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Se nos lembrarmos que o Concílio Trento acabara havia poucos anos e uma das principais dificuldades encontrada pelos clérigos reformistas ao chegarem à Espanha estava relacionada com as práticas sexuais tanto da população quanto do próprio clero local, que na maioria das vezes não condiziam com os dogmas impostos pela Igreja151, faz sentido que estes tratados tenham um enfoque particular nas relações amorosas travadas entre os seus leitores. Como afirma Henry Kamen,152 boa parte do clero, principalmente das zonas rurais, tinha uma atuação muito precária e despreparada para combater as heresias. A Igreja espanhola, então, mobilizou esforços para expandir a sua atuação, principalmente depois de 1564, quando Felipe II impôs os decretos do Concílio de Trento e forçou uma reforma dos bispados e das ordens religiosas. Mas não era apenas Trento que propunha reformas no mundo católico. No Reino da Espanha, ao

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MARIA, Joseph de Jesus. Primera Parte de las Excelencias y victorias de la virtud de la castidad, pp. 15-16.

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NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650. Baltimore: Johns Hopkins University, 2008.

longo de todo o século XVI, diversos concílios foram levados a cabo em cidades importantes como Toledo, Granada e Sevilha. Um dos principais pontos nessas reformas era justamente a educação das mentalidades e reformulação dos costumes. Mas para que esses ensinamentos fossem transmitidos da maneira correra, era necessário que o clero estivesse preparado. Após 1564, o rei Felipe II impôs diversos decretos para que as decisões do Concílio de Trento fossem seguidas em seu reino. Para que todos obtivessem as mesmas instruções na fé, era preciso centralizar a liturgia, eliminando qualquer variante local, tanto na maneira de se celebrar a missa quanto ao culto de santos, ou qualquer manifestação religiosa localizada. É nesse momento, também, que vemos um crescimento de seminários e monastérios por toda a península, sendo que cada bispado deveria, a partir de agora, ter pelo menos um seminário.153

Juntamente com essas mudanças trazidas pelos diversos concílios e sínodos estava uma das principais transformações ocorridas no mundo cristão: uma nova forma de se relacionar com a religião e com a fé, muito mais voltada para o privado do que para o público. A partir do século XVI, podemos ver crescer, inclusive nas regiões católicas, um tipo de manifestação religiosa mais interna e voltada ao âmbito particular. Ao analisar tais transformações das práticas religiosas no Bispado de Cuenca, Sara T. Nalle observa que o número de livros religiosos em circulação na região cresceu perceptivelmente, provavelmente uma mostra de que a população mais abastada, ou seja, aquela que possuía um grau maior de letramento, passou a consumir com mais afinco esse tipo de literatura, para que pudessem também praticar a sua devoção dentro de seus lares.154 Tais materiais impressos eram extremamente úteis na difusão da fé e se dividiam entre tratados teológicos e litúrgicos, hagiografias, livros de horas, coletâneas de sermões e cantos sacros, além de panfletos de todos os tipos. A maioria dessas obras que circulavam por Cuenca eram publicadas em Alcalá de Henares pela casa editorial humanista de Miguel de Eguía, casa essa que foi responsável pela publicação na Espanha de diversas obras humanistas provenientes de toda a Europa, como por exemplo, as obras de Erasmo de Rotterdam.155 Guillermo Remón, dono de uma livraria na cidade de Cuenca, oferecia ao público uma lista de mais de vinte livros de horas em

153 TAUSIET, Maria. Ponzoña en los Ojos: brujería y superstición en Aragon en el siglo XVI. Madrid:

TURNER, 2005.

154 NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650, p. 144. 155 Podemos perceber a proeminência de tal casa no fato de que quatro dos tratados estudados neste

trabalho também foram publicados pela casa editorial de Miguel de Eguía, um indício de que provavelmente esses textos obtiveram uma boa circulação.

espanhol, português e latim e mesmo após a proibição de se vender tais obras em língua vulgar em 1573, as versões em latim continuaram a circular.156

De acordo com Nalle, a região teria passado por três ondas literárias que ajudaram a moldar esses novos modelos de manifestações espirituais: a primeira, vinda do norte da Europa, em especial da região de Flandres e da Borgonha, trazia consigo o novo hábito da devoção privada e tinha como aliada os diversos livros de horas disponíveis para a população e que tinha como aliada os diversos livros de horas disponíveis para a população157; a segunda seria assinalada mais especificamente pela chamada ‗Devotio Moderna‘, protagonizada pelo De Imitatione Christi; embora proveniente também, em especial, dos Países Baixos, deve ser distinguida da primeira por força de sua enorme difusão e importância; a terceira onda seria a provocada pelas obras de Erasmo de Rotterdam, e apesar de a Inquisição Espanhola haver travado, a partir de 1559, uma guerra aberta contra tal autor, seus livros vendiam bem em Cuenca, alguns inclusive traduzidos para a língua vulgar. Já em 1545, o misticismo espanhol presenciava um grande florescimento, com manifestações de orações mentais, enfoque em manifestações de amor e autoconhecimento, com um grande interesse dos leitores também em assuntos mágicos e místicos.158 A ideia do autoconhecimento tinha tudo a ver com o que os confessores pregavam: o espiar dentro de si mesmo e denunciar os próprios pecados. Ao mesmo tempo em que discursos escatológicos se tornavam cada vez mais presentes, o medo maior aqui passa a ser não o que acontece à pessoa durante a sua vida, mas sim o que lhe irá acontecer após a morte.159 O medo da condenação eterna se tornava maior do que o medo de qualquer punição física.

As técnicas sutis de coerção substituem o temor das punições físicas. A confissão auricular seria, então, a forma mais perfeita de se colocar em prática essa nova forma de controle subliminar.160 Seguindo uma dinâmica de caráter claramente disciplinador, a catequese também fazia parte dessa estrutura; era nesse momento que o fiel se sentiria parte de toda a comunidade cristã, através dos dogmas e leis que regiam essa comunidade. Estamos diante de ênfases que sinalizam o processo católico de

156 NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650, p.144. 157

NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650, p. 144.

158 NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650, p.145. 159

NALLE, Sara T. God in La Mancha: religious reform and people of Cuenca, 1500-1650; POLVILLO, Antonio González. El Gobierno de los Otros: confesión y control de la conciencia en la España

Moderna. Sevilha, Universidad de Sevilla, 2010.

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POLVILLO, Antonio González. El Gobierno de los Otros: confesión y control de la conciencia en la

confessionalização, marcado também pela produção de textos normativos (no caso, não ―confissões de fé‖, como no âmbito protestante, mas os próprios cânones conciliares) e pelo ensejar de práticas com claros objetivos disciplinares.161

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