Poderíamos considerar que a publicidade dada ao turismo voluntário, bem como a sua promoção, agora prevalente e com um correspondente aumento em número de participantes (Tomazos e Butler, 2009) ilustra o poder dos media graças à capacidade que meios como a televisão têm de fazer superar a distância existente entre voluntários e anfitriões. ―No caso do turismo voluntário tem sido mostrado (idem) que muita da atividade toma lugar em lugares bastante distantes daqueles de origem dos voluntários‖ (Anastasio, Rose e Chapman, 1999:11-14). De facto, perante a descredibilização de muitas
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instituições por parte do público – fruto da própria ação dos media – são muitos aqueles que decidem ajudar mediante participação direta – motivados, ironicamente, pela mesma publicidade mediática que descredibiliza – pensando, assim, garantir a eficácia do seu gesto humanitário.
E se os media impelem para a ação de acordo com a veiculação de uma determinada matriz de valores – o apelo à ajuda in loco e em contextos de necessidade – são também estes em parte responsáveis pela forma como muitas realidades para as quais chamam a atenção não conseguem sair do seu círculo de pobreza, projetando nessas uma imagem que se tende a cristalizar em estereótipos de longa duração. Os media criam normas sociais e disseminam informação. Geralmente tendem a aumentar as diferenças já existentes entre grupos devido a uma informação que veicula o status quo e que dá pouco espaço a vozes de múltiplos quadrantes, para além do facto de – pela natureza dos meios, no que respeita a veiculação repetida das mensagens – ainda alimentar mais essas diferenças (Schaller e Latané, 1996). Por outro lado, muitos nem sequer conseguem penetrar a esfera dos media. ―Hannerz identifica, dentro dos processos de mundialização, "políticas de isolamento", seja porque certos países não conseguem ligar-se às redes globais seja porque "o mundo já não precisa deles". Em África, na Ásia e na América Latina , "dir-se-ia que algumas partes do mundo retrocederiam ao quarto mundo, se não fosse porque todavia mantêm restos de uma globalização anterior (Hannerz, 1996:35). A diferença sem conexão não é uma vantagem" (García-Canclini, 2006:202).
De forma a promover um diálogo intercultural equilibrado, é necessário que os media saibam dar o devido espaço à aproximação entre as representações dos diferentes grupos que têm claras consequências na forma como esses mesmos grupos mutuamente se virão a relacionar:
―Os meios de comunicação social mundiais veiculam uma diversidade assombrosa de modelos de papéis identitários. Face a uma tal complexidade, pode ser insidiosamente tentador aplicar ao ―outro‖ um estereótipo simplista e de nele projectar todos os males do mundo. A gestão democrática da diversidade é um trabalho delicado: convém evitar a canalização abusiva do diálogo e impedir ao mesmo tempo que seja utilizado para instigar o ódio ou a intolerância‖.
(Conselho da Europa, 2008:42)
Destaque, neste sentido, para os novos media que ajudam o público a formar a sua opinião de forma mais interativa, não num único sentido como sucede nos meios de comunicação
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de massa (apesar de estes se estarem a fundir, cada vez mais, com os novos media). ―Os novos serviços de comunicação proporcionam ao público dos meios de comunicação social, que geralmente ocupam uma posição passiva, a possibilidade de participar num diálogo intercultural de forma mediatizada, em particular através de sítios de debate em linha, de fóruns na Internet ou de formas de colaboração em sítios ―Wiki‖‖ (idem). Contudo, interativo não quer dizer necessariamente com espírito crítico e com respeito pelo ―outro‖. Para isso, a educação é uma fonte fundamental.
Segundo o Livro Branco do Diálogo intercultural (Conselho da Europa, 2008), as competências interculturais, não sendo inatas, têm de ser continuamente estimuladas:
―As competências necessárias para o diálogo intercultural não são adquiridas automaticamente: devem ser adquiridas, praticadas e alimentadas ao longo da vida. As autoridades públicas, os profissionais da educação, as organizações da sociedade civil, as comunidades religiosas, os meios de comunicação social e todos os outros prestadores de serviços educativos – que trabalhem em todos os contextos institucionais e a todos os níveis – podem desempenhar um papel crucial [...] no reforço do diálogo intercultural‖.
(Conselho da Europa, 2008:36)
Disciplinas importantes – tais como a educação para a cidadania democrática que engloba, entre outras matérias, a educação cívica, histórica, política e relativa aos direitos humanos, assim como a educação sobre o contexto mundial das sociedades e sobre o património cultural – serão fundamentais para atingir aquelas mesmas competências interculturais (idem).
Allport (1979) alerta para o quão difícil é, em democracia, não só educar para a tolerância como também para o pensamento e ação fora dos lugares-comuns:
"A democracia, apercebemo-nos agora, delega um fardo pesado na personalidade, às vezes insuportável. A pessoa maduramente democrática tem de possuir virtudes e capacidades subtis: uma habilidade para pensar racionalmente acerca das causas e efeitos, uma habilidade para formar apropriadamente categorias diferenciadas relativamente a grupos étnicos e seus traços; uma vontade de oferecer liberdade aos outros e a capacidade de empregar estas competências de forma construtiva".
Allport (1979:515)
Porém, "é mais fácil sucumbir à simplificação e ao dogmatismo, repudiando as ambiguidades inerentes à sociedade democrática" (idem).
No ensino formal, do ensino primário ao secundário, de entre as disciplinas ensinadas, destacam-se as línguas, a História e o ensino dos factos religiosos e relativos às
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convicções. O ensino superior reforçará, de seguida, o diálogo intercultural até então veiculado (Conselho da Europa, 2008:38-39). A aprendizagem das línguas revela-se particularmente importante na descoberta do ―outro‖ e do próprio ―self‖, ajudando ―os estudantes a evitar a criação de uma imagem estereotipada dos outros, a desenvolver a curiosidade e a abertura à alteridade, assim como a descobrir outras culturas‖ bem como ajudando a perceber que ―a interacção com pessoas com uma identidade social e uma cultura diferentes é enriquecedora‖ (Conselho da Europa, 2008:37). Os educadores, neste sentido, deverão ser preparados para a educação intercultural e a gestão da diversidade no quadro da formação em exercício (Conselho da Europa, 2008).
Paralelamente à educação formal, as educações não formal e informal revelam-se extremamente importantes, seja em contexto escolar seja noutros contextos educativos. ―O sucesso da governação intercultural, a todos os níveis, depende grandemente da multiplicação destes espaços: espaços físicos, como ruas, mercados e lojas, casas, jardins- de- infância, escolas e universidades, centros socioculturais, clubes de juventude, igrejas, sinagogas e mesquitas, salas de reuniões das empresas e dos locais de trabalho, museus, bibliotecas e outras infra-estruturas de lazer, ou espaços virtuais como os meios de comunicação social‖ e ―novos serviços de comunicação‖. Contudo, o ambiente familiar é o que de forma mais contínua marca a vida do indivíduo e, como tal, não pode ser descurado: ―Os pais e o ambiente familiar alargado desempenham um importante papel na preparação dos jovens para a vida no seio de uma sociedade marcada por uma grande diversidade cultural‖ (Conselho da Europa, 2008:40-41).
Sublinhe-se ainda a importância do desporto para o diálogo intercultural, ao estar relacionado de uma forma muito particular com a vida quotidiana, e as atividades culturais, em particular aquelas artísticas:
―As actividades culturais facilitam a descoberta de expressões culturais diversas e, deste modo, contribuem para a tolerância, a compreensão mútua e o respeito. A criatividade cultural pode favorecer fortemente o respeito pela alteridade. As artes são, também, um terreno de contradição e de confrontação simbólica, que permite a expressão individual, um local de auto- reflexão crítica e de meditação. As artes prepassam fronteiras, estabelecem conexões e falam directamente às emoções das pessoas. Os cidadãos criativos que participam em actividades culturais criam novos espaços e novas possibilidades de diálogo‖.
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No mundo profissional, a educação prosseguirá por via do trabalho em equipa e da participação de colaboradores cada vez mais provenientes de diferentes partes do mundo, sendo, como tal, extremamente importante apostar na comunicação intercultural em ambientes institucionais enquanto estratégia que permitirá potenciar a diversidade criativa existente no meio e, por outro lado, prevenir o aparecimento de conflitos. (Conselho da Europa, 2008).