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Começamos com uma questão: quais são as expectativas ou que tipo de jovem Bento XVI construiu em seus discursos principalmente naqueles restritos às Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ)? Nascidas com o intuito de aproximar mais a juventude da ICAR, as JMJ idealizadas por João Paulo II e oficialmente concretizadas a partir do encontro na Argentina no ano de 1987, reforçam uma identidade religiosa através dos ensinamentos católicos tradicionais de acordo com a ortodoxia tradicional: moral religiosa, devoção aos santos, forte presença na liturgia católica. João Paulo II, durante suas viagens e reuniões junto à juventude e, mesmo sabendo que o público jovem estava imbuído de uma lógica mais pragmática que os levando e estimulando a uma vida mais mundana, não moderou em seus pronunciamentos, enfatizando fortes argumentos em favor de uma moral sexual voltada à fidelidade das relações matrimoniais, castidade, criminalização do aborto etc. Dando continuidade ao legado de João Paulo II e mantendo o formato moral doutrinário do seu antecessor, Bento XVI participou de três edições da JMJ: em Colônia (Alemanha - 2005),

Sydney (Austrália - 2008) e Madri (Espanha - 2011) até sua renúncia em 2013, deixando uma mensagem oficial para as JMJ em julho de 2013, no Rio de Janeiro.

Os pronunciamentos feitos à juventude desde a Alemanha até a Espanha possuem algumas receitas clássicas e garantem a continuidade da fé católica: a) Recuperar a tradição da Igreja a partir dos chamados missionários locais do passado (santos baluartes) de cada país; b) Participação ativa nos chamados sacramentos católicos c) garantir a unidade e a permanência da ICAR e d) Dedicação à uma moral religiosa que garanta o combate ao relativismo contemporâneo. Obviamente, a ICAR afirma que há uma tradição consolidada (depositum fidei) “intocável” (inclui aí um rol de santos, teologias, papas etc.), que possui autoridade para regular os comportamentos religiosos dos seus fiéis, tanto quanto a Bíblia. Mas a tradição fluida – na qual se inscrevem os movimentos religiosos da ICAR e as novas comunidades católicas, por exemplo – possui em seu portfólio inúmeras crenças e doutrinas emergidas da reinterpretação do depositum fidei, assim como várias expressões de culto como têm sido adotados por inúmeros fiéis. Em seus discursos nas JMJ, Bento XVI retoma o passado religioso católico da cultura em questão, identificando alguns detalhes dos “santos” para ensiná-las aos jovens. Por exemplo, em Sydney, na Oceania, ele fala dos “pais espirituais” que “edificaram” e “desbravaram” o território, depositando nele a “fé católica”: Mary MacKillop, Peter Chanel e Peter To Rot. Em Madri, ele retoma a figura espanhola feminina Tereza de Ávila mostrando sua dedicação à “oração” e à “mística”; João de Deus, que se distingue na assistência aos pobres, doentes etc. Bento XVI como um “guardião da fé” procura inculcar na juventude uma forma de proteção contra aquilo que ele próprio teme: a absolutização da razão e a relativização dos valores morais cristãos.

Podemos argumentar que este processo de estreitamento da ICAR com a juventude tem como um dos objetivos transformá-los em ativistas católicos. Exemplo disso foi o encontro de Bento XVI com jovens italianos em 2006 em preparação à 21ª JMJ62. Uma jovem de dezenove anos, pertencente à paróquia Santa Maria do Carmelo, estudante de letra fez o seguinte questionamento: Como viver responsavelmente a vida afetiva? Bento XVI a instruiu, por um lado, sobre a necessidade de reler a noção de amor afastando-o da sua interpretação contemporânea que o associa ao egoísmo e, por outro, critica a cultura consumista no sentido de falsificar a vida humana. Ele localiza a origem do matrimônio na Bíblia como algo “querido” por Deus e o interpreta unilateralmente como união monogâmica, mas este “desígnio” divino foi “poluído pelo pecado”, “obscurecendo-o”. O crescimento

“autêntico” e a “continuidade de uma tradição cultural” se dá na fidelidade a este principio. Outro jovem, estudante de artes de dezessete anos pergunta: para enfrentar os desafios nos

novos tempos como espera que sejam estes novos apóstolos? Em resposta bento XVI dizia

que é necessário desprivatizar Deus, deixar de vivê-lo como “um sentimento” e colocá-lo no seu devido lugar, isto é, na história. Além disso, é necessário, evitar sua imagem falseada, reencontrando-o junto à “família de Deus”, quer dizer a ICAR. (grifo nosso)

Embora vinculados a um sistema paroquial, os jovens católicos não veriam na religião um sistema de crenças religiosas causador de benefícios pessoais. Bento XVI responde no sentido de fazê-los internalizar valores contra um comportamento de risco que se choque com a legitimidade institucional católica? As JMJ não seriam uma oportunidade de reunião de jovens advindos de algumas partes do planeta, no sentido de uma peregrinação a um lugar sagrado. Desde sua implantação por João Paulo II, a peregrinação nas JMJ tem outra conotação, significando então uma jornada evolutiva de “autodescoberta” e de espiritualidade própria católica. Não é apenas um encontro organizado – financiado e logisticamente pensado – entre o papa e os jovens católicos de forma a fortalecer laços entre Instituição e juventude, incentivando-os a desafiar os “novos tempos” a partir da moral católica63. Esta conexão feita com os jovens e apelidada de Woodstock católica64 permite compartilhar não uma visão social, política e religiosa comum ou uma “fraternidade universal” a que muitas vezes João Paulo II se referia em seus discursos, mas uma oportunidade de circular experiências entre membresias católicas e não católicas, fazer uso de um espaço público utilizando a religião como pretexto também para diversão.

Na mensagem confeccionada especialmente para a XXVIII JMJ no Brasil, Rio de Janeiro em 2013, Bento XVI salienta a necessidade de recuperar minimamente a tradição católica no país. O seu discurso se nutre de padrões culturais e elementos históricos da sociedade brasileira e nessa medida reproduz sentidos que fazem parte do imaginário dos interlocutores. Os dois elementos simbólicos são: o jesuíta padre José de Anchieta e o Cristo Redentor. A figura de Anchieta é apresentada como um jovem desbravador espanhol que se arriscou no meio de um terreno até então desconhecido para os europeus do século XVI. É chamado de “apóstolo do Novo Mundo” por Bento XVI. A população nativa em mãos jesuíticas ficou circunscrita e reduzida, segundo a lógica doutrinária ocidental. Utiliza uma linguagem analógica para convencer seu público associando Anchieta a uma pessoa “jovem”,

63 Nas JMJ em Madri, Bento XVI reforça a importância do casamento, da indissolubilidade e diz não ao “divórcio”. Conferir pronunciamentos em Espanha: http://www.vatican.va. Acesso em 09 jan. 2013.

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O uso do termo aparece no jornal espanhol El País como woodstock cristiano quando da visita de Bento XVI em Colônia, Alemanha (2005). Acesso em 09 jan. 2013.

“corajosa” e “contribuidora da missão da Igreja”. O que ele extirpa na figura controversa deste jesuíta é o fato de Anchieta se esforçar para provocar nos índios uma mudança de hábitos inserindo-os no mundo cristão considerado como “fé verdadeira”. Freyre (2003) fazendo um levantamento das fontes históricas da época colonial brasileira através de análise de cartas antigas, identifica algumas em que Anchieta lamenta-se pelo fato de que aos “nativos” faltam-lhes “engenhos” (inteligência) acrescido do fato de não se empenharem também nos estudos e “de tudo se levar em festas, cantar e folgar”. Além de criar uma disciplina catequética cujo lema era “espada e vara de ferro, que é a melhor pregação”, Anchieta também comparava o ventre feminino a um “saco no qual o homem depositasse o embrião” (Idem, p.100). O sentido destas representações obviamente não se mostra no discurso do pontífice. Ao se engajar em uma tarefa de evocar um símbolo religioso brasileiro, no caso, padre Anchieta, Bento XVI constrói um sentido da história e, ao fazê-lo, utiliza dispositivos que são típicos da mentalidade religiosa clerical que, por sua vez, é sustentada por uma linguagem generosa e triunfalista65.

Outro elemento simbólico aludido foi o do Cristo Redentor. A estátua do Cristo inaugurada em 12 de Outubro de 1931 pelo então bispo católico Dom Sebastião Leme foi um marco de reafirmação da influência da ICAR na sociedade brasileira. O seu lema era “ser brasileiro é amar a Cristo e consequentemente a Igreja”66. Erigido no intuito de afirmar a presença católica em território nacional, atualmente conta mais como um importante marco paisagístico e turístico nacional e internacional que permite ainda diferentes visualizações a partir do próprio pluralismo religioso contemporâneo. Ao citar o Cristo Redentor na mensagem aos jovens, Bento XVI afirma a importância da fé católica dentro de um processo de continuidade da chamada “nova evangelização”, ideia esta muito recorrente na gestão de João Paulo II.

A citação de dois dos principais símbolos do catolicismo no Brasil, um que remonta às origens da evangelização católica do continente (padre Anchieta) e outro identificando a consolidação católica num contexto e ambiente secularizadores (Cristo Redentor) não é fortuita. Anchieta identifica um “herói católico nacional”, isto é, uma liderança jovem que se “aventurou” no novo mundo catolicizando os aborígenes. Esta figura honorária citada adquire conotações de propaganda e estabelece aqui, talvez uma relação

65 O discurso de João Paulo II em homilia proferida em “honra do bem-aventurado Anchieta” em São Paulo, 3 de Julho de 1980, faz uma apologia deste missionário jesuíta comparando-o a um “soldado de Cristo” que “conduziu os homens à Cristo”. Conf. http://www.vatican.va. Acesso em 20/03/13.

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Conferir acervo on-line do jornal carioca Correio da manhã de 12 de Out. de 1956. Disponível em http://memoria.bn.br. Acesso em 10 jan. 2013.

imediata com o “mito de uma liderança jovem”, “destemida”, encarnado pelo homenageado. Já o monumento histórico do Cristo relembra os feitos de uma instituição católica já consolidada que resiste temporalmente às intempéries da secularização no Brasil. No mais, os dois símbolos evocam ainda um repertório católico já consagrado a fim de possibilitar uma pronta decodificação por parte da juventude. Seria um equívoco, porém concluir que as intenções que movem a prática da ICAR se sintonizam com as intenções da juventude católica. Devemos considerar que há uma pluralidade de interpretações feitas pelos jovens sobre os pronunciamentos de Bento XVI e, até mesmo, um processo natural de seleção daquilo que para eles é mais relevante em termos de fé católica67.

A referência à estátua traduz, grosso modo, a ideia de reacender o imaginário coletivo juvenil, não pelas razões que motivaram sua confecção, mas garantir o reconhecimento de que o catolicismo em solo nacional precisa ganhar novo impulso num movimento ascensional duplo: a) ser o jovem um militante que conheça suas raízes e patrimônios legados pela ICAR ou nas palavras de Bento XVI “tendes de conhecer a fé como um especialista em informática domina o sistema operacional do seu computador” e b) orientar outros jovens “guiando-os ao encontro de Deus”. O discurso sobre o legado católico, deixado de lado com o avanço da secularização e do pluralismo religioso brasileiro, a adoção de novas técnicas de divulgação da fé católica via internet (twitter, facebook, blogs), mas agora conhecendo com mais consistência o patrimônio católico, a formação de uma “mão de obra especializada” na qual se destaca a presença jovem. Todas essas condições transformam este “novo católico” num agente em sintonia com a contemporaneidade – com o dever de ser moderno em seus métodos – e com os anseios conservadores da ICAR. Enfim, propõe um modelo de renovação metodológica incentivando o sujeito jovem a se empenhar na “missão”, alicerçado numa ideologia conservadora católica embebida de valores na tentativa de desmontar o ritmo da modernidade contemporânea.

Esta “nova evangelização” de “alcançar todos os povos” procura especialmente recuperar os chamados “afastados” geograficamente e culturalmente da fé católica. Por um lado, esta revitalização católica, além de assinalar a perda de plausibilidade institucional, por outro é fruto da vontade consciente da ICAR de se perpetuar, de deter o tempo, de materializar o imaterial (valores, patrimônios doutrinários e litúrgicos, símbolos etc.), ainda

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No site da comunidade Shalom há várias chamadas de participação da sua juventude para a JMJ-Rio 2013. Dois são os objetivos que se mostram ali: a) “reafirmação da fé” e b) “contato com o chefe supremo da Igreja Católica”. O cearense IC, em “missão shalom” no Uruguai diz da sua expectativa: “conviver com os jovens, aprender seus costumes e saber a experiência deles. Eu busco uma macro experiência, com os jovens de todo o mundo. È a partir dessa partilha de experiências que podemos ir crescendo na graça de Deus”. Conferir site http://www.comshalom.org. Acesso em 10 jan. 2013.

que resistindo parcialmente às metamorfoses contemporâneas. Dois campos de atuação são incentivados nos jovens: a) o das “comunicações sociais”, mormente a “evangelização do continente digital” e b) o da mobilidade, isto é, Bento XVI pede aos jovens que “acompanhem os movimentos migratórios de outros jovens” que são motivados ou para estudarem fora ou pela diversão. Este tipo de socialização religiosa exposta aos jovens e querida pela ICAR pode ser lida de duas formas. Esta socialização pensada por Bento XVI como transmissão de crenças, valores e normas de forma a “modelar” a juventude a partir de determinadas ideias e pautas, estaria na formação dos “bons jovens”, submissos e disciplinados. É evidente que o processo de secularização em sociedades contemporâneas se faz mais estendido e radicalizado o que tensiona a conexão entre religião e sociedade e leva também ao processo de socialização a ser veiculado à margem da religião. Consequentemente, como afirma Gauchet (2008) há uma saída da religião no sentido de estruturadora da política e da sociedade, mas que não impede “uma vida religiosa na escala dos indivíduos”.

A autonomização da sociedade frente ao condicionamento religioso permite falar de “ausência de Deus” que elimina a presença e o influxo da religião institucionalizada dos meios de comunicação e dos canais de transmissão da cultura. Obviamente esta é a razão do apelo de Bento XVI em motivar a juventude a navegar na internet e “fazer discípulos” também nas redes sociais envolvendo e motivando outros jovens a conhecer Deus, mediados pelos conselhos doutrinários da ICAR. Embora o ambiente secular se mostre simpático ao movimento da autonomia do individuo, dando importância à sua própria realização e permitindo externar suas emoções frente às pretensões das autoridades eclesiásticas, a desregulação ou recomposição geral das crenças termina inevitavelmente, conduzindo o pensamento e as práticas dos sujeitos contemporâneos.

Os arranjos católicos não se furtam deste ambiente, pois, de maneira geral, constroem suas práticas religiosas, segundo seus próprios critérios com elementos tomados da tradição católica eleitos como definidores simbólicos mais significativos. Não afirmamos aqui a desintegração da tradição, mas a recomposição da mesma em outros moldes organizacionais, agora sob direção leiga. Para Bento XVI há uma lei régia e soberana que é o principio religioso. O seu pontificado se inscreveu em um modelo de catolicismo defensivo e apologético. O seu catolicismo é entendido como uma religião que faz uso do pensamento correto, em que não há contradições entre ideias e princípios doutrinários, o que demonstra o excesso de certeza moral e doutrinária nos discursos que fez não somente em Aparecida, durante as JMJ, mas na totalidade do seu pontificado. É nele que encontramos algumas pistas de reflexão sobre o incômodo que a modernidade traz para a Igreja Católica e a dificuldade

em dialogar com um estilo de vida específico, que se recusa a viver segundo cânones antigos e tradicionais valorizando assim a inovação e a mudança. Bento XVI entende que sem valores absolutos, não há razão para lutar por melhorias na sociedade. No pronunciamento realizado em preparação para as JMJ de 2013, utiliza um mecanismo de controle simbólico na tentativa de evocar nos jovens uma direção moral dos seus comportamentos para determinadas linhas doutrinárias e metodológicas que, segundo ele, são consideradas desejáveis.

Na ICAR de Bento XVI, certos comportamentos são socialmente exigíveis ou condenáveis, pois são implicados pela organização religiosa católica ou incompatíveis com ela. Existem, portanto, alguns comportamentos sem os quais a ICAR não poderia funcionar: respeito e obediência ao magistério eclesiástico, conhecimento do patrimônio doutrinal e teológico, respeito aos valores morais tidos como imperativos e não negociáveis, por exemplo, a castidade, o matrimônio, a valorização do nascituro contra o aborto etc.

A exigência de evangelização dos jovens pelos jovens católicos vai precisamente na direção do mundo doutrinário católico e não da organização moral da sua personalidade e modo de vida real. Bento XVI prescreve modelos morais e doutrinais concebidos com os autônomos, fundados metafisicamente os quais o jovem deve aprender a descobrir através de um movimento de elevação espiritual e de luta contra seus próprios desejos. As JMJ, com iniciativas de vários organismos católicos e respaldados pelo aval da ICAR, possuem uma ideologia do acolhimento de jovens católicos advindos de regiões diferentes do planeta, mas que servem muito mais como meio protetor contra o relativismo, secularismo com finalidades institucionais estritamente religiosas e só secundariamente sociais. A cultura contemporânea é citada em todos os níveis da instituição religiosa católica – doutrinal, teológica, litúrgica, moral, ainda que reinterpretada à luz das necessidades institucionais características da ICAR. Esta se esforça por atualizar a natureza humana ideal com os valores por ela veiculados, para elevar as pessoas na direção do Absoluto e para purificá-las de todas as tendências daquilo que Bento XVI chama de mal: a relativização do catolicismo entendido por ele como sistema de plausibilidade definitivamente verdadeiro. O magistério católico tem como função substituir a autoridade considerada sempre vacilante da razão do jovem. Mais geralmente, é mediador entre os jovens e os modelos culturais - que vão desde as relações familiares até relações mais amplas como políticas, econômicas, tecnológicas e biotecnológicas, predominantes na contemporaneidade. O jovem que se quer cultivar nestes encontros das JMJ é alguém que ouve as lições do magistério e as aplica em seus próprios ambientes culturais. Bento XVI dificilmente consegue polarizar sobre si toda a atenção de cada jovem e impedir

que se instaurem relações entre eles e aqueles grupos que se fazem presente contra a lógica doutrinária da ICAR.

Obviamente, estas relações devem permanecer clandestinas e são entendidas pelos agentes católicos organizadores do evento como uma derrapagem ou um descuido logístico68. Embora se dirigindo a todos(as), Bento XVI utiliza com freqüência a frase: “a cada um de vós”. Cada jovem, portanto, deve estar só em face do papa, que representa a verdade sustentada por ele e que o ajuda a tomar posse dela. Como foi dito anteriormente, ele atribui muita importância à tradição e ao patrimônio católico, enfatizando os heróis e símbolos nacionais católicos. Ser culturalmente dono de si é ser catolicamente disciplinado. Os valores religiosos só podem ser assimilados se houver minimamente disciplina entre a juventude. A disciplina não é simplesmente um dispositivo para identificar uma militância eficaz e obediência ao papa, é também controle corporal, pois os impulsos sexuais são vistos como “corruptores entre todos”. Um jovem bom é um jovem disciplinado doutrinariamente e moralmente.

A mensagem para a JMJ de 2013 elabora um sistema de motivações artificiais e de exercícios formais, e concede grande importância ao aprendizado das regras. Bento XVI procura inculcar virtudes morais aos jovens que estão na base de uma sociedade ideal. Neste sentido, os sentimentos e as produções de imaginação só valem na medida em que são estreitamente guiados pela razão, o que vale é o equilíbrio, fides et ratio. Curiosamente, muitos dos arranjos católicos analisados neste trabalho sobrepõem a fé, os sentimentos à razão, mas há uma disciplina vivida nestes ambientes em relação ao corpo ou a chamada moral sexual e também aos aspectos superficiais da tradição católica embora reinterpretados em cada arranjo: a crença na Virgem Maria, em Cristo, no Demônio, no Catecismo da Igreja Católica (CIC), nos anjos, nos santos e o respeito pelo chamado Magistério eclesiástico (o papa e seu clero) etc. A capacidade de penetração da ideologia do magistério católico, através da ação do papa e do clero católico perpassa todas as instituições, organismos, associações,

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