2 L’entreprise et le SI
4.3 BPMM
Durante a pesquisa de campo que realizei entre 2012 e 2016 nessa região do Balôn, estiveram alocados, em média, de quatro a cinco vendedores com suas respectivas bancas. Dois, às vezes três comerciantes regulares e um ou dois ambulantes que trabalhavam informalmente ‘apoiando-se’ aos primeiros. Analisaremos a atuação desses vendedores focando nos valores morais e práticas comerciais que promovem, considerando o lugar que ocupam na feira Balôn enquanto espaço através do qual circulam mercadorias, pessoas, valores e palavras.
O primeiro comerciante do qual trataremos é Cheikh Lô, sobre o qual já escrevemos anteriormente. Ele, que pertence ao primeiro fluxo migratório para Itália (chegou na França e se deslocou para Genova em 1984), é, junto com Issa Niang e Ibrahima Djane, o comerciante mais velho da feira tanto em relação à idade quanto ao tempo de permanência em Turim. Como vimos no capítulo dois, “ele se considera italiano pela metade”, aspecto que o diferencia da maioria de seus conterrâneos no Balôn, os quais não se consideram igualmente próximos à sociedade de chegada. Tendo começado sua trajetória profissional como vucumprá, Cheikh é atualmente um dos comerciantes ambulantes africanos mais procurado pelos colecionadores italianos de peças antiquárias africanas em Turim.
l’usage de stratégies subversives visant à s’y faire connaître et reconnaître comme membres légitimes et à y acquérir un droit d’entrée.” (2010: 65).
Com sua grande banca, composta cuidadosamente por diversos planos de apoio para acomodar todos os produtos, forrada com tecidos de cores que destacam as mercadorias expostas, Cheikh comercializa principalmente peças de origem africana, que importa e recebe via container de Dakar: esculturas velhas e antigas adquiridas na capital senegalesa, no bairro Medina, em uma loja de comerciantes congoleses; djambé fabricados por artesãos laube137 e bijuteria (principalmente de prata e pedras duras) oriunda do Senegal138 e, em menor quantidade, da Índia adquirida na Itália139. Cheikh faz viagens anuais, uma ou duas vezes ao ano, com o intuito de reabastecer seu banco de mercadorias e visitar sua família em Dakar.
Foto 12 - Banca de Cheikh Lô em Largo Borgo Dora 1.
137Artesãos que trabalham a madeira de casta neeno.
138Onde compra peças já prontas, como as que são fabricadas pelos Tuareg e outras por um joalheiro (tegg) em Dakar.
139 Acompanhei parte das atividades comerciais de Cheikh Lô em Dakar. Sobre o aspecto transnacional dessas
Foto 13 - Banca de Cheikh Lô em Largo Borgo Dora 2.
Alocada sempre no mesmo canto do Largo Borgo Dora, entre ambulantes italianos que vendem coisas velhas e a presença intermitente de ambulantes que comercializam informalmente, muitos dos quais magrebinos, que oferecem vestidos usados sobre tecidos no chão, a banca de Cheikh é montada e desmontada por ele mesmo junto ao seu irmão mais novo, Ismail, que também mora em Turim. A colaboração desse último não se limita a essa função; de fato, ele também auxilia a controlar que a mercadoria não seja furtada, situação que ocorre frequentemente no Balôn. A presença de Ismail atrás da banca de Cheikh é descontinua, cadenciada por longos passeios pela feira e regiões próximas, para conversar com conterrâneos conhecidos e fazer compras, assim como muitos outros senegaleses nesse contexto, no mercado de Porta Palazzo e nas lojas das redondezas140.
Os clientes de Cheikh são, na maioria, italianos, os preços das mercadorias variam entre dez euros, das bijuterias mais baratas, até algumas centenas de euro, das peças artesanais antigas. Seu local de venda na feira, além de espaço comercial, representa um lugar de encontro entre amigos e conhecidos senegaleses. Sentados na pequena escada que Cheikh usa para arrumar as peças na van ou de pé apoiados ao poste que fica ao lado da mesa, tomando café touba preparado e vendido pelas duas vendedoras senegalesas sobre as quais se
140O trabalho de Ismail não é remunerado, sendo por ele considerado uma contraprestação prestada ao irmão Cheikh pelo fato de estar morando no seu apartamento sem pagar despesas.
comentou ou um café expresso adquirido no bar próximo, os senegaleses que ali se encontram são quase sempre homens, com exceção de Khady que, todos os sábados, aparece, conversa um pouco com seus conterrâneos e logo se vai pelo mercado com seu carrinho de mão.
Se essa banca, assim como outros locais de venda da feira, representa um espaço de convívio e sociabilidade por parte de meus interlocutores, sua função comercial se mantém unicamente vinculada a Cheikh Lô. De fato, as transações são realizadas unicamente por ele, contrariamente à situação de outros comerciantes senegaleses, como veremos sucessivamente. Com uma postura reservada, Cheikh aguarda os clientes, os quais, dependendo da peça, solicitam informações (origem, material e, no caso dos itens antigos, história e funções). O conhecimento, necessário para realizar o comércio de peças antigas, foi adquirido por Cheikh ao longo dos anos, de forma intelectual (estudo de livros e catálogos) e empírica (até alguns anos atrás, ele buscava as suas peças viajando pela África Ocidental, adquirindo-as em pequenas feiras locais por outros comerciantes ou por pessoas particulares). Esse “conhecimento”, que Geertz (1979) considera critério necessário para viabilizar o comércio no mercado, representa, então, um elemento indispensável para viabilizar a venda especializada desses produtos de forma apropriada, no sentido de oferecer informações corretas sobre a peça e estabelecer o valor correspondente. A discriminante do conhecimento e, por outro lado, o fato que as qualidades de um item não sejam auto-evidentes, criam a margem para que a transação possa ser acompanhada por trapaças. Nesse sentido, o comerciante pode se apresentar como especialista sem ter o conhecimento apropriado ou tê-lo mas aplicá-lo para dar golpes (vendendo, por exemplo, peças novas por antigas). Certa vez, Cheikh me contou que um dos antiquários de máscaras africanas mais renomado da cidade, um senhor italiano que lhe foi apresentado por uma amiga torinense, lhe comentou que “nunca mais faria negócios com senegaleses”, já que anos atrás tinha sido gravemente fraudado por um deles. O antiquário, segundo Cheikh, não quis entrar em detalhes, e barrou, assim, qualquer tipo de parceria comercial com ele. Para explicar a razão do acontecido a mim, e para amenizar a frustração de ter perdido um bom negócio por causa de terceiros, Cheikh explica o fato associando o acontecimento a uma afirmação que ouvi, nos mesmos moldes, de outros informantes: “nós, senegaleses, somos os napolitanos da África Ocidental”. Com essa afirmação, Cheikh e seus conterrâneos assumem sobre si próprios o aspecto estereotipado da identidade napolitana compartilhado na Itália, segundo o qual, como os mesmos napolitanos dizem em dialeto, “cca nisciun è fess!” (“aqui ninguém é bobo!”). Segundo essa perspectiva, ainda é dito que “il napoletano non lo freghi e mentre pensi di fregarlo ha già fregato te!”, isto é, “não se engana o napolitano e, enquanto você acha que o
está enganando, ele já te enganou!”. “Ser napolitano”, então, tanto pelos italianos quanto pelos senegaleses que compartilham essa representação, está associado ao uso de artimanhas e astúcias para driblar situações adversas e, eventualmente, beneficiar a si próprios, prejudicando terceiros. Representação próxima a do “malandro” no Brasil, “ser napolitano” é sinônimo de esperteza e trapaça, elementos que, na narrativa de Cheikh, são assumidos como características identitárias senegalesas, explicando, nesse caso, o golpe aplicado ao antiquário torinense.
Se, por um lado, as peças de antiquário requerem estudo e conhecimento para serem comercializadas de forma apropriada, pode também haver casos em que a falta de conhecimento por parte do comerciante leve a perdas na tratativa com os clientes. Nesse sentido, Cheikh me contou que, certa vez, em Dakar, adquiriu com seus fornecedores uma peça achando que tinha uma certa datação e proveniência, e a revendeu a um colecionador italiano, seu cliente fixo, no Balôn. Depois de um tempo, esse cliente retornou para a sua banca e lhe disse que, após alguns estudos, tinha verificado que aquela escultura tinha outra datação e proveniência, tendo, então, um valor econômico maior. Por essa razão, entregou-lhe a quantia paga: “foi honesto”, comenta Cheikh, “ele aprendeu comigo ... é um médico, começou a colecionar comprando as minhas peças e lhe ensinei muitas coisas. Agora ele sabe mais do que eu!”
A variável do conhecimento associada à honestidade é central nesse tipo de comércio e explica o motivo pelo qual Cheikh não permite que terceiros efetuem transações comerciais no seu lugar. Essa também é a razão pela qual a sua atividade ambulante em Turim fique temporariamente suspensa quando ele viaja para o Senegal. Cheikh, então, não viabiliza práticas econômicas ubíquas, como no caso do senhor Diop, dono da lavandaria sobre o qual se comentou, por não ter nenhuma parceria em Turim e ninguém de confiança (e com conhecimento apropriado) para substitui-lo. Apesar de conviver com o irmão na Itália, que o assessora na preparação da banca, Cheikh opta por não envolve-lo, reforçando, então, o fato que a confiança não é um elemento dado nas relações familiares, mas, como já vimos nas narrativas de Khady , deve ser construído e, como se disse, sempre negociado. Por outro lado, como pode ser apreendido em outros casos, quanto mais a mercadoria é especializada e de alto valor econômico, menos se tem atuação comercial compartilhada, situação que se dá de forma diametralmente oposta, como veremos, no comércio de peças chinesas ou falsificadas.
A partir da perspectiva dos ambulantes oriundos de Burkina Faso que vendiam sapatos usados em Piazza San Pietro in Vincoli, os quais traçaram uma fronteira com os senegaleses, classificando-os como comerciantes de mercadorias “mais caras” e considerando a fala de
outros ambulantes senegaleses os quais, como vimos nos itens anteriores, associam a tipologia de produtos e a forma de vende-los ao jom (dignidade) enquanto elemento que compõe o ethos da prática comercial, a atuação de Cheikh Lô aparece como modelo de referência. Cheikh, de fato, constrói transnacionalmente a sua prática econômica viabilizando o “vai e vem” desejado pela maioria dos migrantes e, dentro do leque de tipologia de itens a serem vendidos, o comércio de antiquário africano torna o comerciante porta-voz da sua “cultura tradicional”, noção ao qual os senegaleses se referem para indicar o conjunto de práticas e lógicas de matriz pré-islâmica, e da qual se orgulham. Esse status, que podemos atribuir a Cheikh, é também reconhecido pela Associazione Commercianti Balôn que administra essa região da feira, assim como o Gran Balôn, mercado de antiquário que acontece no primeiro domingo do mês na mesma área urbana. Na ocasião dessa feira, que abriga unicamente vendedores selecionados que comercializam peças velhas ou antigas consideradas de qualidade, Cheikh participa como único comerciante senegalês141. Além desses critérios, outra variável que torna Cheikh Lô um comerciante estabelecido e legitimado frente aos seus conterrâneos é a “ancianidade” ligada à sua idade (é um dos comerciantes senegaleses mais velhos da feira) e ao tempo de presença “na praça”.
Pouco distante dele, no centro da praça, encontramos a banca de Maisa Sylla142, que ocupa formalmente outro espaço de venda no Largo Borgo Dora. A centralidade da posição que Cheikh Lô e Maisa Sylla ocupam no Balôn, segundo o que me foi relatado por eles, se deve à confluência de diversos fatores: a tipologia de clientes que circulam nessa área é consona às suas mercadorias. A região seria o “coração” do mercado e, então, o lugar mais significativo da feira - definição que remete à dimensão simbólica de “prestígio” que os vendedores querem ocupar - e, enfim, compõe o percurso traçado pelos fluxos de fregueses que acessam a feira a partir de Piazza della Repubblica.
Maisa vende artigos similares aos de Cheikh Lô, mas novos e de valor econômico mais baixo: peças artesanais africanas e bijuteria. Essa última é oriunda da Turquia, Índia e China (de latão, ferro, plástico, cerâmicas) e é adquirida na Itália; as peças africanas (esculturas em madeira e instrumentos musicais) são importadas de Dakar e produzidas no Senegal, algumas criadas especialmente para turistas, como a escultura de mãe e filho em
141 Segundo Leyla Sall (2010), a comercialização de peças artesanais africanas por parte dos comerciantes senegaleses começou na década de 60 na França, quando surgiu o interesse pela arte africana.
142 Nascido em 1974, de etnia wolof originaria de Louga, onde atualmente é estabelecida, deixou o Senegal em
1993 para ir à Itália, onde permaneceu, seguindo a dinâmica de ida e volta para o Senegal, até hoje. Na Itália, atuou em diversas áreas, entre as quais em restaurantes (foi chef de cozinha). Atualmente casado no Senegal, esteve anteriormente casado com uma mulher italiana com a qual teve um filho. Hoje, trabalha unicamente como comerciante.
madeira que aparece na foto abaixo; outras realizadas em estilo antigo, como as máscaras ao lado direito da imagem.
Foto 14 - Detalhe da banca de Maisa Sylla.
O valor de suas mercadorias varia de cinco euros para um item de bijuteria até cento, cento e cinquenta euros para um djembe. A banca de Maisa, como a de Cheikh Lô, é grande e estruturada, composta por diversos planos, mas disposta diferentemente, em forma de “U”, de maneira que o vendedor fica posicionado centralmente, tendo, então, por trás e ao seu redor as mercadorias que oferece. Essa disposição do espaço de venda, onde o comerciante aparece ao público por inteiro no centro de sua banca, é estrategicamente utilizada para Gore, que tem uma atitude performática com seus clientes, em sua maioria italianos.
Se a discrição “souture” caracteriza a forma de Cheikh se autorrepresentar, a atitude de Maisa pode ser considerada oposta. Extrovertido quando algum potencial cliente se aproxima, Maisa se desloca de um ponto para o outro de sua banca, apresentando suas mercadorias e estabelecendo um diálogo com seus interlocutores a partir da espetacularização dos estereótipos étnicos produzidos pelos italianos sobre os senegaleses. Essa estratégia comunicativa, observada e analisada por Enrico Sarnelli (2003) no mercado de Antignano em Nápoles, pode ser considerada como ethnic humour por colocar em cena “as dinâmicas do humour que se ativam na interação quotidiana entre membros de grupos étnicos diversos, sob forma de relação direta face to face” (2003: 27, tradução minha). Nesse contexto, como Sarnelli sugere, “canibal, selvagem, hiperdotado, ladrão, mentiroso, vagabundo, amigo,
inimigo, são todas figuras imaginárias através das quais a alteridade é representada em termos familiares e codificada como um jogo que pode também constituir a base de estratégias simbólicas mais duráveis” (ibid: 51).
Conforme a essas dinâmicas, Maisa performatiza principalmente estereótipos relativos à esfera sexual, que envolvem as noções de raça, gênero e religião: com os clientes masculinos, utiliza o papel do “polígamo poderoso” e, com as mulheres, o do “sedutor hiperdotado”. Essas situações, geralmente, se resolvem com os clientes masculinos em risos, brincadeiras e deboches norteados pelo suposto “privilégio” de Maisa poder, legitimamente, se relacionar com mais mulheres ao mesmo tempo e, com as clientes femininas, em reações de complacência ou desdém como respostas às suas atitudes galanteadoras e caricaturalmente sedutoras. Essas estratégias comunicativas são utilizadas em primeira instância para chamar a atenção dos clientes, para ele se auto-afirmar, contextualmente, no meio social dentro do qual está inserido e/ou para resolver eventuais impasses durante as barganhas. As brincadeiras, de fato, se tornam meios para construir uma identidade “na praça” moldada no status de prestígio e para ritualizar possíveis conflitos: apossar-se dos estereótipos criados pelo outro e dobra-los em próprio favor na interação com ele representa, então, uma dinâmica para estabelecer hierarquias e escamotear possíveis embates. Essa estratégia comunicativa costuma ser utilizada de forma mais ou menos explicita também por outros ambulantes, envolvendo outras dimensões estereotipadas (“primitivismo”, “bruxaria”/“vodu” etc..), representando, assim, uma das formas de inserção na feira Balôn e, mais geralmente, no contexto da venda ambulante.
Maisa viaja para o Senegal duas ou três vezes por ano. Lá se reabastece de mercadorias a serem revendidas na Itália e empreende outros negócios (consultorias para conhecidos italianos que querem realizar investimentos econômicos no Senegal, realização de empreendimentos familiares, como a criação de galinhas para abate etc.). Quando viaja para o Senegal, seu irmão mais novo, que mora com ele em Turim, o substitui praticando a venda das mercadorias nas feiras onde Maisa costuma trabalhar. No caso dele, então, diferentemente do que vimos para Ceikh Lô, não somente existe uma relação de confiança com o irmão, que viabiliza a ubiquidade das atividades econômicas aqui e lá, mas essa relação se inscreve em uma rede de parentesco mais ampla, composta por familiares instalados em Turim, que atuam de diversas formas no próprio mercado Balôn e com os quais Maisa estabelece diversas relações de parceria comercial.
Um deles, sobre o qual trataremos subsequentemente, é Alassane Sylla, primo de Maisa, um dos comerciantes senegaleses que se ocupa do envio de contêineres de Turim para
Dakar. É por meio dele, por exemplo, que Maisa importa suas mercadorias do Senegal. Quando Alassane está na Itália, a cada três meses, mais ou menos, aos sábados visita a feira Balôn e é fácil encontrá-lo na banca de Maisa, conversando ou descansando.
Dentre os familiares de Gora, tem outros dois vendedores senegaleses, também primos dele, que atuam no Largo Borgo Dora de maneira informal, “apoiando-se” à banca dele, sobre os quais se comentou no começo desse item e no capítulo anterior: Boubacar Niang, do qual são as narrativas sobre o massacre de Thiaroye relatadas anteriormente, e Issa Niang. O primeiro, como se disse, vende batik e algumas peças de antiquário que compra em Dakar e sua presença na feira é intermitente, enquanto o segundo comercializa eletroeletrônicos usados e peças para reparos e sua atuação no mercado foi contínua durante o período da pesquisa. A relação de Maisa com seu irmão e primos, pelo que consegui observar143, se pauta nas obrigações de ajuda entre classes de idade, segundo as quais, tradicionalmente, o familiar mais novo serve e auxilia o mais velho. A realização dessa obrigação se verifica não só nos contextos familiares, sendo uma prática observada por todos, tanto no Senegal quanto na Itália, mas também entre sujeitos que não são parentes, sendo parceiros profissionais e/ou amigos.
Sem risco de ter relações de concorrência comercial, devido ao fato de estar disponibilizando mercadorias de tipologias distintas, Maisa reserva um espaço da sua banca, de cinco metros, para eles comercializarem seus produtos. Apesar de Maisa, Issa Niang compartilharem a mesma banca, raramente trabalham juntos. A intermitente presença dos primeiros dois, devida às frequentes viagens para o Senegal do primeiro e às prolongadas estadias do segundo, fazia com que, durante a pesquisa, permanecesse sempre presente e observável unicamente a banca de Maisa, tocada por ele ou pelo irmão, e a mesa cheia de eletroeletrônicos de Issa. A compartimentação das práticas econômicas entre familiares, com o conhecimento para realizá-las, ou entre outras pessoas de confiança, viabiliza ainda uma vez a mobilidade do comerciante e, então, a sustentabilidade das redes transnacionais de comércio, sobre as quais nos ocuparemos especificamente no capítulo sucessivo.
Se os comerciantes anteriores vendem coisas novas ou antigas, Issa Niang144 é um dos pouco senegaleses que comercializa itens usados na feira. Dispostos sobre uma mesa dobrável
143Maisa foi bastante esquivo em relação ao trabalho de pesquisa, em Dakar escapou, literalmente, da minha observação, me prometendo encontros, repetidas vezes, que não se realizaram.
144De etnia wolof, tem 63 anos, nascido em Louga é comerciante. A presença quase que contínua dele na feira Balôn se deve ao fato que durante parte da pesquisa de campo não tinha visto regular de permanência na Itália, e essa situação, assim como para muitos outros migrantes senegaleses, lhe impossibilitou as viagens de volta. Logo que regularizou seu documento, Issa fez uma viagem de três meses para Louga, que não visitava há cinco anos.
de cerca de um metro e meio por um metro, baterias e carregadores de celulares, extensões, tablete, telecomandos, placas de computador são amontoados por tipologia.
Foto 15 - Banca de Issa Niang.
A origem dos produtos eletroeletrônicos que oferece é múltipla: tem peças que provém de outro lado do mercado, a área Molassi, que por vezes Issa frequenta para adquirir itens a serem revendidos, e mercadorias que lhe são fornecidas por um parente que mora próximo da cidade de Novara145. Esse último compra mercadorias a serem revendidas no Senegal, entre as