2 L’entreprise et le SI
5.5 Phase 5 : Process Improvement
Um dia, na feira Balôn, estava junto com Ablou Diallo atrás de sua banca. Um Marabout vestido com roupas tradicionais, amigo de outro comerciante senegalês, estava sentado ao nosso lado. Chegou uma mulher senegalesa com a qual conversaram um pouco e, após alguns minutos, aproximou-se outra mulher, mais nova, extraiu um pacote de uma sacola e o entregou para ele. O Marabout agradeceu e as duas mulheres foram embora. Ele abriu o pacote e retirou um lindo anango199 branco, refinado e bem acabado.
Perguntei se era dele: “Sim, uma GP acabou de entregá-lo para mim. Foi feito no Senegal. É um presente da minha mulher que mora em Bergamo. Eu estou sempre indo para cá e para lá”200.
O mercado Balôn é um lugar no qual os cruzamentos de circuitos translocais sobrepostos se territorializam: aqui, então, podemos apreender os fluxos das “coisas” (APPADURAI, 1986) que circulam por meio das redes. A feira, portanto, ancora momentaneamente práticas que se tecem nos “territórios circulatórios” (TARRIUS, 1993), tornando-se um espaço privilegiado para a observação dessas dinâmicas. Consideramos os fluxos que perpassam a feira como compostos por pessoas, palavras, dinheiro e coisas e individuamos dois tipos de modalidades de circulação opostas que as caracterizam: respectivamente, um movimento centrípeto, por meio do qual, a partir de vários lugares, as coisas convergem no mercado, e um movimento centrífugo, que, tendo como ponto de partida esse último, proporciona o deslocamento das coisas para outros espaços. Se essa pulsação, marcada pelo compasso “vai-vem”, tece circuitos que conectam múltiplos lugares, dentro e fora da Itália, nos interessa aqui observar um trecho especifico desse percurso: o que liga as cidades de Turim e Dakar e, especificamente, o sentido que corresponde ao movimento das coisas da cidade italiana à capital senegalesa.
Em relação ao fluxo entre esses dois lugares, no capítulo anterior, individuamos alguns dos atores que promovem o movimento das coisas de maneira centrípeta. Cheikh Lô, Maisa Sylla, Ablou Diallo, Ibrhaima Diajne e outros comerciantes que atuam de maneira ocasional e informal operam fazendo convergir na feira coisas produzidas na África Ocidental. Mas temos também uma circulação centrífuga dos itens aos quais os senegaleses participam, que se articula pela aquisição de peças na feira Balôn, e em outros espaços, os quais são sucessivamente enviados para Dakar. Khady e Fallou Niang - primo de Issa -, como
199Veste tradicional masculina, composta por túnica e calça. 200 Diário de campo, 11 de outubro de 2014.
vimos, são alguns dos sujeitos que participam do mercado como clientes e operam nesse sentido: eles frequentam a feira, compram coisas e as enviam ao Senegal para serem revendidas. Observamos que também os ambulantes senegaleses que ali atuam como ambulantes “formais” não se eximem dessa atividade. Cheikh Lô, por exemplo, me contou que não costuma fazer esse tipo de “businnes” - pois, por quanto esteja interessado nessa modalidade de comércio, ainda não priorizou a sua viabilização -, mas que uma vez achou uma “ocasião” na banca de um ambulante marroquino: encontrou um velho scooter por 30 euros, o adquiriu, o enviou para Dakar via contêiner e o revendeu a um vizinho pelo triplo do preço que tinha gasto pela aquisição. A participação dos comerciantes senegaleses no Balôn se dá, portanto, viabilizando o fluxo das coisas nas duas direções, centrípeta e centrífuga, com um volume de mercadorias diferenciado. Em relação ao sentido centrífugo, o Balôn é considerado, por quase todos os meus interlocutores, um lugar onde podem se encontrar coisas “interessantes” a serem revendidas no mercado senegalês. Motores de elevadores, produtos utilizados na construção civil, roupas, eletroeletrônicos podem ser comercializados com facilidade em Dakar ou enviados e guardados para serem vendidos em momentos de necessidade. A circulação de coisas a partir do Balôn, como veremos, compõe parte de um circuito mais amplo, que inclui também itens usados adquiridos em outros lugares da cidade (lojas, outras feiras, vendedores particulares etc.), produtos novos e peças não destinadas à venda.
Como pudemos observar nas narrativas apresentadas nos capítulos anteriores, a aquisição de mercadorias em Turim e relativa venda no Senegal representa uma atividade considerada interessante e rentável para muitos dos meus interlocutores: é associada à possibilidade de ganhar dinheiro em fase de dificuldades econômicas (desemprego, feiras coletivas), é tida como uma maneira de integrar a própria renda mas, principalmente, é considerada uma oportunidade que possibilita vivenciar a circularidade entre territórios (Itália-Senegal e vice-versa, mas também outros lugares), viabilizando aquele “vai” e “vem” (CASTAGNONE et all, 2005) que caracteriza a migração senegalesa. Essa prática econômica, de fato, permite aos comerciantes ter “liberdade” e “autonomia” que, como vimos, são valores centrais associados à experiência migratória, além de se tornar, na maioria dos casos, uma ocasião para realizar uma importante tarefa: “ajudar” parentes e conhecidos, envolvendo-os nas atividades comerciais e, dessa forma, criando renda.
Comprar coisas na Itália e revendê-las no Senegal, como se disse, é uma prática iniciada já nas primeiras fases do processo migratório senegalês. Segundo o que me foi relatado, o consumo de itens de origem europeia no Senegal remonta à venda de roupas
usadas (feug diaye201 ) por parte das missionárias católicas ocidentais, que, segundo um dos meus interlocutores, “deviam ser distribuídas, mas que eram cobradas”202. Sucessivamente, foram os primeiros migrantes que se deslocavam sazonalmente para a França a realizar esse tipo de comércio: compravam e levavam ou enviavam, por meio de navios, indumentos e outros objetos de segunda mão, que eram sucessivamente revendidos em feiras locais no Senegal.
A prática comercial que etnografamos é caracterizada pelo fluxo de coisas, dinheiro, pessoas e palavras que articulam circuitos translocais complexos. Com o termo “circuito”, refiro-me à noção formulada por Vivana Zelizer (2002):
I call these circuits of commerce in an old sense of the word, where commerce meant conversation, interchange, intercourse, and mutual shaping. (…) By definition, every circuit involves a network, a bounded set of relations among social sites. “Circuit”, however, is neither simply a fancy new name for “network” nor a sanitized version of “community”. Two features distinguish circuits from networks as usually conceived. First, they consist of dynamic, meaningful, incessantly negotiated interactions among the sites – be those sites individual, households, organizations, or other social entities. Second, in addition to dynamic relations, they include distinctive media (for example, legal tender or localized tokens) and an array of organized, differentiated transfers (for example, gifts or compensation) between sites (ZELIZER, 2002: 5).
Se, segundo essa definição, os circuitos comerciais se caracterizam pela dinamicidade das negociações, pela inclusão de tipologias distintas de trocas e de meios de retribuição financeira, consideramos, aqui, as mercadorias como entidades sociais que participam dessas interações. Nesse sentido, vamos etnografar os circuitos incluindo a agência das coisas, pois são também essas últimas que, a partir da demanda no Senegal, traçam materialmente as rotas e tecem as redes que as compõem. Essa centralidade, além de caracterizar o nosso campo de observação, é também o resultado de uma opção epistemológica, que compartilha o retorno ao interesse pela cultura material da antropologia nas últimas três décadas. Antropólogos como Latour (1984), Appadurai (1986), Gell (1998), Strathern (2017), Ingold (2007), dentre outros, têm resgatado e redefinido a importância dos objetos-coisas-artefatos como entidades que, junto às humanas, operam no campo sociocultural. Se os autores que citei propõem teorias diferentes, tratamos aqui, em primeira instância, de coisas que assumem o status de mercadorias e vice-versa (Kopitoff, 1986) e optamos, então, para uma leitura mais
201Como citado no capítulo anterior, é o termo, em wolof, usado para definir as roupas usadas. Literalmente significa “sacudir e vender” e se refere à comercialização de vestimentas e peças de segunda mão.
socioeconômica do que filosófica, aproximando-nos das teorias formuladas por Appadurai (1986) em detrimento da perspectiva ontológica que caracteriza a elaboração teórica de outros autores203. Consideramos as coisas-mercadorias como entidades sociais significativas que possuem uma agência, operando também na dimensão simbólica por eles ocupada. Elas são, contextualmente, o que lhes é atribuído pelos atores humanos, mas não por isso devem ser consideradas entidades passivas, pois são capazes de reter e jogar esse significado contextual no próprio meio, participando, assim, das interações sociais e da construção de valores e práticas adotadas pelas pessoas. Nesse sentido, optamos, segundo a perspectiva de Appadurai (1986), por substituir o termo “objeto”, que remete a uma condição de suposta subordinação e passividade dos itens em relação aos atores humanos, pela noção de “coisa”. Com o intuito de incluir no circuito que vamos observar as coisas como agentes, seguiremos, então, descrevendo a história de uma coisa típica que compõe o conjunto de mercadorias circulantes entre Turim e Dakar em forma de “biografia” (APPARUDAI, 1986: 91). Utilizamos esse termo para enfatizar a qualidade dinâmica que marca a vida das mercadorias pois, como se disse, a trajetória das coisas não se traça unicamente na esfera material, mas envolve também o significado que lhes é atribuído e a agência que produzem no meio social que atravessam204.
203Os limites das perspectivas ontológicas em relação ao nosso campo de pesquisa se dão principalmente pelo fato de que tais discussões: tendem a excluir as coisas-mercadorias de forma apriorística, como se o fato dessas circularem enquanto bens as “deontologizassem”; estão restritas a uma visão sincrônica das dinâmicas sociais, de ascendência estruturalista, dificultando então a análise em termos de ressignificação diacrônica das coisas, que, no meu caso, é constitutiva do circuito comercial e se dá no tempo.
204Nessa perspectiva, Kopitoff (1986: 90) propõe a implosão da dicotomia “pessoas individualizadas” e “coisas mercantilizadas”, pois pessoas e coisas são sujeitas a processos de transformação de seus status, que é, então, relativizado de forma situacional. Esse processo de transformação pode ser abordado de forma biográfica: as perguntas às quais se tem que responder para realizar uma biografia das coisas, segundo o autor, são parecidas às que se fariam para as pessoas. De onde vem a coisa e quem a fabricou? Quais são os papeis que desempenha em relação às entidades com as quais interage? Quais suas fases de vida? E como muda seu status ao longo de seu envelhecimento? O que lhe acontece quando sua vida chega ao fim? (KOPITOFF, 1986: 92). Em seguida, observando os circuitos junto ao fluxo centrífugo das mercadorias, procuraremos responder a essas perguntas considerando que, como o autor destaca, é importante evidenciar “as possibilidades biográficas inerentes ao
status das coisas e como se dá a concretização dessas possibilidades” (ibid.), isto é, do ponto de vista