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As ruas das cidades brasileiras foram o grande palco de Junho de 2013! mas não só isso...

Algumas grandes ruas e avenidas das metrópoles brasileiras se transformaram em símbolos dos protestos e replicaram nas imagens das gigantescas aglomerações de manifestantes nas redes sociais da Internet, bem como nas capas dos principais periódicos, bem como ganharam uma notoriedade ainda maior nos meios de comunicação televisa. As avenidas Paulista em São Paulo e Presidente Vargas no Rio de Janeiro tomadas pela multidão é o retrato mais representativo de Junho de 2013.

Na verdade as mobilizações de rua não foram inventadas em Junho de 2013. As manifestações de massa com magnitude semelhante a Junho de 2013 que ocorreram no Brasil, o movimento das Diretas Já! que iniciou-se em maio de 1983 e durou quase todo o ano de 1984 e o Movimento pelo Impeachment de Collor, conhecido como Movimento dos Caras Pintadas, também foram marcadas pela presença de centenas de milhares de pessoas nas ruas e praças das principais cidades brasileiras, em 1992.

No entanto, naqueles movimentos de massa ocorridos nos últimos vinte anos do século passado, as passeatas pelas ruas das cidades geralmente precediam um grande comício ou concentração que ocorria em uma praça, e que na realidade era considerado o principal ato do evento. A violência policial

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que marcou em diferente graus de repressão os protestos de Junho de 2013 era exceção nestes atos massivos.

Em Junho de 2013 a confrontação a ordem estabelecida foi a grande marca do movimento. Tomar as ruas passou a ser uma estratégia e ao mesmo tempo a principal tática de mobilização dos movimentos, em especial o MPL, como foi salientado no capítulo anterior da tese.

ILUSTRAÇÃO 6 - Manifestação na Av. Paulista em São Paulo

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O Movimento Passe Livre, assina artigo onde explica a sua estratégia de “retomada do espaço urbano” bem como o seu método de organização dos atos pelos manifestantes:

A cidade é usada como arma para sua própria retomada: sabendo que o bloqueio de um mero cruzamento compromete toda a circulação, a população lança contra si mesma o sistema de transporte caótico das metrópoles, que prioriza o transporte individual e as deixa à beira de um colapso. Nesse processo, as pessoas assumem coletivamente as rédeas da organização de seu próprio cotidiano. É assim, na ação direta da população sobre sua vida – e não a portas fechadas, nos conselhos municipais engenhosamente instituídos pelas prefeituras ou em qualquer uma das outras artimanhas institucionais –, que se dá a verdadeira gestão popular. Foi precisamente isso que aconteceu em São Paulo quando, em junho de 2013, o povo, tomando as ruas, trouxe para si a gestão da política tarifária do município e revogou o decreto do prefeito que aumentava a passagem em vinte centavos. (MARICATO et al., 2013, p. 14)

Vale destacar que está tática de tomar as ruas, impedindo o fluxo de pessoas e veículos é articulada espacialmente em um tempo apropriado e que a potencializa: o “rush” ou “hora de pico” das grandes cidades. Como vai ser aprofundado a seguir neste capitulo a mobilidade urbana nas metrópoles e grandes cidades brasileiras representa um dos ingredientes mais explosivos na chamada questão urbana. O tempo diário que um trabalhador, morador no subúrbio ou nas cidades dormitórios das regiões metropolitanas, dispensa no itinerário moradia-trabalho-moradia chega a oito horas nos casos mais extremos. E esta situação não atinge apenas os moradores da periferia que se utilizam do transporte coletivo urbano, mas também os usuários de veículos individuais, especialmente os automóveis, que neste horário em especial se veem presos nos cada vez maiores engarrafamentos que não apenas afligem as capitais mas como as cidades médias brasileiras.

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ILUSTRAÇÃO 7 - Manifestação na Av. Presidente Vargas/RJ

Avenida Presidente Vargas, RJ.

Esta centralidade do que o MPL denominou “retomada do espaço urbano” será analisada neste capítulo desta tese. Mas além da questão urbana que ocupa este papel central da análise de Junho de 2013, outro elemento de natureza política, ajuda a entender a indagação sobre o porquê da rua ter assumido este protagonismo nas lutas sociais desenvolvidas globalmente neste novo século. Esta questão é de natureza iminentemente política e diz respeito a grave crise que atravessa a política institucional, não só no Brasil como em outras partes do mundo, onde as manifestações de massa questionaram as práticas políticas, mesmo em países com tradição de democracia consolidada, como Estados Unidos, Espanha e Islândia.

O cientista político Marco Aurélio Nogueira em seu livro “As ruas e democracia” salientam que “as vozes das ruas” em Junho de 2013 refletiram o cansaço da sociedade brasileira em relação ao modo que se exerce a política no país. A análise realizada pelo autor afirma que a partir do processo de redemocratização brasileira, a reação da classe política em relação a crise vivida com a eleição de Collor de Mello pelo voto popular em 1989, representando naquele momento a “negação da política” e culminando com o

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seu impedimento em 1992. Se seguiu então a reação das elites políticas que repercutiu no fortalecimento do sistema corporativo baseado no regime presidencialista sustentado por grandes coalizões parlamentares. Evidentemente que neste contexto foi inevitável uma crise política de grande magnitude que o autor explica desta forma:

A corrupção, as operações de compra-e-venda de apoios políticos, os desvios de verbas públicas, as condutas pessoais, incompatíveis com a esperada dignidade dos mandatos políticos cresceram de forma assustadora, desqualificando a democracia e agravando a crise de confiança política. (...) Passou a produzir inúmeros problemas e nenhuma solução, acorrentado a um tempo pretérito, ao passo que a sociedade avança pelas ondas líquidas e digitais da vida hipermoderna. (NOGUEIRA, 2013, fls. 33)

O historiador Felipe Demier em um artigo publicado no JunhoBlog, descreve este sentimento de desaprovação às práticas políticas institucionalizadas:

Estando os canais institucionais do regime praticamente fechados às demandas populares de cariz reformista, as mobilizações de rua se apresentaram, provavelmente, como a única opção para aqueles descontentes com a impossibilidade de usufruir, na prática, os direitos sociais fixados em lei. Assim, a repentina e surpreendente opção das massas por tomar as ruas pode ser compreendida mais como uma expressão da eliminação das mediações (representações) políticas reformistas no interior do próprio regime (e aqui a viragem do Partido dos Trabalhadores – PT – é o aspecto decisivo) do que como obra de uma suposta subjetividade política radical alcançada pelos setores populares. (...) Os protestos se iniciaram do modo como até então vinham se apresentando os reclamos populares ao longo dos aproximadamente vinte e cinco anos de refluxo do movimento de massas: atos realizados por setores de vanguarda, uma habitual repressão policial e o sórdido silêncio por parte da grande imprensa, uma das principais instituições auxiliares do regime democrático- blindado – convém apontar. (DEMIER, 2015)

Estes dois aspectos, a insatisfação com o sistema de representação política e a adoção de uma estratégia de mobilização que prioriza a tomada das ruas pelos manifestantes, estão imbricados em um sentimento marcante de indignação política latente e a explosão massiva das multidões que vivenciam as condições de precariedade econômica e social nas grandes cidades brasileiras.

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