Em um dos mais importantes manuais de economia, Samuelson e Nordhaus (2004) conceituam a economia como a ciência que estuda a forma como as sociedades utilizam os recursos escassos para produzir bens com valor e de como os distribuem entre os vários indivíduos. Neste conceito, estão implícitas duas questões fundamentais: a ideia de que os bens são escassos, ou seja, não existem em quantidade suficiente para satisfazer plenamente todas as necessidades e desejos humanos; e a noção de que a sociedade deve utilizar os recursos de que dispõe de uma forma eficiente, ou seja, deve procurar formas de utilizar os seus recursos de maneira a maximizar a satisfação das suas necessidades. Como é possível perceber, para esses autores, a escassez e a eficiência constituem a base de tal ciência. Concentrado-me, especificamente, na escassez, é possível pressupor que, se nossos recursos fossem ilimitados, não existiriam bens econômicos, os bens seriam gratuitos, os preços e os mercados não teriam sentido e, consequentemente, não existiria motivo para a existência da economia. Entretanto, como a sociedade moderna está cada vez mais distante de atingir possibilidades ilimitadas, a questão da escassez deve ser compreendida sobre outro prisma: o das necessidades ou dos desejos humanos.
Atualmente, a premissa de que os indivíduos possuem necessidades ou desejos ilimitados constitui-se em uma evidência indiscutível. Assim, mesmo possuindo capacidades produtivas muito maiores quando comparadas às sociedades distintas da nossa, na sociedade moderna, o problema da escassez se mantém uma vez que está intimamente relacionado ao caráter ilimitado das necessidades humanas. Pelos argumentos anteriores, especialmente os de Smith (1996) acerca do egoísmo, é possível conferir à busca por satisfação das necessidades uma das principais forças de ação dos indivíduos modernos. Como esclarece o autor, o desejo de melhorar as condições individuais, através da satisfação das necessidades, é algo que nasce e
morre com cada um. Nesse intervalo, continua o autor, não há talvez um único instante em que o homem se encontre plenamente satisfeito com sua condição, que não deseje alguma mudança ou melhoria qualquer. Ao que parece, para Smith, o homem então é um ser perpetuamente insatisfeito com sua condição, frustrado por natureza, condenado desde o nascimento até seu último suspiro a perseguir um horizonte para sempre inatingível (ABRAHAM, 2006). Transportando tal insaciabilidade para nossa época, ou seja, para uma época dominada pelas empresas e por seus produtos – vistos como elementos centrais no alcance da satisfação – Campbell destaca a intensidade e a efemeridade, para utilizar a expressão de Lipovetsky (1989), com que os desejos aparecem e desaparecem em nosso mundo. Segundo ele,
O homem moderno [...] mal satisfez [uma necessidade] [...] outra já se acha à espera preparada, reclamando a satisfação; quando esta é atendida, uma terceira aparece, então subsequentemente uma quarta, e assim por diante, aparentemente sem fim. O processo é incessante e ininterrupto. Raramente pode um habitante de sociedade moderna, não importa quão privilegiado ou opulento, declarar que não há nada que esteja querendo. Que isso deva ser assim nos causa admiração. Como é possível as necessidades aparecerem com tamanha constância, e de uma forma tão inexaurível, especialmente quando se referem, tipicamente, a novos produtos e serviços? [...]. Como é que as necessidades partem tão subitamente, e tão facilmente, quanto chegam? Como é que os indivíduos conseguem parar de ter necessidade do que ardentemente desejaram apenas um pouco antes? (CAMPBELL, 2001, p. 60).
Em sua vã tentativa de reduzir a distância entra a necessidade (o desejo) e os meios para satisfazê-la, os indivíduos entregam-se ao trabalho e realizam um esforço sobre-humano para conseguir, enfim, o maior número de bens possível. Essa condição é essencial à manutenção de tal maneira de agir e pensar, pois como lembra Slater, “existe o medo perpétuo de que os trabalhadores venham a preferir tempo a mais bens como recompensa do progresso industrial. [...] A redefinição das horas de folga como horas de consumo, a transformação do lazer em mercadoria, tem sido crucial na manutenção do sistema”. (SLATER, 2001, p. 35). O problema é que, nesse jogo de livre escolha
do consumidor, toda aquisição é simultaneamente uma privação, pois toda compra de alguma coisa é a falta de alguma outra, em geral marginalmente menos desejável e em alguns detalhes mais desejável (SAHLINS, 1978). Como diz Abraham (2006), essa é a tragédia da condição humana; uma tragédia que funda a realidade econômica e que justifica a ciência de mesmo nome. Por essa razão é preciso questionar: o desejo sem limites é natural ao homem?
Com o intuito de se opor à sabedoria tradicional disseminada pelos manuais de economia, Sahlins (1978), depois de caracterizar uma sociedade afluente como aquela em que todas as vontades materiais das pessoas são facilmente satisfeitas, afirma que a sociedade de caçadores e coletores é a primeira sociedade da afluência. Para o autor, afirmar que os caçadores são afluentes é negar que a condição humana seja, como mencionado, uma tragédia predestinada, com o homem prisioneiro de trabalho pesado caracterizado por uma disparidade perpétua entre vontades ilimitadas e meios insuficientes. De uma maneira geral, há duas formas possíveis de afluência. As necessidades podem ser “facilmente satisfeitas”, seja produzindo muito, seja desejando pouco. A concepção tradicional de afluência sustenta que as necessidades dos homens são grandes, para não dizer infinitas, enquanto seus meios são limitados. Tal hipótese, para os economistas clássicos, dentre eles Smith (1996) e Stiglitz e Walsh (2003), é particularmente apropriada para a economia de mercado. Por outro lado, há também uma concepção desconcertante para os modernos: a premissa de que as necessidades humanas materiais são finitas e poucas, e os meios técnicos invariáveis, mas, no conjunto, adequados.
Em síntese, após reunir e analisar diversos escritos etnográficos, diários de viagem e relatórios de missionários sobre sociedades dos caçadores-coletores, Sahlins (1978) tenta comprovar sua tese através da premissa de que o caçador-coletor é um homem não econômico, pelo menos no que diz respeito a bens não alimentares, uma vez que seus desejos são poucos, e seus meios (em relação) são abundantes. Consequentemente, ele se torna livre de preocupações materiais, não desenvolve nenhum sentimento de posse, tem um senso embrionário de propriedade, é completamente indiferente a qualquer pressão material, trabalha pouco, dedica-se ao ócio e manifesta falta de interesse para desenvolver seu equipamento tecnológico. Do mesmo modo, no que concerne às observações acerca da relação dos caçadores com produtos “profanos”, é importante destacar uma diferença crucial desses com a sociedade moderna.
Da perspectiva interna da economia, parece errado dizer que seus desejos são “restritos”, os desejos “reprimidos” ou mesmo que a noção de riqueza é “limitada”. Tais frases implicam sugerir um Homem Econômico (“Economic Man”), e a luta do caçador com sua própria natureza profunda, que é finalmente subjugada por voto cultural de pobreza. As palavras implicam em renuncia de poder aquisitivo que na verdade não foi desenvolvido, uma supressão de desejos que nunca vieram à tona. Como disse Marcel Mauss - o Homem Econômico é uma construção burguesa - “não depois de nós, mas antes, como o bem moral”. Não que os caçadores e coletores
tenham refreado seus “impulsos materiais”; simplesmente nunca os instituíram. “Além
disso, se é grande dádiva, ver-se livre de um grande inimigo, nossos selvagens são felizes, porque os dois tiranos que propiciam o inferno e a tortura para muitos de nossos europeus, não reinam em suas grandes florestas - quero dizer , a ambição e a avareza... como se contentam com uma vida simples, nenhum deles se entrega ao demônio para adquirir riqueza” (LeJeune, 1897, p.231) (SAHLINS, 1978, p. 8 ).
Assim, após afirmar que os desejos materiais constituem-se em um dos elementos centrais da modernidade, Sahlins (1978) conclui que, quando comparados ao nosso mundo, os caçadores e coletores, por força das circunstâncias, têm um padrão de vida objetivamente baixo, mas, vistos de dentro de seus objetivos e dado seus meios de produção, todas as necessidades materiais das pessoas podem ser facilmente satisfeitas (esses fatores parecem torná-los mais livres que os indivíduos modernos e não mais pobres). De fato, para o autor, diferentemente daquilo defendido pela maioria, apesar de todo desenvolvimento tecnológico, de toda a riqueza, são as sociedades modernas capitalistas que se dedicam à escassez. Por gerar, ao mesmo tempo, a riqueza e a pobreza, a apropriação da natureza e a expropriação em relação ao homem, a escassez é a sentença carregada pela economia, e é também o axioma da economia política. Naturalmente, finaliza Sahlins, o aspecto progressista é tecnológico. Ele tem sido louvado de várias formas: como o aumento na quantidade de produtos e serviços necessários, o crescimento na quantidade de energia domesticada a serviço da cultura, o aumento da
produtividade, o aumento da divisão de trabalho e, especialmente, com a instituição das necessidades infinitas (SAHLINS, 1978).
Os argumentos do referido autor contribuem para esclarecer que não está na natureza do homem, mas na cultura ocidental moderna, desejar sem limites e procurar sem cessar diminuir a distância entre essas necessidades ilimitadas e os meios de satisfazê-las. A escassez é uma invenção, uma maneira de pensar e agir, um hábito coletivo moderno. Mais que isso, por se tratar de um hábito capitalista, normalmente, existe uma tendência à redução das necessidades do homem à necessidade econômica (HELLER e FEHÉR, 1998) e, consequentemente, o aparecimento de necessidades (de desejos), até então, desconhecidos pelo homem.
Dentre os autores que analisaram o aspecto manipulacionista de criação de necessidades modernas, Karl Marx (1996), sem dúvida, merece destaque. Ao defender que o conceito de necessidades é uma categoria extra-econômica, histórico-filosófica e antropológica de valor e, por isso, não é suscetível de definição dentro do sistema econômico, Marx ressalta que o capitalismo cria um conjunto de falsas necessidades (não-humanas), alienando a humanidade das verdadeiras necessidades (as humanas). Dessa maneira ele rechaça a concepção puramente econômica de necessidade, argumentando que o fim da produção não é a satisfação das necessidades, mas sim a valorização do capital (HELLER e FEHÉR, 1998).
Ademais, por se tratar de uma construção artificial, na tentativa de encontrar as origens da escassez enquanto elemento central da modernidade, os trabalhos de Weber, especialmente a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2004b), e de Dumont sobre o individualismo, parecem fornecer subsídios importantes nessa tarefa – apesar de não serem os únicos. Como se sabe, o protestantismo, em particular, alguns puritanos calvinistas ao defenderem a conquista nos negócios como um sinal de sua eleição por Deus e como a prova de sua retidão no plano moral, eliminaram da busca por ganho seu caráter imoral e transformaram tal comportamento na força de ação do homem moderno (WEBER, 2004b). Também relacionado ao aspecto religioso, Dumont (1993) ressalta que o individualismo, mencionado na seção anterior, tem suas origens nos primórdios do cristianismo e na renúncia desse mundo pelo primeiro indivíduo. Assim, esse indivíduo fora do mundo seria sucedido, ao longo dos séculos, pelo indivíduo no mundo que consolidaria a ideologia individualista na modernidade. De uma maneira geral, mesmo apresentando origens diferentes, direta ou
indiretamente, acredito que ambos autores concordariam com a noção de que o problema da escassez só pode surgir em uma sociedade individualista e que valoriza, acima de tudo, a satisfação das necessidades individuais. Também não é exagero supor que a satisfação de tais necessidades, considerando a subordinação das relações entre os homens às relações entre os homens e as coisas (DUMONT, 2000), está condicionada, na maior parte dos casos, a aquisição de produtos e serviços oferecidos pela empresa.
O contexto ora delineado coloca em primeiro plano aquilo denominado por Simmel (1998) de “Deus da Modernidade”, ou seja, o dinheiro. Em outras palavras, ao objetivar as relações, situação ideal quando essas se dão predominantemente entre os homens e as “coisas” (DUMONT, 2000; WEBER, 2004a), o dinheiro, na maior parte dos casos, torna-se o facilitador ou o mediador de tais relações e adquire, por essa razão, um papel central na modernidade. Para Simmel (1998), o dinheiro possibilitou ao homem a chance de satisfazer plenamente seus desejos com uma distância muito mais próxima e mais cheia de tentações. O dinheiro é assim um meio de relacionamento universal que fornece autonomia e liberdade de conquistar tudo o que é desejável para atingir a felicidade dos homens em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece evidente que, tanto a liberdade como a felicidade, são condicionadas à posse do mesmo, como ilustra Simmel:
Do mesmo modo que a maioria dos homens modernos precisa ter diante dos olhos, na maior parte da vida, o ganho de dinheiro como motivação mais próxima, forma-se a idéia de que toda a felicidade e toda satisfação definitiva na vida são ligadas, intrinsecamente, à posse de uma certa forma de dinheiro (SIMMEL, 1998, p. 33). Sendo assim, associando os argumentos de Marx (1996) acerca da criação de falsas necessidades por parte do sistema capitalista com o individualismo de Dumont (2000) e a centralidade do dinheiro de Simmel (1998), é possível compreender que relações sociais que permeiam nosso mundo transformam-se, muitas vezes, em relações de consumo. Como ilustra Baudrillard (1995), a busca da felicidade constitui a referência absoluta da sociedade moderna (ele a chama de sociedade de consumo). Esta não se trata de uma felicidade como “fruição total e interior” independente de manifestação aos olhos dos outros. Para ele, ela está relacionada à igualdade/distinção e aos princípios individualistas e pode ser obtida através de objetos e
mercadorias, ou seja, através do consumo. Sendo assim, consumir, seja para fins de satisfação das necessidades básicas ou supérfluas, é uma atividade presente em todas as sociedades modernas; uma vez que o consumo de alguns produtos é visto, sob a ótica de diversos autores
(VEBLEN, 1980; DOUGLAS e ISHERWOOD, 1996;
FEATHERSTONE, 1995; FROMM, 1976; SLATER, 2001;
BAUDRILLARD, 1995), como uma forma de diferenciação social, de atribuição de status, de pertencimento e participação, de comunicação e gratificação individual.
Como se percebe, os referidos autores parecem ampliar a noção de consumo para além da simples satisfação das necessidades. Como ilustra Baudrillard (1995), se o consumo fosse um anseio por necessidades, caminharíamos para a satisfação, se fosse um exercício de abundância, caminharíamos para a saturação. E, no entanto, não é isso que ocorre. Assim, apoiando-se nas noções marxistas de valor de uso e valor de troca, para Baudrillard o consumo é uma atividade sistemática de manipulação de significados, com uma ênfase maior na expressividade e não em seus aspectos funcionais, tendo valor somente enquanto interage com o mundo onde existe e onde significa algo. Mais do que isso, a mercadoria é o próprio significado, ela só existe se houver significado a ser consumido (um signo à vista dos outros). Em nossa sociedade, os produtos e serviços adquiriram significados e importância que transcendem sua utilidade e valor comercial, carregando consigo a capacidade de transmitir e comunicar significados culturais – situação pouco conhecida de outras sociedades que não a nossa. O mundo do consumo, complementa Baudrillard, transforma-se assim em uma rede de signos e significados interligados e interdependentes e oferece um modo de socialização aos seus indivíduos; consequentemente, o consumo não pode ser definido materialmente em termos de desejos ou necessidades estanques, mas a partir de uma série de significados que fazem com que as pessoas se sintam atraídas a consumir, o que não significa, em última instância, uma compra material (BAUDRILLARD, 1995).
No contexto das necessidades (ilimitadas) e do consumo como um caminho para a satisfação, as empresas assumem um papel de destaque, pois como disse Galbraith (1961, p. 137) “a nova missão da empresa é de criar as necessidades que ela procura satisfazer”. De fato, a constante criação de necessidades (infinitas) e a insatisfação material são condições fundamentais à sobrevivência da empresa. Concordo com os argumentos de Solè (2000) de que, caso nossas necessidades fossem
plenamente satisfeitas, nosso mundo, em sua atual configuração, desmoronaria e, com ele, sua instituição central. Abraham (2006) complementa as reflexões de Solè. Para o autor, humanos satisfeitos de sua condição constituem-se na mais grave ameaça para as empresas. Humanos satisfeitos, continua o autor, seriam de fato consumidores e clientes a menos, que parariam de comprar os artigos produzidos por essas empresas ou que comprariam menos. Mas seriam também assalariados e acionistas que não arriscariam mais investir ativamente no crescimento dessas empresas, pois a perspectiva de enriquecer para melhorar sua condição não possuiria sentido (ABRAHAM, 2006). Para evitar o seu desaparecimento, nosso mundo testemunha o trabalho incansável da empresa no sentido de alimentar, suscitar, perseguir, provocar, criar e disseminar a insatisfação por toda sociedade e, paradoxalmente, a produção de mais e mais bens para responder as necessidades por ela criadas.