Outra contextualização necessária é situar Junho de 2013 no âmbito da série de manifestações que ocorreram a partir do início da segunda década do século XXI em diversos lugares do globo terrestre.
Muitos escritos foram lavrados esboçando um quadro comparativo de Junho de 2013 com os diversos movimentos que pipocaram em diferente países e que marcaram um novo ciclo de lutas antissistêmicas com características específicas comuns a todas elas, mesmo com ressaltadas especificidades. Dentre estas obras se destacam o livro de Manuel Castells
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“Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet” e “Nas ruas: a outra política que emergiu em Junho de 2013” de Rudá Ricci e Patrick Arley, que embasaram a maior parte deste subcapitulo.
Na análise de Ruda Ricci e Patrick Arley, introduz o capítulo nominado sugestivamente por “As ruas, pelo mundo, inauguram o século XXI”, assim:
As mobilização sociais que tiveram início em junho de 2010 no Egito, em toda a Primavera Árabe, dos indignados da Espanha e Occupy no EUA (em 2011), ou mesmo as que desencadearam o maior impacto na institucionalidade pública vigente, a da Islândia, em 2008, tiveram pontos em comum, em meio a tantas peculiaridades. (RICCI & ARLEY, 2014, p. 81)
Pode-se considerar como algumas destas características comuns: 1) estruturação dos movimentos em redes sociais da Internet; 2) protagonismo da juventude; 3) sentimento de indignação como fator subjetivo determinante; 4) resistência à repressão policial como motivadora da adesão popular aos protestos; 5) ocupação dos espaços públicos (praças e ruas) como principal estratégia de mobilização; 6) fragmentação e multiplicidade das reivindicações dos movimentos; e 7) adoção de estruturas organizativas autônomas e horizontalizadas.
No prefácio de sua obra Manuel Castells escreve que os movimentos começaram “nas redes sociais da internet, já que estas são espaços de autonomia, muito além do controle dos governos e empresas – que, ao logo da história, haviam monopolizado os canais de comunicação como alicerces de poder”, para completar a seguir que “os movimentos espalharam-se por contágio num mundo ligado pela internet sem fio e caracterizado pela difusão rápida, e viral, de imagens e ideias” (CASTELLS, 2013, p. 8). O papel central das redes sociais é o enfoque principal do autor, sendo irrefutável que atualmente o chamado ciberespaço cada vez mais torna-se o centro de discussão e organização de uma nova forma de se construir politicamente estes movimentos.
Em relação ao protagonismo juvenil, dentre os pontos acima referidos comuns a todos os movimentos emergidos no início da segunda década deste século, o exemplo mais emblemático foi sem dúvida o desdobramento das
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revoltas dos indignados espanhóis em Portugal, que ficou conhecido como “geração a rasca”, destacando justamente o conflito geracional que envolve o precariado português constituído, como em grande parte da Europa, de jovens altamente escolarizados. O movimento foi inspirado em uma canção do grupo musical Deolinda, intitulado “Parva que eu sou” que retrata a situação da juventude portuguesa:
Sou da geração sem remuneração E nem me incomoda esta condição. Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar, Já é uma sorte eu poder estagiar. Que parva que eu sou!
E fico a pensar, Que mundo tão parvo
Que para ser escravo é preciso estudar. Sou da geração 'casinha dos pais', Se já tenho tudo, para quê querer mais? Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar E ainda me falta o carro pagar, Que parva que eu sou!
E fico a pensar Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar. Sou da geração 'vou queixar-me para quê?' Há alguém bem pior do que eu na TV. Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!' Que esta situação dura há tempo demais E parva não sou!
E fico a pensar, Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
A violência das forças de repressão, em grau de intensidade variado, foi a tônica dos protestos globalizados, o que correspondeu ao aumento da solidariedade popular aos eventos. Infelizmente, no Brasil em Junho de 2013 e nos meses seguintes, foram registradas vítimas fatais em decorrência direta ou indireta da repressão policial aos manifestantes: em 17 de junho, em Ribeirão Preto o estudante Marcos Delefrate, 18, foi atropelado quando participava dos protestos; no dia 20 de junho, a gari Cleonice Vieira de Moraes, de 51 anos, estava trabalhando próximo do locais das manifestações, quando foi atingida por uma bomba de efeito moral, vindo a falecer vítima de um infarto fulminante
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causado pela tensão; no mesmo dia, o ator Fernando da Silva Cândido participou de uma manifestação no Rio de Janeiro, morreu vítima de infecção pulmonar grave após inalar gás das bombas de efeito moral; no dia 22 de junho, em Belo Horizonte, Douglas Henrique de Oliveira Souza caiu de um viaduto, ficando internado por cinco dias antes de falecer; na mesma data Luiz Felipe Aniceto de Almeida, 22 anos, também caiu do mesmo viaduto e morreu no dia 12 de julho (MASCARANHAS, 24 fev 2014).
Manuel Castells constrói um raciocínio onde situa e conecta o sentimento de indignação com o conceito de horizontalidade e de autonomia que vão marcar todos os movimentos a partir de 2011:
A passagem da indignação à esperança realiza-se por deliberação no espaço da autonomia. As tomadas de decisão em geral ocorrem em assembleias e em comitês por elas designados. Na verdade, trata-se de movimentos sem liderança, não pela falta de líderes em potencial, mas pela profunda e espontânea desconfiança da maioria dos participantes do movimento em relação a qualquer forma de delegação de poder. Esta característica essencial dos movimentos observados resulta diretamente de uma de suas causas: a rejeição dos representantes políticos pelos representados, depois que se sentiram traídos e manipulados em sua experiência com a política instituída. (CASTELLS, 2013, p. 162).
Também a própria pluralidade de reivindicações que surgem destes processos decorre da concepção organizativa horizontal pois decorrem do caráter catártico dos movimentos, onde as múltiplas demandas dos diversos atores envolvidos são incorporadas ao rol de reivindicações (quando formalizadas!) dos movimentos.
Apesar da relevância das redes sociais na articulação e organização dos movimentos a sua materialização se deu através da tomada das ruas e outros espaços públicos pelos manifestantes.
Em maio de 2013, iniciou-se quase que concomitantemente com Junho
de 2013 os protestos na Turquia, que começou como
um protesto ambiental pacífico contra a demolição do Parque Taksim Gezi. Os protestos converteram-se em distúrbios quando um grupo de manifestantes que ocupava o parque foi atacado pela polícia. Desde então, o tema dos protestos ampliou-se para além da demolição do parque, tornando-se em
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manifestações antigovernamentais mais amplas com cerca de 2,5 milhões de pessoas.
A similitude com Junho de 2013 e o movimento turco não se limitam apenas a coincidência do período em que se realizaram, mas também o fato de que o estopim de ambos foi uma questão relacionada com o cotidiano dos manifestantes nas maiores cidades dos respectivos países. A luta pelo direito à cidade foi o elemento inicial que motivou os protestos sendo que este elemento será problematizado no segundo capítulo da presente tese.