Embora a prevalência de excesso de peso e da obesidade varie consoante a etnia e o género, vários estudos demonstram níveis alarmantes de obesidade entre crianças e adolescentes (Ostojic, Stojanovic, Stojanovic, Maric, & Njaradi, 2011).
Um IMC dentro dos valores de referência, na infância e na adolescência, está associado a um sistema cardiovascular saudável na vida adulta e, por conseguinte, a um menor risco de morbilidade (Goran, Fields, Hunter, Herd, & Weinsier, 2000; Ruiz et al., 2009) e de doenças cardiovasculares (Messiah, Arheart, Lipshultz, & Miller, 2008). Por outro lado, um perímetro da cintura (PC) dentro dos valores normais está associado com uma redução de diversos riscos para a saúde nos adolescentes (Martins et al., 2010), como por exemplo o risco de sofrer de diabetes mellitus do tipo II (National Institutes of Health, 1998 citado por Fernández, Redden, Pietrobelli, & Allison, 2004), de síndrome metabólica (Aeberli, Gut- Knabenhans, Kusche-Ammann, Molinari, & Zimmermann, 2011; Browning, Hsieh, & Ashwell, 2010) e de doenças cardiovasculares (Krebs et al., 2007; Messiah et al., 2008; Ruiz et al., 2009).
A QVRS é habitualmente associada de forma inversa com o IMC, estando os maiores níveis de adiposidade no adolescente associados a uma menor QV do mesmo (De Beer et al., 2007).
A composição corporal refere-se à proporção existente entre os distintos compartimentos corporais, isto é músculos, ossos, gordura, entre outros (Brandão, 2010; Gonçalves & Mourão, 2007). A sua avaliação em crianças e adolescentes encerra um número muito acentuado de métodos, classificados de indiretos, duplamente indiretos e diretos (Sant’Anna, Priore, & Franceschini, 2009). O método direto é o mais rigoroso na avaliação da composição corporal, resultando da dissecação de cadáveres. Os métodos indiretos incluem a pesagem hidrostática, a ressonância magnética e a densitometria radiológica de dupla energia, implicando custos mais elevados e técnicas de operacionalização com uma complexidade superior. Por fim, os métodos duplamente indiretos reúnem um custo operacional mais baixo e são vulgarmente conhecidos como métodos de campo. Incluem a bioimpedânica, as pregas adiposas, os perímetros corporais, entre outros, e são habitualmente validados, considerando como referência os métodos indiretos (Brandão, 2010; Gonçalves & Mourão, 2007; Leite, 2004).
2.2.3.1. Índice de massa corporal
O IMC é um parâmetro antropométrico facilmente obtido através da divisão do peso (quilogramas, kg) pelo quadrado da altura (metros, m), constituindo um indicador dos níveis de adiposidade total do indivíduo (Sardinha et al., 2012). Os procedimentos de avaliação
incluem, para a altura, a manutenção da posição antropométrica (incluindo o posicionamento da cabeça no plano de Frankfurt) e o registo do valor no final da inspiração profunda. Em relação ao peso, o mesmo deverá ser medido com a menor quantidade de roupa possível e descalço, estando o peso do corpo igualmente distribuído pelos dois pés (Heyward & Wagner, 2004).
2.2.3.2. Perímetro da cintura
O PC é um bom indicador antropométrico para diagnosticar a obesidade abdominal em diferentes grupos etários, incluindo as crianças e os adolescentes (Klünder-Klünder & Flores- Huerta, 2011).
A obesidade abdominal (tipo “maçã ou andróide) representa maior risco de desenvolvimento de diabetes mellitus e de doenças cardiovasculares, em comparação com a obesidade ginóide, também designada tipo “pera” (Ibrahim, 2010).
O aumento do PC está positivamente associado com a adiposidade abdominal, constituindo um dos critérios para a definição de síndrome metabólica (Aeberli et al., 2011; Browning et al., 2010). Trata-se de uma medida antropométrica útil em crianças e adolescentes (Fernández et al., 2004), facultando-nos a compreensão da relação entre a AF e adiposidade intra-abdominal (Klein-Platat et al., 2005). Constituindo uma medida válida e simples de ser aplicada no terreno, ela é combinada frequentemente com a altura já que para crianças e adolescentes com o mesmo valor de PC, a presença de uma estatura mais reduzida representa um maior comprometimento para a saúde (Klünder-Klünder & Flores-Huerta, 2011).
Existem duas componentes da gordura abdominal: a gordura subcutânea e a intra- abdominal, também designada de visceral (Burton, 2010; Ibrahim, 2010), sendo esta última mais prejudicial à saúde do adolescente, quando presente em excesso.
2.2.3.3. Evolução do índice de massa corporal e do perímetro da cintura em adolescentes
O crescimento e a maturação dos indivíduos são caracterizados por alterações acentuadas na composição corporal (Bell, 1997), sendo que a variação individual na composição corporal
(gordura, músculos, ossos, etc) nos rapazes é mais marcada nas raparigas (Morimoto et al., 2007b).
No que diz respeito ao PC, os rapazes possuem um PC superior ao das raparigas, e este aumenta com a idade (Fernández et al., 2004; Sardinha et al., 2012), por exemplo, um adolescente com 10 anos de idade possui normalmente um PC inferior a um adolescente de 15 anos de idade.
As raparigas são geralmente conhecidas por possuírem mais MG do que os rapazes (Park, Park, Kim, Kim, & Chung, 2011), estando a mesma distribuída fundamentalmente na região glúteo-femoral (Ibrahim, 2010).
O padrão normal de IMC é para diminuir a partir dos 2 anos de idade até aos 5 ou 6 anos de idade, atingido o seu valor mais baixo entre os 4 e os 7 anos, e em seguida, começa a aumentar consoante aumenta a idade (Krebs et al., 2007).
Existe uma relação linear significativa entre os valores de IMC e os de PC, isto é, um aumento nos valores de IMC faz com que aumentem também os valores do PC (Morimoto et al., 2007a).
O aumento da força muscular desde a infância até à adolescência está negativamente associada com mudanças na composição corporal. Estas conclusões têm implicações importantes na promoção da saúde e na implementação de estratégias de profissionais de saúde para promover a AF (Ruiz et al., 2009).
Relativamente à aptidão aeróbia (VO2máx), esta é um fator que influencia os valores de IMC e de gordura abdominal nos indivíduos (Ara, Moreno, Leiva, Gutin, & Casajús, 2007), evidenciando uma relação inversa com estas variáveis (He et al., 2011; Mota, Flores, Flores, Ribeiro, & Santos, 2006; Ostojic et al., 2011; Ullrich-French et al., 2010).
Uma vez que a aptidão aeróbia é influenciada pelo peso corporal, os indivíduos com excesso de peso ou obesos necessitam de executar um esforço mais elevado do que um individuo com peso normal, na realização de atividades físicas propostas. Devido a este facto, os indivíduos com obesidade têm menor probabilidade de participar em atividades físicas que exijam um aumento do movimento da massa corporal (Goran et al., 2000), visto que sentem- se mais cansados devido ao esforço extra realizado. Além disso, os rapazes com baixa aptidão aeróbia têm maior risco em permanecer obesos e em agravar os níveis de adiposidade existentes (He et al., 2011).
2.2.3.4. Vantagens e limitações associadas à aplicação do Índice de massa corporal e perímetro da cintura
O PC é uma medida antropométrica fácil de aplicar, que requer apenas a utilização de uma fita antropométrica e que está intimamente relacionada com os níveis de adiposidade intra-abdominal (Morimoto et al., 2007a).
A alteração do IMC não reflete a mudança de adiposidade durante a infância e adolescência (Franklin, 1999), já que não diferencia a presença de MG e de massa magra na constituição do peso (Klein-Platat et al., 2005; Sardinha et al., 2012). Trata-se, contudo, de um índice antropométrico amplamente validado na literatura e um indicador dos níveis de adiposidade total, revelando uma fácil aplicação em contexto escolar (Aryana et al., 2012).