O P.e Airosa procurou dar às suas educandas uma formação integral onde a animação cultural tinha um lugar privilegiado. Várias alunas e educadoras do tempo do sacerdote testemunharam que ele assistia sempre, muito interessado, aos “ensaios gerais” das alunas, que precediam as actuações públicas, quer na área musical quer na cénica.
Sobre o nível dos conhecimentos musicais teóricos e práticos de P.e Airosa não há suficientes provas para emitir um juízo seguro. Sabe-se, todavia, o que a respeito da música ele próprio escreveu, a pedido expresso do Dr. Bernardino Machado, na Memória do Colégio
de Regeneração, apresentada no Congresso Pedagógico de Madrid em Outubro de 1892. Aí
faz referência não somente às “oficinas de costura e bordados, de engomar, de tecelagem e de lavagem de roupa”, bem como ao “ensino prático de horticultura e floricultura na cerca do edifício”, mas também às “aulas de Instrução Primária, de Desenho e de Música”, e a uma “biblioteca de livros escolhidos, para instrução e recreio” das colegiais. E quanto à música, não se trata de uma alusão passageira. A Memória por ele elaborada detém-se a exaltar a importância educativa da arte dos sons. Informa ainda que vinha ao Colégio “dar lições […] de Canto e Órgão” a professora D. Maria da Apresentação Costa, que estudou Música “num dos principais colégios de Londres”.51
De facto, nos tempos do Fundador, o Colégio teve ao seu serviço os melhores professores de música e compositores desta cidade, como Joaquim José Rodrigues da Silva, João Esmeriz e P.e António Domingues Correia.
Segundo Álvaro Carneiro, Joaquim José Rodrigues da Silva52 compôs vários hinos, entre os quais um “Hino do Colégio de Regeneração” (Carneiro, 1959: 107-109; 134-137; 347-349). Há, de facto, no ABIMA, uma partitura, sem referência autoral, com o Hino do Colégio de Regeneração, com acompanhamento de piano, que foi “copiado e offerecido em 15 de Novembro do anno de 1890”, como se lê na folha de rosto.53
O cruzamento de dados permite-nos concluir ser este hino da autoria de Joaquim Rodrigues da Silva. A partitura insere também a letra que, posteriormente, em 1900, foi impressa, numa espécie de pagela. Mais tarde, em 1913, num opúsculo publicado pelo Colégio, a letra do Hino surge indicada
51 V. AP. DOC. Doc. 10 e 11. 52
Joaquim José Rodrigues da Silva nasceu em 1836, em S. Julião de Passos, Braga. Foi educado no Colégio dos Órfãos de S. Caetano, onde recebeu uma boa preparação musical e literária. Exerceu o cargo de organista na igreja de S. Paio, nos Arcos de Valdevez. Tinha ouvido maravilhoso e tocava de improviso. Compôs várias obras para piano e vozes.
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como sendo da autoria do Dr. Nunes da Ponte e datada de 1904.54 A verdade, porém, é que já em 1890 a letra faz parte integrante da referida partitura musical.55
João Esmeriz56 assumiu funções no Colégio em 1888, como se lê na acta de 27 de Janeiro desse ano: “Acordou-se tambem que, para proveito das recolhidas, e para que no Collégio houvesse cantoras habilitadas para as solemnidades e mais exercícios de devoção, que tem na egreja, fosse admittido como mestre de múzica do Collégio o Sr. João Esmeriz, com o ordenado de quarenta mil reis annuaes”. Álvaro Carneiro diz que ele “prestou serviço sempre graciosamente” no Colégio de Regeneração. Isso não é verdade, porque, segundo a acta de 27.01.1888, ele foi admitido em Janeiro de 1888, com o ordenado anual de 40$000 (quarenta mil réis).57
O P.e António Domingues Correia, grande músico e reputado compositor de música sacra, foi admitido como capelão do Colégio em Janeiro de 1893.58 A par dessa função, terá desempenhado, também, a de professor de música, até 1896, data em que saiu para dirigir a Oficina de S. José. Nos anos 30, voltou ao Colégio de Regeneração como professor de música, onde se manteve até 1953, “ensaiando o grupo coral das respectivas educandas, ao qual dedicou o maior carinho e orientou com demonstrada competência” (Carneiro, 1959: 108). O seu espólio musical, ou grande parte dele, faz parte do actual ABIMA.59
Do rol de professores de música consta, como referido, D. Maria da Apresentação Costa que, em 16 de Janeiro de 1899, foi admitida como organista e professora de canto e piano, e ainda com o encargo do ensino da leitura, escrita e contabilidade, mediante uma
54 Nascido na vila da Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores, em 1848, Nunes da Ponte completou o curso de
medicina na Universidade de Coimbra, em 1879. Exerceu medicina no Porto, onde viveu a partir de 1880, e desempenhou funções em diversas áreas: vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, presidente do Hospital de Santo António, provedor da Ordem Terceira, presidente da Associação Portuense de Jornalistas e Homens de Letras. Segundo Navarro (2011: 75-76), Nunes da Ponte era um republicano indefectível. Em 1910, coube-lhe a honra de proclamar da varanda da Câmara Municipal do Porto a vitória da República. Foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte, Governador Civil do Porto e Ministro do Fomento no governo de Pimenta de Castro. Assumia-se como republicano conservador e a imprensa julgava-o próximo do Partido Republicano Evolucionista. Para além de clínico talentoso, velho e nobre republicano, ainda se diz que este cidadão de muitos méritos poetava nas horas vagas. Cf. AA.VV. História da República. Lisboa: Editorial O Século, 1960.
55 V. AP. DOC. Doc. 45.
56 João Maria de Araújo Esmeriz nasceu em 1847, em S. João do Souto, Braga. Fez a sua aprendizagem musical
no Colégio dos Órfãos de S. Caetano. Leccionou música, canto e piano em quase todos os estabelecimentos de ensino então existentes na cidade de Braga, incluindo o Seminário. Foi director de orquestra e organista privativo de várias igrejas de Braga. Deixou imensas composições para órgão, vozes e orquestra. Integrou a capela dos “Esmerizes”, dirigida pelo seu irmão mais velho e foi o último mestre da “Capela da Sé”, extinta em 1911.
57 L.º de Actas n.º 1, fl. 44v. 58 Id., fl. 60.
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mensalidade de 4$200 réis, para além de quarto, cama, e mesa ao almoço e ceia.60 Em 20 de Abril de 1906, é aprovado em reunião de direcção um regulamento, no qual se estabelecem os horários das lições de piano, e do canto teórico e prático. Aí se diz que a professora deveria preparar, quanto possível, organistas e cantoras para actos litúrgicos dominicais e festividades, ficando encarregada da direcção e do desempenho de organista enquanto não tivesse pessoas devidamente preparadas.61 A desistência desta professora deu lugar, em Março de 1907, à contratação de D. Felicidade Peixoto, com o ordenado de 300$000 réis.62
O nível das composições musicais executadas no Colégio era elevado, como se constata por um impresso de 1904,63 no qual se anuncia a “música sacra vinda de Roma”, que “será cantada em coro pelas colegiais”. Mas da Itália não provinha só música sacra: de lá veio também L’arte musicale, “sherzo cómico-musicale”, de Achille Pedrolini, publicado em Turim, em 1904.64 Na página de rosto do exemplar que no IMA se conserva, alguém escreveu que a representação do “scherzo” se efectuou em 29.06.1926; e nessa mesma página, o próprio Fundador informa que a representação já se tinha verificado em 24.06.1918.
O Fundo Musical, constituído por obras de música sacra e profana dos séculos XIX- XX, é revelador da prática musical da Instituição ao longo dos tempos, e o espólio é constituído por obras impressas, manuscritos musicais autógrafos e cópias manuscritas. As partituras anotadas e o grande número de cópias manuscritas testemunham o uso quotidiano no ensino e actividade musical da instituição. São obras, na sua maioria, pertencentes a compositores locais, mas também com uma significativa presença de obras de autores italianos, nomeadamente de obras de teatro com música (Lessa, 2011: 373). Este Fundo está devidamente acautelado em caixas de arquivo, encontrando-se à espera de um trabalho consistente de inventariação e catalogação, que se espera venha a ocorrer com a intervenção da Escola de Música da Universidade do Minho.65
60
L.º de Actas n.º 1, fl. 89.
61 Id., fl. 111. 62 Id., fl. 115.
63 Referente à participação do Colégio de Regeneração nas “Festas Jubilares da Definição Dogmática da
Imaculada Conceição / 1854-1904”.
64
Alfredo Meireles, aluno da Licenciatura em Música (Universidade do Minho), sob orientação da Prof.ª Elisa Lessa, elaborou, em 2010, um primeiro esboço das obras de compositores italianos do Fundo Musical do ABIMA.
65 Por ora, o estudo preliminar foi feito pela Prof.ª Elisa Lessa, da Universidade do Minho: “O Fundo Musical do
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