Atualmente, existem diferentes concepções e configurações de família. Segundo Silva (2007, p. 57), “[...] a família é uma das mais antigas instituições sociais, sendo talvez, a que mais caracteriza a vida em sociedade. Ela é formada por um complexo sistema de relações entre seus membros, composto pelos cônjuges, filhos e parentes mais próximos”. A família torna-se um campo privilegiado, ao se pensar na relação entre o individual e o coletivo; cada família constrói sua própria história, em uma cultura, simbolicamente, e suas histórias exprimem a sua marca, traduzida em mitos familiares; a família tem uma função de dar sentido às relações e é um espaço de experiências vividas (SARTI, 2004).
Entretanto, há de se dizer que as transformações sociais ocorridas nas últimas décadas redefiniram arranjos familiares inovados e diversificados, apesar de permanecer ainda a forma de organização nuclear. A afirmação da individualidade pode sintetizar o sentido de tais mudanças, com implicações nas relações familiares. As transformações na composição familiar, nas relações de parentesco, ocasionam impactos na construção da identidade de cada componente no interior da família, redefinindo os papéis de cada membro do grupo. A família continua sendo espaço para a formação e construção de identidades e espaço privilegiado de socialização, de construção da iniciação dos afetos e de todo aprendizado que essas proximidades afetivas podem trazer a seus componentes. A mulher, por exemplo, passou a assumir papéis que, anteriormente, eram de exclusividade dos homens; há também o número reduzido de filhos. As pessoas estão em processo de transformação, no sentido da forma de pensar, nos questionamentos, na maneira de viver nesse mundo em processo de mudança. (OLIVEIRA, 2009).
Tais arranjos diversificados podem variar em combinações de diversas naturezas, seja na composição ou também nas relações familiares estabelecidas. A composição pode variar em uniões consensuais de parceiros separados ou divorciados; uniões de pessoas do mesmo sexo; uniões de pessoas com filhos de outros casamentos; mães sozinhas com seus filhos, sendo cada um de um pai diferente; pais sozinhos com seus filhos; avós com os netos; e uma infinidade de formas a serem definidas, colocando-nos diante de uma nova família diferenciada do clássico modelo de família nuclear (OLIVEIRA, 2009, p.68).
É preciso considerar a questão histórica ao falar da família, que não se encontra dissociada das eventualidades do cotidiano, como também compreender as escolhas que definem um ou outro no pensar ou no vivenciar a maneira de ser família na sociedade contemporânea. Muitas famílias podem ter organização muito parecida, todavia os modos de
relacionamento são diferentes. Nesse sentido, atribui-se às questões socioculturais a intensa desigualdade social evidenciada no País. Não há um modelo adequado de família, cada uma tem suas experiências sociais e culturais. As famílias brasileiras são, em sua maioria, aquelas que possuem meios escassos de sobrevivência e precisam de melhorias em suas condições de vida (OLIVEIRA, 2009).
Cada família é um sistema com suas próprias regras, limites e formas de atuação. Cada uma tem uma forma idiossincrática de abordar os problemas que surgem em seu seio, e todas passam por momentos evolutivos diferentes, nos quais variam, tanto a sua estrutura, funcionamento e estabilidade, como sua capacidade para adaptar-se às mudanças inerentes à sua condição de sistema aberto (SOLÉ, 2001, p. 220).
Há de se ressaltar que as novas organizações familiares exigem a construção de novos papéis e de outros modelos de aprendizagem e implicações de ordem emocional e social para o sujeito, principalmente quando há filhos, crianças ou adolescentes.
A importância fundamental da família para o jovem está precisamente nessa possibilidade de manter o eixo de referências simbólicas que a família representa, como lugar de apego, de segurança, como rede de proteção, mas que nesse momento - mais radicalmente, ainda, do que em outros do ciclo de vida familiar - precisa abrir espaço para o outro, justamente para continuar a ser ponto de referência (SARTI, 2004, p. 124).
Apesar da complexidade das relações familiares, os novos arranjos não são, necessariamente, desencadeadores de conflitos pelas convivências com outros membros antes externos a ela, pois a entrada de um novo sujeito no grupo, como no caso de madrastas ou padrastos, não significa que vai haver conflitos, o que vai depender da plasticidade das relações no novo núcleo familiar. Se bem que a família facilitadora do crescimento emocional e promotora de saúde não é aquela com ausência total de conflitos, embora os aspectos relacionados ao bem-estar psicológico do adolescente sofram, de forma preponderante, influências das diversas situações que ele vivencia em sua família. Assim, o diálogo é que vai indicar uma boa convivência nos lares; pode-se constatar que não existe diferença significativa entre o nível de bem-estar dos adolescentes de família original e de famílias reconstituídas. Mesmo com significativas mudanças na composição familiar, a sua função de apoio, proteção e responsabilidade com seus membros ainda se mantém inalterada (WAGNER et a l, 1999).
O que mudou foi o conceito de família e a ritualização do tempo - a unidade nuclear dos tempos modernos é menos comunitária e mais individualizada; com isso, grande parte do tempo familiar é gasto em atividades que isolam seus membros, como a televisão, a Internet, os vídeos-games e outros. Por
outro lado, outras características de mudanças familiares merecem destaque: aumento da expectativa de vida; espaço onde pais e filhos adultos convivem durante mais tempo; os filhos contando com a ajuda dos pais durante um tempo prolongado; extensão do período da adolescência e o maior número de recasamentos gerando a convivência com padrastos, madrastas, enteados, ou, em muitos casos, com avós (IGNÁCIO; GONÇALVES, 2003, p. 35). Ao falar de famílias com filhos estudantes, infere-se que a família é a primeira instância, agente educativo e socializador, representa o refúgio emocional diante das exigências impostas pelo mundo externo, mas essa função é compartilhada com a escola. Família e escola devem estar em constante colaboração; mas deve haver clareza na função de cada uma dessas instâncias educativas.
A observação pertinente é que as instituições escolares precisam realizar um trabalho sistemático com a família, de modo a fazer os encaminhamentos corretos, as intervenções necessárias, os registros e as avaliações. Assim, é possível favorecer a oportunidade de realizar atividades que estimulem a família a atuar efetivamente junto aos educandos para trabalhar o seu desenvolvimento e evitar que comecem a apresentar dificuldades no aprender.
A escola necessita de ter um cuidado ao investigar as causas dos problemas no aprender, especialmente quando estende essa procura para a esfera familiar e, antes, desenvolver estudos sobre os novos arranjos que estão surgindo na sociedade, de modo a considerar desajustes provindos das novas formações familiares que podem provocar conflitos para a aprendizagem; assim, os profissionais da instituição precisam desenvolver ações pedagógicas concernentes.
Cabe à escola uma compreensão maior dos desarranjos que se podem encontrar nos meios familiares e programar ações no sentido de produzir práticas pedagógicas de inclusão de alunos que passam por circunstâncias difíceis, como precariedade econômica, falta de recursos materiais escolares, conflitos emocionais, o que leva a certa descrença quanto aos estudos, tanto por parte do aluno, quanto dos seus pais, colocando a escolarização em segundo plano. Um exemplo disso é a preferência e/ou necessidade de inserção no trabalho precoce, para contribuir nos aspectos financeiros, o que provoca a baixa produção na escola e desistência dos estudos. Observa-se que, no período da adolescência, quando os alunos estão no Ensino Médio, a procura pela inserção no mercado de trabalho é mais evidente, pois os jovens têm suas necessidades financeiras, às vezes a família não consegue cumprir todos os desejos dos filhos, o que os leva à entrada precoce em alguma profissão, interferindo negativamente no rendimento escolar. Outras vezes, eles trabalham para ajudar a própria família nos gastos domésticos.
Silva (2007), em suas investigações, percebeu que a vida cotidiana de parte dos estudantes está organizada em função de soluções de problemas imediatos, como, por exemplo, o trabalho prévio ou atividades domésticas em casa, o que pode resultar em embaraços no desempenho escolar. Entre os problemas encontrados para dificultar o sucesso escolar dos estudantes, encontram-se a falta de expectativa da família e do próprio filho em alcançar níveis de escolaridade mais altos; a falta de sentido dado à escola, em se tratando dos benefícios futuros referentes à inserção no trabalho; importância a outras atividades, como esportivas em detrimento a escolar; atribuição à incapacidade de aprender conferida pela escola e impregnada pelos familiares; pouca eficiência da escola em auxiliar as famílias cotidianamente.
Fenelon (2007) expõe sobre a família como um lugar de construção histórico-social, sendo assim, ambiente das aprendizagens durante a vida; desse modo pode interferir também nas dificuldades que surgem. Por esse motivo, é cabível inserir em atendimentos pedagógicos ou psicopedagógicos os familiares que convivem direta ou indiretamente com o sujeito em situação de fracasso escolar e estar atento às experiências vividas nesse conjunto, como expectativas, ditos e não ditos, desejos, necessidades e segredos.
Muitas vezes, os integrantes da família compartilham segredos, ou mesmo os escondem uns dos outros, ou os ocultam parcialmente e, consequentemente, a omissão do que não pode ser dito traz inibições cognitivas ocasionadas por processos emocionais vivenciados diariamente. Esses conflitos no contexto familiar podem ser rompidos por meio do diálogo proposto em intervenções de ordem psicopedagógica no seio familiar, em que se estabelecerão as conversas entre os membros. Os transtornos recorrentes dos desequilíbrios de ordem emocional, assim, diminuirão e, concomitantemente, serão configuradas trocas positivas que resultam em aprendizado mútuo de todos do grupo nas aquisições diárias, sejam instrutivas, culturais ou educacionais.
O que não pode ser verbalizado é fonte permanente de conflito psíquico. Este aspecto é particularmente importante, pois a impossibilidade de verbalização coloca o sujeito em um lugar de impossibilidade. O que não pode ser dito é certamente fonte de angústia e vai se constituir, certamente, em um sintoma. O não dito é o que está de alguma forma interditado dentro da lógica familiar. O fazer falar é acessar essa lógica familiar. É compreender lhe não só o sintoma, mas, antes de tudo, o modo de funcionamento que produz o sintoma (COSTA; SANTOS, 2003, p. 32). O estudo das possíveis causas das dificuldades para o aprendizado pode e deve ser realizado com uma base psicopedagógica, em um entendimento da dinâmica familiar, para depois proceder-se a uma intervenção, considerando todos os aspectos que cerceiam cada
integrante familiar. O pedagogo pode delinear uma linha interventiva com foco nos estímulos daquilo que seja necessário para o provimento do aprendizado. As estimulações dentro do contexto familiar contribuem para a superação das dificuldades escolares do estudante. A família pode ser uma aliada na organização de condutas dos escolares e, portanto, reduzir o acolhimento excessivo que ocasiona a uma repulsa às situações novas, como a inserção em turmas, com disciplinas diferentes e troca de professores e outros; ou apresentando mais proximidade com as questões escolares dos filhos, pois alguns familiares demonstram certo desleixo no acompanhamento do aprendizado deles.
Fichtner (1987) comenta sobre dois tipos de famílias que podem ser prejudiciais para o desenvolvimento dos escolares: o primeiro tipo é o da família rígida com pais perfeccionistas, com alto índice de expectativa sobre o rendimento do filho, o que provoca no estudante demasiada ansiedade e leva ao bloqueio no aprendizado; e o segundo, das famílias desorganizadas, com pais ausentes e filhos muito independentes, o qual faz com que o estudante não se responsabilize pelos estudos e os pais não participem e nem orientem a Educação escolar do educando. A família, então, pode tornar-se um fator de fracasso e de desadaptação escolar, precisando de apoio na condução dos estudos dos filhos.
Adverte-se que um equilíbrio dos pais no trato com os filhos em relação aos estudos deve ser uma premissa: não serem rígidos demais, mas ser, de certa forma, sistematizados e organizados, com ações de maneira a encorajá-los na busca pela compreensão do que lhes é posto, dar crédito pelos ganhos que conseguem e ter entendimento sobre aquilo em que não se obteve êxito. Nesse sentido, a ação psicopedagógica busca orientar a família para o alcance do equilíbrio necessário.
Além disso, aponta-se que os aspectos que interferem na aprendizagem não dizem respeito somente a famílias rígidas, omissas ou dispersas. Fichtner (1987) diz que pais permissivos e altamente protetores não colaboram para o sucesso escolar dos filhos. A falta de limites dos familiares e a dependência excessiva evidenciada pelos filhos atrapalham o processo de autonomia e limitam-nos a vivenciar experiências sociais, culturais, o que aumenta as dificuldades escolares; os sujeitos “[...] tendem a apresentar precário desejo de autonomia, diminuição da capacidade para solucionar problemas, escassa criatividade e um certo grau de inibição das funções cognitivas” (FICHTNER, 1987, p. 63).
Segundo Milicic (1987), um dos motivos pelos quais o sujeito não possui bom rendimento pode ser a inserção em um sistema disfuncional familiar10, e porquanto se faz necessário diagnosticar qual o problema enfrentado. Assim, orienta-se a família levando se em conta o suporte afetivo de que o filho necessita para vencer as barreiras de dificuldades. Se a família é disfuncional, tratar-se-á de estabelecer orientações com base em comprometimentos dos responsáveis com a vida escolar dos seus filhos, com alternativas para resolver os conflitos viventes. Trabalha-se despertando a coesão familiar, a aceitação da dificuldade que o filho apresenta e o suporte emocional. A autora também revela pontos favoráveis para uma intervenção familiar: evitar enclausurar o sujeito em aprendizagem, não depositando as possibilidades porvir; não rotular, impedindo assim estigmas e discriminação, mas elencar os pontos positivos dos aprendentes aos seus pais; e realizar a autoavaliação do escolar.
Não pode haver empecilhos para as ações pedagógicas ao se referir à participação dos pais; o papel da escola é de desenvolver as práticas e valorizar suas intervenções, mesmo se o quantitativo de pais não é o almejado. A escola, ou seja, a equipe escolar, precisa compreender que quanto mais essas intervenções alcançarem o público pela ação prazerosa feita com aqueles que se dispuserem a ir até a instituição e discutir sobre a vida escolar dos seus filhos, maior será a quantidade de pais buscando essa relação com a escola. O grau de alcance aumentará significativa e proporcionalmente à satisfação adquirida pelo público participante.
Silva (2007) aponta uma consideração fundamental, a escola é a instituição mais adequada para dar início a uma ação conjunta; a começar pelo reconhecimento dos desejos e necessidades da comunidade na construção do Projeto Pedagógico.
Conclui-se que o educador, com os conhecimentos da Psicopedagogia, tem a competência de realizar intervenções nos espaços escolares, ser mediador junto às famílias dos alunos que apresentam conflitos na aprendizagem. É essa função na instituição que cada profissional pode desempenhar; toda a comunidade escolar deve refletir a respeito da sua contribuição, para que se efetive um trabalho norteador, transformador, desejando a emancipação do sujeito e que ele possa ser percebido, valorizado e compreendido como integrante das relações sociais e transformador do seu tempo. Buscar essa parceira da família
10A família disfuncional não permite maturidade suficiente à criança para conseguir bom desempenho acadêmico. Impõe castigos, retiram afetos, desvaloriza a criança que não tem o sucesso escolar devido (MILICIC, 1987).
e produzir diálogos com ela é um bom começo para minimizar os impasses de rendimentos insatisfatórios.
Uma reflexão urgente a fazer é pensar que cada nível de ensino tem suas peculiaridades, finalidades, identidades e necessita de uma organização didática e de apoio educacional junto ao aluno e sua família, a fim de responder as suas demandas. Nessa ótica, serão possíveis o enfrentamento e a superação do fracasso escolar, especialmente quando se fala do Ensino Médio.