Exposition des conceptions
6.4 Portraits d’enseignants-formateurs
O papel da educação, concebida por Dewey como processo geral e integral de formação individual e não apenas em seu aspecto formal e institucional, deve ser relacionado ao seu projeto social, ao modo como concebe uma sociabilidade efetivamente livre, centrado no conceito de democracia. Da mesma maneira que a noção de educação, a de democracia supera a definição de forma de exercício
de dominação política, para se determinar como o espaço que permite o contínuo
desenvolvimento dos indivíduos em interação constante com o meio em que se inserem. O desenvolvimento possibilitado pela educação deve facultar aos sujeitos a maximização de condições e potencialidades que a experiência do
mundo pode oferecer, como leque de opções de realização de qualidades e
faculdades individuais. Nesse sentido, a educação extravasa os limites da escola e deve se constituir como programa político de direcionamento da sociedade para a vida verdadeiramente democrática.
Para explicitar o quadro de determinações do pensamento educacional de Dewey, é necessário demonstrar a articulação dos três elementos lhe são constitutivos, experiência, democracia e educação, indicando também o caráter categorial de cada um deles, bem como as relações de determinação conceitual que enquadra a concatenação dos mesmos. Isso nos obriga, senão a deixar de lado, ao menos a considerar, embora muito sumariamente, as propostas, considerações e reflexões estritamente pedagógicas produzidas por Dewey, visto que o foco desta pesquisa é o de explicitar as concepções de natureza filosófico- científicas que embasam e arrimam aquelas sobre a prática educativa. Método e procedimentos particulares do ofício pedagógico se revelam, portanto, como modos de realização concreta de conceitos de cunho geral, maneiras de levar adiante a constituição dos sujeitos humanos em conformidade com as categorias que definem a própria efetividade humana e social dos indivíduos para Dewey. Suas categorias filosóficas são elaboradas para dar suporte às proposituras educacionais e de organização de rotinas e do corpus curriculares, sem as quais estes restariam como meras posições técnicas e/ou burocráticas, sem uma
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conexão com a matéria plasmada pela prática educacional e a individualidade humana enquanto tal. Por conseguinte, métodos e entendimentos relativos à educação pressupõem, como em todo autor de relevância, um conjunto de concepções de caráter geral que circunscreve e posiciona as eleições procedimentais a partir de um dado referencial – necessariamente ontológico – definindo o estatuto dos objetos e objetivos. No caso de Dewey, nada mais que a natureza da realidade como um todo, não obstante dela se destaque, por suas particularidades, um de seus objetos – o humano e a experiência humana de mundo – é escopo teórico de sua visada filosófica.
Como já foi analisado, o arcabouço reflexivo de Dewey está fundamentado na categoria de experiência. Na obra Democracia e educação é explícita a dependência que o entendimento da educação e vida social têm da determinação de experiência. Pressuposto ontológico central do pensamento deweyniano, a experiência organiza a intelecção e o discurso sobre o real, atravessando os diversos níveis de determinação ôntica, de distinção e delimitação de instâncias e dimensões da realidade – da naturalidade à sociabilidade. O próprio Dewey cuida, ao remeter a definições anteriores de experiência, de ressaltar o seu cunho genérico e primário.
A categoria experiência possui uma polissemia e abrangência que superará a própria delimitação de experiência nos campos filosóficos do empirismo e do pragmatismo, ao menos em seus momentos iniciais. Multiplicidade de sentido que se patenteia como duplicidade, de práxis e pathos, contida na própria existência efetiva dos entes e da natureza em seu conjunto. Agir e sofrer não serão apenas marcas antropológicas, mas o caráter ontológico do existir mesmo das coisas e das relações havidas entre elas. Experiencialidade primordial que aponta para o desdobramento de uma unidade de ser que localiza a multiplicidade de entes e relações numa mesma e única dimensão: ―Ela é de ‗duplo sentido‘ nisto, em que, em sua integridade primitiva, não admite divisão entre ato e matéria, sujeito e objeto, mas os contém numa totalidade não analisada‖ (Dewey, 1985, p. 10). Totalidade efetiva da própria existência, dada e, de certo modo, vivenciada, a qual, sendo pensada como tal, permite a reconfiguração conceitual de noções caras e decisivas à tradição filosófica ocidental. A proposição de Dewey consiste numa revisão categorial que investe contra as dicotomias habituais da reflexão filosófica e pretende reinstaurar, em
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bases diversas, certo monismo conceitual, cujo fundamento se encontraria num remetimento essencial ao primário e originário, à experientia mundi: ―‗Coisa‘ e ‗pensamento‘, como diz James no mesmo contexto, são de sentido único; referem-se a produtos discriminados pela reflexão a partir da experiência primária‖ (Dewey, 1985, p. 10).
Não obstante o conceito de experiência, como ponto de arrimo ontológico, garanta à reflexão a possibilidade de referenciar-se pela totalidade que integra e articula o real, Dewey não o entende como formação monolítica ou indiferen- ciada. Por um lado, se a experiência é a categoria que descreve e abarca a relacionalidade essencial e inerente ao mundo, por outro lado, entende-a como diversidade de relações possíveis que correspondem à multiplicidade das coisas e relações. Buscando delimitar esses campos de experiência, procura demarcar e discutir teoricamente as diferenças entre os níveis ou instâncias da efetividade da natureza, a partir da análise de aspectos particulares. Por essa via analítica, pretende acercar-se da particularidade característica de cada momento do real, estabelecendo a démarche própria aos níveis de experiência, indicando os pontos de inflexão que instauram transições e diferenciações específicas. A totalidade de experiência não se converteria assim, ao menos o pretende Dewey, numa indistinção essencial ou na afirmação de uma identidade indiferenciada de momentos. Ao contrário, o autor norte-americano pretende estatuir uma análise da totalidade que integre e, ao mesmo tempo, faça emergir a diversidade imanente à natureza. É o que se observa quando da demarcação de fronteiras entre os estratos orgânico e inorgânico da natureza, no curso da qual surge a identificação da novidade emergente do primeiro em relação ao segundo. O processo vivo,
Durante toda a sua duração, /.../ esforça-se por tirar proveito das energias que a cercam. Utiliza-se da luz, do ar, da umidade e das matérias do solo. Dizer que as utiliza, importa em reconhecer que as transforma em meios para sua própria conservação. (Dewey, 1979, p. 1).
É, assim, um processo relacional, no qual a assimilação mesma do inorgânico na forma de condição e elemento essencial à continuidade, à conservação temporal, inaugura frente àquele a marca distintiva do vivente: a reprodução tendencialmente indefinida de sua processualidade. Não é, eviden-
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temente, como forma autoposta, mas como transformação de elementos e mediações inorgânicas em meios de reprodução da própria forma viva. Esforço, como o define Dewey, no transcurso do qual o ser vivo integra a si elementos que lhe são onticamente antitéticos, inorgânicos, como condição de sua manutenção como ente real. Integração e assimilação, como reprodutibilidade do processo orgânico, de metabolização, de assimilação transformadora que possibilita, a partir da conversão da matéria não viva em elemento vital, a conservação e renovação, em ciclos, da processualidade orgânica:
Poderemos dizer que um ser vivo é aquele que domina e regula em benefício de sua atividade incessante as energias que de outro modo o destruiriam. A vida é um processo que se renova a si mesmo por intermédio da ação sobre o meio ambiente. (Dewey, 1979, p. 1).
A vida, como processo de reconfiguração elementar continuado, aparece a Dewey como caracterizado essencialmente pela renovação constante de si. A reprodução no tempo do vivente surge como emergência real no sentido de um processo que se renova. Preservação de si pela assimilação do inorgânico equivale à renovação constante de si como existente. É uma modalidade de experiência que não propriamente apenas agrega um novo caráter, mas adensa mesmo a malha relacional da natureza na medida em que faz da conversão metabólica um momento novo de determinação da existência.
Ao lado da afirmação do caráter natural da existência de entes e processos, porquanto a vida se delimita não como entidade habitando o vivente, mas como processo de metabolismo do ambiente, há igualmente a fixação de um ponto de partida conceitual concretamente arrimado para as mediações propriamente culturais. Mediações que não comparecem como antíteses absolutas e/ou abstratas ao processo de vida naturalmente dado, mas como uma modalidade deste, um novo patamar de renovação, que inclui em si, como ponto de partida necessário, aquela do vivente, mas integra-a numa nova rede relacional do mundo. Experiência da natureza que, não obstante isso, afirma-se na sua realização como superior àquela do orgânico. A experiência cultural se efetiva como renovação constante de si a partir da experiência primária de sua organicidade, no sentido da superação desta no interior de uma totalidade diferente. Continuidade e emergência caracterizam o suporte e o lastro filosóficos
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da reflexão de Dewey, com a articulação destes dois caracteres, dando conta tanto da unicidade da natureza quanto da diversidade de experiências que a definem.
Desse modo, à experiência também ―se aplica o princípio da continuidade por obra da renovação. Com o renovar da existência física, também se renovam, no caso dos seres humanos, as crenças, ideais, esperanças, venturas, sofrimentos e hábitos‖ (Dewey, 1979, p. 1). Renovação que alcança no nível da experiência humana da natureza um sentido mais rico e complexo que naquele do vivente em geral. Nesse último, a renovação do processo se efetiva por meio de um metabolismo de energias e elementos; no modo humano de experiência, efetiva-se a continuidade do processo de vida, como reprodução continuada ou
renovação do agrupamento social. O processo educativo emerge como exigência
dessa nova modalidade de interação natural, como seu processo particular de renovação, sempre dentro de uma configuração que alia continuidade e diferenciação. Por conseguinte, a educação ―em seu sentido mais lato, é o instrumento dessa continuidade social da vida‖ (Dewey, 1979, p. 2), ou seja, é o meio da renovação da experiência em seu caso propriamente humano. A educação é, pois, mediação essencial que se fixa como necessidade imanente à sociabilidade, independentemente das particularidades históricas e/ou culturais, por meio da qual a continuidade do humano, como particularização da experiência, é garantida:
Todos os elementos constitutivos de um grupo social, tanto em uma cidade moderna como em uma tribo selvagem, nascem imaturos, inexperientes, sem saber falar, sem crenças, idéias ou ideais sociais. Passa com o tempo os indivíduos, passam, com eles, os depositários da experiência da vida de seu grupo, mas a vida do grupo continua. (Dewey, 1979, p. 2).
A vida humana é forma de experiência ou de ser que, em seu lado atinente ao gênero, tem sua perduração possibilitada para além dos seus elementos constitutivos. Reprodução que supera e remodela a renovação no sentido estritamente biológico do vivente em geral, como renovação continuada da experiência essencialmente em comum. No que tange à humanidade, a vida transcende a dimensão física e fisiológica, continuando e renovando-se através da experiência social. De um lado tem-se o caráter transitório e fisicamente finito
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dos indivíduos, e de outro lado, o caráter perene e tendencialmente infinito da experiência social.
À incompletude essencial e inescapável advinda da finitude física dos indivíduos, Dewey faz confrontar a generidade e a infinitude da sociabilidade. A educação se insere nessa antinomia latente como medium resolutivo. O enfrentamento entre aqueles dois momentos, finitude e infinitude, faz derivar a própria demanda do processo educativo, o qual é requerido em função ―dos fatos primários e inelutáveis do nascimento e da morte de cada um dos componentes de um grupo social‖ (Dewey, 1979, p. 2). A educação é o instrumento que preserva e dá continuidade à experiência social, dado que forma os novos integrantes do grupo, possibilitando-os se integrarem no conjunto das experiências sociais, herdando-as e reproduzindo-as. Para tanto, a educação se faz, à analogia do processo biológico, num primeiro momento, como
transmissão:
A sociedade subsiste, tanto quanto a vida biológica, por um processo de transmissão. A transmissão efetua-se por meio da comunicação – dos mais velhos para os mais novos – dos hábitos de proceder, pensar e sentir. Sem esta comunicação de ideais, esperanças, expectativas, objetivos, opiniões, entre os membros da sociedade que estão a sair da vida do grupo, e os que na mesma estão a entrar, a vida social não persistiria. (Dewey, 1979, p. 3).
Comunicação de caracteres genéricos, a qual confere durabilidade à sociabilidade para além de seus elementos finitos atuais e para aquém daqueles indivíduos que virão a fazer parte do conjunto social. Educar, por força da efetividade natural, se põe como necessidade interna, do mesmo modo que o metabolismo se colocava no nível do puro vivente, como forma de renovação e persistência da experiência humano-social. Inevitável, nesse sentido, a formação continuada e renovada dos membros da sociedade é tarefa crucial no sentido de garantir a permanência do modo humano de experiência da realidade, transcendendo mesmo os entes humanos que finita e efetivamente experienciam o mundo. A finitude positivamente posta dos indivíduos tem como contraponto a generidade tendencialmente infinita da sociabilidade. A experiência humana que tem no indivíduo um limite concreto por sua existência física imediata possui, no
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lado da sociedade, a virtualidade de ser infinita por obra da formação dos indivíduos que a compõem. Como embasamento de sua posição, Dewey adita a essa concepção da relação imediata indivíduo-gênero, algumas observações de caráter antropológico que reforçam a necessidade social da educação:
Comparados com os filhos de muitos animais inferiores, os seres humanos têm tão minguadas aptidões, que a própria habilidade requerida para a alimentação física precisa ser adquirida por meio do ensino. Quanto mais no que diz respeito à aquisição das capacidades técnica, artística, científica e moral da humanidade! (Dewey, 1979, p. 9).
A não-especialização humana comparece como marca antropológica particular que faz do momento individual da vida social, o momento de uma finitude negativa, na qual a ausência de uma mediação herdada põe a formação como tarefa de primeira ordem.
Ainda que, analogicamente com a ordem biológica, partilhe a transmissão como medium essencial, a vida social se caracteriza exatamente pela diferenciação desse instrumento de renovação. Não guarda identidade com a forma de transmissão de caracteres por herança através de gerações. Diversamente da passagem direta e irrefletida de traços distintivos de natureza orgânico-física, a vida cultural tem como momento por excelência a comunicação. Comunicação que é índice da própria vida dos indivíduos uns com os outros, como comunidade. Desse modo,
Há mais do que um nexo verbal entre os termos comum, comunidade e comunicação. Os homens vivem em comunidade em virtude das coisas que têm em comum; e a comunicação é o meio por que chegam a possuir coisas comuns. O que eles devem ter em comum para formar uma comunidade ou sociedade são os objetivos, as crenças, as aspirações, os conhecimentos - um modo comum de compreender — mentalidade similar, conforme dizem os sociólogos. (Dewey, 1979, p. 4).
O partilhamento, por assim dizer, ideológico, é então mais decisivo do que a herança da pura forma do vivente, para a existência e renovação da vida social. O âmbito humano da experiência vê nascer como exigência vital a emergência de um espaço simbólico compartilhado. O vital, no caso da
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experiência propriamente humana, é a formatação de um processo de manutenção/renovação do patrimônio axiológico e cultural. Valores que se passam às gerações de modo diverso daquele da materialidade e constituem o caráter por excelência do humano. Partilhamento de uma herança que faz dos indivíduos que a dividem e a reproduzem membros de uma totalidade que supera qualitativamente aquela definida e delimitada pelo pertencimento a um mesmo espaço físico:
Não é por viverem em proximidade material que as pessoas constituem uma sociedade — e, semelhantemente, homem algum deixa de ser socialmente influenciado por estar muitos palmos ou quilômetros distanciado dos outros. Um livro ou uma carta podem estabelecer, entre seres humanos afastados milhares de quilômetros um do outro, um elo mais estreito do que o existente entre pessoas sob o mesmo teto. (Dewey, 1979, p. 5).
A educação seria o instrumento de conservação da experiência humana porquanto, como comunicação, como compartilhar dos sentidos e valores essenciais à sociabilidade forneceria o elemento de transcendência em relação à finitude temporal dos indivíduos e aos limites da forma meramente física de experiência. O sentido seria o elo mais forte da cadeia humana, um nexo muito mais forte que o familiar ou o nacional, por exemplo.
A esse respeito, cabe chamar a atenção para um aspecto importante da tematização de Dewey que o aproxima do idealismo em geral, e daquele de extração hegeliana em particular. Para o filósofo norte-americano, a sociabilidade é prioritariamente um conjunto de nexos simbólicos ou ideológicos, frente aos quais as relações materialmente mediadas necessariamente se revestem de um caráter tanto quanto limitado quanto mais dependentes sejam da finitude dos objetos e atividades que os produzem:
Os indivíduos, também, não constituem, por outro lado, um agrupamento social por trabalharem todos para um fim comum. As partes de uma máquina funcionam em conjunto para a obtenção de um resultado comum, mas não formam por isso uma comunidade. (Dewey, 1979, p. 5).
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A interatividade social, o conjunto de liames de produção e reprodução material e recíproca entre os indivíduos, o comportamento reciprocamente ativo dos sujeitos, não constitui por si um espaço de partilhamento social. A produção social, com sua rede de interdependência, de reciprocidade concreta e necessária é entendida por Dewey na forma da máquina, como totalidade de relações
mudas, quase naturais ou irrefletidas. A teleologia comum ou a produção de uns
para outros dos indivíduos não faz surgir por si uma comunidade societária. Do corolário idealista da sociabilidade como totalidade ideológica ou axiológica tem- se forçosamente como remate a redução das relações tecidas pela finitude compartilhada ao nível dos nexos puramente exteriores ou mesmo inconscientes da manutenção da vida em abstrato. A rede de relações materiais aparece, por sua própria delimitação – a mediação da materialidade –, como destituída de qualquer outra significação senão aquela imediatamente alcançada pela intuição e representação imediatas; como assunto atinente à mera sobrevivência física ou, na melhor das hipóteses, biológica. Tais nexos interativos não formam laços autenticamente comunitários. O carecimento recíproco dos indivíduos não alça aqui o patamar ontológico efetivamente diverso daquele do vivente. Como consequência, se, de uma parte, as relações materialmente mediadas não são ainda propriamente sociais, de outra parte, as próprias relações sociais não são tomadas como objetivas. A objetividade do nexo social vital, a reciprocidade da produção dos indivíduos não é, para nosso autor, o fundamento do comportamento social dos indivíduos entre si. Nesse passo, a eleição do conceito de experiência na amplitude categorial com a qual se encontra conformado e enunciado produz uma reverberação importante. De sinônimo de interação tout-
court se transmuta, no ápice da própria experiência do mundo, em fenômeno
para o qual a mediação da consciência é essencial. Além disso, como emergência que submete absoluta e abstratamente as determinações da experiência em outros níveis, o modo humano-social se equivale à experiência simbólica do mundo. A rede de relações sociais materialmente mediadas aparece na reflexão de Dewey ainda como momento inconsciente, na exata proporção em que o peso das determinações objetivas se faz sentir frente ao comportamento dos indivíduos como momento determinante. A determinação preponderante ou mesmo unilateral pelo simbólico resulta necessariamente da escolha conceitual da experiência como centro categorial da descrição da malha relacional
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constituída pela existência dos entes. Nesse sentido, ao contrário do caso dos nexos postos ―apenas‖ pelo carecimento material recíproco, se ―todas essas partes tivessem conhecimento do fim comum e se interessassem na sua consecução, regulando, cada qual, com esse fito, sua atividade especial, constituiriam então uma comunidade‖. (Dewey, 1979, p. 5). Formação de um conjunto de comportamentos recíprocos cuja única mediação é aquela dada pela comunidade simbólica ou ideológica, ou consenso linguisticamente mediado e garantido. A identidade mediada entre comunidade e comunicação se prova então ter peso ontológico. O propriamente humano reside na possibilidade de contato em segunda potência, como construção de um universo social simbólico.