Como salienta Graça Índias Cordeiro, é importante “(…) reconhecer o carácter estruturante que os discursos, imagens e performances públicas, cíclicas e quotidianas, desempenham na organização e transmissão do conhecimento sobre essa cidade e aceitar o seu papel ativo na experiência que dela se tem.” (Cordeiro, 2003, p. 185). Sendo que, ao mesmo tempo, não se deve desprezar a “dimensão interativa” com a população em relação à qual remetem tais discursos, imagens e performances, considerando-se, em particular, os diferentes processos e conflitos envolvidos na construção de significados partilhados (Cordeiro, 2003, pp. 185-186).
Tiago Castro Lemos problematiza a relação entre linguagem e cidade, começando por salientar que cada território, de forma a “afirmar a sua especificidade”, implica a utilização de uma categoria identificadora do mesmo, a qual “(…) quando mobilizada (…) evoca os limites sócio- espaciais e as características que estão associados a esse espaço.” (Lemos, 2013, p. 111). Como salienta o autor, as palavras não são neutras do ponto de vista social, mas envolvem uma “prática social” que implica, para a sua análise, que seja considerado “(…) quem é o locutor, quem é o auditor, qual o contexto social em que a palavra é utilizada (…)” (Lemos, 2013, p. 113). Além de que a sua utilização é igualmente uma forma de classificação espacial e social de determinados territórios, implicando o “reavivar de uma imagem mental associada a esse mesmo espaço”, igualmente envolvidas na construções de “imaginários coletivos” - isto é, de significados partilhados - em relação a um dado espaço e população, e que apresentam um sentido ao mesmo
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tempo inclusivo e exclusivo, dividindo e diferenciando um interior e um exterior de forma a “facilitar a sua gestão” (Lemos, 2013, pp. 114-115). Sendo que para tais categorias produzirem efeitos, elas devem possuir “(…) um determinado nível de generalização e ao mesmo tempo (…) devem ser suficientemente concretas, de forma a serem comunicáveis e perceptíveis, também devendo ser susceptíveis de definições técnicas e jurídicas (…)” (Lemos, 2013, p. 114).
Esta dimensão das categorias criadas em relação a um determinado espaço é visível nas denominadas políticas e técnicas de marketing territorial, as quais procuram criar uma “marca” distintiva associada ao mesmo, com o objectivo da sua promoção e atratividade turística, investidores ou novos residentes” (Marques & Carvalho, 2010, pp. 65-66). Sendo que, e como refere Bruno Gomes para o caso dos guias e discursos turísticos, estes envolvem “(…) processos de selecção de elementos-chave que realçam determinadas características em detrimento de outras que são disfarçadas ou, até mesmo, completamente excluídas.” (Gomes, 2012, p. 5). Estes guias e discursos, apesar de implicarem uma distância - que sempre ocorreria - entre a “realidade” e a sua “representação”, apresentam uma função importante na seleção do “(…) que ver e como ver, constroem percursos que conduzem de um “ponto de interesse” a outro evitando todas as imagens indesejáveis, não deixando espaço à descoberta ou ao acaso (…).”66 (Gomes, 2012, p. 5). Salientando o autor que tal contribui para a construção de um imaginário da cidade, o qual acaba por ter um potencial performativo no sentido em que implicam a sua integração em novas formas de “auto-representação”, influenciadas pelas representações e imaginários anteriormente construídos67 (Gomes, 2012, pp. 5-6).
66 “A cidade formulada nos guias turísticos poderia dizer-se como uma maqueta submetida às lógicas e
processos do mercado do turismo que se apõe às cidades, mas que justamente porque se estrutura a partir de lógicas de desejabilidade, acaba por condensar idealizações, pequenas utopias, que tanto respondem às procuras turísticas padronizadas como a utopias de cidade por parte de quem os produz. E por se apresentarem discursivamente através de um compósito de “lugares comuns”, de clichés e estereótipos, constituindo-se em evidências, gostos, modas, tendências de mercado, deixam expressar ideias gerais, de uma grande abrangência, cristalizações figurativas de Lisboa, no caso.” (Gonçalves, 2008, p. 5).
67 “O marketing territorial que se centra em estratégias de (re)imaginação é por isso um processo de
construção de narrativas visualmente baseadas no potencial dos lugares, um processo de criação de uma metáfora como forma intermediária para a mudança ou consolidação de sensibilidades públicas e para a possibilidade da invenção de novos tipos de ligação à cidade.” (Ramalho, 2013, p. 7). Como refere a autora, “[a] imagem da cidade é um constructo tanto visual como mental (…)” (Ramalho, 2013, p. 8), construída a partir de dimensões tanto físicas como discursivas e simbólicas (Ramalho, 2013, p. 8).
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Em parte dando conta de elementos semelhantes, Carlos Fortuna identifica o que designa de “destradicionalização”, processo que implica não a eliminação total do que remete para a tradição e passado da cidade, mas antes uma sujeição de “(…) anteriores valores, significados e acções a uma nova lógica interpretativa e de intervenção” (Fortuna, 1997, p. 3), no sentido de usar a tradição como “recurso de desenvolvimento” para uma lógica de competição entre cidades. Tal implica, como refere o autor, uma alteração da “imagem da cidade”, “(…) quer no que diz respeito à sua estrutura material, produtiva e funcional, quer quanto à sua dimensão estética, arquitectónica e cultural.” (Fortuna, 1997, p. 4). Algo que, como refere o autor, implica a reconfiguração do “(…) significado social do passado e da tradição.” (Fortuna, 1997, p. 5), e que remete para um processo sempre selectivo de articulação entre passado e presente (Fortuna, 1997, pp. 5-6). Uma articulação que corre o risco de permitir uma “releitura descaracterizadora da história”, justificando assim o questionamento dos “(…) recursos, agentes e processos que presidem à (…) conversão dos contextos espaciais urbanos (…)” (Fortuna, 1997, p. 7).
Mari Balibrea refere que as estratégias de regeneração e de desenvolvimento associadas ao denominado modelo Barcelona são responsáveis por uma política de memória que tende a fossilizar e hegemonizar certos discursos e representações, em detrimento de uma maior diversidade de significados (Balibrea, 2007, p. 24). A autora refere que a interpretação do passado de um dado espaço, e a consideração da sua preservação e vitalidade presente e futura envolve uma disputa política, não só ao nível da dimensão física das transformações em causa, mas também dos processos de ressignificação associados a um determinado espaço e à memória coletiva para o qual remete (Balibrea, 2007, pp. 24-26). Mari Balibrea refere que, em alguns casos, as transformações de determinados espaços implicaram a categorização dos mesmos como “obsoletos”68,
categorização essa que não só toma esse espaço como potencial e até desejavelmente transformável, mas, também, inicia conflitos em relação a tal processo no caso de não existir um consenso social sobre tal processo de transformação (Balibrea, 2007, pp. 25-28). Isto é, no caso de existirem grupos sociais que rejeitam tal categoria de “obsoleto”, e, pelo contrário, considerarem
68 “Obsolescence, as it is understood here, implies a relation of rejection, from the present towards an
element coming from the past and which is thereby reduced to something antiquated and useless, that is to say, something without any possible relation to the present, without a possible or recommendable use in the present. Its elimination is therefore desirable, together with its substitution by some other new thing that is considered useful.” (Balibrea, 2007, p. 26).
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que tal espaço ainda contem valor que deveria ser preservado (Balibrea, 2007, pp. 25-28). Sendo que, como refere a autora, a crítica a tal categorização depende do questionamento dos critérios subjacentes à mesma, quem foi o responsável pela mesma, bem como pela decisão de transformação do espaço, e com que interesses (Balibrea, 2007, p. 32). Num outro trabalho, Mari Balibrea (Balibrea, 2003) foca, entre outras questões, a forma como algumas intervenções relacionadas com a memória e história de um local acabam por ser feitas em contextos espaciais com significados por vezes potencialmente antagónicos aos invocados no presente, ou, por sua vez, procurando “museificar” aqueles relativos ao passado. Tal ocorre, segundo a autora, sem que a complexidade do passado seja suficientemente considerada, nem que a intervenção atual ocorra num sentido de um questionamento crítico do passado, do presente e da sua articulação, mas é antes reduzida a um:
(…) signo exclusivamente significante, carente de significado ou unido tenuemente a ele, liberto e facilmente aproveitável, tanto para justificar o interesse das instituições locais em conservar a memória da cidade, como para servir de logótipo a um novo centro comercial. A sua re-significação é, ao mesmo tempo, dessemantização. (Balibrea, 2003, pp. 38-39).
Por sua vez, Francisco Lima Costa (Costa, 2011, pp. 100-101), associa o papel dos guias turísticos ao desempenhado pelos media e pelos intermediários culturais69 (“artistas, escritores, músicos, gestores culturais”), os quais contribuem para a promoção e difusão de diferentes imagens e significados, e “(…) filtram e definem consumos culturais (…) criam novas tendências de consumo e intervêm na forma como se desenvolvem os estereótipos relativos aos consumos culturais.” (Costa, 2011, pp. 100-101). Sharon Zukin, referindo-se ao exemplo do Harlem e aos processos de transformação sócio-espaciais ocorridos, salienta o papel dos meios de comunicação, dos media aos blogues, na “alteração do gosto” e promoção de determinados estilos de vida, em particular os associados a dimensões “alternativas”, ao “local”, ao “passado” e ao “diferente” -
69 “(…) baseando-se na obra A Distinção de P. Bourdieu, L. Bovone (2001: 105) clarifica a categoria
de novos intermediários culturais, apresentando-a como “uma série de profissões novas, ou renovadas, intimamente ligadas aos processos comunicativos, que têm uma função crucial na sociedade actual”. O que está em causa, segundo Bovone, não são cargos técnicos ou executivos, mas pessoas que podem ser “elos determinantes da cadeia criação-manipulação-transmissão de bens com elevado conteúdo de informação, cujo valor simbólico é preponderante”. É precisamente nesta linha que C. Ferreira (2002: 5) enfatiza a ligação operada pelos intermediários “entre a esfera cultural e o mercado, o universo do marketing e da publicidade, o sistema político, as instituições e os actores responsáveis pelo planeamento e administração do território”.” (Gomes, 2011)
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ainda que tais alterações não sejam unicamente explicáveis por tais processos, como salienta a autora, mas também através da atuação do poder local, da securitização e “higienização” do espaço, bem como de investimento financeiro (Zukin, 2009, p. 550). Os próprios mapas, muitas vezes presentes em guias turísticos, devem ser vistos não como uma correspondência mimética entre um território e sua representação cartográfica, mas antes como uma construção que ocorre sempre a partir de algum lugar, implicando seleções70 (Acselrad & Coli, 2008, pp. 13-14).
Tais políticas e intervenções suscitam, assim, questões ao nível da representação simbólica dos espaços e populações em causa. Desde a forma como ocorre, das representações feitas, bem como da gestão dos diferentes interesses e relações de poder em presença. No seguimento do exposto anteriormente, tal acaba por repercutir-se na forma como tais espaços são representados e quais os seus significados, bem como ao nível das consequências ao nível do seu acesso e apropriação71.
2.2.2.1 Dinâmicas e Processos no Espaço Público
70 “Mas, a despeito de ser correntemente apresentado como um enunciado constatativo do real, o mapa não
deixa de ser um enunciado performático, que diz algo sobre o real e sobre este produz efeitos. Ele não é, pois, um reflexo passivo do mundo dos objetos, mas um intérprete de uma determinada “verdade, em que o crer se localiza no ver” (Balandier, 1987), um instrumento que “ordena e dá ordens” aos atores envolvidos na produção do território (Rivière, 1980, p. 379, apud Jourde, op. cit., p. 103-4). Assim sendo, se, por um lado, tornam-se claras as implicações políticas dos mapas, podemos falar, por outro lado, da emergência de políticas cartográficas, em que os mapeamentos são eles próprios objeto da ação política. E se ação política diz especificamente respeito à divisão do mundo social, podemos considerar que na política dos mapeamentos estabelece-se uma disputa entre distintas representações do espaço, ou seja, uma disputa cartográfica que articula-se às próprias disputas territoriais.” (Acselrad & Coli, 2008, pp. 13-14).
71 Como salienta Inês Guedes: “Inscritas nas políticas de intervenção urbana, as representações do espaço
têm implicações sociais por meio do processo de resignificação das práticas espaciais e das formas de viver hegemónicas que buscam impor. As transformações do quotidiano da cidade e a demarcação/ restrição das possibilidades de interacção e sociabilidade evitam que os actores sociais elaborem/produzam e se apropriem da cidade de forma igualitária, evitam o confronto com o estranho/Outro, promovendo a sua invisibilidade. Entre representados e não representados, produtores e não produtores do espaço urbano existem linhas de (in) visibilidade. Se os espaços urbanos são espaços de práticas sociais, loci de identificação e diferença, loci de significação, são portanto lugares que são reflectidos por e se reflectem nos grupos sociais neles presentes. Assim sendo, a não referência desta diversidade de práticas e actores nos documentos analisados reflectem uma falta de reconhecimento dos mesmos e a sua invisibilização simbólica.” (Guedes, 2012, p. 12)