Vejamos as diferenças entre os questionamentos feitos pelos alunos no primeiro e no debates:
4.2.1 Perguntas que repetem o tema
Todas as perguntas transcritas a seguir apresentam em comum o fato de repetirem o tema. Os alunos que as formulam simplesmente perguntam por que seu debatedor defende tal tese (contrária ou favorável ao policiamento escolar).
Quadro 11 – Perguntas que repetem o tema
primeira PRODUÇÃO segunda PRODUÇÃO
Exemplo 01
J: eu quero saber se/pra vocês’ pra AP’ que ela é a única menina’ por que você é contra a Polícia aqui na escola, que você é a única menina né” tá no grupo aí,
Exemplo 02
R: é: pro que pra vocês do grupo que não é a favô não é necessário havê assim a presença do (policial) na escola”
Exemplo 03
JP: por que vocês apoiam a Polícia na escola”
Exemplo 04
JG: assim’ o porquê que vocês assim querem tanto a Polícia na escola”
Exemplo 05
MA: ((sorri)) vamo lá’ por que vocês acham que o poli/ que o policial na escola não vai melhorá” (3) por que vocês acham que o policial aqui na escola não vai não vai melhorá”
Exemplo 06
E: vamo lá’ mas vocês gostam de Polícia mesmo por que na escola” pronto perguntei,
Exemplo 07
E: vou pergunta, por que vocês acham que esse assunto a polícia na escola gera tanta polêmica”
Fonte: Elaborado pela autora (2018).
Do primeiro para o debate, o que se percebeu foi uma diminuição da ocorrência desse tipo de questionamento e, por sua vez, como se verá na tabela a seguir, um aumento no número de indagações que trazem em si um argumento. Assim, comparando-se a primeira e a segunda produções, vê-se uma melhora na qualidade dos questionamentos elaborados, com uma tendência a extrapolar o tema.
4.2.2 Perguntas que apresentam argumentos
Neste tópico, estão agrupadas as perguntas popularmente conhecidas como “tendenciosas”, que revelam o posicionamento de quem as formula, trazendo subentendida a tese que seus debatedores defendem.
Quadro 12 – Perguntas que apresentam argumentos
primeira produção segunda produção
Exemplo 08
A: ((lendo algo escrito no caderno)) a gente sente mais falta: de policiamento: ou de mais/uma educação de qualidade”
Exemplo 09
C: quem diz que o menó infratô’ que tem alguma coisa cum cum a Polícia’ passo por por ficha criminal’ num venha a se intimidá com a Polícia dentro da escola” se ele vem busca um novo caminho pra ele” ele num pode se senti é:: como se diz” intimidado” ((silêncio entre os alunos))
Exemplo 10
((lendo uma anotação em um caderno)) vocês acham que é certo a falta da Polícia na escola com tanta violência’ no mundo e nas escolas”
Exemplo 11
M: ((lendo um papel)) qual a opinião de vocês sobre o poli/ os policiais andarem com arma em punho nos arredores da escola”
Exemplo 12
A: eu gostaria de sabe eh:: se (+) um argumento bom assim pra dizê os policial tem vez que não (incompreensível) a abordagem de fora vai consegui dento de uma escola”
Exemplo 13
AL: vocês acham o policiamento na escola totalmente seguro para todos”
Exemplo 14
B:vocês não achariam que seria um desconforto pros
alunos um policial armado ali no pátio
(incompreensível) ô em qualqué lugá a gente tê::/ dá nossas opiniões’ conversá com os amigos’ ia ficá um clima tenso’ vocês acham mesmo ô”
Fonte: Elaborado pela autora (2018).
Observa-se uma maior ocorrência desse tipo de questionamento no segundo debate. Neste, das dez perguntas formuladas, cinco são desse tipo, enquanto no primeido debate, esse tipo de pertunta só foi usado duas vezes.
O exemplo 08 provoca os interlocutores tentanto estabelecer uma incompatibilidade entre “policiamento” e “educação de qualidade”. O debatedor busca a adesão de seu auditório, composto de estudantes, apelando para uma incompatibilidade que acredita ou tenta fazer acreditar que existe. Assim, entre o policiamento e uma educação de qualidade, seus interlocutores optariam por esta.
Já o exemplo 09 traz uma pergunta provocativa, em que o debatedor faz referência a um caso específico – o do aluno menor infrator – numa situação de policiamento dentro da escola. Assim, com essa pergunta, o aluno C tenta mostrar como seria constrangedor para um aluno que já esteve em conflito com a lei ter de conviver com policiais no ambiente escolar.
O exemplo 10, por sua vez, tenta levar o auditório a refletir sobre a necessidade de policiamento dentro da escola diante de um contexto de violência bem maior no ambiente
extraescolar. Assim, o auditório é questionado se não seria mais necessário o policiamento em outros lugares da cidade em detrimento da escola.
O exemplo 11 tenta construir uma imagem chocante: a de policiais com arma em punho nos arredores da escola. O intuito do debatedor é o de persuadir seu auditório a rejeitar a ideia da presença da Polícia na escola, apelando para a emoção do seu público. O aluno traz para o debate um exemplo usado no texto do anexo C, “Proteção escolar”: “Resumir o debate ao ato de o policial estar armado entre as crianças é, no mínimo, irresponsável”. Esse texto foi lido no segundo e no terceiro momentos da Apresentação da Situação (quadro 2). Vale salientar, no entanto, que esse exemplo foi citado pelo articulista para defender o posicionamento que M quer refutar.
O exemplo 12, tal como os anteriores, traz uma pergunta tendenciosa: o debatedor A questiona como o policial vai conseguir fazer uma abordagem dentro da escola se não consegue fazê-la fora. Assim ele trata com simetria duas situações diferentes – a do policiamento dentro dos muros da escola e fora deles.
No exemplo 13, ao empregar o modalizador “totalmente”, o aluno AL tenta levar seu auditório a aderir à tese de que, por mais seguro que possa parecer o policiamento dentro da escola, ele não é absolutamente seguro, ao contrário, tem suas falhas. Dessa maneira, o debatedor parece empregar o modalizador de maneira consciente no que se refere ao grau de comprometimento assumido pelo falante com o seu dizer. Ele traz para sua fala um dos assuntos trabalhados no módulo 04 da SD (Anexo H).
Finalmente, o exemplo 14 traz implícito o posicionamento de B. Ao questionar “vocês não achariam que seria um desconforto pros alunos um policial armado ali no pátio”, B tenta buscar a adesão do seu auditório de que a simples presença de um policial na escola já tratia um constrangimento para os alunos. Ademais, a aluna faz referência a uma cena bastante corriqueira entre adolescentes, como o são ela e seu auditório, a de estudantes em roda de amigos. Dessa madeira, aproxima-se do seu público debatedor não só por meio do recurso linguístico – o pronome “vocês” – como da cena construída.