O ano de 1834 marca o princípio do fim do Convento da Conceição e a acelerada marcha para a derrocada do edifício, fruto da falta de verbas para a sua manutenção e da falta de interesse por uma casa que, a prazo, reverteria a favor do Estado. Por isso, facilmente se percebem as palavras do P.e Airosa, quando, após cinquenta anos, afirmava que recebeu um edifício completamente em ruínas.36
O arranque das grandes obras e o início da grande transformação e adaptação do edifício às novas finalidades dá-se em 1884. A comissão nomeada para o efeito resolveu, de imediato, fazer um salão para os lavores, sobre o Terreiro de S. Bento, e construir uma cozinha. A reconstrução do edifício, adequada aos novos fins pedagógicos, requeria avultados financiamentos que a instituição não possuía. Organizou-se, para tal, uma comissão para angariação de fundos e recorreu-se ao pedido de subsídios ao Governo que, nesse mesmo ano, lhe concedeu 1.800$000 réis para auxílio das obras e, posteriormente, em 1887, um subsídio mensal de 25$000 réis.37 Em 1892, outorgou um montante de 250$000 réis “para compra de machinas e apparelhos para a officina de tecelagem” (Torres, 1905: 6-7). Mas os mais avultados custos das obras foram suportados, como refere o P.e Airosa no documento referido, “pela caridade publica, subscripções, bazares, etc.” e pelos muitos donativos de benfeitores, alguns deles anónimos. E os apoios chegaram de todos os lados. O P.e Airosa, no já referido caderno de Apontamentos, para descrever a forma como todos colaboraram activamente para “tão justo fim”, deixa esta nota impressionante: “Os ricos offertaram dinheiro, os proprietarios ruraes traziam madeiras, cal, telha, etc., e os que não tinham para dar offereciam o seu trabalho, carro e bois para conduzir os materiais”. Como facilmente se pode concluir, trata-se de uma acção que envolveu a comunidade local de Braga e arredores, em prol de instituição reconhecida e acarinhada.
Na reunião de 27 de Fevereiro de 1884, regista-se uma nota de agradecimento “à Condessa de Azevedo e aos parochos de Atiães e Freiriz [Vila Verde] pelos 30 carros de pinheiros que conseguiram dos seus freguezes”. Os carretos para as obras foram feitos ao domingo, com permissão do Arcebispo Primaz, a quem a Direcção agradece. No Brasil, fazem-se várias subscrições, cujos donativos são devidamente registados, e são frequentes os legados de vária ordem (com encargos de ordem espiritual mas também de ordem temporal)
36 V. AP. DOC. Fig. 11 e 16. 37
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instituídos em nome do Colégio. A Direcção, por sua vez, resolve promover saraus recreativos com música, bazar e sorteios. O dramaturgo local, Manuel Inácio da Silva, compõe um drama, moralizador e edificante, para ser representado e com isso promover a angariação de fundos.
A denominada “sociedade civil” tomava a iniciativa de promover festas para angariação de fundos, em Braga e na Póvoa de Varzim, como aconteceu nos anos de 1882, 1883, 1885 e 1886, festas essas que a imprensa se encarregava de divulgar. O sarau litterario-
musical realizado a favor do Colégio de Regeneração, em 28 de Dezembro de 1882, no
“Theatro de S. Geraldo38
rendeu 171$500 reis” e foi organizado e animado por “senhoras e cavalheiros da mais escolhida sociedade bracarense”, como se pode comprovar pelo extenso programa que a imprensa divulgou, e que incluiu piano, canto e poesia (O Primeiro de
Janeiro, 28.12.1882). Na Casa dos Falcões, os saraus de recreio da “Árvore do Natal”, em
1883, renderam a quantia de 231$390 réis.39 Por iniciativa de algumas senhoras de Braga realizou-se, em Setembro de 1885, na Póvoa de Varzim, uma quermesse e um concerto de piano e canto no “magnífico” salão do Café Universal, que “esteve animado e concorridíssimo”, a favor do Colégio de Regeneração. O cronista aproveita para informar os leitores sobre a instituição que estava a ser apoiada e transcreve um poema recitado pelo Visconde de Pindela (A Ordem, 25.09.1885). No ano seguinte, e na mesma vila da Póvoa de Varzim, realiza-se nova quermesse e anunciam-se matinés musicais e literárias, com representações cénicas levadas a efeito por um grupo de senhoras de Braga que colaborariam com a sua arte musical e de declamação (Jornal da Manhã, 02.09.1886; O Comércio do
Minho, 27.10.1886).
Pela leitura das actas, dá a sensação de que o Colégio de Regeneração se transformou num grande estaleiro de obras, com permanentes reparações de portas, janelas, tectos e soalho da igreja. As mais prementes e de maior vulto eram, sem dúvida, as das divisões destinadas a dormitórios, cozinha, sala de jantar e oficinas. A oficina de tecelagem era, certamente, a que de maior espaço necessitava, por causa da instalação dos teares.
Havia necessidade, diz-se em 1889, de expandir a oficina de tecelagem e adquirir novos teares. O P.e Airosa informa então a Direcção de que as obras que estavam a ser realizadas nessa oficina e na construção do novo salão de lavores estavam a ser executadas a
38 O Teatro de S. Geraldo ficava situado no Largo Conselheiro Hintze Ribeiro, que antes se chamava Largo da
Lapa e hoje é a Praça da República, vulgo Arcada.
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expensas de um benfeitor anónimo,40 com conclusão previsível para dali a dois anos, e cuja inauguração acabou por se realizar com uma exposição de trabalhos executados pelas internas. Há, assim, um grande projecto, que bem pode ser considerado como precursor do ensino industrial na cidade de Braga – a Escola-Oficina de Tecelagem, que aí viria a ser instalada nos inícios da década de 90, do séc. XIX, e que coincide com as obras de reconstrução, podendo ter sido esse um factor importante na projecção do alçado nascente do edifício e do seu novo acesso à casa renovada que estava a surgir.41
As obras de intervenção no arruinado edifício conventual prolongaram-se por vários anos e os dinheiros foram aparecendo a conta-gotas. Por intermédio do Governador Civil de Braga, Visconde da Torre, chegou em 1896 mais um subsídio do Governo, no valor de 500$000 réis, o que permitiu dar continuidade às obras do frontão do edifício42 (v. Fig. 5). Em Agosto do ano seguinte, surgiu um novo contributo do Conselheiro José Novais, no valor de 450$400 réis, para fazer face aos custos das obras.43 Depois de alguns anos de obras contínuas na fachada, a norte do novo frontão, as atenções voltaram-se para outros espaços que era necessário recuperar. Em 1904, o Governador Civil de então, D. Tomás de Vilhena, conseguiu do Ministro das Obras Públicas, o Conde de Paçô Viera, o montante de 776$585 réis para ser aplicado na limpeza e restauro da parte em ruínas do edifício do Colégio, como se lê na acta de 4 de Fevereiro de 1904.44
Ao compasso do tempo, foi o P.e Airosa erguendo das ruínas um edifício com um novo visual, aquele que ainda hoje apresenta, graças aos benfeitores que no momento oportuno sempre apareceram. Assim aconteceu, em 1908, quando D. Manuel II visitou a cidade de Braga. Constava que visitaria o Colégio que, no entender do P.e Airosa, não se apresentava nas melhores condições para o receber. Informou, então, a Direcção que um anónimo, tendo conhecimento do estado ruinoso e ameaçador da parte do edifício contíguo ao coro, mandou fazer ali, a expensas suas, as obras necessárias de reconstrução e reparação.45
A visita do Rei acabou por não se concretizar mas as obras ficaram feitas. E a belíssima peça artisticamente confeccionada nos teares do Colégio – uma peça em seda com a
40 L.º de Actas n.º 1, fl. 50. 41
V. AP. DOC. Fig. 12 e 13.
42 L.º de Actas n.º 1, fl. 78. 43 Id., fl. 81v.
44 Id., fl. 104. 45
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representação do escadório do Bom Jesus do Monte, que havia sido expressamente confeccionada para oferecer a D. Manuel II, permanece ainda hoje em exposição no salão nobre do IMA.46
Figura 5 - Aspectos do antigo Convento e sua recuperação (ABIMA n.º 40, 1-3)
Em 1909, a Direcção do Colégio de Regeneração formalizou novo pedido de subsídio ao rei para as obras de restauro e requalificação do edifício, pedido esse que terá ficado encalhado nos meandros burocráticos dos ministérios.47
46 V. AP. DOC. Fig. 25. 47
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