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CP /M KAVPRO SCHEMATICS

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A relevância que o Poeta pretende dar à Pátria Portuguesa, à sua Liberdade e aos Portugueses, expressa desde logo na Advertência, quando afirma pretender, com o Poema, «oferecer um pequeno tributo à fama da minha Pátria» (Pinto, op. cit.: XV), estende-se igualmente a outros planos, nomeadamente à valorização que é feita da

E para ser no Mundo conhecido, Obrei quanto entendi ser necessário: Estudei, porém fui mal atendido, No conceito da Corte sempre vário; Quis dedicar a Marte o meu sossego, Mas não pude nas armas ter emprego. Desenganado enfim, que não podia Distinguir-me do Mundo no tumulto, Que os meus nobres projectos abatia, Com desprezo fatal, com triste insulto, Vendo como a fortuna aborrecia Os sacrifícios deste indigno culto, Levado de um ardor impaciente,

As costas lhe voltei grosseiramente. (est. 51 e 52, Canto VIII)

Ao lermos estes versos, não deixa de nos impressionar a semelhança entre estes e o discurso de JCM na Advertência, no facto de também o desejo de glória; a dedicação aos estudos; os esforços para ser benquisto na Corte; a dedicação para combater e as constantes desilusões serem os motivos pelos quais JCM abandona a sociedade e se refugia numa quinta (cf. Pinto, op. cit.: XV). Esta é, assim, mais uma razão para encararmos esta personagem como um outro eu de JCM.

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cidade de Coimbra, da região Centro de Portugal e igualmente dos antepassados de JCM. De certa forma, a grandeza e o carácter épico de uma tal epopeia impeliram o autor a dar notoriedade à sua terra de origem, à região onde estudou e viveu, região cuja preponderância, se atentarmos bem nos poemas épicos antecessores da

Joanneida, ainda não havia sido verdadeiramente posta em relevo.

Assim, atentando no Poema, constatamos que a valorização do espaço geográfico de Coimbra e do círculo familiar do autor processa-se em diferentes episódios e de diferentes formas.

Uma delas é a alusão às lendas da fundação da cidade de Coimbra, feitas pelo Defensor (estrofes 73 a 81 do Canto III) aquando da narração ao cavaleiro Monferro da História do território peninsular antes da criação do Reino de Portugal. Neste caso, o interesse reside no facto de o autor pôr na voz de D. João I não uma, mas duas possíveis lendas que explicam a fundação da cidade de Coimbra: uma centrada na figura de Atax156, líder de um dos subgrupos dos Alanos que invadiu a Lusitânia, e a quem é atribuída a destruição de Conímbriga e a construção de Coimbra (entre as estrofes 73 a 81 do Canto III); outra indirectamente centrada na figura de Pirene (est. 89, Canto III)157, mas ambas possíveis explicações para a fundação da Cidade de Coimbra e que os símbolos constantes do brasão da cidade acabam por evidenciar158.

Mas a importância de Coimbra não é somente realçada enquanto local lendário e por onde passaram heróis da Antiguidade; essa importância surge realçada inclusive no facto de ser entendida como um local quase simbólico, na medida em

156 Reza a lenda que Atax se apaixonara por Cindazunda, filha do rei cristianizado Hermenerico dos

Suevos, e essa por ele, mas o rei suevo impediu-o de desposar a sua filha. Atax, tomado de fúria, comandou os seus exércitos contra Conímbriga, destruindo toda a cidade. Hermenerico, consternado com a situação, concede a sua filha em casamento a Atax, e este decide reconstruir a cidade num outro local, que passou a chamar-se Coimbra. (cf. Mariz, 1593: 1-14).

157 Segundo consta, Pirene é a personagem principal da lenda sobre a fundação dos Pirinéus, mas acaba

por estar associada igualmente a Coimbra. Segundo reza uma das lendas existentes, Hércules (que tem vários nomes, entre os quais Tiríntio - por seu avô Alceu, rei de Tirinto) após a partida dos Pirinéus (mausoléu que ele construiu em honra de Pirene que se matou ou foi morta pelas feras) demandou a cidade de Coimbra e nela assentou sua morada. E mandou aos seus concidadãos que guardassem para sempre a memória da infelicidade e da dor da sua Pirene e que dela conservassem nos muros da cidade os símbolos esculpidos Para mais informações, cf. ibidem: 10-14.

158 Na est. 81 do Canto III alude-se ao brasão da cidade o qual parece estar relacionado com a primeira

lenda. Segundo Pedro de Mariz, o brasão da cidade é formado por uma taça em ouro (símbolo do casamento) colocada em campo vermelho (sangue das lutas entre as duas facções). Em meio corpo dentro de uma taça de ouro surge uma donzela (Cindazunda) que enverga um manto de prata e uma coroa ducal. À sua direita tem um leão de ouro (timbre de Átaces) e à esquerda um dragão verde (timbre de Hermenerico), ambos combatentes. A este propósito, cf. ibidem: 21-30.

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que é aqui que se reúnem as Cortes para eleger D. João I como Rei de Portugal159. Diz o Poeta:

Já prontos em Coimbra os Deputados Das Cidades, e Vilas mais famosas, Os Fidalgos, os Grandes, os Prelados, E da Plebe as pessoas mais zelosas, Em forma de comícios congregados, Quais de Roma nas eras gloriosas, Se dispunham com brava confiança

A regular do Reino a segurança. (est. 1, Canto IX)

Chega assim o autor a comparar Coimbra à própria capital do Império Romano, enquanto locais onde se reúnem os representantes de todas as classes para, em conjunto, tomarem decisões vitais para a segurança do Reino.

Sobre a valorização da região centro, é curiosa a alusão feita pelo Poeta à lenda segundo a qual o rei Rodrigo teria fugido para Viseu160, após a derrota frente

aos Mouros:

Ele soube emendar a triste sorte, Buscando na desgraça a penitência, E na antiga Viseu com santa morte

Pôs fim ditoso à larga paciência; (est. 155, Canto III)

Assim como a caracterização positiva que é feita da província da Beira Interior quando, no Canto VIII, se faz referência aos lugares por onde D. João I procurara caça:

E procurando os montes mais fragosos Da Província da Beira, onde esperava Lograr golpes mais belos, mais vistosos

Nas bravas feras, que o país criava, (..) (est. 37, Canto VIII)

159 Sobre Coimbra, refere Maria Helena Coelho: «nessa mítica cidade do Mondego, onde nasceram os

frutos dos amores de Pedro e Inês, a entrega do Mestre à causa da resistência às ambições do rei de Castela venceria a popularidade desses amados rivais ausentes e, nesse centro urbano, bem no coração do reino e sempre aberto à comunicação e a inter-relacionamento de gentes e ideias, o Mestre de Avis se tornaria rei de Portugal e dos Portugueses.» (Coelho, op. cit.: 58).

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Segundo António Carvalho da Costa (Costa, 1708: Tomo II), o rei Rodrigo foi expulso da Andaluzia e teria buscado refúgio na Lusitânia, onde poderia ter tentado fundar o seu reino, já que existia em Feital (Trancoso, distrito da Guarda) uma sepultura com a inscrição "Aqui jaz Roderico, rei dos godos", e que se conservava no século XVIII na igreja de São Miguel de Feital; Dom Rodrigo, o último Rei Godo de infeliz sorte, terá assim vindo refugiar-se em Viseu junto da capela de S. Miguel do Fetal, onde terá gasto os já poucos anos da sua vida como ermitão penitente e santo, aqui morrendo e sendo sepultado. Esta informação consta também da obra de 1628, Compendio Historial de las

Chronicas y Universal Historia de todos los Reynos de España de Estevan de Garibay y Camalloa (1628, Tomo I, cap. XLVIII: p. 319).

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Relativamente à valorização dos seus antepassados, vemo-la na relevância dada pelo Poeta ao discurso de Afonso Domingues de Aveiro161 em plenas Cortes de

Coimbra, o qual vem apaziguar as dissidências entre os partidários de João das Regras e de Martim Vasques, contribuindo para o alcance de um consenso em torno de D. João I. A relação parental que parece existir entre esta personagem e JCM162 e o facto de o Poeta lhe conferir um papel muito importante nas Cortes: o de lançar os

argumentos decisivos que conduzem à eleição de D. João I como Rei de Portugal,

são indícios da existência de uma intenção explícita do autor em homenagear um seu parente que, efectivamente, esteve presente nas Cortes de Coimbra.

Cremos que todos estes tópicos de análise que aqui desenvolvemos são prova suficiente da importância que as temáticas e as questões setecentistas contemporâneas do autor tiveram para o próprio, ao ponto de este sentir necessidade de as abordar e desenvolver no seu Poema.

161 Assim nos apresenta o Poeta Afonso Domingues de Aveiro:

Quando chega a falar um Cavaleiro, Da famosa Coimbra Deputado,

Em quem da vil Discórdia o som grosseiro Jamais pôde iludir o zelo honrado, Este Afonso Domingues é de Aveiro; Na Cidade benquisto, e reputado No Congresso por sábio, justo, e forte, E propõe o seu voto desta sorte.

162 Segundo o que apurámos, Afonso Domingues de Aveiro, procurador de Coimbra no tempo de D.

João I, terá sido o instituidor da capela de Santo Ildefonso, na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Ora Vergílio Correia (Correia, 1946: 62), no estudo que fez relativamente a esta igreja, apurou que JCM, respeitando o que constava no testamento feito em 1455 pelo dito Afonso Domingues, terá sido o administrador dessa mesma capela no século XVIII. Deste modo, estaria comprovada a relação parental entre estes dois homens.

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