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PARTIE 2 : BESOINS EN NUTRIMENTS ET CONSEQUENCES D’UNE

B. Pollen

Tradicionalmente a transição para a idade adulta era efectuada segundo padrões distintos entre homens e mulheres. Contudo, a partir da segunda metade do século XX verifica-se uma maior aproximação e flexibilidade dos papéis de género. Para isso contribuíram mudanças na lei, um aumento exponencial dos tempos de escolaridade e uma participação crescente das mulheres no mundo laboral e na vida pública. Estas mudanças repercurtiram-se em termos de valores, expectactivas e práticas no sentido de uma maior convergência entre os padrões masculinos e femininos. Contudo, um processo de socialização diferencial dos papéis de género por um lado, e a confrontação com condições e oportunidades assimétricas, nomeadamente nas esferas familiares e laborais, por outro lado, poderão ainda conduzir a trajectórias diferenciadas na transição para a vida adulta.

Na verdade, a realidade portuguesa, no que toca às relações de género, assume contornos especiais que não se enquadram no binómio tradicional vs. moderno. Portugal regista uma das taxas de actividade feminina mais elevadas da Europa, comparável ao dos Países Nórdicos, e contrastando com outros países da Europa do Sul (Almeida et al, 1998). No entanto, quando nos referimos à divisão de tarefas domésticas, continuam a persistir fortes assimetrias entre os sexos, comparativamente a outros países Europeus (Fontaine, Andrade, Matias, Gato & Mendonça, 2006), no sentido de as mulheres assumirem a maioria do trabalho doméstico. Verifica-se, deste modo, que uma elevada taxa de actividade feminina coexiste com um modelo familiar assimétrico, cumprindo assim as mulheres portuguesas “uma dupla jornada de trabalho” (Almeida et al., 1998; Wall & Guerreiro, 2005).

No que diz respeito à transição para a vida adulta, alguns estudos demonstram que as mulheres parecem adoptar padrões mais tradicionais do que os homens, cumprindo mais precocemente as tarefas normativas que marcam a entrada na adultez (Reitzel, 2006). Em Portugal, por exemplo, os dados indicam que as mulheres entram no casamento, em média, dois anos antes do que os homens (Ferreira, et al., 2007). Adicionalmente, estes percursos parecem ser mais precoces em mulheres com um nível educacional mais baixo (Reitzle & Vondracek, 2000). Em contextos educacionais mais elevados, os padrões transacionais mostram-se menos diferenciados em termos de género (Guerreiro & Abrantes, 2004).

Estas assimetrias registam-se também a nível das concepções e representações de género. Guerreiro e Abrantes (2004) verificaram que os jovens de meios mais desfavorecidos e menos escolarizados têm uma visão mais tradicional do género, sendo os únicos a assumir que homens e mulheres têm “naturalmente” competências diferentes e como tal deverão assumir e desempenhar papéis diferenciados. Nos rapazes de classes mais favorecidas esta ideologia não é assumida de forma explícita e é vista até como obsoleta, contudo, a vida familiar aparece em segundo plano relativamente à vida profissional, não porque esta não faça parte dos seus planos, mas essencialmente porque não é percepcionada como envolvendo grandes responsabilidades, nem limitações (Guerreiro & Abrantes, 2007). Poeschl (2000) verificou também que sujeitos casados, sobretudo mulheres, tendencialmente adoptavam uma postura mais tradicional dos papéis de género, dos que os jovens solteiros. Apesar de se registar uma maior vontade de envolvimento e participação no cuidado dos filhos (Fontaine, et al., 2006), contínua haver um certo distanciamento masculino face à vida familiar, qualquer que seja a classe social. Ao contrário daquilo que acontece com os rapazes, a vida familiar continua a ser imposta às raparigas (das várias classes sociais) como uma prioridade e estas devem assumir as principais responsabilidades no seu seio. Um estudo conduzido por Vasconcelos (1998) sobre atitudes de género nos jovens portugueses, mostra que a grande maioria dos jovens tenta reconhecer às mulheres a possibilidade de afirmação social, valorizando os projectos individuais de vida associados à realização profissional. No entanto, quando inquiridos sobre a especialização feminina nas tarefas reprodutivas, os resultados vão num sentido tradicional: para a maioria dos jovens, independentemente do sexo, as mulheres devem dar primazia ao papel de mãe sobre a realização profissional. Verifica-se deste modo que, em relação aos papéis familares, o discurso igualitário coexiste com uma perspectiva tradicional dominante de hiper-responsabilização da função materna, indicando a manutenção de estereótipos tradicionais.

Novas Configurações na Transição para a Idade Adulta

39 Deste modo, ao passo que para os rapazes, os projectos familiares e profissionais surgem como um processo contínuo sem grandes interpolações, uma vez que as suas principais responsabilidades se relacionam com a segurança financeira, para as raparigas, a conciliação entre estes dois mundos é mais problemática, exigindo muitas vezes ter que optar e decidir a qual deles darão prioridade (Guerreiro e Abrantes, 2004).

De acordo com Guerreiro e Abrantes (2004), a transição para a idade adulta de jovens portugueses desenvolve-se de forma diferenciada, em termos de oportunidades, para rapazes e raparigas, em dois momentos distintos. Durante a adolescência as raparigas parecem conseguir integrar-se melhor e ter mais sucesso na esfera escolar, facto que se traduz numa vantagem temporária relativamente aos rapazes. Esta vantagem tende a prolongar-se até ao ensino superior onde demonstram aspirações e níveis de sucesso semelhantes ao dos rapazes. Contudo, a partir do momento que em que se encontram em situação de inserção profissional e de constituição de família própria, tendem a ser discriminadas e a vivenciarem conjunturas desvantajosas, quer na esfera familiar, como esposas e mães, quer na esfera profissional, como trabalhadoras.

Conclusão

A indeterminação profissional, familiar e conjugal junto com a extensão dos tempos de ensino/formação anunciam mudanças no modelo de transição para a vida adulta em Portugal. Verifica-se, deste modo, que o modelo tradicional de transição para a idade adulta constituído por metas a atingir por objectivos precisos definidos no tempo (e.g. o tempo de arranjar um emprego, de casar, de ter filhos), isto é, uma transição previsível, linear e bem delimitado, dá lugar a percursos cada vez mais complexos, irregulares e imprevisíveis. Neste(s) modelo(s) as decisões que o jovem toma sobre a sua vida familiar e profissional podem ocorrer em tempos completamente diferentes, existindo uma diversidade de modalidades de passagem que serão utilizados de acordo com os grupos e os contextos sociais (Guerreiro & Abrantes, 2004, 2005, 2007). É possível encontrar, nestas novas disposições culturais, a valorização do .lazer e da experimentação, assistindo-se a uma vontade de prolongar um tempo de “errância” antes de assumir projectos que impliquem compromissos sérios e maiores responsabilidades. Nestes novos modelos de transição, a passagem por experiências tradicionalmente assumidas como aspectos de iniciação à vida adulta (e.g. trabalho e as relações afectivas) perdem também o seu carácter estável e

duradouro (Sousa, 2007; Arnett, 2004), assumindo a família um papel preponderante de suporte ao longo de todos estes processos de passagem. Não é possível falar de um único modo típico de transição, mas sim de transições que são múltiplas, distintas e diferentemente vividas pelos jovens (Machado Pais, 1991). Esta não normatividade e diversidade de percursos é sintomática da presença de um período desenvolvimental semelhante ao proposto por Arnett (adultez emergente), provavelmente com contornos culturais específicos, associados à realidade portuguesa. Contudo, e tal como foi anteriormente salvaguardado, nem todos os jovens terão as mesmas oportunidades ou condições de experienciarem esta etapa. Factores educacionais, culturais, e económicos poderão limitar o acesso a esta fase desenvolvimental (Arnett, 2004), ou modificar os seus contornos.

Capítulo II: Ser Adulto e a