a demanda corresponde unicamente à esfera consciente. Logo, se uma gravidez ocorre, é porque existia na mulher um desejo inconsciente de ser mãe, independentemente do discurso manifesto estar de acordo ou não com essa motivação (Fernandes, 1988).
Amália e Valentina apresentaram muitas dificuldades em aceitar a gestação, também, devido às preocupações com as alterações físicas que a maternidade provoca. Amália relata sentir vergonha do corpo: ―eu não aceitava bem a barriga, eu tinha vergonha, o seio fica
muito grande, eu não estava gostando, o quadril, muda tudo‖. Valentina relata: ―eu engordei muito na minha gestação, eu engordei 30kg . . . o corpo muda de uma forma absurda . . . e o desconforto que a gente sente né, então assim, foi bem radical‖. Ferreira (2009) e Soifer
(1980) colocam que um dos temores universais relacionados à gestação está associado às alterações corporais decorrentes desse processo, mas que tais preocupações podem dar espaço à sensação do prazer de estar desabrochando como mulher e sentindo orgulho pelo corpo de grávida, como nota-se no caso da participante Arizona, ―eu fiquei com a barriga muito bonita
. . . eu fiquei muito bonita, não tive estrias‖, e de Poliana: ―eu não fiquei gorda demais, foi bem tranquilo‖.
Em contrapartida, em alguns casos, a sensação é oposta quando as alterações corporais são vistas como deformações e a mulher passa a se sentir feia e incapaz de atrair alguém sexualmente de tal forma que, diante de uma vivência intensa como essa, nem mesmo a atitude de apoio e admiração do marido é capaz de minimizar o desconforto, pois a mulher
acredita que tal postura serve apenas para consolá-la (Ferreira, 2009; Soifer, 1980), caso ocorrido com as participantes Amália e Valentina. Segundo Amália, seu cônjuge agia de tal maneira: ―ele falou que era bom (referindo-se as mudanças corporais de Amália) é excelente,
só a barriga, mas depois ela volta‖, mas a participante não acreditava: ―Eu não achei não, ele falou que era bonito, mas...‖.
Quanto à aceitação da gestação por parte dos parceiros, ambos os namorados das participantes Amália e Valentina também receberam a notícia da gestação como um choque, o que leva às colocações de Airosa e Silva (2013) e Silva et al. (2011) de que, durante o ciclo gravídico puerperal, não só a mulher, mas todos aqueles que compõem o seio familiar estão envolvidos com as mudanças que a maternidade propõe. Mudanças essas que podem ser temporárias, ou definitivas, incluindo a vida pessoal, profissional e social de cada indivíduo independentemente da situação econômica e cultural em que estão inseridos.
Amália relata ter feito o teste de gravidez junto do namorado na época: ―a gente fez o
teste junto . . . nenhum dos dois queria naquele momento‖. Valentina relata que o cônjuge
negou apoio no primeiro momento: ―ele ficou nervoso, mandou eu me virar‖. Logo, a descoberta da gestação passou a ser um desafio para o casal e, de acordo com as colocações de Airosa e Silva (2013) e Felgueiras e Graça (2013), nessa transição para a maternidade, vivencia-se uma fase exigente em estratégias para uma melhor adaptação às mudanças que a maternidade propõe, se constituindo como um desafio para o casal, especialmente para a mulher, pois o modo como essas mudanças são integradas e elaboradas relaciona-se diretamente com a estrutura da personalidade da mulher, além do significado que é dado à gravidez e do suporte familiar e social que é recebido.
Quanto ao relacionamento conjugal das participantes, Poliana descreve um casamento tranquilo, em que ela e o cônjuge planejaram e desejaram a gestação. Relata que as mudanças vivenciadas na vida sexual ocorreram após o sexto mês de gravidez, pois o cônjuge se afastou devido ao estranhamento que sentia em relação à barriga. Camacho et al. (2010) colocam que a construção da maternidade é realizada a cada dia, por meio de sintomas - como enjoo, fraqueza, desmaios, mudanças no corpo - e da forma que a mulher vai se adaptando ao seu novo formato, passando a considerar o futuro e a olhar a si mesma nele. Ainda, os autores colocam que, durante o período gestacional, no primeiro trimestre da gestação, as mudanças estão acontecendo mais internamente, não expondo tanto as alterações físicas que, no entanto, estão sendo sentidas, destacando que todos esses fatores costumam impactar no relacionamento conjugal, como vê-se no caso da participante Poliana, alterando a vida sexual do casal. Embora, como será discutido mais adiante, tal aspecto será recuperado gradualmente
após o puerpério da participante, sendo encarado por ambos como um aspecto natural da gestação e que será superado.
Segundo Aguiar et al. (2011), e Gomes et al. (2008), a gestação é um momento de reatualização de tudo que uma mulher teve que percorrer para tornar-se o que é, o que envolve uma gama de afetos, o que ela viveu em relação à própria mãe, as relações que estabeleceu com o cônjuge e todas as expectativas, boas e ruins, que experimentou desde que soube que estava grávida. E, ainda, todos esses fatores influenciam na forma como cada mulher lidará com a condição de ser mãe e em como cada criança será incluída nesse desejo - o que fica claro no relacionamento conjugal da participante Arizona. De acordo com o que foi visto na análise da entrevista dessa participante, antes de contar sobre a gestação, ela pretendia terminar com namorado na época, mas então ela muda de ideia, conta que está grávida e impõe uma condição para que o namorado vivencie a paternidade: o casamento. Logo, a participante reatualiza o relacionamento que tinha estabelecido com o namorado, o qual passa, então, a cônjuge.
A participante Arizona apresenta problemas conjugais, nos quais, segundo ela, o principal problema reside no fato de o cônjuge estar casado com a própria mãe e, de acordo com as análises realizadas com o material projetivo da participante Arizona, a partir das contribuições de Tardivo (1997), nota-se a interdição da vivência da paternidade do cônjuge pela participante em decorrência da sua insatisfação com o relacionamento conjugal, pois, se o mesmo não se mostra capaz de ser um bom marido, atendendo às demandas dela enquanto esposa, também não seria pai. Embora essas questões precedam a gestação, tais conflitos corroboram as colocações de Silva et al. (2011) de que, diante da expectativa do nascimento