2.3 Mod´ elisation des profils verticaux du facteur de r´ eflectivit´ e et du contenu
2.3.1 Hypoth` eses du mod` ele
As memórias compartilhadas por cada um dos entrevistados nos ofereceram possibilidades para identificar que cada um deles vivenciou e experimentou a cidade, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, de maneira diferente. Essas memórias que transitam entre o individual e o coletivo se encontram, bifurcam, se chocam e se repelem, pois suas narrativas partiram das experiências dos entrevistados.
Apesar das diferenças espaciais e etárias que separam nossos entrevistados, um conjunto interessante de suas experiências e lembranças os aproxima e atribui ao termo encontro, já duplamente significado neste trabalho, outros contornos, pois suas composições mnemônicas se entrecruzaram muitas vezes. Alguns, como no caso do Sr. João e do Sr. Abílio, tiveram suas narrativas aproximadas no momento em que o Sr. João fala do seu estranhamento na primeira vez que vira um negro, sendo o Sr. Abílio justamente um negro de Putanga, região citada pelo Sr. João durante o momento em que expunha suas lembranças. Ambos são católicos, um grifou sua estranheza ao conhecer negros e outro é um negro devoto de Nossa Senhora do Rosário, conhecida como Nossa Senhora dos Pretos.
Outro ponto convergente nessas histórias de vida é a experiência da conversão, que marcou tanto a vida de D. Elsa quanto a vida de D. Maria Pereira. Embora as duas não se conheçam, ambas participaram com diferente intensidade e diferentes motivos dessa experiência. As duas passaram a compor e recompor suas relações em outra comunidade religiosa, após se converterem à religião do marido, ampliando seus universos de apego.
Já o Sr. Angelo e o Sr. Francisco Schork se conhecem e os dois relataram com grande emoção seu envolvimento com a religião católica, com as obras executadas pela Paróquia Senhor Bom Jesus, através do Pe. Mathias, além de repetidas vezes reforçarem seus laços de amizade e respeito com esse pároco.
Sr. Daniel carrega consigo uma experiência de vida e religiosa muito plural, ele assembleiano, sua esposa batista converteu-se para a Assembleia de Deus após o falecimento de seu pai. As lembranças narradas por Sr. Daniel permitem-nos aproximá-las das demais lembranças narradas pelos outros entrevistados, pois dialogam com as lembranças de Sr. Angelo e Sr. Francisco Schork ao apresentarem Pe. Mathias com uma liderança determinada e incisiva, responsável por idealizar grandes obras em boa parte das localidades de Guaramirim; se encontram, também, com as memórias de D. Elsa, que assim como o Sr. Daniel tem suas experiências religiosas ligadas ao (neo)pentecostalismo; dialogam com o casal Pereira, que assim como ele frequentou a escola da localidade do Rio Branco, localidade em que Sr. Daniel viveu boa parte de sua vida; e com o casal Borba, na medida em que este se revela um grande conhecedor do interior de Guaramirim.
O que torna essas memórias e esses fragmentos de lembranças especialmente interessantes são a profundidade e a intensidade do envolvimento de cada um dos entrevistados, que se permitiram transitar entre o passado e o presente. Os adjetivos e os tratamentos atribuídos ao passado desses sujeitos estavam cravados de emoções que pulsavam ou recuavam na medida em que falavam ou suspendiam o verbo, nos envolvendo em um silêncio, como se esse fosse um pacto daqueles que estavam presentes naqueles encontros.
Portelli (1997, p.16), ao localizar a história oral como uma metodologia que opera entre versões do passado, afirma:
A memória é um processo individual, que ocorre em um meio social dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados. Em vista disso, as recordações podem ser semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como as impressões digitais, ou, a bem da verdade, como as vozes – exatamente iguais.
Portanto, ao contrário do que possa parecer, essas narrativas não se encaixam como peças de um quebra-cabeça. Elas também apresentam lacunas, fissuras e questionam as impressões que podem sugerir uma ordem ou lógica. Isso porque estamos tratando de lembranças e, ao considerarmos a função de lembrar na vida desses sujeitos, é possível perceber que esses desencontros, longe de ser uma confusão do passado, buscam um sentido para explicá-lo. Conforme nos chama a atenção Rousso (2006, p.94), “a memória, no sentido básico do termo, é a presença do passado”.
São marcas que o presente vai encontrar e, ao trabalhá-las, trazê-las revestidas de significações. Essa condição da memória fica evidente quando D. Maria, ao trabalhar suas memórias, afirma: “é história, coisa de pequeno a gente marca assim”. É a partir dessas marcas que operamos, pois trabalhar com lembranças de indivíduos também implica, de nossa
parte, fazer escolhas, construir leituras a partir das significações que nossos entrevistados deram ao passado.
Ao destacarmos a leitura de Sr. Abílio acerca de suas experiências religiosas no passado, no momento em que ele evoca suas lembranças sobre a festa de nossa Senhora do Rosário e diz: “Era lindo sabe... E ali era coisa muito respeitada”51, estamos considerando suas leituras sobre esse passado, somado ao sentido atribuído por ele e os códigos de convivência presentes em sua fala.
Ao trazermos ao centro de nossas análises narrativas que procuraram explicar a cidade e o passado, levando à tona suas experiências religiosas, relações de vizinhança, o trabalho e suas sociabilidades, estamos buscando discutir a forma como Guaramirim e as relações de poder e tensão aparecem nas leituras elaboradas por esses indivíduos.
Ao retomarmos a evocação de D. Elsa sobre o silêncio presente entre os moradores da cidade que não falavam ou criticavam abertamente a maneira como o pároco católico tratava seus fiéis, podemos perceber que há um trânsito e uma negociação entre a percepção, a ciência e a aceitação destes códigos. Sobre esse silêncio revela D. Elsa: “Pro meu lado ele era
bom, agora pros outros já não sei, porque a gente não conversava sobre essas coisas”52. Depreende-se da fala de D. Elsa duas condições: a primeira é seu enquadramento em relação a esses códigos, e a segunda o poder e o controle exercido por Pe. Mathias.
Podemos encontrar referências a esses códigos, mecanismos legitimadores de poder e controle exercidos por Pe. Mathias na fala de Sr. Angelo, que ao tratar da ida não consentida aos bailes fala: “[...] porque se ele [Pe. Mathias] descobrisse depois ele pegava na rua por
aí”53. O púlpito, a sacristia e a rua eram espaços comuns, onde o poder exercido por Pe. Mathias circulava livremente.
A maneira como esses sujeitos produziram dizibilidades e visibilizaram Pe. Mathias nos inquietou. Afinal, quem era esse padre e por que ele tinha tanto poder?
Tentar responder à questão nos parece uma tarefa singularmente complexa, porque não estamos tentando entender quem era Pe. Mathias, mas porque esse pároco aparece nas narrativas de nossos entrevistados de maneira tão peculiar e plural.
Ao tratar da liderança de Pe. Mathias, seus princípios e valores, o Sr. Francisco Schork destaca: “quando há um líder que é coerente, honesto e dedicado, ninguém se nega a
51 BORBA; BORBA, op. cit. 52 RIBEIRO, op. cit.
contribuir e ninguém nunca se negou a contribuir”54. Certamente o que levou as pessoas a não se negarem a contribuir não foi só sua liderança, honestidade e dedicação, mas principalmente a operatividade de sua pedagogia da fé.
Há pessoas, lembranças e situações que contestam a coerência de Pe. Mathias. Seu envolvimento em conflitos e disputas de poder também deixaram marcas. Esses distanciamentos, estranhamentos e sua aproximação com o campo político serão discutidos mais detidamente no próximo capítulo.
4 CAPÍTULO III – UM NOVO PASTOR PARA CONDUZIR UM NOVO REBANHO
A religião serve, assim, para manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem nas suas vidas cotidianas. Seu poder de legitimidade tem, contudo, outra importante dimensão – a integração em um nomos compreensivo precisamente daquelas situações marginais em que a realidade da vida cotidiana é posta em dúvida”. (BERGER, 1985, p.55)