Figura 2 - Registro fotográfico do desenho da mulher, da participante Arizona
Pesquisadora: eu gostaria que você me contasse uma história sobre essa mulher, com o máximo de detalhes que você puder, sobre o passado, presente e futuro.
Arizona: bom, vou me referir como se fosse eu mesmo essa mulher, porque é uma história que eu tenho conhecimento de causa... Então, ela é uma mulher bastante batalhadora, né, ralou desde sempre, sem muita expectativa pro futuro, porque não tem muitas condições financeiras, mas sempre acreditou que ela pode, que ela consegue, e ela vai conseguir tudo que ela quiser né, lógico que nada vem fácil. Hoje vive um momento grandioso e com muitas dificuldades, mas é uma mulher sonhadora, é uma mulher que vive a vida, eu falo que ela tem asas grandes, porque ela gosta de voar, longe, alto, sem tirar os pés do chão obviamente, mas é uma mulher de alma livre, uma mulher batalhadora, guerreira e vem buscando alcançar o que ela almeja como primordial, que é o amor, é a paz interna, é a liberdade de ser, de estar, de viver, e é isso, é essa mulher aí.
A: então, eu penso na questão de ter uma vida simples, porém, nos meus objetivos, de buscar a parte profissional, me realizar no profissional ainda, porém hoje eu vivo a maternidade, eu vivo a mãe, não tô com pressa pro futuro, quero viver a infância do meu filho, quero estar presente na vida dele, e fazer com que ele se sinta presente na minha também, então assim, os meus sonhos neste momento estão meio que parados, por enquanto está parado meus projetos como profissional, mas como mãe estou me realizando de todas as formas possíveis, como mulher também, me realizando, tenho minha vida profissional, mas não estou me dedicando da forma que eu poderia me dedicar neste momento, e o projeto pro futuro é uma especialização na minha área, que eu quero fazer, mas eu quero fazer uma vida intensa com meu filho, com a minha família, meu marido também, com a minha família, nesse momento é a família.
4.1.3.1.1 Análise
Na unidade 01, pode-se observar no desenho da mulher uma figura com traços femininos, a começar pelo cabelo sutilmente cacheado, usando um vestido de alças, com um detalhe sutil de flor na barra. Nota-se, também, traços faciais mais agressivos e enérgicos, a começar pela língua que se mostra bem aparente no desenho. No primeiro momento, verifica- se uma identificação maciça ao referir-se à mulher do desenho como sendo ela mesma, porém a participante finaliza a primeira parte da história dizendo: ―é essa mulher aí‖. Em seguida, quando perguntada sobre os planos para o futuro, ela volta a falar na primeira pessoa e descreve apenas a mãe, indicando que toda energia que pertencia “àquela” mulher com traços enérgicos está canalizada apenas na mãe.
No indicador referente às atitudes básicas, aceitação e identificação positiva são identificadas. Aceitação, já que afirma que: ―Sempre acreditou que ela pode, que ela
consegue, e ela vai conseguir tudo que ela quiser né‖. Apresenta sentimentos de segurança,
autonomia, autossuficiência, crença em seus recursos internos e liberdade, ao dizer que:
―Hoje vive um momento grandioso e com muitas dificuldades, mas é uma mulher sonhadora, é uma mulher que vive a vida, eu falo que ela tem asas grandes, porque ela gosta de voar, longe, alto, sem tirar os o pés do chão obviamente, mas é uma mulher de alma livre”.
Apresenta, ainda, as necessidades e preocupações com crescimento e êxito ao descrever uma mulher que, no momento, tem seus projetos pessoais e profissionais ―parados‖, pois está exercendo apenas a maternidade. Contudo, esse momento de vivência da maternidade não se
mostra suficiente para paralisar seus desejos de um futuro promissor, portanto ainda mantém expectativas para o futuro na área pessoal e profissional.
A identificação positiva aparece quando a participante apresenta sentimentos de valorização, autoconceito reais e positivos, pois se mostra identificada com seu próprio sexo, além de descrever uma mulher batalhadora, cuja energia está focada em conquistas: ―Ela é
uma mulher bastante batalhadora, né, ralou desde sempre, sem muita expectativa pro futuro, porque não tem muitas condições financeiras, mas sempre acreditou que ela pode, que ela consegue, e ela vai conseguir tudo que ela quiser né, lógico que nada vem fácil‖.
Quanto às figuras significativas, elas aparecem como positivas, nas figuras do cônjuge e do filho, pois todas as energias e preocupações da participante estão voltadas para esses neste momento: “Quero viver a infância do meu filho, quero estar presente na vida dele‖,
―Eu quero fazer uma vida intensa com meu filho, com a minha família, meu marido também . . .‖.
Identificaram-se sentimentos derivados do instinto de vida, compreendidos como os mais construtivos, pois a participante descreve uma mulher que está em busca de ―amor‖,
―paz interna‖ e ―liberdade de ser‖, sentimentos considerados por ela como sendo os mais
primordiais.
A análise do material relatado na história apresenta tendências construtivas, pois a participante descreve a mulher como: ―Uma mulher batalhadora, guerreira e vem buscando
alcançar o que ela almeja como primordial.‖, mostrando necessidades de aquisição de coisas
novas, de liberdade, crescimento, e construtividade. No entanto, todo esses desejos de aquisição e crescimento estão momentaneamente adormecidos, pois são existentes, se fazem presentes, porém as energias da participante estão direcionadas ao exercício da maternidade e à relação com a família, deixando claro que existem desejos de aquisição e conquista na área profissional, mas que estão em segundo plano no momento.
No que tange aos impulsos, estes se apresentam como impulsos amorosos, uma vez que a participante relata a história de uma mulher com sentimentos de gratificação, ―Hoje vive
um momento grandioso e com muitas dificuldades, mas é uma mulher sonhadora, é uma mulher que vive a vida.‖ e com desejos de conservação, todos voltados para a manutenção da
família, ―Eu quero fazer uma vida intensa com meu filho, com a minha família, meu marido
também, com a minha família, nesse momento é a família‖.
Ela apresenta ansiedades depressivas, pois denota uma necessidade de reparação e integração em todos os aspectos. Primeiro quando destaca os objetivos e desejos de realização da vida profissional como forma de reintegrar o papel de mulher que está adormecido pelo
exercício da maternidade: ―. . . de buscar a parte profissional, me realizar no profissional
ainda . . . o projeto pro futuro é uma especialização na minha área ainda . . .‖. Segundo
quando destaca as preocupações de se fazer presente na vida do filho e da família, na tentativa de reparar e proteger os objetos considerados importantes para ela, no caso, a relação com eles: ―. . . eu vivo a mãe, não tô com pressa para o futuro, quero viver a infância do meu
filho, quero estar presente na vida dele . . .‖, ―Eu quero fazer uma vida intensa com meu filho, com a minha família, meu marido também, com a minha família, nesse momento é a família‖.
Quanto aos mecanismos de defesa identificados na história, há uma sublimação da vida profissional e da vida pessoal da mulher, além da utilização da negação e anulação da mesma, tendo em vista que a participante relata a história uma mulher que tem uma história pregressa de ser batalhadora, cheia de desejos de conquistas, porém a mulher atual está focada e concentrada apenas no exercício da maternidade, pois o ego modifica a finalidade da pulsão e a transforma em algo socialmente aceito para o momento: ―Hoje eu vivo a maternidade, eu
vivo a mãe, não tô com pressa pro futuro, os meus sonhos neste momento estão meio que parados.‖. Além de anular qualquer dedicação ou preocupação com a vida profissional, ela
racionaliza essa opção ao dizer que ser mãe a realiza de todas as formas possíveis: ―Por
enquanto está parado meus projetos como profissional, mas como mãe estou me realizando de todas as formas possíveis, como mulher também.‖.