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Outro dos tópicos característicos da epopeia clássica é o que respeita à narração dos episódios relativos à História de um Povo. Sendo o tema central da

Joanneida a crise de 1383-1385, e tendo em conta o propósito do autor aquando da escrita da obra, referido na Advertência:

a paixão pelas virtudes heróicas, e o zelo da glória nacional foram quem unicamente me animaram a este empenho; e os sentimentos, que partem destes princípios, não se desmentem jamais com uma lisonja vil, ou um sacrifício indecente. eu ofereço a v. a. o que lhe pertence, e que só pode pertencer particularmente a v. a., que são as glórias da sua própria casa» (Pinto, op. cit.: VIII-IX).

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seria indispensável a inserção na obra de momentos em que, pela narração dos feitos passados e pela previsão dos feitos futuros de um povo, se procedesse como que a uma afirmação e defesa de uma entidade colectiva, neste caso o Povo Português144.

Essa afirmação é alcançada no Poema, desde logo, de duas formas: por um lado, pelo modo como o Poeta se refere ao povo português no seu todo, apelidando-o ao longo de toda a obra de «Lísia gente»145; por outro, pela relevância que o conceito de glória nacional adquire em diversos momentos do poema, sobretudo naqueles em que a coragem e a bravura dos Portugueses e a sua dedicação à Pátria é posta em evidência146.

Relativamente à narração de acontecimentos históricos, no caso da Joanneida a mesma está patente em dois momentos distintos: a narração dos feitos futuros, por intermédio de profecias, sendo aqui compreendido o período histórico desde o reinado de D. João I até D. José I (Canto I) e a narração dos feitos passados até ao momento histórico em que se encontram o Mestre de Avis e o Cavaleiro Monferro – em 1384, em pleno cerco de Lisboa (Cantos III e IV). Refira-se que, de entre os episódios mais directamente relacionados com a História de Portugal, destacam-se na

144 Este tópico da narração dos feitos passados de um povo ou de uma personagem pode ser

encontrado, entre outras obras, nos Lusíadas (O rei de Melinde pede a Vasco da Gama que lhe fale da História de Portugal)que, de certa forma, também serviu de modelo para as epopeias posteriores e também na Eneida de Virgílio (Dido pede a Eneias que lhe conte os sucessos e as desgraças por que passou até chegar a Cartago)

145 A referência aos Portugueses como a «Lízia gente» tem, à partida, duas interpretações. Pondo na

voz do Mestre de Avis a incerteza desta fonte e aludindo a uma suposta analogia não especificada, o Poeta ora poderá estar a referir-se ao povo que descende de Lízia (ou Lízias), o guerreiro mais audaz e temerário que seguia Viriato como a sua sombra; ora se estará a referir a Luso, suposto filho (ou companheiro) de Baco, o deus romano do vinho e do furor, a quem a mitologia atribuiu a fundação da Lusitânia, as actuais terras de Portugal e a Extremadura espanhola. Se tivermos em conta a referência camoniana, Luso é visto como o progenitor da tribo dos Lusitanos e o fundador da Lusitânia, facto a que JCM também parece aludir na est. 14 do Canto III:

Em Luso, ou Lízias filho, ou companheiro Do fabuloso Deus da antiga Nisa, Pretendem mil memórias, que o primeiro Nome dos Lusos claro se divisa: Constante tradição no Reino inteiro Desta notícia a fama imortaliza;

Seja qual for a interpretação, o facto é que a utilização da expressão Lízia Gente como significando o Povo Português surge recorrentemente na obra.

146 São disso exemplo o discurso de Nuno Álvares aos seus guerreiros, motivando-os para o combate

(est. 18, Canto VI); o sentimento dos Portugueses após a traição perpetrada pelo Conde de Trastâmara (est. 31, Canto VIII) ou a acção da Discórdia para impedir a existência de um consenso para a escolha do novo soberano (est. 81, Canto IX). Em todos estes casos, a Glória nacional é encarada como o objectivo primeiro que é necessário alcançar e que deve conduzir, em todos os momentos, as acções das personagens.

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Joanneida a narração do milagre de Ourique (est. 22 a 42, Canto IV) e a morte de Inês de Castro (est. 58 a 60, Canto IV).

Globalmente, e se atentarmos nos diversos episódios históricos que são narrados nesta epopeia, constatamos que os mesmos servem sobretudo de

justificação da acção narrativa presente, que é lutar pela independência de Portugal e expulsar os invasores castelhanos147. No fundo, a mensagem que o

Herói nos transmite é que, tal como os nossos antepassados fizeram, expulsando os inimigos, a acção que “hoje” (1383-1385) empreendermos terá consequências no futuro dos nossos descendentes e contribuirá decisivamente para a nossa libertação.

Daí que, mais do que a narração dos episódios históricos, aquilo que ressalta da sua enumeração é o carácter exemplar que lhes está subjacente.

Importa ainda salientar que o desenvolvimento pelo Poeta destes episódios, relativos tanto à História de Portugal como à História Peninsular (Cantos III e IV da

Joanneida), é uma clara evidência da importância que as obras historiográficas, sobretudo as que foram contemporâneas do autor, tiveram para a escrita desta epopeia, na medida em que os factos nelas narrados serviram de fundamento para muitos dos episódios do poema. A Europa Portuguesa de Manuel de Faria e Sousa (1679) parece ter sido uma delas (onde são narrados grande parte dos acontecimentos relativos à História peninsular), mas outras há igualmente relevantes: os Diálogos de

vária história de Pedro de Mariz de 1594 (certamente importantes para o Poeta, na medida em que narram vários acontecimentos relacionados com Coimbra e a sua história) ou a Monarchia Lusitana de Frei Bernardo de Brito, que explora os acontecimentos ocorridos na antiga Lusitânia, no tempo dos Romanos.

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Podemos assim interpretar o episódio sobre as mulheres que se soltaram de uma prisão romana no tempo de Viriato; a referência aos diversos mártires religiosos que se libertaram da fé pagã e inclusive a tragédia de Ósmia (todos episódios narrados no Canto III) como exemplos particulares dessa libertação.

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