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PARTIE 2 : BESOINS EN NUTRIMENTS ET CONSEQUENCES D’UNE

B. Conséquences sur les individus

das famílias, inerentes ao processo de modernização das sociedades, conduziram a maiores investimentos na educação e a percursos escolares mais longos.

Apesar de Portugal continuar a ser um dos países da União Europeia com taxas de escolarização mais baixas, o número de jovens que entraram no ensino superior duplicou entre 1991 e 2001 (INE, 2004). De facto, este alargamento das oportunidades educativas começou-se a registar desde a revolução de Abril de 74, em que a frequência universitária deixou de ser um privilégio de elites. A integração Portuguesa na União Europeia terá também contribuído para um maior investimento e incremento dos níveis de educação.

De acordo com Guerreiro e Abrantes (2005), a massificação do ensino superior alterou significativamente os trajectos e projectos dos jovens portugueses, constituíndo um contexto que proporcionou o adiamento da transição para a vida adulta, amplificou as expectativas em relação ao futuro e causou uma maior diversificação do perfil social dos jovens. Na verdade, alguns autores têm enfantizado que a frequência universitária proporciona múltiplas opções, situações e oportunidades aos jovens, conduzindo a uma destandardização e individuação dos percursos de vida (Cavalli, 1995; Guerreiro & Abrantes, 2004).

Contudo, ainda para a maioria dos jovens Portugueses, o ensino superior não faz parte das suas trajectórias. Para muitos jovens a vida de trabalho começa antes de sequer terminar o ensino obrigatório (Alves, 1998). Observa-se, assim, universos distintos de transição, influenciados por variáveis sócio-culturais por um lado, e pelas experiências proporcionadas pelos próprios sistemas de ensino, por outro. Adicionalmente, verifica-se ainda o crescimento de uma terceira via correspondente à formação profissional, que proporciona aos jovens uma oferta diversificada de cursos e percursos profissionais.

Contudo, uma maior escolarização não tem correspondido necessariamente a uma transição mais fácil para o mercado de trabalho, ou seja, a elevação dos níveis de qualificação nem sempre são uma resposta em termos de emprego, nem em termos de estabilidade profissional. De facto, para cada vez mais jovens, o precurso universitário parece terminar em desilusão, face à impossibilidade de conseguirem emprego na área em que estudaram. Um estudo realizado por Guerreiro e Abrantes (2004), mostra que o prolongamento dos projectos académicos é muitas vezes

inconciliável com a ideia de, a curto prazo, obter um emprego seguro ou constituir família (…) (pg.158).

Novas Configurações na Transição para a Idade Adulta

29 As taxas de desemprego, tradicionalmente baixas em Portugal, têm aumentado nos últimos anos, sendo que um terço dos desempregados têm menos de 30 anos (INE, 2004) e uma proporção significativa dos jovens trabalham em empregos temporários e precários com baixos salários. São sobretudo os jovens com baixas qualificações (2º e 3º ciclos de escolaridade) que lideram os lugares cimeiros no ranking do desemprego, contudo é também notória a subida do desemprego entre os jovens com qualificações superiores. Na verdade, entre 1991 e 2005 a taxa de desemprego entre jovens bacharéis e licenciados quadriplicou (Vieira, 2006). Uma vez desempregados, é sobretudo a família que apoia financeiramente estes jovens (64.3%), sendo que também alguns se apoiam no suporte finaceiro do subsídio de desemprego (20.85%) (idem).

A proliferação de modalidades de trabalho temporário e de vínculos laborais precários, como por exemplo o sistema de “recibos verdes” (não só no sector privado, mas também na administração pública), conduzem muitos jovens, a percursos profissionais marcados pelo risco, insegurança e instabilidade. Todavia, a insegurança e a mobilidade laboral podem também possibillitar experiências profissionais e pessoais diversificadas e aliciantes. Alguns estudos, apontam que a mobilidade é encarada como um valor desejado entre os jovens, devido à liberdade e diversidade de experiências que possibilita (Arnett, 2001; Kugelberg, 1998; Guerreiro e Abrantes, 2007), principalmente quando envolve mobilidade geográfica (Peixoto, 1999). Segundo Kugelberg (1998), há que diferenciar, no entanto, a mobilidade valorizante, da mobilidade desvalorizante. O primeiro tipo, é mais característico de sectores qualificados em que a possibilidade de contacto com pessoas, projectos e instituições permite enriquecer o currículo e possivelmente facilitar a integração no trabalho seguinte. Por outro lado, nos sectores desqualificados, a mobilidade é muitas vezes sinónimo de voltar à “estaca zero”, ou seja, a integração num novo e diferente emprego surge muitas vezes de forma despegada das experiências anteriores.

Não possuíndo empregos estáveis e duradouros, muitos jovens desenvolvem assim estratégias de “gestão da incerteza” que podem passar pela criação de empregos próprios ou pelo investimento na formação contínua (Lewis, et al. 1999). De acordo com Beck (1992), uma das consequências da instabilidade e precaridade laboral no mundo contemporâneo, é o desenvolvimento e valorização da noção de flexibilidade, ou seja, os indivíduos reconhecem a necessidade de possuírem um leque alargado de competências, assim como de serem capazes de se adaptar a uma diversidade de circunstâncias.

Deste modo, a obtenção de alguma estabilidade laboral é algo que é alcançado cada vez mais tarde (Cavalli, 1997) e por uma franja mais reduzida da população. Apenas o sector público parece escapar a esta realidade, sendo por isso um dos sectores mais ambicionados pelos jovens. A este cenário acrescenta-se ainda a necessidade de realização pessoal através do trabalho (Arnett, 2006). O trabalho é visto actualmente pelos jovens não apenas como um meio para alcançar a independência económica, mas também como uma fonte de realização pessoal, falando-se mesmo de uma nova ética do trabalho (Pais, 1993). Esta visão do trabalho pode exigir também um tempo de ajustamento mais longo, uma vez que implica muitas vezes a passagem por múltiplos empregos e profissões até se encontrar uma actividade considerada suficientemente gratificante. Contudo, a valorização da realização profissional sobre as condições financeiras não é alheia à influência de variáveis sócio-económicas, sendo sobretudo uma aspiração de grupos mais favorecidos (Lewis et al., 1999).

Como anteriormente destacado por Arnett, a transição para a idade adulta encontra-se fortemente associada à conquista de independência financeira, estando esta dependente da inserção profissional. Vários estudos sociológicos conduzidos em Portugal apontam que a entrada no mercado de trabalho constitui um passo fundamental para entrada na idade adulta, uma vez que funciona como condição necessário para a conquista de outras tarefas envolvidas nessa transição, como a indepedência residencial e a possibilidade de constituir uma famíia própria (Guerreiro e Abrantes, 2007). Contudo, deixa de ser possível entender o tempo que medeia o fim da escolaridade e o exercício de uma profissão como um tempo linear. Este alonga-se cada vez mais e perde-se o carácter de instantaneidade que no modelo tradicional de transição para a idade adulta era caracterizada por uma rápida e irreversível inserção profissional. Assim percursos lineares (do ensino para o mercado de trabalho) tendem a ser substituídos por “percursos yo-yo”, em que há alternância entre períodos de trabalho, desemprego e formação (Alves, 1998, Pais, 2001). Estas mudanças têm alterado a transição para a idade adulta em Portugal (Guerreiro & Abrantes, 2004) em que a definição do estatuto de adulto passa agora por um período de indeterminação e implica muitas vezes o recurso ao suporte parental em termos financeiros e residenciais.