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A importância de investigações psicológicas e sociais específicas para a compreensão da mudança do comportamento e para a adopção dos comportamentos preventivos face ao HIV/SIDA ganha uma proeminência particular, pelo facto de se estar perante um comportamento sexual na base desta infecção.

A particularidade desta área resulta do carácter irreversível e mortal da infecção adjunto à natureza sexual do comportamento em causa e das emoções que lhe estão

de latência do vírus, da baixa probabilidade e incerteza sobre o processo de infecção (Gerrard, Gibbons, Warner e Smith, 1993; Gerrard, Gibbons e Buchman, 1996; Poppen e Reisen, 1997) e da necessidade de protecção continuada (Kirscht, 1988; Robertson, 1987). Os domínios psicológicos e sociais ajudam a dar significado a estas características que dificilmente podem ser compreendidas e integradas numa perspectiva exclusivamente biomédica.

O acesso à esfera da intimidade, dos comportamentos íntimos não perscrutáveis directamente, não constitui o único entrave ao estudo do comportamento sexual de prevenção do HIV/SIDA. A sua natureza sexual implica o envolvimento de outros domínios como sejam o físico e o emocional e, em consequência, muitas das decisões podem ser tomadas no calor do momento quando a pessoa está emocional e fisicamente activada e são influenciadas pelas disposições emocionais, ao contrário do que acontece nas decisões tomadas relativamente a muitos outros comportamentos (Gerrard et al., 1993; Gerrard et al., 1996). De igual modo, o comportamento sexual, ao ser central para a identidade do indivíduo e grandemente desejado, pode exibir uma maior maleabilidade (Festinger, 1957, cit. por Blanton e Gerrard, 1997), sendo por isso menos fixo do que outros comportamentos. Há indícios de que o que se pensa no momento do encontro sexual e fora dele é diferente, e surgem novos factores durante o encontro sexual que afectam quer a saliência de determinados aspectos quer o raciocínio que se desenvolve sobre a situação (Gold, 1993). Além destas singularidades, as suas características sexuais são influenciadas por um contexto cultural mais amplo, no qual os papéis sexuais e os comportamentos na situação podem estar amplamente esquematizados e diferenciados em função do significado atribuído aos diferentes encontros sexuais (Marín, Gomez, Tshcann e Grogorich, 1997; Simon e Gagnon, 1986).

Para além dos contextos emocional, físico e cultural associados ao comportamento sexual, este comporta uma outra característica, que o distingue de muitos outros comportamentos, relacionada com o seu carácter interpessoal. Muitos dos comportamentos sexuais de prevenção implicam processos de comunicação e de negociação entre os parceiros (Catania et al., 1990b; Miller et al., 1993) e envolvem dinâmicas de poder complexas. É possível que apreciações cognitivas correctas do ponto de vista dos riscos envolvidos possam ser suplantadas ou ponderadas em

simultâneo com percepções, sentimentos e pressões que têm lugar fundamentalmente no contexto interpessoal. Em consequência, o comportamento sexual envolve a gestão de relações sociais que pode influenciar a análise do que está em jogo na situação e as decisões que se tomam nesse momento (Campenhoudt, Cohen, Guizzardi e Hausser, 1997; Poppen e Reisen, 1997).

O longo período de latência da infecção, a baixa probabilidade de contágio e a incerteza quanto a ter-se ficado ou não infectado são características que também contribuem para a maior peculiaridade do comportamento sexual de risco ou protecção (Poppen e Reisen, 1997). O tempo que medeia o comportamento de risco e a avaliação das suas consequências permite criar uma sensação de invulnerabilidade - maior no caso do HIV/SIDA do que para muitas outras IST - dado raramente serem evidentes as consequências imediatas do risco que se correu. Ao ser maior a exposição ao risco também é maior a probabilidade de este ser considerado menos provável (Denscombe, 1993) e, por esta razão, as consequências da exposição ao HIV/SIDA podem traduzir- se por uma redução na expectativa de vulnerabilidade à infecção. O carácter assintomático da infecção coloca igualmente problemas de auto-controlo, dado que as consequências do comportamento de risco referem-se a um tempo muito distante, enquanto os custos do comportamento de protecção são imediatos. A dificuldade em aceitar custos no presente para prevenir futuros males é agravada pelo facto da ausência de protecção conduzir apenas à possibilidade e não à certeza de males futuros (Weinstein, 1987). O risco objectivo de transmissão é bastante baixo e esta baixa probabilidade de contágio não só reduz a motivação para a protecção como dificulta a percepção do aumento exponencial da probabilidade de apanhar o vírus com a repetição do comportamento, tornando os indivíduos mais vulneráveis do que as probabilidades parecem à primeira vista indicar (Linville et al., 1993).

Por último, como o comportamento de protecção face ao HIV/SIDA não envolve, na maioria dos casos, uma acção isolada ou ocasional, a necessidade de protecção continuada torna mais difícil a adopção do comportamento por parte do indivíduo (Kirscht, 1988; Robertson, 1987). Uma vez que a protecção inconsistente não constitui protecção para o HIV/SIDA e a doença é mortal, as pessoas ficam em perigo de contrair uma doença debilitadora e sem cura.

A especificidade própria do HIV/SIDA sugere a necessidade do seu estudo ser realizado de forma particularizada, uma vez que os modelos preventivos desenvolvidos ou adoptados para a saúde foram concebidos para lidar com doenças que, na maioria dos casos, são reversíveis, e cujos comportamentos de risco são menos centrais para a identidade, menos interactivos e cuja protecção não exige um esforço continuado. Contudo, a sua especificidade não deve deixar esta infecção alheia a explorações e resultados encontrados noutros domínios da promoção da saúde e prevenção da doença. A aplicação à infecção pelo HIV/SIDA de modelos utilizados no estudo de outros comportamentos de prevenção e as conclusões resultantes desta aplicação ajudaram a delinear a presente investigação, cujo objectivo é o de alargar os determinantes psicológicos do comportamento de protecção, integrando-os com elementos cognitivos, sociais e culturais menos explorados na literatura.

2.2 EVOLUÇÃO DOS PRINCIPAIS TIPOS DE ESTUDO E INTERVENÇÕES

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