Como já apresentei, as ocupações de terra foram a principal bandeira de luta da ANUC como estratégia propagandística do movimento e como forma de pressão aos latifundiários e o Estado.
A lógica que acompanhou estas tomadas de terra se ampara no conhecimento do território que os camponeses-gaiteros tinham. Por essa razão o laboratório deste tipo de ações foi o Caribe colombiano, com foco no departamento de Sucre, no colo dos Montes de María, enquanto não foram tão contundentes em outras regiões do país.
Os mesmos dirigentes da ANUC se mostravam interessados em compreender a lógica que permitiu a contundência desse tipo de ações na região para consolidar a organização nacional. Em um comunicado do Consejo de Unidad Campesina (CUC) de 1980, citado pelo dirigente Jesús Pérez nas suas memórias, se reconhecia o papel crucial dessa avançada para a ANUC.
Em 21 de fevereiro de 1971, o país foi abalado com a notícia de uma onda de ocupações de terras e protestos de camponeses que abrangeram vários departamentos. Com essas ações, o campesinato conseguiu o apoio de vários setores sociais dos obreiros avançados, dos revolucionários, dos democratas e dos patriotas; apoio que serviu a luta pela terra e pela ANUC. Nesse período, a Associação desempenhou um grande papel na ativação e coordenação de todas essas lutas, expressando seu caráter de organização de combate em massa e marcando seu caráter democrático e independente em relação ao Estado. [...] Tanto o campesinato como vários setores da opinião pública identificaram a ocupação da terra em 21 de fevereiro como obra dos camponeses oprimidos. Da mesma forma, foi identificado como a origem da “linha Sincelejo”, um setor que dentro da ANUC derrotou as atitudes de divisão de alguns líderes que tomaram o caminho da conciliação com o Governo e os proprietários. Mas essa ascensão do movimento camponês não pôde ser consolidada em todo o país. Cabe a nós analisar isso se realmente quisermos aproveitar essa experiência, que foi inscrita na história da luta do nosso povo.146 (PÉREZ, J. M., 2010, p. 145–146)
O dia 21 de fevereiro de 1971 se tornou um referente para a memória coletiva do campesinato colombiano. Marcou o movimento pela grande quantidade de terras recuperadas naquela data, mas ainda mais especificamente porque representa o início das ações contundentes da luta camponesa como uma organização independente no cenário político nacional. O convite à compreensão do contexto e das características que o movimento teve na região manifesta a diversidade do campesinato colombiano, mas também nos permite entender a lógica que havia por trás da organização camponesa nos Montes de María e da resistência que opuseram à força pública insistindo na manutenção das terras ocupadas.
147 O amplo conhecimento do espaço rural e dos lugares afastados da influência das elites permitiu a projeção de estratégias de luta, de ocupação e de permanência nas terras.
Muitos pesquisadores têm abordado as ocupações de terra da ANUC a partir da quantidade de terra recuperada e da relevância no contexto político que elas tiveram (KODAMA; SHIBATA, 2014; MACHADO CARTAGENA; MEERTENS; SÁNCHEZ GÓMEZ, 2014; MEERTENS, 2000; RIVERA, 1987; ZAMOSC, 1986). Entretanto, é curioso observar que existem pouquíssimas narrativas que registrem estas ações como um processo. Em geral, se ressalta que existiram e foram importantes, mas não se explica a dinâmica interna delas e seu desenvolvimento.
Devido ao seu caráter não oficial e sua apressurada realização, para tomar por surpresa o Estado e os latifundiários, existe uma significativa carência de fontes que nos permitam uma abordagem qualitativa do processo, para entender sua dinâmica social. Ainda nos documentos e narrativas compostas pelos mesmos dirigentes da ANUC são poucos e dispersos estes registros.
A única descrição prolífica destes avanços do movimento a encontramos na obra Historias de Racamandaca, do escritor e jornalista David Sánchez Juliao (1975), que, em 1973, entrevistou três dirigentes do movimento e transcreveu as suas histórias de resistência.
Usarei este registro para empreender o labor de descrever estas jornadas, e argumentar que seu sucesso e as múltiplas resistências que geraram se basearam no processo de conformação identitária dos sujeitos camponeses e o reconhecimento que tinham do seu território.
Como estratégia narrativa, tomarei vários trechos dos textos que replicam as falas dos camponeses para reconstruir o processo de ocupação de terras.
Uma ocupação de terras não se arruma da noite pro dia, assim por assim. Como tudo na vida, tem sua ciência. Aprende-se a lutar contra as leis. E para obter os bons resultados você tem que pisar sempre firme e como em cascaras de ovo. Isso se apreende, da mesma forma que quem nasce no monte aprende a distinguir a erva-cidreira da hortelã, mesmo que ele não saiba ler. [...][Os latifundiários] às vezes tem mais terror da gente do que o próprio governo; Eu acho que os colocamos para marchar. Como que ao sentir a gente a consciência lhes coça. Eles sabem que não se ocupa por simples arrebato, que a gente tem suas razões, suas esperanças e meia dúzia de meninos com vermes. Mas, bem, que razão mais do que a de uma alma só com dezoito mil hectares e que nós, que éramos setenta e cinco, nem sequer tínhamos meio pra sorteá- lo entre todos? Que mais razão? Dezoito mil hectares, como eu digo: isso é muita terra!147 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 100–101)
A narrativa construída pelo camponês revela a importância dos aprendizados anteriores, próprios da sua relação com a terra e sua experiência campesina, que serviram como
148 insumo para as ocupações, já que uma experiência desse calibre não se aprende “da noite para o dia”, segundo o narrador, trata-se de algo que se aprende ao mesmo tempo que a vida no monte. A distinção fundamental que dá conta do conflito social entre os latifundiários e os camponeses se baseia precisamente nessa qualidade: o conhecimento do seu território.
As justificativas apresentadas: fome, família, esperanças, não compõem uma narrativa que gera lástima. Pelo contrário, o camponês reconhece claramente a desigualdade na distribuição de terra como razão suficiente, o que não apenas demostra uma consciência política sobre o processo e a organização camponesa, senão que a localiza no mesmo nível da prática cultural de reconhecimento do território. O que o entrevistado nos apresenta dialoga diretamente com a relação apresentada entre economias morais e políticas. A consciência política e a ação do movimento se nutrem das relações simbólicas que permitem uma relação profunda de identificação com o território.
Por meio dessa identificação se escolhiam as terras a serem invadidas, aquelas que conotavam uma relação de pertinência com o grupo social e sua memória. Este reconhecimento condicionava o desafio à lógica do poder e às tentativas de reelaboração da hegemonia por meio da apropriação das terras que consideravam suas.
Toda esta aldeia acabada, faminta e doente, trabalhava para os donos daquelas propriedades montanhosas. Mesmo que você veja que todos esses caminhos são feitos de terras planas, aquilo verde que começa além de alguns matagais limpos e que parece uma parede afeitada, é o que é chamado de montanha. Porque aqui, montanha não é um imenso pedaço de terra na colina, com subidas íngremes, não. O que é chamado de montanha aqui é um planalto denso e vegetado que repentinamente começa como uma parede de galhos e folhas, e não pode ser penetrado a não ser com um facão e um machado; e onde tigre, cobra e macaco vermelho são abundantes em rebanhos de um milhão. Há também muitos homens com decepções de amor e problemas familiares que se deixam engolir pela montanha. E são pessoas para as quais o emaranhado verde vai transmitindo sua seiva e seus segredos e seus pelos até que se acostumam e decidem nunca mais sair. Um belo dia, qualquer caminhante nos matagais tropeça em seus ossos, ao pé de qualquer cedro148 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 51).
Um dos elementos recorrentes é a referência de uma simbologia que dota de poder ao monte, como esse lugar que transmite um saber que é um “não-saber” diante da lógica da produção, que faz com que algumas pessoas “se integrem” à natureza até o ponto de virar um só. O que faz com que a situação de propriedade emerja como uma relação insustentável e desleal com o monte. A qualificão do espaço na narração se faz em função do que ele contém (animais, vegetação, humanos e saberes) e não como simples propriedade vazia.
Percebe-se nos espaços objetivo das ocupações um reconhecimento do território sustentado em parâmetros culturais. Estas propriedades repletas de espaços de monte permitem
149 a alteração e a contravenção da lógica da propriedade, já que o espaço indómito que permanece no seu interior se estabelece como uma lembrança tanto da exploração dos antepassados quanto do frágil monopólio do espaço. O espaço se representa como uma entidade potente sobre a qual os latifundiários não têm controle efetivo fora os seus títulos de propriedade e as estruturas morais que sustentam o domínio.
As ocupações se propunham quebrar com a lógica da opressão por meio do reconhecimento das condições do monte, ao qual as famílias produtoras podiam se incorporar apenas a partir do trabalho conjunto. Para os membros da ANUC estava claro que se os latifundiários conseguiram estabelecer uma relativa dominação sobre o espaço foi apenas graças à exploração dos camponeses. Sendo assim, sobre este sujeito coletivo radicava o poder e o conhecimento preciso para subverter a situação assimétrica.
Mais da metade de todas essas fazendas que espremem a cidade contra o quintal do vizinho são isso: montanha pura, espessa, desocupada, ociosa. Montanha vedada e com títulos de propriedade. Mas os pedaços de fazenda careca, surrada e desmontada, semeados com ervas e capim fresco, também estavam no começo da história em montanha pura. Montanha que caiu ao chão, desmatada pelos facões dos avós dos que hoje habitam as casas daqui. O desmatamento dos montes aqui se deveu à fome dos ancestrais dessas pessoas; dos avós que se vendiam meio escravos para poder mastigar mandioca e adoçar o café. Essas pessoas permaneceram em silêncio por anos, como se estivessem dormindo, trabalhando para os outros, as terras compostas pelos calos de seus bisavós. E os proprietários dos papéis estavam levantando grandes safras, jogando o gado para pastar e parando casas com eletricidade, água e aterrisagens de aeronaves chegando aos sábados e domingos de madrugada. Porque era assim, os donos dos documentos, para pior, sempre viveram em partes remotas do centro da Colômbia e de lá comandam os administradores por carta e por telefone149 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 51– 52)
A dicotomia entre camponeses e latifundiários se expressa a partir da relação pós- colonial na qual a situação assimétrica em que se encontravam os sujeitos radicava do processo de colonização das terras mediante o sistema de arrendamento estacionário em troca da tumba do monte. A inequidade expressa nessa relação se reconhece como um fator conflitivo no processo da identidade do sujeito coletivo. Na narrativa, podemos perceber as marcas de tempo que permitem aos camponeses se reconhecerem na situação dos seus ancestrais, mas distanciando-se deles em matéria do exercício da política. Essa outra temporalidade na qual os camponeses não tinham assumido a luta pela terra para contestar os latifundiários se transforma a partir das ações de ocupação.
A quebra do “silêncio” se apresenta como uma situação que se dilatou no tempo, mas que foi sempre justa e necessária, não só pela exploração que sofriam os camponeses senão
150 porque o controle do espaço pelos latifundiários era realizado de forma remota e sem uma relação simbólica com o território que pudesse se assemelhar às formas de interação camponesa com o espaço. A ANUC se apresenta nessa narrativa como a via de canalização desse potencial para transformar as resistências cotidianas em transformações políticas:
Naqueles dias era assim, até que um dia um senhor que era chamado ‘O galo de ouro', reunindo as pessoas e falando em nome de algo chamado Usuários Campesinos. Ele começou explicando o que era a Associação dos Sem-Terra e acabou dando à nossa consciência muitos puxões de orelhas, tão fortes, que os pobres quase perdem os ouvidos150 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 55). A transformação que representava a ANUC se baseava na tomada de consciência política e do senso organizativo que permitisse enfrentar a ordem de dominação e fazer autonomamente gestão da sua subalternidade. Tomar as terras tornou-se a ação que encaminharia essa luta e representava tanto uma resposta às opressões imediatas desses camponeses quanto uma reivindicação pelos avós que tinham trabalhado a terra.
A organização se apresenta como uma estratégia de trânsito entre as economias morais e as economias políticas no intuito de transformar as lógicas do poder. O objetivo é a apropriação de um espaço que consideravam próprio desde sempre, ganhado com o trabalho e esforço de gerações. Assim, as ocupações não eram entendidas como “invasões”, senão como “recuperações” de terra.
Um dos relatos sobre as ocupações as mostra como novidade na ação dos camponeses, como uma revelação que puderam realizar apenas nesse momento de intervenção da ANUC:
Até que, finalmente, a gente falou, e claro. Tão claro, que a manhã de 7 de março de 1972 nos surpreendeu nas bordas de uma terra alheia que não queríamos invadir, senão recuperar. [...] Nem o medo do sangue nos assustou. A experiência nos ensinara que a fome é mais vermelha e matadora que o sangue. E bom: muita palha e restolho perdidos em terras estrangeiras deveriam servir ao menos para alimentar um povo que tinha sido abandonado à vontade da fome. Confiantes de que tanto raciocínio à noite não poderiam nos levar pela mão de outra coisa que não a verdade, nós fomos para a terra.151 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 56)
A ANUC avivou um sentimento revolucionário nos camponeses e permitiu transformar a sua vulnerabilidade na sua força. Se a fome tinha lhes deixado nessa situação, seria a que lhes encorajasse para a transformação. Este sentimento estava associado com uma relação de pertencimento com o território. A terra era deles porque eles tinham trabalhado nela, tinham se relacionado física e simbolicamente com ela. Para os camponeses os proprietários não tinham vínculos com o espaço além do papel.
151 Se bem que a ANUC às vezes se apresenta como a produtora dessa consciência, o questionamento da situação social encontra sua semente nos espaços de socialização camponesa. O papel da organização foi principalmente o de reunir os diversos focos de resistência e projetar ações conjuntas.
Assim, seria apressurado dizer que sem a ANUC as ocupações não teriam sido possíveis, mas ela gerou um contexto no qual por meio da solidariedade ampla dos camponeses a nível nacional e o respaldo de uma instituição este tipo de ações afloraram com maior facilidade. Porém, os sujeitos referenciam práticas similares às ocupações que partem do desconhecimento da propriedade dos latifundiários como resposta à situação de subalternidade que já se davam com anterioridade ao aparecimento da ANUC. O papel da organização, nesses casos, foi captar esses focos de resistência e integrá-los aos espaços da associação.
Sabendo disso, nós nos alertamos imediatamente e cortamos algumas parcelas de até doze metros de largura, como um quarto de hectare. Nada mais. Isso era o suficiente para comer como pessoas um dia. [...]
E foi quando o administrador da fazenda do rico com quem ganhamos um problema de três cabeças que está dando origem a essa carta, avisou ao dono da falsidade de que havíamos invadido sua propriedade. [...] Porque o dono da terra, o que se diz dono, chegou no dia seguinte com um caminhão da polícia, embarcou onze de nós como carga e nos levou até à prefeitura e depois para a cadeia. [...] O presidente da Associação de Usuários Camponeses de Cereté foi nos ver na cadeia [...] Nós juramos que foi a primeira vez que ouvimos alguma coisa com esse nome, Associação de Usuários Camponeses. Parecia bonito e impossível o que aquele homem nos explicou. Tanto assim, que depois de alguns dias já estávamos em busca de nos organizar em um comitê.152 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 16–18)
A extensão das redes de solidariedade e reconhecimento camponês permitiu um avanço dos processos de ocupação de terra. Os camponeses se reconheciam como um coletivo de grandes proporções que encaminhavam ações para alcançar uma distribuição equitativa da propriedade do campo e do jogo político nacional.
A construção de um sujeito coletivo a partir da solidariedade se complementava com o conhecimento espacial desenvolvido pelos camponeses. Enquanto a organização encorajava as ocupações massivas, estas eram planejadas fazendo uso do conhecimento sobre o espaço circundante e com a colaboração de membros de outras comunidades, acudindo aos laços sociais que os identificavam como coletivo e que lhes permitiam um conhecimento da geografia além da do seu próprio assentamento.
Deixando a cidade em direção à montanha, você não caminha um quarto de légua quando já está em um lugar chamado El Banco de Arroyón. Lá fomos nós. Nessa baixa perdida no matagal há um matagal grosso e emaranhado como o cabelo de bruxa, [...]. Por estes lados, decidimos desmatar, parar as fazendas e plantar quando a Reforma Agrária comprasse as terras para nos
152 entregar. Anos, muitos anos... talvez seus séculos, fazia que essas terras pobres e apertadas não deram nascimento a ninguém ou ouviram o ranger de um facão sob o sol.
Os trinta e três homens que abraçaram a aventura não eram todos de Arroyón; também das cidades de Porvenir e La Manta, pessoas de Buenos Aires também vieram, sim, sem ninguém ter pago. Todos, pessoas atropeladas por escassez. 153
(SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 57–58)
Os trânsitos no espaço se promoviam numa lógica similar à das velaciones nas quais as várias comunidades se deslocavam pelo bem comum e o aproveitamento da terra. Podemos encontrar que essas relações entre comunidades dadas pelo trânsito e a troca que caracterizaram o campo social antes da conformação da ANUC, permitiram identificar os espaços a serem ocupados. Nesse processo se aproveitaram múltiplos saberes que integravam os sujeitos ao seu território, além do conhecimento de produção agrícola os valores simbólicos eram apreciados para o sucesso das ocupações.
Esses conhecimentos do território que ajudavam na escolha dos lugares idóneos lhes permitiam manter-se na ocupação e resistir diante do assédio das autoridades.
Três dias depois que entramos na terra, não na aluvião, mas na terra com firmeza, a polícia chegou até nós. Os dois carabineiros que chegaram de manhã chegaram acompanhados pelos administradores. E novamente os conselhos: que saíssemos, que estávamos procurando o que não havíamos perdido, que estávamos jogando com fogo. [...] Eles se acostumaram a vir duas vezes por semana com as mesmas recomendações: que víssemos bem o que estávamos fazendo, até a prisão que podíamos tomar; e eles saíam.
Nós os de Chuchuribí nós Mantínhamos dentro do monte, trabalhando como gado derrotado, espalhados em ambos os lados, pingando a vegetação rasteira com facões. À voz de que eles [a polícia] estavam indo para lá, começamos a reunir-nos aos poucos até sermos uma massa de pessoas numa pequena montanha. As crianças estavam encarregadas de procurar os uniformes verdes dos topos das árvores, trepados como que procura pássaros. Quando a polícia enfiava a cabeça na entrada do beco longo da cidade, as vozinhas berrantes dos meninos percorriam de árvore em árvore até que chegassem aos ouvidos os que trabalhavam as terras. A rapazeada às vezes parecia uma série de macacos desses que se agitam quando sentem gente no monte, ficam todos juntos e que fazem rugido de leão. Assim era. Mas quando a polícia entrava na estrada, os meninos ficavam quietos, aconchegando-se nos flocos macios das árvores para que não pudessem ouvir nem sua respiração. Lá de cima eles viam tudo o que via pra gente. 154 (SÁNCHEZ JULIAO, 1975, p. 20–22) Vemos a presença de práticas de comunhão com o monte que permitiam tanto a locomoção quanto o controle da terra reivindicada na ocupação. A comunidade se mantinha unida mediante essa interação com o espaço natural e participavam desse processo dos mais novos aos mais velhos. A manutenção da ocupação dependia diretamente dos conhecimentos que o monte transmitia e que tinha sido cultivado por gerações a partir de práticas como as