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O modelo de redução dos riscos da SIDA (MRRS) de Catania, Kegeles e Coates (1990b) foi especificamente desenvolvido para compreender e explicar o comportamento de protecção face ao HIV/SIDA e constituiu a primeira tentativa para combinar modelos psicológicos de tomada de decisão num enquadramento teórico destinado a este comportamento preventivo. Trata-se de um modelo de estrutura tripartida, que revela preocupação pela progressão ou estádios pelos quais os indivíduos passam quando se envolvem numa mudança de comportamento.

O MRRS caracteriza os esforços das pessoas para modificarem o seu comportamento sexual em face da possibilidade de infecção pelo HIV/SIDA. O seu enquadramento geral deriva de modelos já existentes sobre resolução de problemas na psicologia social e de estádios de mudança em psicologia clínica. Integra elementos do modelo de crenças sobre a saúde, da teoria da auto-eficácia de Bandura, das influências emocionais tomadas em consideração no modelo de motivação para a protecção, dos processos interpessoais e ainda dos estádios de mudança do comportamento (Catania et al., 1990b; Catania et al., 1994).

Os vários constructos que integram este modelo psicossocial organizam-se em três estádios não unidireccionais, irreversíveis ou invariantes, embora a mudança de um estádio para outro esteja dependente da realização dos objectivos do estádio precedente. Os patamares ou estádios discriminados no modelo envolvem o reconhecimento, o comprometimento ou empenhamento e a acção (Figura 2.6). Primeiro, o indivíduo reconhece o seu comportamento sexual como sendo de risco, depois compromete-se a modificá-lo e, por fim, adopta soluções com vista a reduzir as actividades sexuais de risco em que se envolve. Trata-se de uma compreensão do comportamento protector que postula, ao contrário de todos os modelos atrás apresentados, uma fase posterior à intenção ou comprometimento no processo de mudança, considerando que o reconhecimento do comportamento como problemático e o comprometimento na mudança podem não constituir condições suficientes para o sexo seguro, o qual deve passar pela implementação da intenção de usar preservativo.

O modelo integra um conjunto de variáveis, de natureza cognitiva, motivacional e social, dispersas por outros modelos, que nunca tinham sido integradas em modelos sobre o comportamento de saúde ou articuladas conjuntamente para a infecção pelo HIV/SIDA (Abraham e Sheeran, 1993; Adler et al., 1992). Os factores

Figura 2.6 Esquema Geral do Modelo de Redução dos Riscos da SIDA (MRRS)

(Adaptado de Catania, Kegeles e Coates, 1990b)

integrados no MRRS, de acordo com um processo de mudança, que permite compreender idiossincrasias, respeitar avanços e recuos, “saltos” entre estádios e adequar as intervenções ao estádio de mudança em que a pessoa se encontra, incluem: (a) o conhecimento dos riscos associados a várias práticas sexuais e as formas de integrar actividades de menor risco nas relações sexuais de uma maneira satisfatória;

Reconhecim ento Comprome timento Acção Não há acção Resignação Resignação Não Não Não Auto-Ajuda Ensaia Soluções Procura Ajuda Sim Sim

associados à redução dos comportamentos sexuais de risco e ao aumento dos comportamentos de menor risco; (d) as crenças de auto-eficácia; (e) os estados emocionais e (f) os factores sociais que incluem competências de comunicação verbal, normas sociais, processos de ajuda e apoio social (mostrando-se estes factores sociais particularmente originais enquanto elementos importantes na prevenção da infecção pelo HIV/SIDA).

O primeiro estádio envolve a percepção e conhecimento da doença, da vulnerabilidade do indivíduo a ela e do papel das normas sociais no reconhecimento do risco envolvido no seu comportamento sexual. Trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente para a alteração do comportamento, a qual implica um conjunto de decisões bastante complexo. Entre a percepção de ameaça à saúde colocada pela infecção e a implementação de uma mudança nos comportamentos sexuais de risco existe um período em que se tomam decisões, envolvendo um forte empenhamento em acções continuadas de protecção que, muitas vezes, implicam o abandono de comportamentos habituais e satisfatórios (e.g., relações sexuais não protegidas) em prol de outros menos usuais e habitualmente menos prazenteiros (e.g., utilização de preservativo e/ou trocas sexuais sem penetração).

O segundo estádio relaciona-se, assim, com o comprometimento ou empenhamento na modificação do comportamento de risco e manutenção desta decisão, a qual implica pesar custos e benefícios (a eficácia percebida nos comportamentos propostos para a redução das consequências negativas para a saúde e o prazer associado a estes comportamentos), acreditar nas suas próprias capacidades para reduzir as actividades sexuais de risco e aumentar os comportamentos de menor risco (percepção de auto-eficácia) e valer-se do apoio social e das normas do grupo de referência.

Procurar soluções e pôr em prática uma decisão constitui o terceiro e o mais difícil estádio deste modelo, pelo facto de haver vários factores que podem criar impedimentos a esta realização. Primeiro, o indivíduo deve procurar informação e conhecer ideias e opiniões de outras pessoas sobre formas de mudar o comportamento sexual de risco, depois deve perceber se consegue tomar a decisão de levar avante o comportamento, contando apenas consigo próprio, ou se deverá pedir ajuda a outras pessoas, sejam elas amigos ou profissionais e, por fim, na posse de algumas soluções

deve implementá-las. Este último passo pode ser dificultado pela natureza social do comportamento sexual, uma vez que o parceiro pode colocar entraves às práticas de sexo seguro. A redução dos comportamentos sexuais de risco será maximizada se ambos os parceiros percepcionarem o seu comportamento sexual como problemático, estiverem empenhados em modificar os comportamentos sexuais de risco e conseguirem comunicar eficazmente entre si sobre questões sexuais. Os factores emocionais, a utilização de drogas passíveis de afectar os estados emocionais e os sinais formais e informais do ambiente, que estimulem a reflexão sobre o comportamento sexual, podem exercer igualmente um papel importante na manutenção da motivação ao longo do tempo (Catania et al., 1990b; Catania et al., 1994).

Os três estádios do modelo comportam ainda um carácter especulativo (Adler et al., 1992; Fisher et al., 1994; Freimuth et al., 1992), apesar de se encontrarem estádios semelhantes noutros estudos (Freimuth et al., 1992). Algumas investigações corroboram as variáveis explicitadas no modelo enquanto preditores do comportamento de utilização do preservativo (Breakwell, Millward e Fife-Schaw, 1994; Catania et al., 1994) enquanto outros não encontram um impacte significativo nas infecções sexualmente transmissíveis, quando se utilizam intervenções baseadas nalgumas variáveis deste modelo ou encontram diferenças nos factores comportamentais de risco apenas para os indivíduos do sexo masculino (Boyer, Barrett, Peterman e Bolan, 1997).

Apesar da importância da natureza social da interacção sexual e de outros factores contextuais que a afectam serem explicitados no terceiro estádio do MRRS, algumas variáveis, como o estatuto do relacionamento e significados atribuídos às relações sexuais não protegidas, nunca foram exploradas nem mesmo neste modelo específico desenvolvido para a compreensão e prevenção da infecção pelo HIV/SIDA (Flowers et al., 1997).

2.4.2 Modelo Informativo-Motivacional-Comportamental na

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