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Em maio de 1998, nos seus vinte anos de pontificado, João Paulo II reuniu na Praça de São Pedro, em Roma, representantes dos novos movimentos eclesiais confirmando e legitimando suas práticas o que permaneceu, neste sentido, como uma etapa fundamental na vida desses movimentos. Depois do reconhecimento eclesiástico em CL e da tomada de posição dos “novos movimentos eclesiais” por parte da ICAR, João Paulo II confirma seu posicionamento publicamente em Roma numa mensagem ao IV Congresso Mundial dos movimentos eclesiais organizado pelo Pontífice Conselho dos Leigos42 cujo tema versou sobre “Os movimentos eclesiais: comunhão e missão no limiar do terceiro milênio”43. Neste congresso, realizado em 27 de maio de 1998, a diplomacia utilizada por João Paulo II foi ambígua. Ele chama os novos movimentos católicos de “primavera da igreja” porque entende que é uma força nova contra o processo de secularização e que garantirá a fidelidade ao patrimônio da Tradição: “A originalidade própria do carisma que dá vida a um Movimento não pretende, nem o poderia, acrescentar algo à riqueza do depositum fidei, conservado pela Igreja com apaixonada fidelidade” (§ 4). João Paulo II designa estes novos organismos eclesiais como “movimentos” por ser uma “realidade eclesial” leiga assentada pelo “carisma

42 O Pontífice Conselho para os Leigos foi forjado pelo papa Paulo VI em 1967, dois anos após o término do Concilio Vaticano II, com o intuito de fortalecer a atuação dos leigos na Igreja e, particularmente na sociedade. Neste mesmo ano, lança o decreto Apostolicam Actuositatem (AA), sobre a “vocação dos leigos” e reconhece que os leigos(as) devam criar associações com fins variados, diferentes desenhos organizacionais e diferentes estilos e, se possível, internacionalizar-se, mas que os exerçam dentro dos parâmetros da ICAR e se submetam às suas orientações doutrinarias. Conferir o decreto AA na íntegra: http://www.vatican.va/archive. Acesso em: 05 jan. 2013

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http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/may/documents/hf_jp- ii_spe_19980527_movimenti_po.html. Acesso em: 07 jan. 2013.

de um fundador”. A “originalidade do carisma” nada acrescenta à “riqueza do depositum fidei, mas serve de apoio àquele depósito:

[...] Os Movimentos podem assim oferecer um contributo precioso à dinâmica vital da única Igreja, fundada sobre Pedro, nas diversas situações locais, sobretudo naquelas regiões onde a implantatio Ecclesiae ainda está no início ou submetida a não poucas dificuldades. (§ 4)

Pretendemos apenas indicar, preliminarmente, que esta questão do “uso” dos Movimentos, como dispositivos de ação serviu a João Paulo II como manobra e habilidade política de sustentação do seu carisma e ao mesmo tempo combater o chamado espectro do relativismo advindo do processo de secularização. No discurso emitido na praça de São Pedro em 30 de Maio de 1998, João Paulo II afirma que a autenticidade de um carisma passa pelo crivo avaliativo de uma “autoridade eclesiástica competente”. No discurso há também um claro acento do que é estático sobre o que é fluído, isto é, implica no ajustamento e integração dos movimentos a um objetivo comum: preservar a Tradição ou aquilo que João Paulo II entende por estático, que não sofre mutabilidade. O que ele confere como fluido são as novas comunidades consideradas “movimentos”, que meso tendo sua importância eclesiástica, são submetidas àquilo que não muda: o depositum fidei, o magistério etc. Esta mentalidade de preservação do estático (Tradição) sobre o dinâmico (as mudanças sociais e eclesiais) corresponde bem ao seu pontificado marcado pela inibição dos aspectos mais provocativos da modernidade contemporânea (redefinição do lugar do feminino na Instituição e a consequente reavaliação da moral sexual, gestão mais democrática e transparente dos organismos do Vaticano).

Ordenação da revisão completa do Código do Direito Canônico, promulgação de uma catecismo da ICAR válido universalmente, limitação do poder das decisões das Conferências episcopais são alguns dos exemplos de suas ações que intentaram marginalizar a influência do ambiente secular. Constatamos aqui a vigência sempre presente de um poder que outorga, delibera e valida mas que distingue maneiras do seu manejo que signifiquem também oportunidades para seus subordinados. Podemos dizer que João Paulo II lineariza – adequa aos interesses institucionais - a relação com as novas comunidades de forma a submetê-las de maneira mais categórica possível, eliminando qualquer risco de reação. Foucault (1996) levanta a hipótese de que o discurso religioso ou científico ordena a sociedade hierarquicamente. Os movimentos eclesiais podem construir seus próprios desenhos institucionais, formas de operacionalização do sagrado a partir de um fundador e suas lideranças, mas organizam-se segundo critérios e parâmetros exógenos, predeterminados.

Em nome de uma possível ambiguidade, João Paulo II apela para o respeito a valores e bens religiosos tidos como os mais sagrados e instala “olhos” – especialistas eclesiásticos competentes (bispos, padres etc.) – para que as novas comunidades não fujam do controle ou não cometam, por exemplo – na linguagem do bispo de Santo André, NW –, “excesso de subjetividade”44.

As manifestações na Praça de São Pedro juntamente com os discursos de João Paulo II tiveram repercussões internacionais, mas também movimentaram os climas ad-intra institucional. Em maio de 1998, o então prefeito da Congregação da Fé, cardeal Ratzinger, fez um intermezzo45 discursivo dentro do Simpósio mundial das “novas comunidades” elencando alguns pontos que lhe pareceram relevantes. O então cardeal forneceu uma descrição concisa que capta as características essenciais dos movimentos eclesiais:

[...] os movimentos nascem no mais das vezes de uma personalidade carismática guia, se configuram em comunidades concretas, que em virtude de sua origem revivem o Evangelho na sua inteireza e sem hesitação reconhecem na Igreja a sua razão de vida, sem a qual não poderiam subsistir. (RATZINGER, 2013)

A partir desta definição, os carismas estão ligados a um líder que possa conduzir outros pelo que faz e promove pelo que diz e escreve. O líder ainda possui uma função de conduzir os seus membros dentro de uma “afinidade espiritual” e de amizade conjunta. Levanta alguns critérios práticos – como sugestão – para as lideranças dos movimentos. Faz um alerta aos perigos que resultam de um estágio de desenvolvimento destas “novas comunidades” tendendo para um excesso de unilateralidade, “propensões para o exclusivismo” e sua “incapacidade de inserir-se nas igrejas locais”, isto é, dioceses católicas nas quais estes movimentos se inscrevem. Faz também uma advertência àquelas lideranças que não entram em qualquer tipo de exercício de uniformidade com a ICAR sendo necessário enquadrar-se na grande instituição.

Ratzinger rechaça a ideia do dualismo entre carisma e instituição, isto é, o “estado presbiteral” não é uma classe cumpridora de uma burocracia. Embora a dualidade Instituição e carisma pareça um modelo mais útil para pensar o lugar dos movimentos dentro da ICAR, arrisca-se, segundo Ratzinger, uma “dialética” levando para uma antítese entre os termos. Afirma que a ICAR é uma instituição possuidora de funções administrativas, mas sua estrutura está relacionada com um “ministério sacramental, que é dom do Espírito”.

44 A CNBB em seu documento Igreja particular, movimentos eclesiais e novas comunidades. (2006) aponta também para o risco de “espiritualismo e sentimentalismo” presentes nos ambientes dos arranjos católicos. 45

Conferir discurso completo do cardeal Ratzinger: http://www.angelfire.com/ult/bentoxvi/Movimentos.html. Acesso em 07 jan. 2013.

Ratzinger questiona o movimento de rotinização pela qual a ICAR passou, em suas origens históricas. Segundo Weber, a rotinização tende a evaporar o carisma ou substituí-lo em outra forma. A preocupação é que estes movimentos representem – e aí talvez esteja o seu temor – uma nova vitalidade do carisma. Tendo como público-alvo representantes e lideranças dos novos movimentos eclesiais, Ratzinger chama a atenção para respeitar esta rotinização inevitável e reforça a identidade do clero também como agente carismático. Nesta mesma linha, o cardeal entende que o carisma proporciona estados afetivos instáveis e voláteis e que exige necessariamente controle por parte da Instituição. Obviamente Ratzinger evita uma linguagem que comprometa o seu discurso. Utiliza a palavra “personalidade carismática” e que não corresponde à noção de “profeta” weberiano pois implicaria uma ruptura com a tradição e, consequentemente com a Instituição. Em Weber, o profeta é um líder religioso anunciador de uma mensagem divina sugerindo que sua prática religiosa romperia com a institucionalização do sagrado. Embora assimétricos, Ratzinger reforça que os laços criados entre movimentos eclesiais e Instituição estejam afinados com um mesmo objetivo comum: a garantia de unidade institucional. Por fim, os movimentos são examinados e reconhecidos como tal dentro de uma diocese particular local e, em seguida, por um órgão competente em Roma46. Ratzinger entende que os movimentos precisam das estruturas eclesiásticas para se educarem na “fé”, precisam tanto do ubi Petrus, ibi ecclesia – onde está Pedro, aí está a igreja - quanto do ubi episcopus, ibi ecclesia – onde está o Bispo, aí está a Igreja.

Em 2006, Bento XVI durante um encontro na praça de São Pedro que reuniu representantes, membrezia dos novos movimentos47, reforçou alguns aspectos do exercício ou da militância destes movimentos. Destacou o valor e a importância deles cuja autenticidade mais uma vez é garantida sob o juízo da autoridade eclesiástica. Incentivou-os a manter uma relação estreita e colaboradora com os seus bispos e o romano pontífice. Em 200848, Bento XVI, pede para os bispos que recebam com atenção os vários movimentos, corrigindo-os e inserindo-os no conjunto da paróquia ou dioceses e entende que “os movimentos eclesiais e as novas comunidades não são um problema ou um risco a mais, que se junta às nossas já pesadas incumbências (dos bispos)”. Em 1984, quando ainda cardeal e presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger identificou que o problema e o risco se

46 O Pontífice Conselho para os Leigos é um dicastério ou departamento em Roma que decide sobre a credibilidade dos movimentos leigos católicos, reconhecendo-os oficialmente. Tal dicastério também tem por responsabilidade organizar as Jornadas Mundiais de Juventude idealizadas pelo papa João Paulo II.

47 Conferir discurso de Bento XVI:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/index_po.htm. Acesso em: 08 jan. 2013.

48 Conferir texto completo do seminário para bispos promovido pelo Pontifício Conselho para os Leigos: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2008/may/documents/hf_ben-

concentravam na chamada teologia da libertação advertindo contra os seus desvios devido à introdução de elementos marxistas e à leitura crítica das Escrituras que reduz a vida de Cristo a uma libertação social e política. Embora criticada, a 2ª declaração de março de 1986 é mais favorável integrando esta teologia no magistério da ICAR. A teologia da libertação é lida positivamente e interpretada como uma “teologia da liberdade”49. João Paulo II também notou um problema e um risco nos países do leste europeu sob sistemas assentados pela condução marxista e empenhou-se em descaracterizar tais regimes em suas viagens e encíclicas. Por exemplo, em Centesimmus Annus (1991) - encíclica confeccionada em meio à crise do socialismo real junto aos países do leste europeu - o termo marxismo aparece 45 vezes de forma depreciativa aludido como uma “ideologia” do fracasso histórico. Não muito diferente foi sua postura na primeira visita à América Latina, para a abertura do III Celam, em Puebla (1979). As suas declarações antes da chegada em Puebla de que a “teologia da libertação é uma teologia verdadeira, mas pode ser uma falsa teologia” caso o seu método de análise fuja do aspecto “cristão”,50 impactaram no percurso e na condução da Conferência.

João Paulo II imprime uma característica que marcará todo o seu pontificado, a chamada “nova evangelização”. Termo usado pela primeira vez em junho de 1979, em Nowa

Huta, próximo a Cracóvia51 e repetido continuamente em seus discursos, homilias e principalmente na encíclica Redemptoris Missio (RM), de 199052. O termo nova

evangelização” é sinônimo de reevangelização e sua preocupação é alcançar “zonas não

evangelizadas” mormente Ásia, África, América Latina e Oceania, sobretudo os jovens destas regiões, sem contar o elogio que faz às chamadas “novas comunidades” em relação ao seu empenho de manterem-se unidas a ICAR como contribuintes militantes das intenções de João Paulo II. A nova evangelização também presente em Crhistifideles Laici (CL) propõe uma revitalização do cristianismo católico dentro do secularismo tendo por agente principal os leigos. Isto afeta principalmente os países que outrora foram espaços de vitalidade católica, como a Europa, e que agora são afetados por uma constante difusão de indiferença religiosa e ateísmo. Para João Paulo II a nova evangelização passa pela fundação de novas comunidades “sólidas” onde a fé é confessada, celebrada e vivida por uma relação “pessoal” com Jesus e refazendo assim “todo o tecido cristão da sociedade humana” (Cl § 34). O seu receio é o fato

49 Conferir texto Libertatis Conscientia:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19860322_freedom- liberation_po.html. Acesso em: 08 jan. 2013.

50 Conforme revista Veja em 31/01/1979, p.60. Acesso em: 08 jan. 2013.

51 Conferir site: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp- ii_hom_19790609_polonia-mogila-nowa-huta_po.html. Acesso em: 08 jan. 2013

de esta difusão do secularismo atingir também os chamados países periféricos que mantêm “vivas uma tradição de piedade ou religiosidade popular cristãs”.

Novamente, as novas comunidades eclesiais surgem como refazedoras deste tecido cristão em contínuo processo degenerativo. Em RM a lógica se repete sendo necessárias três frentes de militância: a) uma atividade que atinja “grupos humanos” onde o “evangelho e Cristo” não são conhecidos; b) aqueles que estão dentro de uma militância suficientemente adequada e “solidamente” unida a ICAR e c) aqueles que não reconhecem mais a doutrina sagrada e se postam afastados dela necessitando aí novo empenho das comunidades eclesiais. Para João Paulo II há uma grande diferença entre os chamados não- cristãos e os descristianizados. Ambos são o alvo da nova evangelização e ela está vinculada à “missão” da ICAR em anunciar uma mensagem (Reino) vinculada com Cristo e a Igreja. Para João Paulo II, Reino não é: “uma realidade humanizada e secularizada, onde o que conta são os programas e as lutas para a libertação sócio-econômica, política e cultural”, também não é “um conceito, uma doutrina, um programa sujeito à livre elaboração”. Para ele, o Reino é o anúncio de uma “pessoa” e não necessariamente de um “programa” e só a nova evangelização poderá garantir esta releitura limpando-a ou purificando-a das suas “impurezas”.

As chamadas comunidades eclesiais de base (CEBs) tiveram seu auge na década de 70 e início da década de 80 e, estando intimamente conectadas com o contexto de países de regimes militares, como o Brasil (1964-88), exercitavam a reflexão teológica linkando fé religiosa e engajamento social e político. Em pesquisa recente sobre as CEBs no ABC paulista, Ramos (2006) identificou certa carismatização ocorrida em suas estruturas e desenhos organizacionais conduzindo seus trabalhos dentro de uma perspectiva mais religiosa (reza do terço) do que social. Este é um rosto que se adequa mais à chamada nova

evangelização idealizada por João Paulo II.

A mudança de método proposto por ele em suas encíclicas propugna uma mudança de foco das CEBs, reduzindo-as a meras extensões paroquiais e minimizando assim possíveis riscos de transformar doutrina religiosa em panfletagem partidária. O slogan nova

evangelização redefinia, então, em duplo sentido: a) o papel da ICAR no mundo moderno

recolonizando os países periféricos, ratificando valores, conceitos e símbolos católicos supostamente em “crise”; b) o apoio de jovens e dos novos movimentos eclesiais para a disseminação desta meta. Poderíamos estabelecer que a nova evangelização corresponde a um catolicismo intransigente de “adequação” a certos elementos da modernidade (economia neoliberal, internet etc.) e não efetivamente sua adesão. Tanto o Vaticano II como os textos sobre a condição do leigo e dos novos movimentos eclesiais na ICAR aqui referidos

reconhecem a liberdade de consciência deles contanto que mantenham, por um lado, uma subordinação interna ao principio de regulação hierárquica do tipo: “A cúria romana tem sempre razão” e, por outro, no nível externo, garantir a subsunção do secular ao religioso.

4. A AMÉRICA LATINA NA ÓTICA DE JOÃO PAULO II E

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