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Chapitre 3 : Pacifier Paris déchirée par les guerres

2. De la guerre à la paix, un processus qui se marque dans l’espace urbain

2.1 Vers la paix

sobretudo nos alçados exteriores, pois economicamente era a forma de pintura industrial mais viável (Fig. 2.8). Por outro lado, as qualidades “desinfectantes e anti-sépticas”62 tornavam-na ideal para edifícios onde houvesse uma grande acumulação de pessoas, tais como igrejas, hospitais, casernas do exército, armazéns, fábricas ou grandes oficinas.

2.2.1.1. Organização hierárquica da

profissão: a figura do caiador

Para a execução de uma pintura a cal não era exigida competência artística, mas unicamente profissional para que a camada cromática resultante fosse duradoura. Segundo João Emílio dos Santos Segurado (1923) as caiações simples e com cores eram usualmente executadas pelos pedreiros e seus serventes e só mais raramente pelos pintores, ao contrário do que era à partida esperado.

A figura do caiador aparece em

1931 na hierarquização feita por Carlos Alberto Correia em Pinturas e fingidos (1931) embora menções a este ofício já fossem correntes nas bases para orçamentos da capital desde 1880 onde, inclusivamente, se encontravam tabelados os seus honorários (Fig. 2.9) (Cohen, 1880 e 1896). Em relação aos denominados pintores da construção civil, existiam várias categorias conforme os seus conhecimentos técnicos e artísticos (Segurado, 1923; Liberato Telles, 1898; Correia, 1931). Na categoria inferior, encontrava-se o brochante. Este era um pintor que não sabia preparar as tintas (a óleo e a cola) e aplicava somente as cores lisas, ou seja, monocromáticas. Segundo Francisco Liberato Telles (1898), este ofício era recente em 1880 e tinha sido criado após o aparecimento no comércio de tintas pré-fabricadas. Este novo

62 Fleury, P., Novo Tratado usual da Pintura de edifícios e decoração, H.Garnier Livreiro Editor, Paris, Rio de

Janeiro, 1903, p. 7.

Fig. 2.9: Tabela de honorários publicada em 1880 e 1896 nas bases de orçamentos para empreitadas da construção civil da Capital e que serviam de guia para todos os trabalhos feitos no país (Cohen, 1880 e 1896). Note-se as diferenças de preços consoante a categoria do ofício e alterações registadas após 16 anos, nomeadamente o desaparecimento do “moedor de tintas” e a aparente especialização de alguns pintores de pincel na arte dos fingidos.

ramo de negócio dispensava a figura do moedor de tintas, facto que poderá justificar a sua ausência na série de preços das jornas em 1896 (Fig. 2.9).

O pintor vulgar sabia compor e combinar as tintas (pigmentos), misturá-las com óleos vegetais, essências, vernizes (entre outros materiais não especificados) e empregá-las (Correia, 1931).

O pintor fingidor conjugava os conhecimentos do pintor vulgar à arte da imitação de madeiras e pedras ornamentais. Tal como o pintor vulgar, era também um pintor de pincel, isto é, utilizava utensílios à base de pêlos ou penas. Porém, com esta especialidade, alcançaria outro estatuto (Fig. 2.9). Em 1898 havia ainda poucos profissionais. De acordo com Francisco Liberato Telles (1898), este tipo de pintura só se havia generalizado a partir de 1800, época em que tinha começado a ser feita nas guarnições e balcões dos estabelecimentos para evitar a monotonia que produzia, até então, a pintura com uma cor uniforme.

O pintor decorador era o que tinha uma formação mais completa encontrando-se no topo da hierarquia da profissão. Para além dos conhecimentos das técnicas e da manipulação da matéria-prima, possuía uma educação artística em todos os graus de pintura. Este poderia ser mesmo um grande artista, sendo só chamando para decorar e ornamentar palácios e edifícios monumentais (Liberato Telles, 1898). Ao contrário dos outros que se limitavam a cumprir as ordens dos arquitectos, directores ou mestres de obras, o pintor decorador tinha uma maior liberdade na interpretação das indicações fornecidas e podia, em alguns casos, criar uma obra inteiramente da sua autoria (Liberato Telles, 1898).

Segundo João Emílio dos Santos Segurado (1923), o estucador também poderia fazer de pintor ao desenhar os traços dos apainelados e ao pintar as suas faixas ou quando fingia mármores em paredes e dava aguadas em tectos e paredes.

Ao pedreiro e ao seu servente cabiam as caiações, tendo por base a água e, às vezes, a cola. Esta situação relatada na 2.ª edição do Manual de Acabamentos da Construção (1923) é confirmada por entrevistas recentes efectuadas a antigos profissionais na região do Alentejo. É possível que, nesta região, anteriormente ao século XX, a feitura de várias tarefas por artífices de formação-base diferenciada fosse também comum para as caiações a cores e pinturas a óleo monocromáticas das edificações urbanas. Até ao momento, nas descrições históricas consultadas acerca da vida e profissões nos vários “fogos” alentejanos, só foram encontradas duas referências explícitas ao ofício de pintor. A mais antiga refere-se à construção do Palácio Real de Vendas Novas, iniciada em 1728, a mando de D. João V (Coelho e al, 1991).

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Enquadramento Histórico das técnicas a cal (século XVIII ao XX)

Mandaram-se vir grande numero de Oficiais de Lisboa e de toda a Provincia do Alentejo. Com o mestre de obras, os oficiais de carpinteiro e alvenaria trabalhavam pintores, ferreiros, entalhadores e ensembladores: mais de 400 oficias, 500 serventes (…)63.

A mais recente data de 1833 e revela que, na vila de Santiago do Cacém, só havia um pintor entre os vários ofícios contabilizados64 (Macedo e Silva, 1869). Na Capital, como se pode observar pelas tabelas das jornas nas Bases de Orçamento do final do século XIX (Fig. 2.9) havia uma distinção nítida entre as várias categorias, estando a renumeração de acordo com a sua importância. É de realçar que o ofício de pintor nesta cidade estava regulamentado, desde 1572, no Livro dos Regimentos dos Oficiaes mecânicos da mui nobre e sempre Leal Cidade de Lixboa (Correia, 1926).

A criação de corporações e a elaboração de toda uma série de regulamentos rígidos de estruturação das várias profissões tem o seu início a partir do século XII com a pacificação da Europa e com o subsequente surto de desenvolvimento urbano e comercial. Em Portugal, as primeiras menções a Instituições deste género são as “Casas dos Vinte e Quatro” que, no final do século XIV se estabeleceram em várias cidades, entre as quais Évora, e as “ Casas dos Doze” em Arraiolos (Correia, 1926). Um dos seus objectivos, de acordo com Fernão Lopes, referindo-se à existente em Lisboa nas Crónicas de D. João I, era que “ vinte e quatro homens, dois de cada mester (...) tivessem carrego de estar na Câmara, para toda a causa que se houvesse de ordenar por bom regimento e serviço do Mestre, fosse sem o acordo deles” 65 .

Até ao surgimento destas corporações, seriam as ordens religiosas que detinham não só a quase da totalidade do saber, bem como a prática da construção, numa época em que ainda eram escassas as obras de iniciativa real e a arquitectura civil, praticamente, não tinha existência autónoma (Pedreirinho, 1994).

2.2.1.2. Produção e aplicação das tintas de cal

Na caiação a cores ou pintura a cal, os pigmentos são adicionados a uma solução ou suspensão aquosa de hidróxido de cálcio (popularmente conhecida como água ou leite de cal) sendo fixos, após aplicação, por uma matriz cristalina de carbonato de cálcio formada pela

63 Coelho, A. B.M., Marques, G., Vendas Novas, História e Património, Edição da Câmara Municipal de

Vendas Novas, 1991, p. 20.

64 Documento fornecido em 29-09-04 pelo Arquitecto João de Sousa e Sr. João Matias do Núcleo de

Reabilitação da Câmara Municipal de Santiago do Cacém.

65 Pedreirinho, J.M., Dicionário dos Arquitectos activos em Portugal do séc. I à actualidade, Edições

reacção de carbonatação do hidróxido de cálcio. Numa tinta de cal, para além dos pigmentos e do hidróxido de cálcio, podem estar presentes outros produtos destinados a melhorarem as suas propriedades físicas e químicas (ex. de gorduras animais e vegetais). Em relação à feitura e à aplicação de tintas de cal em paredes, poucas foram as alterações introduzidas desde o século XIX, permanecendo actuais as recomendações de Luís Augusto Leitão (1896), Paul Fleury (1903), João Emílio dos Santos Segurado (1923) e Carlos Alberto Correia (1931).

Para estes autores, antes da aplicação de uma tinta de cal, era aconselhado raspar e varrer a superfície, particularmente na presença de pinturas anteriores, caso contrário, o leite de cal não iria aderir tendendo a destacar-se facilmente após a secagem. A cal utilizada era a mesma empregue nos barramentos, ou seja, cal aérea em pasta que era preparada em estaleiro a partir da extinção de cal viva em pedra (cf. ponto 2.1.1.1). A pasta assim formada era passada num peneiro, ou passador, na ocasião do seu emprego.

A caiação – simples ou com cor - tinha que ser aplicada em duas ou três demãos, devendo a primeira ser bastante líquida para promover uma boa adesão ao barramento ou ao reboco. Para a generalidade dos autores, era preferível empregar sempre leites bastante diluídos em todas as camadas, apesar de, na prática, isso nem sempre se ter verificado (ver pontos 5.1 e

Fig. 2.10: Os três tipos de brochas no comércio em 1896 com indicação geral dos preços praticados na altura e suas variações num intervalo de 16 anos. Nas caiações eram empregues as brochas F,G e H e muito possivelmente a HH ( tipo b). As brochas de ponta (tipo a) e as brochas francesas de virola ou de cordel, eram reservadas sobretudo para os outros géneros de pintura (ex. óleos e têmperas). O tamanhos de a) e c) podiam variar respectivamente entre 1 e 24 e 1 e 12 (fonte da imagem Leitão, 1896; Cohen, 1880 e 1896).

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Enquadramento Histórico das técnicas a cal (século XVIII ao XX)