A coleção “Athos do início ao fim” foi a última utilizada nesta pesquisa. Em junho de 2011, Ronaldo Fraga, durante o desfile do São Paulo Fashion Week, apresentou uma coleção de moda que homenageava Noel Rosa. Contudo, essa coleção e respectivo release não se encontram ainda disponíveis no site do estilista.
Após analisar o trabalho de Ronaldo Fraga, considero que o estilista se construiu gradativamente como uma marca de moda que associa moda e cultura, tornando-se uma voz autorizada. A cultura, de acordo com Williams,439 pode ser entendida como um sistema de significações, o qual se manifesta também no produto de moda.
Assim, a organização social da cultura, como um sistema de significações realizado, está embutido em uma série completa de atividades, relações e instituições, das quais apenas algumas são manifestamente “culturais”. Pelo menos para as sociedades modernas, esta é uma utilização teórica mais eficiente do que o sentido de cultura como modo de vida global.440
Observando a questão de competência e performance que contribui no reconhecimento da “voz autorizada”, entendo que Ronaldo Fraga, ao longo de sua carreira, adquiriu, por meio de suas coleções, de sua competência reconhecida no sucesso de sua marca e através de um
saber-fazer e de um poder-fazer relativos à performance,441 o direito de dispor dessa voz
437 Disponível em: <http://www.ronaldofraga.com.br/port/index.html>. Acesso em: 10 mar. 2011. 438 FRAGA, 2011.
439 WILLIANS, op. cit., p. 206. 440 Ibidem, p. 208.
autorizada para despertar memórias. Sua atuação no mercado da moda nacional foi reconhecida não apenas pelo próprio setor, permitindo com que Ronaldo Fraga contribuísse para a inserção do universo da moda nas discussões das políticas culturais.
De acordo com Certeau,442 “Qualifica-se de política cultural um conjunto mais ou menos coerente de objetivos, de meios e de ações que visam modificação de comportamentos, segundo princípios ou critérios explícitos”. Ronaldo Fraga alcançou o status de ser considerado um profissional, apto a inserir o tema da moda nos debates da cultura brasileira. Assim, a CMNL, objeto desta pesquisa, carrega em si não apenas as interpretações de suas referências, mas também se constituiu num espaço privilegiado de discussão de como o seu criador se propôs como mediador cultural.
De acordo com a apresentação das coleções, os três grupos em que o estilista se destaca como agente cultural serão classificados a partir das qualificações de algumas coleções, em relação a suas características e conceitos, mas não exclui a possibilidade de que cada uma delas possa se enquadrar a mais de um dos conceitos.
a) Coleções reivindicações: Rute Salomão; Cordeiro de Deus; As viagens de Guliver; Costela de Adão; e Rio São. Esse conceito de reivindicações foi o conceito que recebeu um menor número de coleções. No entanto, muitas outras estão atreladas ao significado da palavra. Ronaldo Fraga, de alguma forma, busca recuperar ou reclamar de algo através das coleções, sejam memórias, ideologias, ou mesmo expor questões como a dessanilização do Rio São Francisco. O estilista busca em suas coleções um diálogo com o público, que se mostra preocupado com questões de caráter social;
b) Coleções personalidades: O Bispo; Célula de Louise; Zuzu Angel; Quantas noites não durmo; São Zé; Todo mundo e ninguém; Descosturando Nilza; A cobra ri; e Nara Leão são as coleções que homenageiam personagens da cultura nacional. As coleções Pina Baush;Turista Aprendiz; e Athos do início ao fim apresentam um elo entre a personalidade do estilista e de seus homenageados. Ronaldo Fraga se apresenta junto aos releases, bem como, ao construir uma nova narrativa sobre o personagem escolhido, toma o lugar daquele que está sendo representado. Além disso, o estilista reforça que cultiva um interesse por pessoas que foram de, certa forma, importantes para uma determinada identidade cultural.
c) Coleções autocrítica: Álbum de família; Império do falso; O jantar; Vendedor de milagres; A roupa; A carta; Corpo cru; Loja de tecidos; Tudo é risco de giz; e Disneylândia.
442 CERTEU, 1995, p. 195.
Nessas obras, percebe-se uma autocrítica em relação à moda como manifesto metalinguístico, pelo qual, através de uma coleção de moda, peça chave do sistema de moda, ele coloca em xeque o seu consumo e seus valores. Em dezembro de 2011, Ronaldo Fraga encaminhou uma carta443 aos organizadores do São Paulo Fashion Week informando que não participaria do próximo desfile. Ronaldo Fraga inicia seu texto questionando e respondendo: “A moda acabou? Pelo menos da forma como a conhecíamos acredito que sim”.444 O próprio layout da carta está de acordo com as estratégias de rememoração do estilista. Um texto escrito na imagem do que seria um caderno antigo, com folhas amareladas, escrito com letras de máquina de escrever. Nesta dissertação, não pretendo discorrer sobre essas manifestações do estilista. Ressalto que sua autocrítica utiliza-se dos mesmos meios que qualquer outra coleção de moda e, como tal, não deixa de incentivar o consumo e a diferenciá-lo, reforçando o poder e a identidade de sua marca. Ronaldo Fraga parou por um tempo, mas não significa que seu recesso não foi ou será absorvido pelo sistema de moda. Aassim como Jun Nakao, ele estreita sua relação com o seu público consumidor, aquele que “reflete” sobre a moda, que “questiona” esse sistema ou a forma como ele acontece. Entretanto, um público que continua consumindo.