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Phase de préparation

3.3.1 Rompendo as amarras – uma nova visão paradigmática

Em seu livro A teia da vida – uma nova compreensão científica dos sistemas

vivos, uma obra que levou dez anos de estudos e encontros com diversos cientistas das

mais diferentes áreas do conhecimento para dar-se pronta, ele próprio, Capra (1996), apresenta uma nova compreensão da vida com base nos sistemas vivos e uma “mudança de paradigma de uma visão de mundo mecanicista para uma visão de mundo ecológica”, no qual o pensamento sistêmico forma as raízes conceituais que ele

desenvolve para um novo paradigma emergente na ciência (CAPRA, 1996, p. 20). Capra ressalta ainda a necessidade de “uma nova compreensão científica da vida em todos os níveis dos sistemas vivos – organismos, sistemas sociais e ecossistemas [...], uma nova percepção da realidade [...] para a ciência e para a filosofia, mas também para as atividades comerciais, a política, a assistência à saúde, a educação e a vida cotidiana [...]” (p. 23). Uma mudança de paradigma para perceber que os principais problemas de nosso tempo não podem ser vistos de forma isolada, mas num todo interligado e interdependente de forma sistêmica. Essa percepção implica mudança de paradigma, ou seja, de um paradigma científico para um paradigma social, “uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma e uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza” (CAPRA, 1996, p. 25). Distante da visão antropocêntrica adotada pela ciência tradicional, adota uma visão alicerçada em valores ecocêntricos. “Todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependência” (p. 28). E nesse sentido, a realidade dos fatos científicos que foram incorporados ao longo dos tempos em nossa forma de pensar, vistos e percebidos por outro ângulo na percepção de valores e ações humanas, a partir de uma nova visão paradigmática do todo e partes interdependentes, permite-nos superar a metáfora cartesiana de visão fragmentada e independente para uma visão sistêmica segundo os pressupostos de Bertalanffy (1968). Segundo Capra,

a ecologia profunda superou essa metáfora cartesiana. Mesmo que a mudança de paradigma em física ainda seja de especial interesse porque foi a primeira a ocorrer na ciência moderna, a física perdeu o seu papel como ciência que fornece a descrição mais fundamental da realidade. Entretanto, hoje, isto ainda não é geralmente reconhecido. Cientistas bem como não-cientistas, freqüentemente retêm a crença popular segundo a qual “se você quer realmente a explicação última, terá de perguntar a um físico”, o que é claramente uma falácia cartesiana. Hoje, a mudança de paradigma da ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida (CAPRA, 1996, p. 29).

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paradigmática emergente para superar nossa visão cartesiana, pois “precisamos pensar sistematicamente, mudando nosso foco conceitual de objetos para relações” (CAPRA, 1996, p. 230). A teoria dos sistemas vivos fornece um arcabouço conceitual para o elo entre comunidades ecológicas e comunidades humanas, uma vez que ambas são sis- temas vivos que exibem os mesmos princípios básicos de organização, ou seja, redes que são organizacionalmente fechadas, mas abertas aos fluxos de energia e de recur- sos, suas estruturas são determinadas por suas histórias de mudanças estruturais, são inteligentes devido às dimensões cognitivas aos processos da vida (CAPRA, 1996).

Assim, “todos os sistemas vivos são redes de componentes menores, a teia da vida como um todo é uma estrutura em muitas camadas de sistemas vivos aninhados dentro de outros sistemas vivos – redes dentro de redes” (CAPRA, 1996, p. 170). Por outro lado, Capra ainda diz que organismos, ecossistemas e sociedades diferem em grande medida em graus de autonomia, e que as sociedades humanas, os indivíduos, têm um grau máximo de autonomia que lhes permite desfrutar de muitas dimensões de existência independente. Os sistemas sociais humanos existem para os seus componentes, seres humanos individuais, sendo, no entanto, tipos muito diferentes de sistemas vivos, pois “devido ao ‘mundo interior’ dos conceitos, das idéias e dos símbolos que surgem com o pensamento, com a consciência e com a linguagem hamanos, os sistemas sociais humanos existem não somente no domínio físico, mas também num domínio social simbólico” (p. 171). Desse modo, ainda segundo esses princípios “uma família humana pode ser descrita como um sistema biológico, definido por certas relações de sangue”, mas também pode ser descrita como um “sistema conceitual, definido por certos papéis e parentescos [...], papéis dependem das convicções sociais e podem variar consideravelmente em diferentes períodos de tempo e em diferentes culturas” (p. 171).

Olhando para a família na concepção ecossistêmica, na qual, segundo Capra (1996, p. 232), “o comportamento de cada um membro vivo do ecossistema depende do comportamento de muitos outros”, o sucesso familiar depende do sucesso de cada um de seus membros, enquanto o sucesso de cada membro depende do sucesso da comunidade familiar como um todo. E reforça: “entender a interdependência ecológica significa entender as relações. Isto determina as mudanças de percepção que são

características do pensamento sistêmico – das partes para o todo [...]” (CAPRA, 1996, p. 232).

3.3.2 Contribuições ecossistêmicas à Teoria Geral dos Sistemas

O grande impacto que adveio com a ciência do século XX, segundo Capra (1996, p. 41), “foi a percepção de que os sistemas não podem ser entendidos pela análise [...]” mas somente “podem ser entendidos dentro do contexto do todo mais amplo [...]”, pois “o pensamento sistêmico é ‘contextual’, o que é o oposto do pensamento analítico”. Essa concepção de sistêmico não é algo novo, os biólogos organísmicos já o defendiam como o fez Bertalanffy (1968), fervorosamente com a Teoria Geral dos Sistemas, proporcionando aos cientistas um novo modo de pensar, um pensar envolvendo os termos da conexidade, de relações, de contexto, de inter- disciplinaridade e transdisciplinaridade (CAPRA, 1996; VASCONCELLOS, 2002).

Ainda segundo Capra (1996), “a visão de Ludwig von Bertalanffy de ‘ciência geral da totalidade’ baseava-se na sua observação de que conceitos e princípios sistêmicos podem ser aplicados em diferentes campos de estudo” (CAPRA, 1996, p. 55), pois os sistemas vivos envolvem organismos individuais, e suas partes envolvem sistemas sociais e ecossistemas.

Pensar o novo paradigma da ciência é pensar de forma globalizante, e esse pensar sistêmico torna mais próxima a compreensão de ser indivíduo no ecossistema como parte e todo, uma célula e suas organelas a todas as múltiplas relações e interações desse contexto, expansíveis a contextos ainda maiores e mais complexos. Por exemplo: a natureza - ser ecológico. Ainda, um sistema aberto de retroalimentação e cíclico como é o ser - indivíduo, família, sociedade.

No entanto, essa compreensão ecossistêmica dos sistemas vivos que envolve “a emergência e o aprimoramento da concepção ‘padrão de organização’ tem sido um elemento fundamental para o desenvolvimento dessa nova maneira de pensar” (CAPRA, 1996, p.133). Para esse autor, as peças que faltavam no “quebra-cabeça” foram identificadas e analisadas nos últimos vinte anos: padrão, estrutura e processo vital. Capra (1996) destaca a importância de compreender essas peças do quebra-

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cabeça a partir de Humberto Maturana e Francisco Varela em suas definições de padrão e estrutura de um sistema vivo. Para esses pesquisadores, “o padrão de organização de qualquer sistema, vivo ou não-vivo, é a configuração de relações entre os componentes do sistema que determinam as características essenciais desse sistema”. Em outras palavras, “certas relações devem estar presentes para que algo seja reconhecido” (CAPRA, 1996, p. 134). Por outro, “o padrão de organização só poderá ser reconhecido se estiver incorporado numa estrutura física” e “o processo da vida é a atividade envolvida na contínua incorporação do padrão de organização do sistema” (CAPRA, 1996, p. 134).

Para Capra (1996), então:

a autopoiese – o padrão de organização dos sistemas vivos – é, pois, a característica que define a vida na nova teoria. Para descobrir se um determinado sistema – um cristal, um vírus, uma célula ou o planeta terra – é vivo, tudo o que precisamos fazer é descobrir se o seu padrão de organização é o de uma rede autopoiética. Se for, estamos lidando com um sistema vivo; se não for, o sistema é não-vivo ( p. 135).

A atividade organizada dos seres vivos, em todos os níveis de vida, é a atividade mental. As interações de um organismo vivo como as do ser humano com seu ambiente, são interações cognitivas. Assim, a vida e a cognição se tornam elos inseparavelmente ligados (CAPRA, 1996). As relações constituem a essência do mundo vivo, do humano, no quotidiano do processo da vida. Para Capra (1996), “a interdependência entre padrão e estrutura permite-nos integrar duas abordagens da compreensão da natureza, as quais têm-se mantido separadas e competindo uma com a outra ao lado de toda a história da ciência e da filosofia ocidentais” (CAPRA, 1996, p. 146). A unificação delas fornece três dimensões conceituais interdependentes para a nova compreensão científica da vida – o novo paradigma dos sistemas abertos.