PARTIE 2 : BESOINS EN NUTRIMENTS ET CONSEQUENCES D’UNE
F. Distribution
A investigação desenvolvida no quadro teórico dos estatutos da identidade centrou-se primordialmente na tentativa de operacionalização do conceito de identidade, focalizando-se para tal na adolescência e nas dimensões processuais subjacentes à construção identitária neste período. O modelo proposto por Marcia tem sido questionado e criticado por alguns autores (e.g., Cotê & Levine, 1988), revelando- se limitado e insuficiente no estudo do desenvolvimento da identidade após a adolescência. Investigações mais recentes produzidas dentro deste quadro teórico tentam ir mais além, desenvolvendo medidas avaliativas da construção da identidade em fases posteriores do ciclo vital.
De facto, quando o paradigma de Marcia é aplicado à idade adulta, a literatura revela padrões de formação da identidade erráticos, marcados por investimentos instáveis e transições regressivas para estatutos considerados à priori menos desenvolvidos (e.g., do estatuto de achievement para o de foreclosure) (Côté, 2006). Fadjukoff, Pulkkinen & Kokko (2005) levaram a cabo um estudo longitudinal na Finlândia em que avaliaram o desenvolvimento identitário de 200 sujeitos, de ambos os sexos, em três momentos: 27, 36 e 42 anos de idade e verificaram que existia uma tendência estatisticamente significativa para os estatutos de difusão e moratória diminuírem e os estatutos vicariante e de identidade construída aumentarem com a
idade. Neste mesmo estudo constataram que aos 27 anos, a maioria dos sujeitos ainda não tinham atingido o estatuto de identidade construída em nenhum dos domínios avaliados (profissional, relacional, político, religioso e estilo de vida). Outro dado interessante deste estudo mostra que no domínio ideológico, o estatuto de
difusão era mais frequente e que este padrão aumentava com a idade dos sujeitos.
Na verdade, Marcia (2002) nas suas posições mais recentes, faz referência à problemática da descontínuidade9. Tal como Erikson, também Marcia considera ser a adolescência o período crucial, para a formação da primeira configuração identitária. Contudo, o tipo de resolução identitária encontrada no final da adolescência constitui apenas uma primeira resposta à questão identitária. Marcia (2002) considera que acontecimentos de vida desiquilibrantes poderão interferir no processo identitário dos indivíduos desencadeando ciclos sucessivos de moratorium-achievement (MAMA). Por exemplo, perante circunstâncias inesperadas, uma estrutura identitária construída (Identity achievement) permite uma abertura à experiência e exploração que resultará em períodos subsequentes de crise de identidade e de resolução das mesmas. Ou seja, uma resolução no final da adolescência do tipo identity achievement, deverá garantir um ciclo de Moratorium-Achievemente-Moratorium-Achievement (MAMA) ao longo da idade adulta. Por outro lado, uma resolução menos bem sucedida da identidade (Foreclosure ou Diffusion) no final da adolescência não significa necessarimente que a identidade não seja construída mais tarde. Existem inúmeros acontecimentos de vida ao longo do ciclo vital que poderão provocar crises de identidade e o desenvolvimento da mesma.
Assim, os estudos parecem sugerir que o desenvolvimento da identidade durante a idade adulta é um processo complexo e não linear: os indivíduos poderão transitar de estatuto para estatuto de forma variável e flutuante (Côté, 2006, Fadjukoff & al., 2005). Uma possível explicação para estas trajectórias irregulares poderá ser a influência de contextos sociais fragmentados e anómicos, característicos das sociedades de modernidade tardia ou pós-modernas. De facto, Marcia dá relevo à importância da estrutura socio-política enquanto variável determinante no desenvolvimento psicossocial do indivíduo:
A moratória, condição prévia à identidade construída (identity achievement) é possível para um largo número de sujeitos apenas numa sociedade suficientemente saudável para tolerar um período de não produtividade a algum dos seus membros
9 Entende-se aqui por descontinuidade o modo como a identidade de um sujeito permanece ou muda. Se as regras que usamos para descrever e/ou explicar esse padrão continuam a aplicar-se no tempo dizemos que há continuidade (Carneiro, 2006).
Ser Adulto e a Dimensão Identitária
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potencialmente produtivos (...) e fortemente flexível na ideologia para incluir vozes dissidentes (...) Provavelmente quanto mais pobre é a sociedade, menos será capaz de deixar (os seus membros) usufruir(em) do luxo da aquisição de uma identidade (integrada, complexa, construíd). (Marcia, 1986; p.28).
De acordo com esta linha de pensamento, percebemos como os constragimentos sociais e políticos poderão influenciar o desenvolvimento identitário do indivíduo. Kroger (2003) também refere que os sujeitos podem evoluir para um estatuto da identidade construído, apenas se o contexto favorecer uma tal evolução. A exposição a oportunidades pode limitar ou promover o desenvolvimento em funçao da qualidade dos contextos culturais.
A transição para a idade adulta tem sido apontada como uma etapa do ciclo vital determinante para a consolidação da identidade (Arnett, 2000; Côté, 2006). A variabilidade de contextos sociais em que os jovens se inserem poderá explicar a existência de diferentes estatutos para uma mesma faixa etária. A capacidade de orientação e projecção do futuro providencia a base para o estabelecimento de objectivos, planificação de projectos e a exploração de opções que conduzirão a compromissos e consequentemenete irão guiar o percurso desenvolvimental do indivíduo. Para além da presença de uma identidade construída se encontrar fortemente associada à capacidade de direccionar e dar sentido ao futuro, verifica-se também que a capacidade de orientação para o futuro surge como um importante percursor do desenvolvimento identitário (Seginer & Noyman, 2005). Alguns autores defendem que esta tarefa se encontra dificultada devida ás caracteríticas das sociedades ditas pós-modernas ou de modernidade tardia. De acordo com Côté (2005), a identidade difusão, geralmente vista como reflectindo apatia, ausência de reflexão acerca do futuro e a incapacidade para assumir compromissos, é muito característica das sociedades actuais, onde predomina a instabilidade e mutabilidade. A presença da identidade moratória é também típica nestes contextos, embora seja um estatuto mais complexo, uma vez que o indivíduo se questiona e assume comportamentos pró-activos na exploração de diversas opções para o seu futuro. Segundo esta perspectiva, o estatuto de identidade difusão e moratória surgem como sendo os estatutos mais adaptativos para fazer face às características inerentes às sociedades de modernidade tardia. A primeira porque se conforma à instabilidade e mudança e a segunda porque procura activamente “caminhos” no quadro dessa mudança.