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3.8 LA PLAN DE TRANSPORT
O modelo sobre o qual se mencionou no último parágrafo da seção anterior e que deu origem à sociologia da ciência foi exposto na Parte IV, composta por cinco ensaios, da obra
Social Theory and Social Structure, de Merton (1968b), publicada originalmente em 1949 – a edição utilizada como referência neste trabalho é a ampliada (enlarged), de 1968.
Conforme aponta Norman W. Storer (1973, p. xviii), na introdução à obra The Sociology of Science – Theoretical and Empirical Investigations, Merton, tendo explorado a problemática do conhecimento científico em sua monografia, com particular atenção às fontes sociais e intelectuais dos focos de investigação na ciência, evidentemente se convencera de que uma análise sociológica adicional requeria uma concepção mais sistemática da estrutura social da ciência. Assim, continua Storer (1973, p. xviii), é significativo que o artigo inicial de Merton – de 1935, em coautoria com Pitirim A. Sorokin e intitulado O Curso do Desenvolvimento Intelectual Árabe, 700–1300 d.C. (The Course of Arabian Intellectual Development, 700–1300 A.D.) – tenha como subtítulo Um Estudo em Método (A Study in Method). O fato é que, sem um modelo suficientemente desenvolvido da estrutura da ciência, não havia como gerar questões teoricamente importantes que pudessem usar dados sistemáticos sobre o desenvolvimento científico em proveito próprio – um método de pesquisa não é muito útil se não puder ser acoplado a questões teóricas, embora possa, mediante a produção de certos tipos de novos dados, encorajar o desenvolvimento subsequente da teoria (STORER, 1973, p. xviii). Nesse contexto, ainda segundo Storer (1973, p. xviii), a decisão foi tomada, ou talvez evoluída, de se concentrar na estrutura social da ciência, em vez de continuar com o estudo dos contextos sociais que influenciam sua produção substantiva de conhecimento.
A primeira fase desta empreitada apareceu em 1942, com a publicação do artigo Uma Nota sobre Ciência e Democracia (A Note on Science and Democracy), reimpressa em 1973 sob o título, segundo Storer (1973, p. xviii) mais apropriado, A Estrutura Normativa da Ciência (The Normative Structure of Science), e foi nesse artigo que teria aparecido a declaração abrangente de “normas ideais” às quais os cientistas seriam orientados em suas relações entre si: universalismo, comunismo, ceticismo organizado e desinteresse (MERTON, 1973, p. 267- 278).
De modo absolutamente resumido, essas “normas ideais”, conhecidas como normas mertonianas ou normas CUDOS (do inglês Communism, Universalism, Disinterestedness e
Organized Scepticism), estabelecem que (1) as descobertas substantivas da ciência são um
produto da colaboração social e são atribuídas à comunidade, e não ao cientista em particular (comunismo) (MERTON, 1973, p. 273); (2) as afirmações, qualquer que seja sua fonte, devem ser submetidas a critérios impessoais preestabelecidos, consoantes com a observação e com o conhecimento previamente confirmado (universalismo) (MERTON, 1973, p. 270); (3) a ciência deve incluir o desinteresse como um elemento institucional básico, o qual não deve ser
equiparado ao altruísmo nem à ação interessada do egoísmo; a paixão pelo conhecimento, a curiosidade ociosa, a preocupação altruísta com o benefício para a humanidade e uma série de outros motivos especiais devem ser atribuídas ao cientista (desinteresse) (MERTON, 1973, p. 275-276); (4) a ciência deve desafiar as “suposições de poder confortáveis” de outras instituições, simplesmente submetendo-as a um exame minucioso, tanto metodológica quanto institucionalmente (ceticismo organizado) (MERTON, 1973, p. 264, 277).
Posteriormente, Merton (1968b, p. 585) argumentaria, em linhas gerais, que o assunto da sociologia da ciência é a interdependência dinâmica entre a ciência, como uma atividade social contínua que dá origem a produtos culturais e civilizacionais, e a estrutura social do ambiente, enquanto as relações recíprocas entre ciência e sociedade são o objeto de investigação, como aqueles que se dedicaram seriamente aos estudos da sociologia da ciência teriam sido forçados a reconhecer. O motivo da criação dessa segmentação da sociologia do conhecimento foi, segundo Merton (1968b, p. 585), a desigualdade no tratamento dessas relações recíprocas, em que o impacto da ciência sobre a sociedade recebia muita atenção e o impacto da sociedade sobre a ciência, pouca.
Ante esse desequilíbrio, Merton (1968b, p. 587-588) dedicou dois capítulos (de três) da Parte III de Social Theory and Social Structure à revisão crítica de alguns problemas gerais e especiais da sociologia do conhecimento, além de compilar os mencionados cinco ensaios da Parte IV, que haviam sido escritos em vários momentos ao longo de anos e que buscavam, principalmente, traçar os variados modos de interdependência da ciência e da estrutura social, tratando a própria ciência como uma instituição social diversamente relacionada às outras instituições da época, e proceder a uma análise funcionalista dessa interdependência, com referência especial aos pontos de integração e desintegração.
Gordon Marshall (2003, p. 251) explica que, como um legado de Saint-Simon e Comte, refratado pelo trabalho de Durkheim, a teoria do funcionalismo percebe a sociedade como um padrão complexo e interconectado de funções, em que a mudança pode ser explicada como um epifenômeno da busca constante pelo equilíbrio – por exemplo, o desemprego em massa pode gerar um sistema de bem-estar, assim como o conflito racial pode gerar ação legislativa. Segundo essa teoria, as ramificações de qualquer mudança social específica seriam infinitas e imprevisíveis, mas todas poderiam ser entendidas como ajustes sociais a alguma falha ou “disfunção” dentro do organismo social (MARSHALL, 2003, p. 251).
Muito provavelmente devido a essa orientação funcionalista (ou seja, com concentração nessas falhas sociais), a sociologia da ciência passou a se ocupar, metodologicamente, de explicações para o que não dava certo, deixando a cargo de outras
ciências as explicações para o que resultava em êxito. Ou, em outras palavras, o interesse sociológico passou a se centrar tão somente em interesses sociais, e não mais em ideias e conceitos mais essenciais, mais básicos, os quais, deliberadamente, passaram a ser deixados para a filosofia, ante a impossibilidade de se estabelecer relações de causalidade pelas vias sociológicas. Conforme essa divisão, opina Lena Eriksson (2007, p. 4.105), o papel dos filósofos seria analisar e definir normas da ciência, discutindo e elaborando critérios de demarcação entre ciência e não ciência, enquanto os sociólogos se ocupariam de estudar a estrutura das instituições científicas e forneceriam explicações quando a ciência dava errado – ou seja, o único tipo de conhecimento que se qualificaria para a atenção sociológica seria o conhecimento percebido como sendo de algum modo defeituoso (ERIKSSON, 2007, p. 4.105). Assim, ao não conseguir determinar relações de causalidade inequívocas, a sociologia da ciência acabou por se tornar uma sociologia de cientistas, com o rompimento metodológico da relação entre os interesses sociais dos cientistas (que deveriam ser estudados pela sociologia) e suas ideias científicas (que deveriam ser estudadas pela filosofia). Ou seja, a mencionada preocupação original que norteou a sociologia da ciência, sobre a desigualdade no tratamento das relações recíprocas entre ciência e sociedade, acabou por levar a uma desigualdade oposta, agora em total detrimento da ciência, que seria entregue a outro campo do saber.
Do modo como ocorreu, portanto, definiu-se que as ideias científicas careceriam de explicações sociológicas, o que, segundo a nova corrente da sociologia, que veio a desafiar a sociologia da ciência de Merton, representava um claro sinal de enfraquecimento. Essa nova corrente, que ficou conhecida como sociologia do conhecimento científico, será tratada na seção seguinte.