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O tópico da batalha entre os partidários do bem e aqueles que enveredam pelo mal é quase tão antigo como a própria Literatura.

No que concerne a Joanneida, o confronto aglutinador dos vários momentos da obra é o que opõe os Portugueses aos Castelhanos, cabendo aos Portugueses, por força do objectivo a que se propõe o autor da obra, o papel dos que seguem o caminho recto e justo e aos Castelhanos o papel dos inimigos, de quem procura, por meios pouco dignos, alcançar o poder. Assim, a evidência desse confronto entre as duas forças pauta-se pela existência em cada um dos lados de características que as definem e as distinguem. No caso dos Castelhanos, o lado inimigo, em diversos momentos da obra eles surgem caracterizados como um conjunto algo desorientado e onde predomina o barulho e o desacordo136, característica que é quase sempre entendida negativamente. Por exemplo, na estrofe 31 do Canto I, os Portugueses, encontrando-se cercados pelos Castelhanos, e sentindo-se seguros dentro das muralhas, observam atentamente «o tumulto fatal da gente estranha», de onde se destaca «do tambor rouco os ecos duros,/ Que o clamor das trombetas acompanha»; já no Canto VI, surge descrita como confusa a situação vivida na cidade de Almada, prestes a ser conquistada por Nuno Álvares137:

136 Confusa e turbulenta é também, já no plano mitológico, a forma como é descrito o ambiente vivido

nas esferas do Inferno, um ambiente caracterizado por «Um confuso ruído pavoroso,/ Que assustava as abóbadas funestas» (est. 37, Canto II) e onde as potências infernais «Atroam todo o Averno com bramidos,/Com desordens, ruídos, e terrores» (est 48, Canto II). Sobre este tópico, cf. ainda o capítulo 5.2.3.1.

137 Como veremos mais à frente, este tópico do ruído e do tumulto que caracteriza os inimigos está

igualmente relacionado com um outro tópico, o dos valores morais que é necessário respeitar e seguir, sendo precisamente pela ausência desses valores que o lado castelhano, ao longo da obra, vai

107

Ali era o clamor dos habitantes, O ruído das armas, e Soldados Tão confusos, que os ecos penetrantes

Os ouvidos deixavam atroados; (est. 96, Canto VI)

Para além desta caracterização, ganha especial relevo a forma como o autor põe em evidência, na descrição das batalhas138, a alternância que, em pleno combate,

existe entre o lado português e o castelhano139, dando a ideia de que qualquer um pode vencer o confronto em questão, embora no final a vitória acabe por pender somente para um dos lados. Isso é visível no final do Canto II, na tentativa de assalto a Lisboa pelos Castelhanos; no Canto V, aquando da narração dos confrontos no Tejo ou no Canto X aquando da descrição da Batalha de Aljubarrota. Sobretudo neste último, é curioso verificar como essa alternância é levada a um extremo, conferindo o Poeta à narração dos acontecimentos um certo suspense narrativo.

Por exemplo, quando é cantado:

Aqui cedem as armas Castelhanas À fúria das feridas, ali cedem À vantagem da gente as Lusitanas, Que os empenhos do brio mal impedem; Ora cresce o temor, ora as ufanas Esperanças da glória lhe sucedem, E se alternam com lances repetidos

A esperança, e temor nos dois partidos. (est. 118, Canto X)

fica bem expressa essa alternância, alternância entre a esperança pela vitória e o receio da derrota, cabendo posteriormente aos dois Reis o papel de estimular a bravura e o empenho das suas tropas.

Ligado a este tópico encontra-se uma outra situação característica da narração dos combates: a necessidade de um esforço hercúleo para alcançar a vitória, ao qual surgem muitas vezes associadas determinadas forças invulgares, quase sobre- humanas. E é graças a essas forças que o herói consegue realizar determinados golpes

confirmando a sua incapacidade e falta de dignidade para conseguir vencer, sobretudo no plano político. Sobre este tópico, cf. cap. 6.3.1.

138 É interessante ver o modo como JCM, na descrição das batalhas, sobretudo na de Aljubarrota, no

Canto X, procura intercalar quadros mais gerais em que é dada uma visão mais global do confronto entre Portugueses e Castelhanos com situações particulares em que surgem evidenciadas acções individuais de determinadas personagens (cf. est. 109-127, Canto X).

139 Essa alternância é também visível na distribuição de forças entre as duas facções um pouco por todo

o território português, as quais se distribuem de forma equitativa entre os dois oponentes (cf. est. 139, Canto IV).

108 épicos140 que contribuem decisivamente para a vitória e que conferem maior glória ao

vencedor.

Na Joanneida, os melhores exemplos desses golpes são-nos revelados pelas acções de Nuno Álvares Pereira. Por exemplo, no Canto II, Nuno Álvares depara-se com um cavaleiro castelhano e dá-se um confronto que o cavaleiro português consegue vencer:

Vinha na frente do esquadrão contrário De Santiago o Mestre esclarecido, Cavaleiro gentil, mas temerário, De forças não vulgares presumido: Gritando vinha com desprezo vário Injúrias mil; mas quando mais subido Na vanglória se mostra, então Pereira

De um golpe o fez rodar pela ladeira. (est. 97, Canto II)

ao qual se seguem confrontos com outros cavaleiros castelhanos, os quais Nuno Álvares Pereira consegue igualmente ultrapassar.

E no Canto X, ao descrever as incidências da batalha, assim canta o Poeta os feitos de Nuno Álvares:

(…)

O destroço, a ruína, o estrago, e o dano De seu braço pendentes ostentava, Onde quer que a fortuna o conduzia, Ou que a dura vingança o compelia. Da sela faz voar três Cavaleiros, Antes que a lança rompa, e fulminando A coruscante espada, oito guerreiros A seus pés prostra, as vidas exalando; E com golpes pesados, e ligeiros O terrível caminho franqueando, Por entre os esquadrões dos inimigos

Vai semeando mortes, e castigos. (est. 112 e 113, Canto X)

Estas acções guerreiras e heróicas chegam mesmo a ser elevadas a um plano mais geral que abrange todos os Portugueses, cujos golpes e ataques chegam a ser encarados pelo Poeta como sendo mais valorosos do que os narrados nas grandes epopeias da Antiguidade.

140 O golpe épico é um tópico que já vem da epopeia da Antiguidade, embora marque a sua presença

nas canções de gesta medievais. Os actos do cavaleiro Roland que, com um golpe, corta um cavaleiro e um cavalo (Chanson de Roland, est. 93); de Fernan Gonzalez, quando mata o rei de Navarra com um golpe de lança (Fernan Gonzalez, cap. V) ou ainda de El Cid que pega numa espada e mata inúmeros mouros (Cantar de Mio Cid, cap. 95, Cantar Segundo e cap. 118, Cantar Tercero) são disso exemplo.

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(…)

As Lusas Quinas voam vingativas; Jamais se ouviram nos anais antigos Das campanhas de Tróia, ou nas esquivas Guerras do Lácio, golpes mais valentes,

Que os das lanças dos Lusos combatentes. (est. 110, Canto X)

Um outro tópico relativo ao confronto bélico presente na Joanneida, e cujo desenvolvimento procura fundamentalmente realçar a vitória dos Portugueses, é o de que, apesar de o golpe desferido pelo inimigo ser forte, o golpe dos Portugueses consegue ser ainda superior, em força e em danos, o que permite enfraquecer ou derrotar o inimigo141. Aliás, são precisamente esses golpes heróicos e valorosos142 que vão conferir a necessária energia anímica às tropas, energia que, por fim, possibilita alcançar a vitória. O próprio Nuno Álvares o confirma, quando se refere a um dos confrontos na Província:

Alvoroçou-se toda a gente Lusa Com a vista do golpe venturoso, Já não teme a vantagem, nem recusa Qualquer lance por forte, ou perigoso; Qual busca o maior risco entre a confusa Competência dos golpes, qual raivoso Pelos ferros se mete, e finalmente

Cada qual vence, ou morre ilustremente. (est. 37, Canto VI)

Já aludimos ao facto de na obra, sobretudo devido à temática explorada, o autor desenvolver por diversas vezes os diferentes momentos que antecedem a batalha e narrar as próprias incidências dos confrontos. No caso dos momentos que se seguem à batalha propriamente dita, constatamos que os mesmos não são alvo de um desenvolvimento tão acentuado na Joanneida. Em todo o caso, constatamos a presença na obra do tópico dos prantos dos vencidos pela perda e pela derrota, tópico este já presente por exemplo na CGE. Tal é evidente no início do Canto IV quando se narra a situação a que se viu votada a população Goda e os caminhos por si

141 Exemplo disto mesmo é a descrição do confronto entre Nuno Álvares e Gonçalves de Sevilha. (est.

36, Canto VI).

142 Refira-se ainda a propósito destes golpes que, por vezes, o autor sente necessidade, sobretudo

aquando dos confrontos entre Portugueses e Castelhanos, de colocar em evidência determinados cavaleiros, tanto devido ao seu valor e valentia, mas também, por oposição, devido à sua cobardia. Temos como exemplo a referência explícita ao cavaleiro castelhano João Ramires de Arelhano que, apesar de não fugir à luta, acaba por morrer (est. 27, Canto I), o qual já havia sido referenciado por FL na CDJ1 (cap. CXIII); o castelhano Sarmento que era esperado para o combate, mas que acaba por não comparecer (est. 98, Canto VI) ou ainda o cavaleiro Rodrigues, cuja acção foi determinante para impedir Tordesumos de vencer os Portugueses (est. 44, Canto X).

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escolhidos, após a conquista da Península Ibérica pelos Mouros. Fala-se do povo que «reduzido/À escravidão da bárbara insolência,/ Disperso, e vacilante em tanto aperto,/Errava sem destino, e sem conserto.» (est. 1, Canto IV) e dos caminhos por este percorridos.

Alguns a triste vida confiando Ao arbítrio das ondas inconstantes, […]

Por incógnitos mares navegando, A países passaram tão distantes, […]

Outros na mesma pátria desterrados Pelos montes, e penhas cavernosas Do bárbaro furor refugiados,

Se ocultavam nas brenhas horrorosas; (est. 2 e 3, Canto IV)

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