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Dans le document Lisa Write (Page 95-100)

Outro documento importante que elucida o papel dos leigos na ICAR e que consuma assim uma parceria entre a alta cúpula do Vaticano e os novos movimentos eclesiais, foi o texto Christifideles Laici (CL) de 1988, de João Paulo II38. Desde o início do seu pontificado no final da década de setenta, João Paulo II aludiu repetidamente o papel dos leigos numa tarefa de re-cristianização ou uma recatolização da sociedade. Uma das primeiras alusões a este respeito foi feita numa celebração em Limerick, Irlanda, em outubro de 197939 que diz que os leigos são “raça eleita, sacerdócio santo” e têm como objetivo fermentar a realidade do mundo: “As grandes forças que governam o mundo — política, mass media, ciência, tecnologia, cultura, educação, indústria e trabalho — são precisamente os setores nos quais os leigos são especificamente competentes para exercer a sua missão”. Em outras ocasiões, como em BangKok – Tailândia40 (1984) ratifica a ideia de que os leigos possuem a “específica missão” de garantir a transformação social pela sua militância cristã. Este mantra

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JOÃO PAULO II, Christifideles Laici: sobre Vocação e Missão dos leigos na Igreja e no Mundo. In http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-

ii_exh_30121988_christifideles-laici_sp.html. Acesso em: 04. jan. 2010.

39 Conferir site http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979. Acesso em: 04 jan. 2013. 40

Conferir também http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1984/may/documents/hf_jp- ii_spe_19840511_clero-laici_it.html. Acesso em: 04 jan. 2010.

se repete nos documentos do CELAM, em Santo Domingo (1992) e em Aparecida (2007). Enquanto no primeiro fala-se em “protagonismo do leigo”, em Aparecida há uma preocupação com o seu engajamento nas universidades, mass medias, mundo político, sindicatos (DAp 117). Em 26 anos de pontificado, João Paulo II promoveu cento e quatro viagens para fora da Itália e, destas, três ao Brasil, o que mostra sua fidelidade à etimologia

καθολικός (katholikós) – universal. João Paulo II construiu determinada diplomacia

internacional pautada no discurso da “pacificação entre os povos”, mas principalmente quis estender a mão da ICAR através de uma militância que deixasse transparecer que as fronteiras do catolicismo não possuem limites e que as esferas da atividade humana são susceptíveis à influência católica. Em seu pontificado, os leigos e as “novas comunidades católicas” ganham dimensão de legitimidade e encontram orientações gerais para realizar a moralidade católica nos chamados “ambientes seculares”. Este “princípio da liberdade dos leigos” é endossado também pelo Código do Direito Canônico41 (Cânons 227-231) e garante a autonomia dos leigos em “assuntos temporais” dirigidos e administrados dentro dos parâmetros da doutrina católica (seguir as orientações do magistério). Esta flexibilidade de atuação dos leigos e das “agregações leigas católicas” encontra-se no documento CL, o qual também estabelece “critérios” para sua efetivação.

De início, João Paulo II discorre sobre sua preocupação com o “indiferentismo religioso” e o “ateísmo” que emergiram nas sociedades contemporâneas e a chamada autonomia das “realidades terrestres” que se sobrepõe ao controle dogmático e moral. Esta atitude eminentemente defensiva da fé católica contra o “secularismo” considerado como um “fenômeno atual grave”, põe em discussão a ideia de que a presença do secularismo substitui a ideia de catolicidade. O que se universaliza é um sistema paradoxal de vida secular que inclui todos, católicos ou não, ateus e crentes e que se emancipa como pretensão de exclusividade. Este ritmo da vida contemporânea atomiza a ideia de “verdade” e isto é mais que o suficiente para provocar um desconforto em João Paulo II. Tal reação se faz refletida também nos documentos posteriores à CL, Veritatis Splendor (1993) e Evangelium Vitae (1995). Os textos mencionados visibilizam duas prévias conclusões: a) O enfraquecimento da ICAR em termos de sua estrutura de plausibilidade manteve os princípios antiliberais ativos e b) A ICAR perde gradativamente seu poder espiritual, como sugere Patrick Michel (2000), com sua audição reduzida e seus meios de intervenção social e midiático ficaram consideravelmente abrandados. Diante da inevitabilidade da secularização e da emancipação

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Conferir: http://www.vatican.va/archive/cod-iuris-canonici/portuguese/codex-iuris-canonici_po.pdf. Acesso em: 05 jan. 2013.

das consciências, João Paulo II credibiliza as agregações de fiéis leigos reconhecendo nelas sua “liberdade associativa”. Podemos considerar que a estratégia aqui beneficia não somente a preservação e conservação de um catolicismo consolidado mundialmente, mas a sua própria

expansão em direção a ambientes aonde o mesmo não chega apenas com seu aparato

discursivo. Estas associações e agregações são legitimadas institucionalmente como antídotos para a lógica secularista.

A pluralidade de novos movimentos católicos é reconhecida no documento através da expressão “nova era agregativa dos fiéis leigos” (CL, §29) e é pensada como uma solução e “uma ajuda preciosa” para a ICAR diante da secularização em marcha. João Paulo II detecta que a fonte primeva que acionou a diversidade de agregações religiosas e leigas foi a “cultura contemporânea” e esta só pode ser alcançada pela ação de um “sujeito social” que invada os ambientes seculares e os transforme tendo como pano de fundo as orientações da doutrina religiosa. Mas, para considerá-los membros e militantes católicos no mundo faz-se necessário seguir alguns critérios (CL §30). João Paulo II estabelece um conjunto de condições e regras para considerar as agregações leigas como católicas e expurgar qualquer tentativa de sectarismo ulterior. Queremos dizer aqui que a ICAR possui uma estrutura que leva à exclusão. Quando se estabelecem critérios, implicitamente se diz que qualquer membro que não cumpra ou se enquadre nas obrigações impostas pelo magistério pode incorrer em penalidades ou até exclusão. Os critérios explicitados em CL não dizem respeito aos regimentos internos das associações, isto é, seus “caminhos e métodos educativos” e “campos operativos” são construídos pela sua liderança e membros ativos. Pelo contrário, os critérios são condição sine qua non para considerá-las legítimas. O primeiro critério refer-se ao “primado dado à vocação de cada cristão à santidade”. A santidade aqui proposta é um estilo de vida ideal o qual os militantes cristãos são convidados a alcançar.

Esta santidade se apóia em um procedimento estabelecido pelo corpo eclesiástico na figura de João Paulo II e está presa e colocada na lógica das outras assertivas subsequentes. Curiosamente, o parágrafo 41 da LG - que também faz alusão à santidade e serve de substrato para a CL – compreende-a, hierarquicamente, na sequência a seguir: bispos, sacerdotes, “ministros de ordem inferior”, “cônjuges e pais cristãos” – que definem sua santidade pela fidelidade conjugal e educação doutrinária da sua “prole” -, “pessoas viúvas e solteiras” e, por fim, “aqueles que se ocupam com trabalhos duros” – os quais têm sua santidade garantida através dos seus esforços conjuntos de “fazer progredir a sociedade” de forma “alegre” a “levar os fardos uns dos outros”. Desta forma, é pelo exercício da sua “missão específica” enquanto membresia católica e respeito pela obediência que se alcança a perfeição e a

santidade. Colocada na lógica das suas declarações, ambos os documentos propõem uma leitura interna da santidade e da ligação entre seus membros com os procedimentos católicos. Na assertiva seguinte temos “A responsabilidade em professar a fé católica”. Esta condição especifica e dita o grau de pertencimento dos leigos das agregações na ICAR. Professá-la significa “obedecer” ao magistério católico nos seus ensinamentos doutrinários. Aqui surge uma visão dogmático-apologética de pertencimento à ICAR de que somente pela fé católica e seu enquadramento na hierarquia eclesiástica, tendo como vértice o papa, constituir-se-ão as agregações, enquanto organismos católicos. O critério supracitado visto em seu conjunto, não possibilita averiguar as maneiras de ser católico, mas reduz-se apenas à forma de ser católico: a submissão à hierarquia, o respeitos às regras doutrinárias, a veneração aos santos.

Embora as agregações leigas sejam formalmente subordinadas a um rol de critérios, a atuação da ICAR não penetra seu interior, limitando sua influência à regulamentação de aspectos mais superficiais. A ICAR, não se imiscui em questões decisivas, como o organograma interno destes organismos e a designação de lideranças para o cumprimento de determinadas atividades (administrativo, operacional, ritual) etc. O terceiro critério refere-se ao “testemunho de uma comunhão sólida e convicta”. O que se pede aqui é fidelidade em relação ao que se chama de unidade da fé: “A comunhão com o Papa e com o Bispo é chamada a exprimir-se na disponibilidade leal em aceitar os seus ensinamentos doutrinais e orientações pastorais”. A pergunta que se coloca é como manter a unidade global em uma organização composta de micro-organizações, paróquias, associações, movimentos, congregações que realizam os mais variados serviços aos fiéis? As relações entre as lideranças católicas das agregações leigas e seus superiores (papa e bispos) são legítimas somente quando todos de algum modo as aceitam e se tornam a chave de funcionamento eficaz da ICAR. A ideia de comunhão leva-nos a pensar também na noção de uniformidade das ações e crenças, isto é, é preferível para o alto escalão da hierarquia católica, leigos que se pareçam com ela, em termos de adoção das mesmas atitudes dos seus superiores. Agregações leais, obedientes à hierarquia e seus comandos podem avançar em seus próprios interesses enquanto subsistemas católicos. Ser católico significa criar espaços para diferentes opiniões e estilos e a unidade é preservada pela existência de uma autoridade de ensino unificado (magistério católico) a partir de um vértice comum, o papa. O quarto critério: “Conformidade e participação na finalidade apostólica da Igreja”. A intenção desta assertiva é fazer com que as agregações divulguem a doutrina religiosa de modo a “formar a consciência cristã” nos ambientes onde elas se instalam. Como socializar as consciências dentro da fé católica? Aqui

a tentativa é construir uma identidade espiritual específica e requer um ajuste normativo – por parte das agregações - da religião tanto em termos doutrinais quanto morais.

A educação católica pensada por João Paulo II é uma construção institucional de sistema de valores dados como os mais “apropriados” para os sujeitos da modernidade contemporânea e veiculados por estas agregações consideradas apenas como intermediárias dos interesses da cúpula romana. Entretanto, a forma pela qual a socialização ocorre é assunto da escolha das próprias agregações leigas. A escolha de estratégias, sua missão e propósitos, sugerem que as mudanças esperadas pela ICAR resultem numa identidade dramaticamente alterada ou causar apenas mudanças menores ou insignificantes na identidade da membrezia destas organizações e a socialização esperada pela cúpula romana não venha a se efetivar. Pelo contrário, este critério estratégico da ICAR não é excluído através dos objetivos das agregações. Na prática, ele se combina de forma variada, frequentemente criativa; O último critério, diz: “O empenho de uma presença na sociedade humana”. Esta última assertiva enfatiza o “dever” das agregações em “construir condições mais justas e fraternas no seio da sociedade”. Em outro momento, João Paulo II diz:

[...] os fiéis leigos devem dar testemunho daqueles valores humanos e evangélicos que estão intimamente ligados à própria atividade política, como a liberdade e a justiça, a solidariedade, a dedicação fiel e desinteressada ao bem de todos, o estilo simples de vida, o amor preferencial pelos pobres e pelos últimos. (CL, § 42)

Entre aquilo que é pedido e aquilo que efetivamente se realiza, pode haver uma lacuna intransponível. Nos arranjos católicos o que conta são os sentimentos e as emoções. Há pouca afeição ao entendimento racional e lógico da doutrina religiosa e suas práticas não são orientadas a uma atuação social, de transformação da realidade etc. Isso transpareceu na fala de uma liderança da Shalom da qual reproduzimos parte da entrevista:

[...] Santo André tem um rosto muito particular. Nas muitas das nossas orações, Deus tem revelado que Santo André tem um rosto muito particular em uma diocese muito de luta de classes, que faz um trabalho muito social com o pobre, fala do pobre, pobre, pobre. Pro carisma Shalom, pobre não é o pobre que passa fome. Pra nós, pobre tem outra conotação, é o pobre espiritual, e não pobreza material. (Shalom, 38 anos, feminino)

As relações que ali se constroem são marcadas pela fixação do fiel à personalidade de seu líder, aos encontros de amizade e dos ritos. O documento CL prima por objetivos construídos racionalmente (valores e metas) e estratégias (meios) definidas para alcançá-los. É construído segundo uma abordagem racional: de projetos, aconselhamento

pastoral, textos de referência. Predomina nos parágrafos a competência sobre o arbitrário. Isso demonstra o nível de burocracia que emerge na ICAR com seus conselhos, comissões, especialistas, reuniões, agendas. É uma organização que possui serviços centrais (Cúria do Vaticano, cúrias diocesanas) e territoriais (Conferências Nacionais do Episcopado Católico). Não afirmamos aqui que não haja um mínimo de burocracia também presente nas agregações leigas, mas o acento recai nas relações intersubjetivas de afeto e emoção. Mesmo que João Paulo II fosse interpretado como uma figura carismática para os membros dos novos movimentos católicos, por exemplo, a sua atuação foi no sentido estratégico de garantir a continuidade da tradição religiosa.

Dans le document Lisa Write (Page 95-100)

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