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méthodologiques de la recherche)

6.2  Polyfonctionnalité du dialogue dans l'activité

O que atrás se acabou de referir prende-se com a fase seguinte da preparação da epígrafe: a escolha do texto. Poderíamos comparar a escolha do texto com o fenómeno do Face Book. Tal como umas linhas no FB, a epígrafe obedece, na sua origem, a pulsões íntimas: do indivíduo em si e em comunidade. Tanto em ambiente rural como num aglomerado urbano, essa pulsão pode partir dum ou doutro · do indivíduo ou da comunidade ·, com o valor acrescen- tado de requerer intervenção das entidades oficiais para regular e aprovar. Uma epígrafe, note-se, só mui raramente é resultado apenas de um acto individual e, mesmo sendo-o, não pode analisar-se de forma adequada se não a encarar- mos dentro dos circunstancialismos vários que a viram nascer e, quiçá, até vieram a influenciar o seu «nascimento». O encomendante explica o que quer, os dados concretos que, em seu entender, devem constar na pedra. Dita-os ao dono da oficina ou mostra-os · imaginemo-nos no tempo dos Romanos · quais grafitos na superfície duma telha. O dono da oficina troca impressões, dá o seu parecer, sugere alterações para que o texto se enquadre, de certo modo, no que é o hábito local, como ele costuma fazer. O texto final resulta dessa troca de impressões. Quando alguém vai pôr um anúncio no jornal ou traz algo de original que faz questão em incluir ou coloca-se nas mãos do técnico e pede-lhe que faça como é costume.

PAGINAR

Há, pois, que esboçar a colocação do texto no espaço disponível, o chamado «campo epigráfico», habitualmente pre- parado através do alisamento da superfície a gravar e, também, delimitado por um singelo sulco ou mesmo por mui adequada moldura.

Poderá a grande experiência do canteiro · quer ele seja o empregado ou o próprio dono da oficina · ajustar o texto a olho nu ou ensaiar a disposição das palavras segundo um eixo de simetria, com alinhamento à esquerda ou à direita ou em caixa ou mesmo não se preocupando minimamente com a obediência a quaisquer regras. Terá em conta, no que se refere à disposição no sentido vertical das linhas no campo epigráfico, a altura do olhar do passante. O pouco espaço interlinear dificultará a compreensão, mormente se a epígrafe não for colocada à altura dos olhos. O deixar um pouco mais largo o espaço antes da linha 1 significa que a leitura será feita a partir de um plano superior; do inverso, o maior espaço em branco após a última linha, se deduzirá que o texto ficaria colocado a um nível mais alto do que o normal olhar.

O mais corrente seria que essa operação, a ordinatio, a paginação (sabemos hoje quão importante é a maquetização de um livro!...) fosse obra do dono da oficina ou do operário mais experiente, cabendo ao aprendiz ou ao operário menos treinado a tarefa de gravar depois, segundo o que fora riscado. E aqui se insere a existência, ou não, do que chamamos «linhas de pauta» ou «linhas auxiliares». Numa oficina urbana, em que a clientela maior se poderia situar nos estratos letrados e mais endinheirados da sociedade, o uso de algo semelhante ao nosso escantilhão seria corrente. A existi- rem, as linhas de pauta apresentam-se muito ténues, quase imperceptíveis, seriam riscadas com uma ponta vegetal queimada ou mediante qualquer objecto que deixasse rasto de cor; apresentam-se gravadas com estilete, duplas ou

singelas, mas ainda pouco perceptíveis agora; ou o ordinator fez questão em as usar também como elemento decorativo, do jeito que vemos nas estelas do Sudoeste português (Fig. 4).

Falou-se do ordinator, o encarregado da paginação. É nesta fase que se manifesta todo o seu saber, porque, perante o texto, não apenas tem de escolher o módulo das letras (porventura, até, não o mesmo em todas as linhas, se se quer pôr em evidência alguma palavra) mas também de lançar mãos a toda uma panóplia de si- glas e abreviaturas que precisa de gerir com toda a atenção. Tal como na actualidade, ao redigirmos uma sms, usamos siglas e abreviaturas que toda a gente entende já, o canteiro experien- te conhecer-lhes-ia o rol, porque deveria ter em conta que, mui provavelmente, o trabalho iria ser pago à letra e fora-lhe dito que se preconizava uma linguagem sintética, perceptível mas sinté- tica. Recordo a preocupação do dono daquele minimercado que, ao verificar que a expressão publicitária «Aqui vendem-se ovos frescos» poderia criar anticorpos e perder impacto no freguês, foi cortando palavra após palavra até ficar apenas com… OVOS, por- que tal era perfeitamente perceptível.

O facto de, por vezes (e até bastaria uma só vez), essas siglas e abreviaturas virem desdobradas em contextos semelhantes constitui a grande salvaguarda dos investigadores. Por exemplo, se a expressão Iovi Optimo Maximo não apa- recesse amiúde também escrita por extenso, decerto teria havido dificuldade em descortinar como se des- dobrariam as siglas I · O · M.

Anote-se, todavia, desde já, que o uso das siglas pode não significar que o operário saiba exactamente o que elas significam. Ou, explicitando doutra forma: pode ter uma ideia do seu significado, mas não saber a rigor como é que a palavra seria por extenso. Veja-se o caso actual das siglas MRPP: rara será a pessoa inquirida que não saiba dizer que identificam um partido revolu- cionário e até adregará adiantar que MR é precisamen- te isso que quer dizer: M(ovimento) R(evolucionário) – e não é. Agora o significado concreto das quatro siglas só quem esteja bem entrosado nas questões políticas é que o saberá indicar com exactidão.

Para esculpir na pedra, dois instrumentos se utiliza- vam: a goiva e o buril. A goiva produzia um sulco em meia-cana e estamos em crer que se usava, de pre- ferência, nos suportes areníticos ou de calcário facil- mente esboroável. Como esses materiais, mais pobres, foram bastante usados aquando da introdução da «sociedade epigráfica», estamos convictos de que se- rão dos séculos I (antes e depois de Cristo) os monumentos em que esse uso se verifica. O buril, de corte mais fino e em bisel, para acentuar o claro-escuro, é o preferido para esculpir no mármore ou em calcário mais rijo.

Fig. 4 Linhas de pauta como elemento decorativo. IRCP 66.

como esculpia as letras (Fig. 5). Tanto essa posição como o movimento adoptado na gravação (o ductus) são revelados no traçado dos caracteres e permitem-nos ajuizar acerca do grau de competência dos artífices e, consequentemente, do seu estádio de conhecimentos no âmbito da aculturação, pois foi com a vinda dos Romanos que, na Hispânia, se passou a ter, de facto, o que poderemos designar por «uma civilização da escrita», em que · como, agora, frequente- mente se diz · «as pedras falam», loquuntur saxa! (Fig. 6).

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