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3.3 Validation croisée de trois programmes Monte Carlo

3.3.2 MScat

Na ausência de tratamentos eficazes, as tentativas para reduzir a transmissão do vírus deram primazia à informação e exortaram à adopção de práticas sexuais consideradas seguras. À parte da abstinência sexual, estas práticas referiam-se

basicamente à utilização do preservativo em todas as interacções sexuais, à recusa em ter relações sexuais na ausência de conhecimento sobre o estado serológico para o HIV do parceiro e à redução do número de parceiros, privilegiando-se uma relação exclusiva com um parceiro igualmente monogâmico (protecção esta considerada actualmente pouco segura). No entanto, apesar das pessoas estarem bem informadas sobre a SIDA e sobre as formas de transmissão do HIV este conhecimento não afectou significativamente a prática de sexo seguro (DiClemente e Peterson, 1994; Ross e Rosser, 1989; Sheeran et al., 1999).

As propostas para a prevenção do HIV/SIDA subestimaram a dificuldade das pessoas seguirem directrizes aparentemente simples, como utilizar preservativo em todas as relações sexuais em que se desconhecesse o estado serológico para o HIV do parceiro ou, nessa impossibilidade, recusar-se a ter relações sexuais. Tornou-se necessária a intervenção de conhecimentos de outros domínios científicos com o reconhecimento de que as dificuldades encontradas resultavam da interferência de factores psicológicos, relacionais, culturais, de activação de afecto e situacionais que circundam e formam o contexto do comportamento sexual humano. Desta forma, compreender-se-á melhor que sintamos, por exemplo, o amor como uma segurança a danos físicos e certas características físicas do parceiro, bem como a atracção que exerce em nós, como diagnóstico suficiente à avaliação sobre o seu estado face ao HIV. É, ainda, neste contexto, que a protecção oferecida pelo preservativo pode tornar-se menosprezável perante a possibilidade de criar desconfianças ao comprometimento entre os parceiros e que podemos preferir uma paixão imediata a uma boa saúde (não garantida) durante os anos futuros.

De acordo com uma perspectiva mais tradicional da saúde, o homem está pronto a sacrificar tudo para viver durante mais tempo e a defesa da saúde constitui um motivador essencial. No entanto, não só a saúde como motivador principal tem sido posta em causa (Bajos, 1997; Flowers et al., 1997; Rosenthal et al., 1998), como, ainda que assim fosse, a adopção de uma inovação preventiva torna-se difícil ao envolver modificar e, muitas vezes, complicar comportamentos que estão bem estabelecidos e organizados como hábitos ou rotinas.

o aspecto mais saliente e importante na vida do indivíduo (Denscombe, 1993; Flowers et al., 1997; Rosenthal et al., 1998). Pode ser entendida como uma comodidade passível de ser negociada contra benefícios presentes ou futuros e, como tal, não constituir uma necessidade a que o indivíduo aspira a todo o custo. O conflito entre a necessidade de preservar a saúde e outras necessidades associadas ao comportamento sexual, como sejam o afecto e a intimidade, o romantismo, a afirmação do próprio, a aprovação por parte do parceiro, a preservação da relação e a recompensa imediata, entre outras, permite pensar na intervenção de factores que podem envolver outra racionalidade. À racionalidade abstracta e considerada universal presente na primazia ou racionalidade da saúde, contrapõe-se uma outra mais concreta e construída subjectivamente. Esta, resultado de se estabelecerem prioridades na impossibilidade de protecção contra todos os perigos da vida e de determinadas necessidades presentes no homem, faz intervir outras variáveis para além das estritamente relacionadas com a sanidade física, mais estranhas à concepção tradicional da psicologia da saúde (Bajos, 1997; Flowers et al., 1997; Rosenthal et al., 1998; Thompson e Oskamp, 1996). A existência de necessidades contraditórias pode dar origem a comportamentos aparentemente irracionais, que resultam do facto dos indivíduos estarem a ser movidos por outras motivações em áreas alheias à esfera da saúde, criando-se tensão entre diferentes objectivos. A tarefa de descoberta e exploração de novas variáveis que possam surgir num contexto de busca de algo passível de transcender a saúde exige a utilização de sistemas psicológicos e sociais diversificados para a sua realização, importando explorar significados para comportamentos que aparentemente escapam a uma racionalidade lógica36.

Por outro lado, ainda que a saúde constituísse um objectivo a todo o custo, a importância da prática do comportamento preventivo face às crenças e às intenções expressas acerca dele, nomeadamente no uso do preservativo (Abraham e Sheeran, 1993; Maticka-Tyndale e Herold, 1999; Norman e Conner, 1996) alerta para a importância do hábito ou rotina estabelecidos. Quando um comportamento é

36 Na teoria da decisão, as acções do homem racional baseiam-se no raciocínio deliberado e informado

sobre os resultados possíveis das suas acções e a decisão tomada é aquela que, de acordo com as suas crenças e preferências, lhe possa trazer o máximo de utilidade (Lee, 1971).

frequentemente associado a uma situação e o conjunto de acções pertinentes para esta situação se organiza numa estrutura de conhecimento, o guião resultante vai coordenar implicitamente o comportamento (Langer, 1978; Schank e Abelson, 1977). Se os guiões sexuais legitimarem determinados comportamentos sexuais, as mensagens de protecção poderão colidir com um comportamento socialmente aceite e activado durante o encontro sexual e, desta forma, os guiões podem constituir um elemento importante e mesmo determinante na promoção dos comportamentos preventivos (Abraham e Sheeran, 1993; Maticka-Tyndale, 1991; Miller et al., 1993). Simultaneamente, sabe-se que, quando as acções necessárias à prevenção contradizem objectivos e valores básicos, implicam mudanças consideráveis, tendo custos difíceis de suportar, torna-se mais difícil levar as pessoas a adoptarem o comportamento preventivo, desenvolvendo-se maior resistência à informação não desejada (Milete e Sorensen, 1987).

Em conclusão, é possível que, na base das decisões sobre a protecção sexual, se encontrem necessidades emocionais, para além de necessidades de saúde e que na sua origem exista um processo de base cultural e mais automático. A apresentação da informação de forma a que seja consonante com objectivos pessoais, a compreensão e a possibilidade de modificação de rotinas comportamentais e a construção de um risco que seja entendido como relevante, poder-se-ão mostrar consentâneas com a adopção do que poderá constituir uma racionalidade alternativa exibida pelos indivíduos quando se trata da protecção face ao HIV/SIDA.

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