O 7º EME ocorreu no ano de 2016, muito próximo à primeira votação pelo impeachment da Presidenta Dilma e inserido em um contexto em que o feminismo estava em grande relevo, em específico o feminismo negro. Com o tema A CULTURA FEMINISTA TRANSFORMANDO O BRASIL, esse evento mobilizou mais de duas mil e quinhentas mulheres para debater o machismo e os mecanismos de superação das desigualdades de gênero. Dentre as organizações de movimentos sociais presentes, destaca-se a Marcha Mundial de Mulheres (MMM). Os EMEs têm uma importância muito grande para as mulheres da MMM, na medida em que reúnem diversas jovens para debater o feminismo, sendo um espaço de renovação da própria Marcha.
Uma das peculiaridades desse EME foi assumir com mais centralidade a relação entre raça, classe e gênero. A importância das mulheres negras foi ressaltada, inclusive, na própria arte de convocação do evento, colocando-as na vanguarda do feminismo, conforme a imagem abaixo:
106 Para mais informações: <http://www.abi-bahia.org.br/serie-documental-travessias-negras-retrata-historia-de- cotistas-da-ufba/>. Acesso em: 02.01.2019.
107 Para mais informações sobre a carreira de Antônio Olavo:
Imagem 23 – Arte de divulgação do 7º EME Fonte: acervo pessoal.
Por conta das polêmicas internas ao próprio feminismo no que tange a questão racial, esse também foi um espaço de inúmeras tensões. Entre elas, uma das organizadoras do encontro retrata uma situação em que teve que conversar com a Marielle Franco, que na época ainda não era vereadora, para realocá-la de uma mesa que debateria o direito à cidade para outra que falava sobre as mulheres negras em específico.
Para ilustrar como se deu esse processo, conforme essa entrevistada as organizadoras do 7º EME estavam inovando a metodologia de indicação de palestrantes para as mesas do encontro. Tradicionalmente, a indicação é feita via “forças políticas”. Isto é, cada organização de juventude que representa determinado partido indica as lideranças vinculadas ao seu próprio partido ou organização para compor as mesas. No caso desse encontro, a organização buscou realizar tanto esse formato tradicional de composição quanto inovar, indicando pessoas mais “públicas” e que representassem, em tese, todas as forças políticas e participantes. Nesse sentido, essa mesma organizadora disse que a ideia seria misturar as “figuras carimbadas” dos partidos com outras que representassem a todos, e Marielle emergiu nesse contexto. Segundo a entrevistada citada:
A Marielle foi indicação nossa, apesar de ser de um outro partido, pra fazer o debate de cidade... e no dia, no sábado, no dia do debate, uma militante branca da organização do movimento estudantil que representava ali o setor [que Marielle estava vinculada] veio e pediu pra trocar o nome de Marielle, e botar
Marielle na mesa de mulheres negras. E foi a primeira vez, a primeira e última, infelizmente, (pra mim isso é muito forte, muito forte mesmo) que eu conversei com Marielle [...]108.
Tal entrevistada, que era uma das responsáveis por coordenar o evento, questionou a dirigente de uma força política da juventude do PSOL na UNE que pediu para realocar Marielle para a mesa de mulheres negras, mas, apesar das tentativas, não obteve sucesso. Então ela conversou com Marielle, que não a culpou. A fala abaixo é elucidativa quanto a isso:
Eu acho que eu fiquei muito pior do que ela. E... mas é isso... ela foi vítima de racismo, né? Eu estava ali também naquela situação vítima de racismo. No final das contas ela foi para uma mesa de mulheres negras... uma outra figura não negra foi para o lugar dela na mesa de cidade, naquela lógica de que mulher negra só serve para falar pra mulher negra, e meses depois ela foi a 5ª vereadora mais votada pra mostrar quem é que sabe falar sobre cidade... infelizmente não está mais aqui pra isso, mas acho que foi um episódio que ilustra perfeitamente todos os tensionamentos do racismo ali naquele EME.
Trazendo mais elementos para compreender essa entrevista, em 2016 Marielle Franco foi eleita vereadora na cidade do Rio de Janeiro, tendo como uma das suas principais bandeiras a luta contra o genocídio da juventude negra. Infelizmente, dois anos depois, em 2018, ela foi brutalmente assassinada com quatro tiros na cabeça, conforme matéria do portal G1109:
A vereadora Marielle Franco foi morta a tiros dentro de um carro na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, na Região Central do Rio, por volta das 21h30 desta quarta-feira (14). Além da vereadora, o motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu. Uma outra passageira, assessora de Marielle, foi atingida por estilhaços. A principal linha de investigação da Delegacia de Homicídios é execução.
Após a sua morte, Marielle tornou-se um símbolo de resistência na luta contra o racismo e as desigualdades sociais. No episódio citado no EME, ela ainda não era vereadora e sofreu tensões no seio do próprio movimento estudantil, inclusive no partido que ela fazia parte.
Trouxe esse forte e triste episódio para que a leitora possa ter mais elementos para
108 Entrevista realizada em 2019.
109 Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/vereadora-do-psol-marielle-franco-e-morta-a- tiros-no-centro-do-rio.ghtml>. Acesso em: 01.10.2019.
compreender as tensões e os desafios que a pauta racial se deparou em um importante evento da UNE, bem como para revelar os mecanismos do racismo institucional que marginalizam as lideranças negras na entidade.