Developments in Africa’s
2.3 Physical integration
p. 73). É por meio dessa relação que a equipe dirigente consegue con- ter a massa carcerária, visto que a sua posição social permite adminis- trar não apenas as punições, como também as recompensas na insti- tuição (THOMPSON, 1980).
Diante das questões levantadas sobre os relacionamentos na pri- são, os internos apontam que o aprendizado de estratégias para lidar com o outro é fundamental. Os entrevistados mencionaram o contro- le psicológico, para vivenciar situações de violência e submissão, e as mudanças de comportamento, aquisição de novos hábitos – estraté- gias aprendidas diante das experiências do aprisionamento, efeito da prisonização (THOMPSON, 1980).
O longo período de encarceramento parece garantir aos internos maior segurança na prisão, mas também maior sujeição. Entre os entrevistados detentos por mais de dez anos, o aprisionamento físico parece não ser distinto do aprisionamento das suas condições de vida. O discurso deles é o mais associado ao universo da prisão, o que não significa que seja um discurso relacionado ao mundo do crime, mas ao sistema penitenciário. Falar das transferências entre instituições, de direitos adquiridos e sanções, da reincidência criminal, da progressão e regressão de regime penal parece ser assumir uma condição de vida de forma acrítica, naturalizada, embora seja possível constituir modos de vida que rompem com esse movimento mortificante.
Já foi dito que a maioria dos integrantes da massa carcerária é proveniente de classes populares, das periferias urbanas, e que, devi- do a essa situação, eles conviviam cotidianamente com violações de direitos civis e sociais. Embora se possa pensar numa adaptação pré- via dessas pessoas ao sistema prisional (TAVARES, 2006), foi possível observar que os efeitos do encarceramento na vida dos internos são mais intensos quanto maior for o tempo de reclusão. Assim, a com- preensão de que um extenso período de institucionalização (ininter- rupto ou com pequenas interrupções) parece treinar o indivíduo para uma longa vida na prisão é válida. Há um processo de adaptação que
parece contrariar o objetivo da ressocialização, como aponta Thomp- son (1980, 1998). “Parece, pois, que treinar homens para a vida livre, submetendo-os a condições de cativeiro, afigura-se tão absurdo como alguém se preparar para uma corrida, ficando na cama por semanas.” (THOMPSON, 1980, p. 13). Goffman (2008) fala do “desculturamen- to”, quando o período de internamento é muito longo, fato que pode deixar o interno temporariamente incapaz de lidar com as atividades da vida diária.
Os detentos “novatos” parecem mais descontentes com a vida que levam na instituição, mostrando-se mais questionadores, críticos, reflexivos com o aprisionamento, enquanto os “veteranos” parecem viver de forma mais naturalizada a reclusão, demonstrando maior aceitação da condição de vida atual. Dessa maneira, o processo de mortificação do eu (GOFFMAN, 2008) parece ser mais intenso quanto maior for o tempo há que a pessoa está institucionalizada.
Em um universo de repressão, controle e relações sociais desiguais, questionar a todo o momento a condição de vida pode não ser uma estratégia eficaz para lidar com o encarceramento. Dizer que o deten- to vive de maneira naturalizada, sem questionar ou refletindo pouco acerca da sua condição de vida, pode não significar a aceitação, mas uma estratégia de enfretamento da condição de preso. Embora possa ser visto como um processo de despotencialização da vida, o proces- so de mortificação do eu (GOFFMAN, 2008) pode ser compreendido como um recurso (mais ou menos eficaz, dependendo de cada interno) para lidar com o mundo da prisão.
A importância atribuída à vivência familiar é compartilhada por todos os entrevistados. Os contatos mantidos com os familiares, por meio das visitas na prisão, são percebidos como fator de apoio para deixar o mundo do crime. Assim, a manutenção dos vínculos familia- res pode ser compreendida como uma maneira do interno sustentar alguns de seus contatos com o mundo extramuros, já que a barreira imposta entre a instituição e o mundo externo permite cisão entre os
papéis sociais exercidos antes e após o aprisionamento (GOFFMAN, 2008). Se a pena de prisão não é para ser uma pena perpétua, o interno deve ser preparado para a vida livre do sistema penitenciário e distan- te da criminalidade, e, portanto, manter vínculos que podem potencia- lizar essa reinserção social longe do mundo do crime é fundamental.
As privações vividas na prisão, o ambiente de desconfiança – que minimiza as possibilidades de constituição de relações afetivas e de solidariedade entre os internos –, a carência de oportunidades de profissionalização, entre outras questões, mostram que os internos, em meio a essa realidade, constroem estratégias e criam recursos de vida para que consigam superar as adversidades da prisão. Assim, o processo de mortificação do eu é inerente aos modos de vida cons- tituídos em uma instituição total (GOFFMAN, 2008), mas, com ele, é possível apontarem processos de vitalização, modos de vida que rompem com a ideia de sujeição do preso ao sistema penitenciário, sem os quais seria impossível viver na prisão. Rauter (2003, p. 107) diz que “apesar de toda a pressão institucional em contrário, existem formas infinitas de resistência individual e coletiva, que podem ser vistas como formas de preservação da vida, ou, se quisermos chamar assim, de saúde psíquica”.
Religiosidade e vida prisional
A religiosidade pode ser compreendida como um aspecto importante na constituição da vida de alguns internos na prisão, principalmen- te dos evangélicos convertidos7. O encontro com o mundo religioso
parece possibilitar formas de significar a vida na prisão, além de ser um recurso para lidar com as condições advindas do encarceramento.
7 Os entrevistados que se dizem católicos e os que não participam de atividades re-