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CONSUMO FINAL DE ENERGIA - OUTRAS INDÚSTRIAS

ANEXO E Estimativas de Emissões de

2. PETRÓLEO

Castel (1998), ao discutir a imagem do futuro virtuoso presente na promessa da sociedade salarial o faz da seguinte maneira:

Essa aposta quanto ao futuro não é apenas um ato de fé nas virtudes do progresso em geral. Através de seus modos de consumo, seu investimento em bens duráreis, seu uso do crédito, o assalariado antecipa a cada dia a perenidade do crescimento e vincula concretamente seu destino a um progresso indefinido. Na sociedade salarial, a antecipação de um futuro melhor está inserida na estrutura do presente. Isso é ainda mais verdadeiro à medida que, por meio de uma projeção sobre as gerações seguintes, o assalariado pode esperar realizar mais tarde suas aspirações: o que ainda não pude realizar, meus filhos conseguirão. (CASTEL, 2013, p.480)

Evidentemente, uma sociedade salarial nesses moldes nunca se materializou no contexto brasileiro. Com a erosão do Estado Social nos países centrais, essa expectativa se dissipou do nosso horizonte antes mesmo de qualquer possibilidade concreta de sua implementação. Mas não trago este trecho da análise de Castel para comparar um momento histórico francês com nosso presente efetivo. Interessa-me, no entanto, identificar aspectos das apostas que eram feitas na expansão da lógica salarial protetiva e que agora se adaptam à instabilidade geral disseminada no contexto neoliberal.

Primeiramente, destaco a ideia de que “a aposta no futuro não é apenas um ato de fé”, ao contrário, “está inserida na estrutura do presente”. Nem todo comerciante com o qual estive em contato esboça expectativas futuras. Entretanto, os que o fazem sempre buscam

demonstrar os fundamentos de suas expectativas. Esses fundamentos são apontados tanto em exemplos reais de pessoas ao redor, com históricos relativamente conhecidos e situações mais ou menos semelhantes em termos das condições de partida. Ouvi diversas histórias sobre como “fulano começou com um box, costurando em casa, e agora tem loja e marca própria”. Ao mesmo tempo, são traçados planos reais, de investimento, e são destacados os aprendizados retirados dos inúmeros fracassos. “Na época eu não tinha o entendimento de investir”, disse Cláudia sobre um período de quase falência.

Nos planos reais, são demonstrados os avanços já realizados e as ações efetivas tomadas – e, sobre isso, vale dizer, a noção de melhoria futura não precisa vir necessariamente atrelada ao trabalho no comércio. Davi é um exemplo. Quando perguntado sobre planos para o futuro, ele demonstra modéstia no planejamento e gratidão pelo o que conseguiu. Seu principal planejamento, junto com esposa, era a compra de um apartamento em São Paulo, que foi adquirido recentemente, em 2018, localizado ali mesmo no Brás. Ele permanecerá algum tempo pagando as parcelas, de R$1.200. No caso específico de Davi, a busca por ascensão com segurança e a procrastinação, elementos que marcaram gerações de trabalhadores antes da dele, falam mais alto do que os apelos da lógica empreendedora.

O plano que a gente tinha mesmo era conseguir um apartamento aqui. Mas o plano tipo de talvez eu fabricar ou talvez pegar outra loja, isso aí não penso muito. Porque se tiver ruim eu não vou manter uma coisa que está ruim. (Davi)

Parte do que ele ganha, investe no pagamento de terrenos que comprou em São Francisco, sua cidade natal, como uma possível fonte de renda futura e segurança contra a possibilidade de tempos mais difíceis no comércio. Ele deixa claro que, no caso de dificuldades com o atual trabalho, ele mudaria sem grandes problemas para outra atividade, especialmente no campo, e em São Francisco, que sempre foi seu porto seguro.

Eu comprei a terra lá. Se ficar ruim, se piorar, talvez entrar um governo aí que piorar, as coisas não estiverem boas, eu não posso ficar aqui tendo prejuízo, gastando tudo o que eu consegui. Eu vou embora. Eu alugo o meu apartamento e vou embora. Vou morar lá [em São Francisco]. Eu comprei a terra. É investimento

que eu estou fazendo. E chegar no dia de amanhã, eu não posso não ter recurso. [...] eu posso ter lucro com ele [com o terreno], eu posso ter ganho, talvez não seja igual aqui, mas eu posso ter e garantir o meu sustento. (Davi)

Além disso, esses terrenos representam o ideal de trabalho para Davi, especialmente para quando ele estiver mais velho. E, aqui, é em comparação com a vida rural que ele, pela primeira vez, apresenta sua ocupação atual como uma atividade pior do que outra possibilidade de trabalho. Sobre seu trabalho dos sonhos, ele é categórico: “uma fazenda”.

Aqui é bom, mas aqui, futuramente, por exemplo, pessoa idosa, por isso que eu falo talvez uma fazenda. Porque você vai ter uma qualidade de vida melhor. [...] às vezes [no comércio popular] você tem dinheiro a mais, alguma coisa a mais, mas de alimentação adoece bastante. [...] eu posso imaginar mesmo a fazenda, que dá para trabalhar mais tranquilo. (Davi)

É sintomático que Davi só aponte os problemas de seu trabalho no comércio da madrugada quando comparado ao seu trabalho dos sonhos em uma fazenda. Um trabalho que, idealmente, proporcionaria a ele uma qualidade de vida melhor, melhor saúde e uma renda suficiente para “garantir o sustento”, dele e de sua família. Pode-se inferir que essa negatividade do comércio popular só aparece agora porque as comparações anteriores tinham como contraponto outras atividades urbanas, e, de modo mais específico, empregos assalariados urbanos. Com efeito, Davi, reconhecendo sua escolaridade e qualificações, entende que os empregos disponíveis para ele no mercado de trabalho formal seriam em condições ainda mais precárias, em termos de renda e condições de trabalho.

A questão da escolaridade, aliás, sempre me pareceu ocupar uma posição ambígua entre meus interlocutores. De um lado, uma espécie de subestimação da necessidade de ensino formal para o bom desempenho na vida econômica e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que a educação (principalmente superior) abre portas e tem um valor simbólico. Por muitas vezes, nas conversas cotidianas, expressei minhas opiniões acerca da instabilidade que também marca a vida dos estudantes, inclusive pós-graduandos, como eu. Além disso, eram comuns as expressões de incredulidade quando descobriam que mesmo após

finalizar o doutorado, eu precisaria passar por algum concurso ou processo seletivo competitivo para conseguir me inserir profissionalmente. “Tantos anos de estudos para correr o risco de ficar desempregado? Ah, mas estudar é bom”, me diria certa vez Davi, com o ar de condescendência que por vezes os pesquisadores lidam com os sujeitos de pesquisa. Em outro dia, Cláudia me interpelou com um semblante sério: “sabe, ontem estávamos conversando aqui sobre você. Você tem 30 anos e ainda não tem nada garantido. A gente, bem ou mal, tem uma profissão”. Por outro lado, Cláudia começou o curso de Artes Visuais, em que ela também percebe a falta de garantia, mas identifica ali o valor simbólico do “sonho”.

Davi, por sua vez, só concluiu o ensino fundamental, mas, segundo ele, à luz do momento presente e daquilo que conquistou nos últimos anos – principalmente no aspecto material –, não se arrepende de não ter voltado a estudar:

Não me arrependo, não. Porque, se você for lembrar, poderia não ser assim também. Não tem como você prever, né. Se for olhar o passado, é imprevisível. Você poderia ter feito muita coisa diferente, talvez poderia dar certo ou talvez não. (Davi)

Contudo, investe na educação de seu filho, que, com cerca de 3 anos, frequenta escola particular e cujos progressos educacionais Davi comenta com entusiasmo. O mesmo o fazem Luís e Carolina com os filhos. O casal de comerciantes na Feirinha, porém, lamenta a “falta de vontade” do filho mais velho e aposta as fichas na filha caçula, como aquela que será a primeira da família a cursar ensino superior.

Este [o filho] não estudou porque ele não quis! [...] vai fazer vinte e três [anos]. Ele não estudou. Fez só o segundo grau. Na verdade, nem chegou a terminar. Mas ele voltou para trabalhar com a gente agora no meio do ano e mesmo com dificuldade eu falei para ele “ volta a estudar. A gente te ajuda a pagar a faculdade”. Porque ele mexe muito com comida. Aí eu falei para ele “vai fazer isso daí, que, como você entende, é meio caminho andado”. Mas ele não quer. E a vida, né, é dele. [...] mas ela [a filha] estuda. Ela gosta de estudar. Ela, se precisar, passa a noite toda estudando. Ela é diferente. Então a gente vai tentar, né. É o mínimo que a gente pode fazer. (Luís)