Diferentes são os estudos (McIntosh e Zahra, 2007); (Broad; Brown; McIntosh e Zahra apud Palacios, 2010); (Gustafson; Meethan; Singh apud Wearing e McGehee, 2013) a evidenciar o turismo voluntário como uma alternativa baseada numa interação benéfica para volunturistas e anfitriões. Até à data, a maior parte dos estudos reflete a perspetiva do/a volunturista por motivos que se prendem, como aponta Wearing e McGhee (2013), à existência de incompreensões na comunicação/interação com as comunidades ao nível linguístico, sociocultural ou económico.
Graças à socialização com as pessoas locais, os volunturistas revelavam crescimento pessoal e uma outra visão do mundo (Broad apud Wearing e McGehee, 2013). Outros estudos como os de Lepp (2008) e Matthews (2008) evidenciam o desenvolvimento do self aliado a uma reflexão pessoal que pode ser ulteriormente potenciada por processos que estimulem uma aprendizagem transformativa (Coghlan e Gooch, 2011) e que poderão ir ao encontro da necessidade de alguns volunturistas de melhor viverem o seu papel e de receberem feedback acerca do seu desempenho. Mas será o desenvolvimento pessoal desligado do encontro com o outro? Como faz entretanto notar Wearing e Neil (2000:39), contrariamente a um turismo mais convencional, ―o diálogo que o volunturista tem com
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outras visões culturais de natureza, através da sua usualmente mais prolongada e intensa experiência de viagem, confere-nos uma diferente perspetiva, e descentra o foco excessivo no self que tem estado no centro da análise turística‖. Em última análise, usando Wearing e Neil (2000) como referência o ecoturismo, ―quando o ―outro‖ assume a mesma importância na conceptualização de ideias que circundam o lazer promovido pelo ecoturismo, visões de turismo podem ser levadas além do mero enfoque em conceitos como auto-determinação, melhoramento, crescimento ou escolha pessoal‖ (idem), passando o ―outro‖ a estar incluído no próprio ―self‖ que melhora, cresce e escolhe.
Raymond e Hall (2008:541) afirmam que o volunturismo pode conduzir à interculturalidade, à cidadania global e ―em alguns casos, até pode refletir ideais de paz através do turismo (Brown e Morrison)‖ ou, segundo ainda estes autores e Wearing e McGehee (2013), ―turismo de reconciliação‖ (Crabtree; Higgins-Desboilles). Segundo McIntosh e Zahra (2007), a experiência de turismo voluntário ―evoca motivação intrínseca, beneficia a/o anfitriã/o e a/o voluntário/a e é baseada em interações significativas (Wearing e Neil, 2000), conduzindo a uma nova narrativa construída ativamente entre anfitriã/o e hóspede, de engajamento, genuína e criativa‖ (McIntosh e Zahra, 2007:555). Aquele que é visto como um modelo de turismo cultural alternativo e criativo (Richards e Wilson, 2006 apud McIntosh e Zahra, 2007:555), deverá porém ser testado em mais propostas de volunturismo, procurando indagar resultados com voluntários de diferentes países; avaliar os resultados a mais longo prazo; aprofundar o conhecimento de eventuais diferenças nos resultados entre propostas de volunturismo e aquele de massas; estudar propostas de diferentes organizações; verificar as motivações e expetativas dos volunturistas; e estudar outras propostas de partilha cultural por parte das comunidades anfitriãs (McIntosh e Zahra, 2007:556). Sublinhe-se o aspeto de que no estudo de McIntosh e Zahra (2007) a primeira motivação dos volunturistas ter sido aquela de serem voluntários.
O estudo de Sin (2009) – entre outros já referidos anteriormente no ponto dedicado às motivações para o volunturismo e mediante entrevistas semi-estruturadas e observação participante junto de um grupo de jovens estudantes de Singapura volunturistas numa comunidade sul-africana – vem dar a ler, por sua vez, como principal motivação para a participação em viagens de volunturismo o desejo individual de viajar para a satisfação de interesses pessoais, substimando-se a possibilidade do encontro com o ―outro‖. Tal ponto
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de vista poderá derivar, segundo o autor, de uma preparação inadequada para a viagem por parte das organizações promotoras e que – contrariamente ao resultado de investigações como a de McIntosh e Zahra (2007) – ―poderá contribuir para reforçar estereótipos negativos de recetores de ajuda enquanto inferiores ou menos hábeis através do processo de construção do outro‖ (Sin, 2009:197). Uma interpretação que, segundo o autor, requer o combate a uma organização apolítica que negligencia o engajamento crítico mediante a promoção de temas de democracia e de cidadania ativa para que se possam alcançar os objetivos de justiça social a que este modelo de turismo se propõe e não gerar apenas mais uma experiência de satisfação egoísta do self (como a de conhecer de forma mais profunda certas realidades mediante uma viagem de contornos mais próximos da realidade local como se imagina ser aquela do volunturismo).
Estudos como o de Raymond e Hall (2008) vêm, neste sentido, propor que as organizações que enviam volunturistas trabalhem aspectos que dêem um sentido maior àquilo que não se deve cingir a uma experiência e que deve constituir, tanto quanto possível, um conhecimento amplo e crítico da realidade (independentemente das motivações com que se parta). ―Um encontro entre duas diferentes culturas não conduz necessariamente a um aumento de compreensão. Pelo contrário, tem sido defendido que pode levar a incompreensões e ao reforço de estereótipos‖ (Simpson apud Karlsen, 2012:2). Algo que acontece na ausência de uma reflexão crítica e quando os voluntários não são preparados convenientemente para o seu papel, para o contexto local e para o que esperar (Fee e Mdee apud Karlsen, 2012:2). Neste sentido, Karlsen (2012) procurou aprofundar esta parte pouco estudada, a par dos atributos dos voluntários, e que, segundo Sherraden et al citados por Karlsen (2012) e outros autores como McGehee (2012), influencia os resultados do turismo voluntário: os atributos das organizações que enviam os voluntários. De que forma deverão então as organizações de envio orientar os volunturistas? De que estratégias se deverão revestir?
Por um lado, como exemplifica Zavitz e Butz (2011:24) num estudo sobre volunturismo de curta duração – onde ―o volunturismo foi quase sempre subordinado ao turismo como moldura para imaginar, compreender, coordenar e interpretar o ―eu‖ do Norte‖ – a forma como a viagem é pensada e organizada é fundamental de modo a evitar frustrações nos volunturistas que desejam fazer a diferença. Para Dalwai e Donegan (2012) – debruçando-
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se de diferente forma sobre a participação de um grupo de volunturistas de países do Norte na Índia, através de um programa do Development and Human Rights Institute (DHRI) – a melhor forma de se criarem falsas expetativas é desassociar-se o/a volunturista da sua suposta função de ajuda para o desenvolvimento considerando-o, antes de tudo e predominantemente, um/a turista: ―atire-se fora as bagagens de identidades como ―voluntário‖ ou ―ativista‖; ser-se apenas uma pessoa, uma/um cidadã/o, um/a amigo/a, um/a amante, um/a professor/a: tal é suficiente para mudar a si próprio e a uma parte do mundo‖ (Dalwai e Donegan, 2012:24). Karlsen (2012) recorda que ―tem havido uma tendência por parte de algumas agências de voluntariado em sugerir aos volunturistas o quão importantes estes são para a comunidade anfitriã, misturando descrições de pobreza nos países em vias de desenvolvimento com afirmações nós fazemos a diferença, insinuando que os voluntários podem, com efeito, ser solução para este tipo de problemas‖ (Simpson, 2004 apud Karlsen, 2012:1). Esta forma de estruturar as viagens de volunturismo – ao refletir a ideia de que ―o trabalho voluntário deve contribuir para uma ajuda efetiva ou ajuda para o desenvolvimento, enfatizando a prestação de serviços e a transferência de conhecimentos e competências‖ (Karlsen, 2014:1) – aumenta em muito os riscos de insatisfação neste tipo de proposta turística, sobretudo por parte dos mais jovens e mais inexperientes profissionalmente (Ingram apud Karlsen, 2012:2) e pode mesmo gerar incompreensões interculturais quando os valores da comunidade anfitriã divergem daqueles dos volunturistas (Gray e Campbell, 2007).
Por outro lado, apesar de possíveis incompreensões que derivam de sistemas de valores diferentes, também há lugar para a compreensão intercultural em experiências de volunturismo geradas com base no binómio Norte desenvolvido/Sul sub-desenvolvido. Palacios (2010), ao citar um grande número de casos de volunturismo de estudantes universitários australianos no México, nas ilhas Fiji e na Tailândia, afirma que as experiências de volunturismo, de acordo com o universo estudado, não parecem encorajar reflexões críticas acerca de pobreza, parecendo antes reforçar as perceções dos voluntários acerca da sua própria superioridade. Contudo, apesar de a pretensão do volunturismo como ajuda para o desenvolvimento ser passível de crítica deste ponto de vista – pela manutenção das relações Norte-Sul – Palacios (2010) garante que há aqui lugar também para uma aprendizagem mútua entre turistas e anfitriões mediante o estreitamento do contacto cultural estabelecido na viagem. Isto é, uma visão neo-colonialista nem sempre
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pressuporá uma atitude individualista por parte dos volunturistas ou da comunidade. Pelo contrário, segundo Palacios (2010:875), quando aquilo que vê como ―sentimentos de ―doação‖ ou ―gratitude‖ fazem parte das interações interculturais, são potenciadas amizades emocionais e solidariedades‖. Uma estratégia parece também ser aquela de aceitação por parte dos volunturistas da pobreza como autêntica (uma questão que será aprofundada nos próximos dois pontos do estudo) e como parte da cultura visitada de forma a lidar com o embaraço sentido quando confrontados com a realidade local (Mostafanezhad, 2013). Assim sendo, não se torna fácil, na visão de Palacios (2010), determinar se as mensagens a serem veiculadas pelas organizações de envio de volunturistas serão mais eficazes quando enquadradas segundo uma perspetiva de ―aprendizagem em serviço‖/―intercâmbio cultural‖/―turismo educacional‖ ou quando situadas na narrativa do ―voluntariado‖ enquanto conceito fortemente associado à solidariedade. Solidariedade esta que parece potenciar e, em última análise, garantir o desencadear dos mecanismos de interação (forjados e legitimados nessa relação de poder de ajudar e de se ser ajudado). De qualquer das formas, a dúvida parece não se prender tanto ao papel do/a volunturista enquanto voluntário/a mas mais à associação deste papel à consecução de um objetivo de desenvolvimento sem suscitar qualquer crítica. De forma a romper com este ciclo de poder, estudos apontam para a introdução do ponto de vista da comunidade anfitriã (Benson e Blackman, 2001 apud Wearing e McGehee, 2013) no planeamento turístico. ―Quando as visões das comunidades de destino ganham credibilidade, emergem programas de turismo alternativos e um discurso contra-corrente que põem em causa modos de interação hegemónicos. A visão do ―outro‖ neste enquadramento pode incluir diferença sem inferiorização e fixação da identidade bem como pode permitir um processo fluido e multi-direcionado de co-presença e co- construção entre turistas, comunidade anfitriã e organização de volunturismo, com possíveis benefícios para todos‖ (Wearing e McGehee, 2013:125). Mediante um maior grau de interação experimental (Wearing, 2001) e uma metodologia de planeamento participativa (Wearing e McDonald, 2002), a identidade da cultura de destino pode ser potenciada mediante a sua re-apresentação num Terceiro Espaço de identidades híbridas de todas as partes envolvidas (Wearing e McGehee, 2013). Algo que podemos enquadrar na ideia de glocalização de Kraidy (2009), no contexto de espaços híbridos que nascem do encontro entre esferas culturais diversas (entre o global e o local).
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No seu estudo – realizado junto de uma organização dinamarquesa (alargando o objeto de estudo até então maioritariamente organizações inglesas e estadunidenses) – Karlsen (2012:68-70) aposta, contudo, num rol de cuidados a ter na preparação dos volunturistas e no ajustamento da estrutura dos programas propostos para a obtenção de um maior e melhor encontro intercultural. A sua preocupação vai justamente no sentido de se trabalhar o papel do/a volunturista enquanto parte de um processo que deverá passar pela comunicação e interação intercultural, a partir das quais as identidades são forjadas e, no limite, pode-se abraçar e redifinir diferentes noções/objetivos de desenvolvimento/benefícios para os diferentes intervenientes. Quanto à preparação dos voluntários, propõe atitudes de respeito, responsabilidade e solidariedade nos voluntários e a definição clara do seu papel para os confrontar com as suas expetativas; incrementar os conhecimentos dos voluntários acerca do local onde exercerá o seu voluntariado; edificar competências na preparação dos viajantes enquanto voluntários com tarefas específicas a desenvolver e enquanto turista que descobrirá a cultura local (o que pode envolver a prevenção de choques culturais).
No que concerne ao ajustamento dos programas propostos, Karlsen (2012) sugere uma adequação da duração da estadia aos objetivos a que o programa se propõe; o alojamento dos volunturistas na casa de famílias da comunidade anfitriã ou em ambientes que encoragem o desenvolvimento deste senso de familiaridade, sozinhos ou em pequenos grupos. O estudo de Andereck et al (2011:9) – debruçando-se sobre aquelas que são as expetativas dos volunturistas - vem entretanto alertar para a necessidade de as organizações terem em conta a diversidade de necessidades e desejos dos volunturistas. Evidencia, neste sentido, que estes desejam claramente ter informação antes de partirem (tais como sobre roupas e items a levar para a viagem bem como informações acerca da cultura para melhor se saberem comportar), apesar de assumirem parte da responsabilidade da sua pré- preparação; contudo, esperam interagir durante a viagem com os locais a diferentes níveis (estando uns mais dispostos do que outros a trabalhar ao lado dos locais ou a residir com estes). Algo que se prenderá com o duplo papel do/a volunturista enquanto voluntário/a e turista e as suas diferentes motivações. Knollenberg et al citados por McGehee (2014:851) sugerem, neste sentido, a incorporação de um conjunto de diferentes técnicas de aprendizagem transformativa – explícitas ou implícitas, com maior e menor grau de interação entre participantes e locais, respetivamente – nas experiências de turismo
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voluntário de forma a ir-se ao encontro das diferentes exigências e expetativas dos participantes quanto ao contacto intercultural.
Outro aspeto relevante para Karlsen (2012:71) é aquele de se motivar formações/preparações para este tipo de viagens também junto das comunidades anfitriãs assim como incluir igualmente as suas preocupações e expetativas na preparação dos volunturistas. A forma como a interculturalidade é vista pela comunidade anfitriã e como essa preocupação é transmitida aos volunturistas parece ser crucial.
No âmbito do encontro intercultural, a duração da viagem, geralmente associada a um tipo de volunturista mais ou menos altruísta, surge tal como no ponto dedicado às motivações dos volunturistas. Há estudos, como o de Raymond e Hall (2008) ou o de Fee e Mdee citado por Karlsen (2012), que indagam sobre a possibilidade de dar-se um maior intercâmbio cultural em viagens de mais longa duração. Seria assim pertinente procurar definir diferentes níveis de impacto intercultural dependendo da duração da estadia (Karlsen, 2012) para melhor se poder planear as propostas de volunturismo de acordo com os objetivos a que se propõem. Karlsen (2012) não se debruça, entretanto, sobre uma das fases consideradas importantes para alguns investigadores do volunturismo: o regresso a casa. Segundo estudos como os de Gudykunst e Kim ou de Grabowski e Wearing, referidos por Wearing e McGehee (2013), e o de McGehee e Santos (2005), os volunturistas sofrem aquilo que Kagitçibasi em Wearing e McGehee (2013) denomina de processo de ―deculturação‖, apanhados entre as culturas da comunidade anfitriã e aquela de origem. Segundo Wearing e McGehee (2013), Coghlan e Gooch chamam, neste contexto, a atenção para o papel que as organizações de volunturismo deverão ter no acompanhamento dos volunturistas aquando do seu regresso a casa; Taplin et al e Lupoli et al propõem variáveis e indicadores para medir os impactos do volunturismo; e Hammersley – corroborando necessidades identificadas por Raymond e Hall (2008) – desenvolve oportunidades mais sistemáticas e estruturais seja para a preparação da viagem seja para o acompanhamento dos voluntários no seu retorno. A experiência turística parece entretanto também ser prolongada para lá da presença física do/a turista no destino por via da multiplicidade de espaços hoje co-habitados à distância. Há também estudos que apontam para o facto de que ―os turistas voluntários podem agora ficar em contacto com as comunidades que os hospedaram, assim como em contacto entre si, através do facebook e
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outros media sociais‖ (Sink apud Wearing e McGehee, 2013:126). Pode-se assim afirmar que, ―para além de uma convencional autenticidade construtiva e objetiva, uma versão existencial é uma fonte alternativa justificável para experiências de turismo autênticas‖ (Wang, 1999), tão distintas quantas as subjetividades envolvidas. ―Como alguns investigadores sugerem, o que é ―real‖ para um viajante não coincide necessariamente com os acontecimentos físicos no destino, mas sim com o ―impacto da experiência turística na identidade, que está geralmente relacionada mais com a maneira pela qual é lembrada através dos filmes, fotografias e diários de viagem‖ (Wearing et al apud Wearing e McGehee, 2013:126) e que é, no caso específico do volunturismo, potencialmente reforçada pelos media sociais.