A lógica que compõe a construção do processo identitário do sujeito em relação com o ambiente que lhe rodeia, se estrutura não apenas no espaço cognitivo, senão que vai se compondo gradualmente através da integração dos campesinos-gaiteros com o seu espaço geográfico.
O ritual das velaciones, além de exibir as potencialidades da música para a interação com o monte tem o efeito prático de permitir a circulação dos camponeses num território amplo. O fato das velaciones serem realizadas de maneira itinerante em todos os espaços do território as fez funcionar como mecanismo de integração social e de reconhecimento da terra.
O bom era que como sempre era alguém diferente que estava fazendo a velação, a gente perorria todo este pedaço de terra. Assim, conhecia-se o que estava longe e o que estava por perto. Fui a Vilú, a Almagra, a Carmen, andei um e por outro lado e também conheci o pessoal de cada canto. Em todos os lugares eles te tratavam bem e todos eram amigos com você. Quem gosta da
144 gaita é reconhecido porque é de muitos amigos e porque é andador. 142
(GÓMEZ, 2014).
O exercício de reconhecimento do território permitia uma maior relação com os outros campesinos-gaiteros, mas ao mesmo tempo permitia a identificação das fazendas, as terras vagas e os montes. Esta característica viria a ser muito importante no exercício das ações da ANUC, especificamente na identificação das terras a serem ocupadas.
Esta vinculação da identidade a uma pertença geográfica permitiu a manutenção e reconstrução de territorialidades ainda fora do espaço de origem, como mostrou a geógrafa Jessica Villamil (2009) para o caso da música de gaitas dos migrantes montemarianos em Bogotá. A reconstrução do território, no caso desta música, faz referência aos processos de reivindicação da identidade coletiva.
As dinâmicas espaciais da prática musical permitem entrever que esta é uma música que se pratica a partir do movimento no espaço e a identificação de lugares específicos que fazem a prática ideal.
A narrativa ao redor dos santos permite ver sua emersão nos lugares sagrados e a partir de elementos naturais que servem como referentes geográficos: lugares com água, lugares de monte, cerros. Esses espaços eram os procurados pelos musicantes para o exercício da sua comunicação com a natureza e a gestão da sua subalternidade por meio dos santos.
Da mesma maneira, a prática musical interferia na paisagem local enquanto os trabalhos agrícolas eram realizados com essa música, pois esta integrava o espaço sonoro rural. A utilidade das velaciones no reconhecimento do território os aproximava de maneira prática à identificação das terras que precisavam ser exploradas. Dada a constante realocação das famílias camponesas uma vez que os latifundiários os obrigavam a deixar suas terras quando o processo de desmatamento estava culminado, em períodos de aproximadamente dois anos, as velaciones lhes permitiam identificar os espaços nos quais podiam se realocar. Estes rituais tinham uma função prática para manter o padrão de assentamento estacionário.
No entanto, esse sentido prático também é profundamente emocional. Enquanto a música mobiliza emoções e processa a identidade, mantém, em seu uso diário, elementos que a ligam a atividades como agricultura, espaços como a Terra e tempos específicos, isto é: uma estrutura macrocósmica com uma microcósmica; a ideia de mundo expressada no ato de musicar.
Assim, se constitui na prática musical, por meio da ação de musicar, o que Ted Solis chama de “pathoscape”, isto é, “uma paisagem (sonora) emocional”143(SOLÍS, 2004, p. 234, 2005, p. 106), ou como o descreve: “Um ninho psíquico construído a partir da imaginação
145 sonora"144(SOLÍS, 2004, p. 245). Desta forma, os camponeses montemarianos associam a música à agricultura e a espaços geográficos muito particulares, referindo-se à música como moradora da terra, que trabalha para produzir produtos agrícolas.
Para tornar mais claro: a música participa ativamente da produção agrícola e das lutas da terra em Montes de María: e nessa perspectiva, aquela paisagem emocional à que está associada se ativa em situações específicas e faz gestão da ação desses camponeses. Ou colocado em outras palavras: a prática da música de gaitas permite a criação funcional de uma geografia emocional, carregada de sentidos e de uma racionalidade que permite relacionar os elementos espaciais, temporais e afetivos associados com a prática cotidiana da comunidade que se ativam especialmente em momentos de confronto emocional e na manifestação do conflito social.
Assim, os camponeses encontram no espaço dos montes o ambiente idôneo para a interpretação da música, mas também o recurso de inspiração dela. A metáfora sonora na qual a música funciona como representação dos sons do monte cobra sentido na construção da paisagem sonora, fazendo com que a música se integre no repertório de sons que o ambiente oferece. Da mesma maneira o sistema cultural no qual a música se insere, restrito à constituição espacial, permite a criação de conceitos correspondentes a narrativas sobre o território. Esta integração é fruto de uma acustemologia dos Montes de María, fazendo uso do conceito construído por Steven Feld(2000, 2013).
Por acustemologia, desejo sugerir uma união da acústica e a epistemologia e investigar a primazia do som como uma modalidade de conhecimento e existência no mundo. O som emana dos corpos ao mesmo tempo que os penetra: esta reciprocidade de reflexão e absorção é um meio criativo de orientação, que sintoniza os corpos com lugares e tempos através do seu potencial sonoro. Assim, ouvir e produzir som são competências incorporadas que situam aos atores e sua capacidade de agência em mundos históricos determinados. Essas competências contribuem para a conformação de formas distintas e compartilhadas de ser humano [...] minha noção de acustemologia propõe explorar as relações reflexivas e históricas entre ouvir e falar, entre escutar e produzir sons. Essa reflexividade é incorporada duplamente: nos atos de fala nos escutamos a nós mesmos, e nos atos de audição ressonamos com o caráter físico da fala. Ouvir e falar estão em uma profunda reciprocidade, em um diálogo incorporado entre o soar e ressoar interno e externo construídos a partir da historização da experiência 145. (FELD, 2000, p. 184)
Essa geminação entre acústica e epistemologia resulta em uma compreensão das relações sociais mediadas pelo som que decorrem de uma cultura que constrói significados equivalentes entre percepção, pensamento e narrativa. Esta acustemologia não pode ser entendida sem seus mecanismos de ação sobre a terra e percepção do espaço.
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